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sábado, 19 de setembro de 2015

HOMENAGENS ACADÊMICAS - DR. LAURO CORREA

Ilmo. Sr. Presidente da Academia Parnaibana de Letras Dr. Lauro Correia.
Ilmo. Sr. Presidente da Academia Piauiense de Letras Dr. Paulo Nunes.
Exmos. Autoridades Civis, Militares, Eclesiásticas e Culturais.
Meus Senhores, minhas Senhoras e Senhoritas.
Srs. Acadêmicos, Srs. Homenageados.

    Parnaíba sempre foi uma cidade nobre. Nobre pela sua beleza natural e nobre pela tradição de sua gente.
  Peço, pois, licença para dizer algumas palavras de congratulações, vindas de bem de dentro, simples e breves, porém com a marca deste momento indelével.
    É invisível a satisfação que nos traz aqui, com as merecidas homenagens aos Drs. Lauro Correia e Raul Bacelar. Minhas palavras seriam dispensáveis, não fosse a amizade e os deveres de gratidão de minha parte para com o Dr. Lauro Correia, a quem quero especialmente referir. Vejo em Lauro Correia um daqueles homens de que falava Jorge Amado na introdução a livro de Graciliano Ramos: “... feito de uma só peça, um só caráter, uma consciência”.
    Hoje já não é comum fazer valer a palavra, poucos dão importância à pontualidade, à serenidade, à cordialidade e à elegância. Parecem virtudes pequeninas. Fico pensando quanto sofreu Lauro Correia como chefe político e como administrador, com sua conhecida austeridade. Temos, nele, uma das mais marcantes referências de homem de bem do Piauí, vitorioso nos negócios e na política, além da dimensão intelectual revelada nos estudos da história e da vida de sua terra como na orientação dada à Academia Parnaibana de Letras.
    Outra referência indispensável é a do poeta e crítico Alcenor Candeira Filho. Historicamente, foi ele o primeiro piauiense a usar o mimeógrafo na produção editorial. “Rosas e Pedras”, seu livro de 1976, com forte mas saudável influência drummondiana, é mimeografado. Candeira Filho tem-se revelado talentoso na poesia e na crítica literária, integrando-se ao que há de mais revolucionário, novo e criativo em nossa literatura. Nossa, piauiense. Nossa, brasileira.
     De minha parte, ambos, ou qualquer um dos dois, fariam bem em pertencendo à Academia Piauiense de Letras, levariam o brilho de suas inteligências e manteriam a representação de Parnaíba no nosso sodalício, interrompida com a morte de Mons. Antônio Sampaio, uma figura para sempre lembrada do clero piauiense. Em parte, neste momento, o elo de Parnaíba com Academia Piauiense de Letras é reatado. Outra coisa não representam as distinções aos Drs. Lauro Correia e Raul Bacelar.
    Esta é a minha opinião pessoal, mas acredito que muitos companheiros participam da mesma ideia, quer pela necessidade de congraçamento dos piauienses do centro, do sul e do norte, quer pelas qualidades pessoais e intelectuais das figuras mencionais e distinguidas.
__________________
                                   Parnaíba, PI, 08 de maio de 1993.
Francisco Miguel de Moura, (Discurso pronunciado por ocasião da entrega do diploma e medalha do Mérito Cultural “Lucídio Freitas” a Dr. Lauro Correia e do título de sócio honorário da Academia Piauiense de Letras a Raul Bacelar, em sessão conjunta da APL e da APAL.

       (Publicado no jornal “O Dia” de 11 de maio 1993, com o título de “HOMENAGENS”)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

SALOMÃO GRANDE – UM DIA NA SUA VIDA SIMPLES


Francisco Miguel de Moura*, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Grande é o dia e grande é o nome do romance de Jailson Klein, nascido em Santo Antônio de Lisboa (PI) e residente há um bocado de anos na grande cidade São Paulo, onde se formou em Letras e Literatura, já levando consigo outros estudos de quando residiu em Salvador-BA. “Salomão Grande” é grande até no número de personagens porque tem como fulcro uma família de dez irmãos, sendo ele próprio o  
ais novo, pois o autor lida com todos eles no seu relato. Jailson, terceira geração da linhagem miguelina (referindo-se a meu pai e seu avô, Miguel Borges de Moura), leva consigo as lembranças de menino e adolescente e ali as expõe em ficção. Doravante, Jailson será reconhecido como uma das grandes vozes do romance, neste Brasil, não apenas de sua região, pela força do seguro e singular estilo, letra de quem leu grandes autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa e Jorge Amado, por exemplo, e pela grande capacidade narrativa, fecundada por pontos históricos, pois outro grande esteio do romance é a festa da elevação do povoado Rodeador a cidade, saindo de sua submissão a Picos, graças à força de Isaac Batista de Carvalho e Justino Batista de Carvalho – dois vereadores que fizeram assento na Câmara Municipal de Picos, além de outros ilustres moradores do povoado.  A data é importantíssima para o personagem Saló, Salomão Grande, assim como o desejo de morar na cidade, que o pai não aceita nem ao menos comenta.  Falei em Guimarães Rosa, por causa do estilo singular de Grande Serão: Veredas, não que Jailson o imite ou imite qualquer outro escritor. Seu material é virgem e a escrita, o estilo, também.
          “Salomão Grande” é um livro verdadeiro, conquanto seja ficção. Aliás, um romancista inglês moderno, o escritor Ian McEwan, que publicou livros interessantes, verdadeiros best-sellers como “Inocente” e “Serena”, da linha policial e de espionagem, declara que: - “Todos os romances são de espionagem, pois os romances investigam o que deixamos em segredo, o que resguardamos na intimidade. Em qualquer relacionamento há coisas que escondemos, que não dizemos diretamente. Estamos todos envolvidos no controle da informação”. E é verdade, pois só na ficção conseguimos dizer nossas verdades secretas e outras verdades das nossas ações no tempo e do espaço.
            Localizar seu livro de ficção fundo na terra foi um golpe de mestre nesses críticos meia-tigela, que descarregam todo o seu veneno apelidando os escritores dessa região de regionalistas, pois que eles só querem saber do endereço ou dos endereços do autor, e nada do que dizem as suas falas, na maioria das vezes profundas, com uma simplicidade incrível como o faz Jailson Klein. E ser simples não fácil, num país de bacharéis como o nosso. E ser simples é experimentar a sabedoria da linguagem poética, saborosa e viva – encontro da comunidade com o próprio autor. Não lembro bem qual foi o autor, se o grande Leon Tolstói que disse que “se queres ser grande, comece em sua aldeia”, cujo pensamento aqui cito de memória.
          Os aspectos principais da construção de um bom romance são o tempo, os personagens e os acontecimentos (a história, o relato).  O tempo não existe, é uma criação do romancista, no jogo de xadrez de colocação e movimentação dos personagens. De forma que não se admite mais, na modernidade, um romance direto, com começo, meio e fim, sem os distanciamentos estéticos de forma e linguagem, como flash-back e tantas figuras e manobras que alinham e desalinham os tempos históricos e psicológicos. O romance é escrito para leitores vivos e inteligentes. De forma alguma não é um sedativo para dormir.
Por essas e outras razões é que a ficção não exige apenas a compreensão. A ela juntem-se a emoção, o prazer (ou a raiva) e outros sentimentos. Enfim, tudo o que possa ajudar na fruição da obra de arte e na leitura do mundo, pelo leitor – ele também que, a seu modo, se encontrará ali. Depois da leitura de um bom romance não há quem permaneça o mesmo. No romance de Jailson os personagens são muitos como já disse no início: - irmãos, primos, tios, vizinhos, namoradas, meninos de brincadeira, trabalhadores, o pai, a mãe e aqueles meio-personagens que chamarei de “símbolos” da terra, como Isaac Batista, Arlindo Cipriano (que nós conhecemos como Arlindo Supriano), Paschoal Silva, João Cirilo, Quinel, Candinho de Mariano, Pedro Vicente, Manoel Senhor e tantos mais. Eles simbolizam a família, a infância, a adolescência e a amizade (quando não a desavença, o ódio, como a família Medeiros toda). Alguns marcam apenas um tempo histórico, outros um tempo da memória do personagem-autor, o próprio Saló. Não quero nem devo dar nenhuma dica de leitura, porque isto que faço não é uma resenha. É apenas uma impressão de leitura. Outros alcançarão coisas que não alcancei, em vista da variedade de situações narradas em cerca de 300 páginas, bem escritas e bem editadas. Se se contam alguns errinhos é porque em toda publicação acontece. Não há livro perfeito. Como não há nada perfeito. Diz-se que só Deus tem a perfeição.
          Há também teóricos do romance que dizem que escrever um romance não é difícil, a dificuldade maior é terminar.  Tanto é assim que muitos romances célebres ficaram sem término. O caso mais típico é “O Processo”, de Kafka. Aliás, uma forma de terminar o romance é não terminá-lo. Dizem outros que a leitura do último capítulo é dispensável, que até o penúltimo o autor já disse tudo. Eu não caí nessa esparrela, diante da leitura de Jailson, não pude comprovar essa afirmação, pois fui lendo até terminá-lo, com aquela sensação de que algo mais iria acontecer. E aconteceu... Quem quiser comprovar, que faça como eu. Mesmo porque eu tinha que falar, escrever, e de certa forma julgar sua obra, nesta apresentação. Eis que tenho obrigação, na minha trajetória de crítico (pelo que sou conhecido no Brasil inteiro, depois da publicação de “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”, Rio, 1972), de nunca escrever uma linha sobre obra que não tenha lido inteira, lido e às vezes relido. Meu caráter e minha criação (educação doméstica) me mandam que assim o faça, e isto é o que recomendo para todos os que se metem a apresentar obras literárias ou escrever artigos e resenhas. Em resumo: consciência e ética.
          As ações e os acontecimentos que o autor narra se deram no tempo histórico de um dia, o dia 9 de abril de 1964 – data em que o personagem narrador se torna de maior, completa 18 anos, ganha uma camisa Volta ao Mundo e uma calça de brim Tropical, objetos de seu desejo e sua grande alegria. E naquele mesmo dia o povoado Rodeador se torna Santo Antônio de Lisboa (PI), ganhando autonomia como município. Há referência ligeira a outras datas, 1961, por exemplo.  Mas todas ficam por conta da criação do autor: pensamentos, sonhos, visões em festas, viagens, falas dele e dos outros, pois que também Jailson é um autêntico manejador do diálogo dos seus personagens. Usando aqui o tempo psicológico, de que fala E. M. Forster, ele faz direitinho o leitor entrar para o mundo dos contrastes: infância x adolescência; a morte (real) e a vida; a roça (mato) e a cidade; Jandira x Isabel; a família dos Grandes x a família dos Medeiros. Enfim, é um mergulho nessas questões pungentes, nessa luta constante dos homens, em sociedade, para que as diferenças sejam apenas diferenças e não guerra, para que a paz seja uma constante, o reino dos ricos e dos pobres.
          Para finalizar, digo que eu, que fui um morador de Santo Antônio do Rodeador, num tempo bastante afastado do tempo histórico de Jailson, bem que me lembrei de muitas coisas e, mais ainda, me senti ali vivendo como filho de Mestre Miguel, como empregado de Isaac Batista, como amigo de Manoel Senhor e seus filhos e filhas, de Arlindo Cipriano e sua família, como sofredor de uma paixão como a de Saló por Jandira, que só foi curada pelo tempo. Bem que eu gostaria de ter escrito este romance de Jailson Klein.  

__________________________                                            Teresina-PI, 14/7/2012.
Bibliografia:
Klein, Jailson.   Salomão Grande, um dia simples de, Life Editores, Campo Grande-MS, 2012.
Moisés, Massaud.  Dicionários de Termos Literários, Cultrix Ltda. – São (SP), 1988.
Forster, E. M. – Aspectos do Romance, Editora Globo, Porto Alegre – RS, 1969.
Moura, Francisco Miguel de. Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho – Editora da Universidade Federal do Piauí (EDUFPI), 1997, 2ª edição.
McEwan, Ian. Citado por Jerônimo Teixeira, in Revista Veja, nº 27(4.7.2012), em resenha do romance “Serena”, resenha, pg.122.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O PAPEL DAS ACADEMIAS NA SOCIEDADE


Francisco Miguel de Moura*

1. Introdução:

“Mestre não é aquele que só ensina, e sim aquele que de repente... aprende”, disse o sábio psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961), médico suíço, discípulo de Freud e fundador da psicologia analítica.

Pois bem, ouvindo, lendo e estudando, eu aprendi que pessoa (ou persona) é o ser humano socializado, consciente, embora carregando no fundo de si o indivíduo. Indivíduo – de onde se deriva o individualismo – seria o homem fora da sociedade ou sem a devida sociabilidade. A criatura é por natureza e essência incomunicável, embora sinta o desejo de troca, de comunicação. O homem, no mínimo, é duplo. Daí ser muito difícil, senão impossível, existir uma sociedade composta por indivíduos.

É necessário que o homem se associe a outros homens, através de alguma coisa em comum, pois é aí onde eles se encontram. A natureza é excelência, mas os desejos também são. Daí vêm a organização e a lei para que “não faças aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem.”

Depois dessas pequenas explicações, estamos mais ou menos concordes em que o indivíduo não terá vinculo sustentável antes de transformar-se em persona. Estamos falando filosoficamente, porém numa filosofia de base lingüística, o que vem a dar na prática.

A sociedade é muito complexa porque composta de muitas cabeças, muitos indivíduos, e com a complexidade dos meios de comunicação (artificiais) mais difícil ficou. Não há sociedade sem o poder, mesmo que simbolicamente. E enquanto o poder ou o sistema lhe dita regras, como às vezes impõe, ele se encarrega de dar-lhe o correspondente sedativo para que ninguém perceba. É a sociedade moderna, o mundo globalizado, neoliberal de mentirinha. Enquanto você é despersonalizado, vai substituindo seu poder de decisão por prazeres fúteis e enganosos: velocidade, fuga do tempo e de si. E com isto o indivíduo sofre por dois lados: por um, vê, perdidos, os seus traços pessoais de desejos e criatividade; por outro, o poder lhe tira seu individualismo, a fim de que você se entregue à multidão, à massa. Uma espécie de atomização. Foi nisto que se tornou o homem ocidental: atomizado, dividido, despersonalizado. Por quê? No cipoal de coisas e solicitações no fundo iguais, mas com cara de diferenças, o homem nada sabe e volta-se para a religião, buscando o que há de ilusório: um paraíso na terra ou no outro mundo (depois da morte). Vive essa dualidade indivíduo x pessoa, porém de modo artificial: Deus, do que vem a ser a semelhança.

2. Academias, o que são?

Precisei de muitas palavras para definir indivíduo e pessoa, essa dualidade que carregamos durante toda a nossa vida. Entretanto, poucas palavras definiriam o que vem a ser uma Academia e qual o seu papel na sociedade: – As academias são as ONGs das letras e sua função específica é defender o patrimônio lingüístico nacional (no caso nosso, a língua portuguesa e a literatura que essa língua produziu e produz primeiramente no Brasil). Uma Academia é também um clube, um lugar onde nos reunimos para debater, estudar assuntos do interesse comum dos sócios e, assim sendo, um lugar de respeito e sabedoria, onde quem tem presença constante pode mais, visto que tudo é resolvido pela maioria. Não devemos guardar ressentimentos por dissentir alguém de nossa opinião, não devemos nos considerar os “donos da verdade”.

Mas não é só uma definição de poucas palavras que nos levará ao espaço e tempo de seu começo, sua história, sua bonita e longa tradição. Começou na Grécia com o filósofo Platão. A primeira academia, na verdade uma escola de filósofos e cientistas, foi assim chamada por funcionar no Jardim de Academus, pertencente um herói grego do mesmo nome, no tempo de Platão. Não pensem que aqueles sábios ficavam o tempo todo discutindo “o sexo dos anjos”. Faziam altos discursos; estudavam a palavra, a língua, o pensamento; aplicavam-se ao estudo da ciência e da mitologia, em que acreditavam. E tinha que ser assim, pois naquele tempo tão recuado, no ano 385 antes de Cristo, quando Platão instituiu a primeira academia, a filosofia e a ciência, a arte e a religião eram saberes ainda muito ligados.

Também não é por causa da história, cujos fragmentos são encontrados em quase todas as enciclopédias. Há mais dificuldade em fazer com que o povo entenda o papel das Academias, no passado e hoje. Perguntam sempre o que é que as Academias fazem. Ora, elas se reúnem, falam e fazer discursos, conferências e palestras, às vezes recitais de poemas, outras vezes publicam livros (com subsídios vindos de outras entidades, especialmente dos Governos). Os acadêmicos fazem o que os políticos fazem, só que, na maioria das vezes, sem jetons, sem salários ou outras vantagens monetárias e sem pensar no poder político. Ao contrário, nas Academias tudo deve ser em favor da literatura e da língua: a ABL, APL, as dos demais Estados e as regionais, em favor também da língua portuguesa e da literatura mas sempre levando em conta a sua regionalidade, suas pequenas diferenças locais, tendo em vista que é também do seu dever dar atenção a suas manifestações culturais, folclóricas, etc. que naturalmente se estende pela linguagem. No fundo, no fundo, quem pertence a uma academia tem o dever de escrever certo e não permitir o erro lingüístico, não apenas ortográfico. Toda a gramática, todas as boas normas da língua devem ser cultivadas. Falamos em regionalidade, sim, pois como seria possível estudar a literatura piauiense, sem Fontes Ibiapina, seu teatro folclórico, suas cantigas de roda, seu adágios, provérbios, etc. apanhados na cultura popular? Fontes Ibiapina é o maior romancista e contista picoense, seu nome se estendeu ao nacional, recebeu prêmios por entidades de São Paulo e teve livros publicados lá. A ALERP tem que reservar um lugar de honra em sua memória e promover o estudo de suas obras.

Que seria do estudo da literatura brasileira sem Machado de Assis? E é ele o maior conhecedor da cidade do Rio de Janeiro do Segundo Império, descreve as ruas, as cenas, as famílias e os escravos de modo todo especial. A ABL é a “Casa de Machado de Assis”, a APL é a “Casa de Lucídio Freitas”. Lucídio Freitas era, no seu tempo, o maior poeta de Teresina, depois vieram H. Dobal, Torquato Neto, e hoje uma carrada de poetas novos cantam o Piauí e sua Capital, nenhum destes superando o poeta Da Costa e Silva, o príncipe dos Poetas Piauienses.

Partindo, agora, para coisas mais objetivas, nós nos perguntamos: O que faz com que o acadêmico seja tão distinguido, tão valorizado na sociedade, não obstante os novos atiraram pedras na instituição acadêmica? Primeiramente, à semelhança da Academia Francesa, todas elas constam nos estatutos as principais finalidades já apontadas acima: a) cultuar a língua respectiva; b) propagar a literatura respectiva, da mesma forma. São instituições de elite, não mais do que 40 lugares, sócios vitalícios, mas não hereditários; somente com a morte do acadêmico, sua vaga será preenchida, por eleição dos pares, com toda aquela solenidade conhecida e vestes distintas. Isto aí é a tradição. As academias só se renovam pelas administrações da diretoria e pela entrada dos sócios recentes. Mas não costumamos festejar a morte, preferimos o centenário de nascimento, o centenário da obra mais importante de cada um, ou outras datas marcantes. Porque só existem, em determinado momento, 40 acadêmicos. A seleção para entrar para instituição, deve ser e é rigorosa, só entram escritores (poetas, contistas, romancistas, historiadores, etc.), cientistas e personalidades. Nesta última classe, que deve ser bem reduzida no quadro de cada Academia, contam-se aqueles que trabalharam pela cultura do país, estado ou município; algum político aí entrará inevitavelmente; e, ainda podem ser classificados como tal um ou outro artista de grande destaque: pintor, teatrólogo, músico, arquiteto, etc.

Assim, para as Academias entram as pessoas mais importantes, na sua especialidade. Por exemplo, qual o político mais importante do Piauí, que trabalhou enormemente pela cultura, criando o chamado Plano Editorial do Estado, a Secretaria de Educação, cuja entidade foi sepultada algum tempo depois por políticos sem nenhuma sensibilidade para a cultura, as letras e as artes? Alberto Silva. Foi eleito para a APL. Com sua morte recente, a vaga está aberta.

Mas, um pouco mais de história seria importante. Voltamos à França. A Academia Francesa, padrão para as demais entidades acadêmicas do classicismo e da modernidade, foi fundada em 1626 pelo Cardeal de Richilieu, o homem forte do rei Luis XIII. Durante a Revolução Francesa, em 1793, ela foi fechada, só reaberta por Napoleão, em 1803. É a mais antiga das 5 instituições que compõem o Instituto de França.

3. O que outros disseram

Neste ponto, passo a palavra ao escritor e membro da Academia Mineira de Letras, José Afrânio Moreira Duarte, falecido recentemente, para mais informações sobre as academias, em cujo assunto tinha bastante conhecimento:

“Há numerosas academias, em muitos países, principalmente na Itália e nos Estados Unidos da América do Norte. Neste último, quase todas são Academias de Ciências, Letras e Artes, não cuidando apenas de literatura. Como na França, a principal entidade do gênero não se chama Academia Francesa de Letras, mas apenas Academia Francesa, e podem integrá-la intelectuais não escritores, embora os literatos predominem.

Uma outra particularidade da Academia Francesa é que não se exige a nacionalidade francesa para o ingresso de um acadêmico, basta que ele escreva suas obras em francês. Marguerite Youcenar, a célebre autora das obras primas “Memórias de Adriano” e “A Obra em Negro”, entre diversos outros livros era belga naturalizada norte-americana. Foi a primeira e até hoje a única mulher a ingressar na Academia Francesa.

Outra academia de grande repercussão internacional é a Academia Sueca, pois ela é que concede, entre outros, o Prêmio Nobel de Literatura, o mais importante do mundo no gênero.

No Brasil, a entidade mais notável, literariamente falando, é a Academia Brasileira de Letras, fundada por um grupo de escritores liderado por Lúcio de Mendonça, em 15/12/1896. Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, foi unanimemente aclamado presidente. Embora fundada em 1896, a sessão inaugural da ABL só ocorreu em 20/7/1897”.

Voltando ao principal objetivo desta minha fala, transcrevo a parte final de um artigo (publicado no “Jornal da ANE”, Brasília, Jun/2009) assinado pelo poeta e crítico literário Anderson Braga Horta, um dos 4 ou 5 melhores escritores do Brasil atualmente, quando fala no significado das Academias de Letras no Século XXI:

“A academia não é, por definição, nem deve ser mesmo, sistematicamente contrária ao novo. Nem é atribuição sua defender indiscriminadamente, isto é, sem critérios valorativos, tudo o que se abrigue sob o rótulo de tradição. Compete-lhe, isto sim, preservar das razias de vândalos e, já hoje, de pseudo-vanguardas irresponsáveis a integridade lingüística e o patrimônio literário nacionais”.

Sem querer me considerar mestre, pois de repente somos todos nós também discípulos, torno minhas as palavras iniciais de Jung e acrescento as de Arthur Schopenhauer, a seguir:

“A primeira regra do bom estilo, uma regra que praticamente se basta sozinha, é que se tenha algo a dizer. Ah, sim, com isto se chega longe!

Mas a negligência com relação a essa regra é um traço característico e fundamental dos filósofos e, em geral, de todos os escritores teóricos na Alemanha. (...) Em tudo o que eles escrevem, percebe-se que pretendem parecer que têm algo a dizer, quando não têm coisa alguma.

E concluo o pensamento contundente do filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860) sobre os maus escritores de sua época, na Alemanha, depoimento que é valido para os inteletuais de todas as épocas e assim para os escritores e acadêmicos de ontem e de hoje.

Essa maneira de escrever, introduzida pelos pseudos-filósofos das universidades (...) é a mãe tanto do estilo forçado, vago, ambíguo e mesmo plurívoco, quanto do estilo prolixo, pesado e da torrente inútil de palavras.

4. O que digo, para terminar

A literatura, as artes, as letras, a língua são objetivos comuns aos acadêmicos, onde podemos ser persona (pessoa) e indivíduo ao mesmo tempo, com aquele respeito e educação que todo intelectual deve ter. Nosso encontro de seres duais como falei na introdução. Quem não observa esses princípios não será nunca um bom acadêmico. Pode-se fazer muito sendo correto, ético e educado. Academia é lugar de encontro, estudo, realização de palestras e conferências, votação do que é importante para entidde e também socialmente. Não é lugar próprio para discutir-se “o sexo dos anjos”, como nos acusam “os não-acadêmicos”. Os acadêmicos da APL visitam colégios e recebem turmas de universidades e de cidades do interior para falar sobre literatura e, naturalmente, sobre o que é a Academia.

Temos certeza que, para os piauienses, a Academia Piauiense de Letras é entidade necessária, significativa, a mais antiga instituição de cultura do Estado em funcionamento (90 anos, sem interrupção) desde que foi criada, e padrão para as regionais. Foi fundada, em 30 de dezembro de 1917, por um grupo de intelectuais liderado por Clodoaldo Freitas, a exemplo de outros Estados como Pará, Maranhão, Ceará, São Paulo e Minas Gerais (esta em 1909). Mas somente em 24 de janeiro de 1918, assumiu a primeira Diretoria composta pelos escritores Clodoaldo Freitas – Presidente; João Pinheiro – Secretário Geral; Fenelon Castelo Branco – 1º Secretário; Jônathas Batista – 2° Secretário; Antônio Chaves – Tesoureiro; e Edison Cunha - Bibliotecário.
Nunca defendi academias municipais. Porém as regionais como a ALERP – Academia de Letras da Região de Picos, são outra coisa. Reconheço que as cidades pólo como Picos têm essa função de agrupar, reunir e estudar também a cultura intelectual da região. Se voltarmos à Grécia, veremos que as cidades pólos é que conduziam a cultura, basta lembrar Esparta e Atenas. Por outro lado, a entidade pública mais antiga no Brasil não é o Estado nem a Província, mas o município. Daí não sei por que não respeitar e ajudar o soerguimento daqueles que lideram dentro do Estado. A região de Picos já deu tantos escritores e homens de espírito intelectual que seria um desperdício nomeá-los visto que há sempre o perigo de esquecer um ou outro. Mas, entre os falecidos que me vêem a lembrança, estão Fontes Ibiapina, Lourenço Campos e Miguel Borges de Moura. Picos também é um celeiro de músicos, cantores, pintores, teatrólogos, poetas, cronistas e contistas, residentes aqui ou noutras partes do Brasil.

A Academia da Região de Picos foi fundada em 22 de outubro de 1989, com o apoio e orientação dos escritores Francisco Miguel de Moura, Hardi Filho, Rubervam du Nascimento, vindos de Teresina, e Mundica Fontes, Heraldo Santos, Ozildo Barros e outros escritores da região, liderados por Rosa Luz, que foi aclamada presidente da entidade até que houvesse a primeira eleição. Tem sede própria, faz reuniões mensais, publica livros, revistas e jornais, apóia grupos jovens de teatro e poesia, faz seminários de literatura anualmente, sendo portando a entidade que representa a cultura da região, incontestavelmente, assim como a Academia Piauiense de Letras representa o Estado. Atualmente dirigida por Francisco das Chagas Sousa – Presidente; José Evilásio de Moura – Vice-presidente; Francelina Macedo de Holanda Ribeiro e Antônio Gomes de Sousa – 1º e 2º Secretários; Inácio Baldoíno de Barros e Fátima Soares Miranda – 1º e 2º Tesoureiros.

Eu me orgulho de pertencer ao quadro de sócios da Casa de Lucídio Freitas. Também me orgulha ser membro da ALERP, principalmente por ter como patrono Miguel Borges de Moura (Guarani), meu pai. E não me assusta nada que os novos (ou que assim se consideram) falem mal das Academias. O saudoso A. Tito Filho, inteligência brilhante, que presidiu a APL por cerca de 20 anos, com sabedoria e amor, dizia e proclamava que até os 30/40 anos, os jovens (ou que assim se julgam) são os mais ferozes críticos da entidade, alguns até debocham. Mas esses mesmos jovens, quando chegam aos 50 e daí por diante namoram a Academia e se decepcionam se não conseguem entrar.

De minha parte, com experiência que temos da APL, acho que nossa Academia é bem representativa da cultura do Piauí, devendo-se o fato a que há bastante critério e seriedade no preenchimento das vagas. Disse noutro lugar e repito agora: os melhores escritores vivos do Piauí estão na APL embora que nem todos consigam entrar. Não é possível, são apenas 40 vagas. E essas vagas são muito desejadas por isto, por sua raridade, haja vista a ebulição do que ocorre quando da morte de um de nós.

Como não posso nem devo dizer tudo sobre Academias de Letras, aqui encerro com o meu muito obrigado pela paciência de me ouvirem.

Auditório da Academia de Letras da Região
de Picos - ALERP,
em 24 -10- 2009 - às 14 horas.

___________
Observações: A palestrou foi encerrada com um vídeo mostrando as principais tomadas fotográficas (e parte dos discursos) da posse de Francisco Miguel de Moura, na Academia Piauiense de Letras, em 30 de outubro de 1990.

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*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da APL
e da ALERP, mora em Teresina – PI.
Mail: franciscomigueldemoura@gmail.com.br

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA, na ALERP - Picos - PI

Discurso de posse na Academia de Picos

Discurso de posse na Academia de Picos

Francisco Miguel de Moura
“Amar é nutrir a vida de essências” – Ymah Théres

Seria redundante dizer que, com inusitada satisfação e imensa alegria, assumo a cadeira nº 29 deste Sodalício, eleito que fui em 24 de julho do corrente ano. Mais do que isto, estou em verdadeiro estado de regozijo por ser a cadeira que tem como patrono meu pai, Miguel Borges de Moura (Miguel Guarani).

.Por isto e por muito mais, cabe aqui a formulação de um conceito que há muito tempo formou-se em minha cabeça: Nós, membros de Academias, somos reconhecidos por nosso valor intelectual, mas os patronos são reconhecidos e venerados sempre.

Muito grato a todos pelo reconhecimento de colocarem o nome de meu pai no pódio da ALERP. Entretanto, devo agradecimentos especiais a meu primo, Dr. João Erismá de Moura, membro desta Casa, quem primeiro apontou Miguel Guarani para patrono. Enfim, também sou grato ao Presidente Francisco das Chagas Sousa e às Profas. Francelina Macedo e Mundica Fontes por terem encaminhado a figura de Guarani ao pleito, votação e aprovação, lembrando também uma referência a Profa. Rosa Luz, o grão inicial que fez gerar esta Academia.


Miguel Borges de Moura nasceu no lugar Diogo, lado direito do rio Riachão, fazenda Jenipapeiro, pertencente ao município de Picos, aos 18 de maio de 1910, filho de Feliciano Borges de Moura (Sinhô do Diogo) e Rosa Maria da Conceição (Rodrigues), descendente dos fundadores de Francisco Santos, teve uma vida inteira de mestre-escola para muitas gerações, do seio das quais saíram pessoas que hoje são influentes em várias atividades, do comércio à política, Além disto, foi também improvisador, cantador de viola, repentista e autor de romances populares que correm por aí, graças à memória do povo, desde Jenipapeiro aos confins do outrora grande município de Picos.


Com toda essa dedicação ao trabalho intelectual, ao bem de muitos, mestre Miguel Guarani, nome pelo qual ficou conhecido, não teve uma única homenagem em vida, salvo as amizades que ganhou e cultivou por onde ia. Mestre-escola respeitado e amado desde São Julião, Alagoinha e Mons. Hipólito a Itainópolis, passando por Aroeiras do Itaim, Angico Branco, Carnaíbas, Sussuapara, Umari, Ema, Barra do Guaribas, Bocaina, indo até São Luis do Guaribas e Lagoa do Sítio, além de tantas outras localidades e fazendas – seria de esperar que o houvessem homenageado com um título, uma sala, um quadro, uma placa, em algum desses lugares. Nada!


Em Picos, a primeira pessoa que sentiu a necessidade de homenagear meu pai, pelos serviços prestados à educação e à cultura foi o poeta e advogado Ozildo Batista de Barros, quando foi vereador desta cidade.


Já na meia-idade, mestre Miguel Guarani, chegando ao povoado Sto. Antônio de Lisboa com a família, convidado pelos proprietários e pais-de-família locais para lecionar a seus filhos e filhas, parecia ter vindo para ficar. Qual nada! Ele não era homem de aquietar-se. Permaneceu um bom tempo, é verdade, mas ainda teve algumas idas a Jenipapeiro e voltas a Sto. Antônio, e chegou a morar também na cidade de Picos. Neste sentido, foi ele um verdadeiro cigano, um andarilho.


Depois de anos de bons serviços prestados aos habitantes do então Rodeador, agora Santo Antônio de Lisboa, Miguel Guarani veio a falecer, em 7 de agosto de 1971, no lugar “Acampamento”, com 61 anos de idade, após sofrer o terceiro derrame cerebral. Ao seu funeral compareceu uma multidão de cerca de 1.000 pessoas, se contadas as que foram de Santo Antônio de Lisboa e as que esperavam seu corpo em Francisco Santos.


Contrariamente ao que se esperava, foi em Santo Antônio (Rodeador) que ele recebeu a primeira homenagem póstuma: – As autoridades deram seu nome a um colégio da cidade.


Não tenho conhecimento de que tenha sido lembrado, depois da morte, em outros lugares. Nesta cidade de Picos há uma rua de nome Guarani. Resta saber se, pelos assentos da Câmara Municipal, tal logradouro foi assim batizado em sua homenagem.


. E eu, às vezes, me perguntei: Por que a terra-berço de meu pai não deu seu nome a um colégio, a uma praça, a uma rua ou a um beco sequer? Seria muito sugerir a ereção de uma estátua a quem tanto elevou intelectual, moral e espiritualmente a terra-berço e seus filhos? Pois eu sugeri num poema que deixei aos pósteros, no livro-biografia “Miguel Guarani, Mestre e Violeiro”, cujos versos poderiam ser gravados numa pedra ao lado de uma herma de Miguel Guarani com a viola de um lado e o lápis e o papel do outro:



MIGUEL, UM GRANDE MESTRE




Energia, humildade e mansidão,
num corpo frágil, de vontade imensa,
na inteligência os fluidos de quem pensa
e aceita o mundo, e atende ao coração.

Conviveu com a pobreza e a solidão,
sem medo as recebeu, sem recompensa
das lutas que enfrentou, com a bela crença
de que nada é castigo e nada é vão.

Sofrendo, o velho amou e até à morte.
Se um céu existe, lá chegou: – É um forte
pelo bem que ensinou com tanto zelo.

Versos cantou, repentes de emoção...
Pra resumir, se fez nesta oração:
– Um grande mestre, sem pensar em sê-lo!

Não me canso de dizer, por onde ele passava ia deixando o rastro de luz da leitura e da escrita, da tabuada e da aritmética ensinada e bem ensinada à população jovem (e também aos mais velhos) – as primeiras e mais difíceis lições que o ser humano recebe do mundo intelectual. Lições que eram ministradas em casas de fazenda, nos povoados em acomodações condizentes, ou mesmo debaixo de latadas ou de árvores à margem do rio, os alunos sentados em bancos toscos de madeira.

Presenciei também, ainda menino – ele já quase na meia-idade – mestre Miguel aprender a tocar viola, fazer repentes e alegrar as noites dos amigos, vizinhos e conhecidos, enfrentando cantadores de toda parte. Sua primeira cantoria teve Coco Verde como parceiro, um moreno forte, luzidio e cantador inteligente, experiente e amigo, tinha sido seu mestre até então. Para mim foi um momento marcante, de grande surpresa. Passei, então, a admirar muito mais sua inteligência, depois desse acontecimento.


Em Santo Antônio de Lisboa, onde tive o início da adolescência, do que guardo tantas boas lembranças e amizades, lá pelos anos 50 do século que findou, nossa família foi homenageada. Isto aconteceu numa cantoria do violeiro-repentista Antônio Pereira, personagem real do livro “Histórias do Rodeador”, de Nilvon Batista Brito, só recentemente editado. Esta, sim, foi uma verdadeira homenagem á família de Miguel Guarani, não propriamente só a ele. Os versos que a seguir são lembrança viva, ressurreição daquele tempo, em meu coração. Em vista da extensão da música e letra de Antônio Pereira da Costa, transcrevo algumas partes:

“Oh! Meus amigos,
Quero ser licenciado
Pra fazer um bom tratado
Da santa povoação.
Falo em crianças,
Em senhor e em senhora
Do povo que aqui mora,
Vou fazer a descrição.

Refrão:

Oh! Santo Antônio, oh! Santo Antônio
Oh! Santo Antônio, terra da oração,
Oh! Santo Antônio, oh! Santo Antônio;
É você a terra da religião

No domingo vem muita gente pra feira
Muita gente da ribeira
Passeando no mercado onde elas fazem
Aquele ajuntamento
Só falavam em casamento
Em festa e em namorado.

Vem o padre visitar esta igreja
Dizendo louvado seja
Ao santo soberano
E para o povo desta terra
É uma riqueza
O mês de junho é com certeza
Sua festa em cada ano.

(...)

Eu conheço muitos tipos ilustrados
Criterioso e falado
Aqui nesta freguesia,
É dona Zefa e a família de Arlindo,
Seu André que vem sorrindo
Para a igreja todo dia.

(...)

Na outra rua tem o senhor Elias Moura
Numa vida sofredora
Que tanto tem trabalhado
Está pobre, triste e sem ação
Por causa de um caminhão
Que lhe deu mau resultado.

Tem mestre Miguel Borges de Moura,
Uma alma encantadora
Aonde a ciência encerra
Tem a aula como sofrimento ou cruz
Trazendo a letra e a luz para todo filho da terra.

Tem o seu filho que é Francisco Miguel,
Um vulto bom e fiel, coração puro e educado,
Este rapaz
Ganha pequeno salário,
Conhece o dicionário,
Conta bem e é letrado.

Tem sua irmã Teresa de Jesus Moura,
Essa é a professora
Da santa povoação,
Ela é distinta, educada e muito bela,
Em falar no nome dela
Faz doer o coração.

Tem Helena, tem Teresa e tem Maria,
Dona Josefa aprecia
A santa religião
Ela estima o santo e a capela
E dentro da casa dela
Com seu rosário na mão”.

Como já disse antes, Santo Antônio de Lisboa foi uma pausa nas andanças de Miguel Guarani. Minha mãe, Josefa Maria de Sousa (Zefa de Chico Ana ou Zefa de Miguel), apelidava as mudanças do marido de “arribadas”. Mas por onde foi, Mestre Miguel sempre levou a família a tiracolo. Saímos de Jenipapeiro (Curral Novo) quando eu tinha apenas 6 anos. Recentemente, depois de uma viagem ao vivo pelos lugares de minha primeira infância, hoje uma capoeira imensa em completa solidão, pensei um poema que começaria assim:

“O’ casa onde nasci, já não existes!
Vi o sítio, pisei-me em tuas pedras...
Como rastro de dor, por que resistes?
Por que tantos espinhos ainda medras?

De “Curral Novo” em diante, ganhamos mundo. Minha vivência de Jenipapeiro, em anos seguidos, é bem menor do que o tempo que morei nesta querida cidade de Picos, dos Borges, dos Moura, dos Leal, seus primeiros habitantes, depois dos Luz, dos Santos e de quantas outras famílias que chegam de fora e ficam. Para cá convergia e converge a população das ribeiras do Guaribas, do Itaim e do Riachão.


Em Picos, fiz exame de admissão, ginásio e escola de comércio, casei e tive filhos. Trabalhei na loja de tecidos “A Pernambucana”, na Delegacia de Polícia como escrivão. Depois fiz concurso para o Banco do Brasil e, depois de algum tempo, na ânsia (ou ingenuidade) de uma carreira bancária, arrumei as malas e fui trabalhar no sul da Bahia, Itambé (onde, na chegada, morreu um dos filhos e a seguir nasceram dois). Fui Chefe de Serviço da Carteira Rural do Banco do Brasil e exerci também a Subgerência da referida agência bancária. Vendo que não era bem o que almejava, isto é, ficar viajando de um lugar para outro, à busca de galgar gerência, inspetoria ou outro posto, voltei para o Piauí. Chegava à Capital, na época da Revolução de 1964, justo nesse mesmo ano. Teresina, cidade que elegi para viver e trabalhar, é minha segunda terra firme. Em Teresina fiz meu curso superior em Letras, na Faculdade Católica de Filosofia, estreei como escritor, com “Areias” (poemas), 1966. Daí não parei de escrever, mesmo durante 3 anos de residência em Salvador e fiz minha pós-gradução.


Mas tudo isto os senhores já ouviram falar ou já leram sobre mim. Volto, então, ao tempo em que vivi em Picos. Aqui passei os últimos anos de uma tardia adolescência. Como seria de esperar, naquele tempo prestava mais atenção aos jovens de minha idade, mais precisamente às jovens (as meninas). Lembro ainda algumas: as filhas de seu Abrahão Conrado, de Bertinho da Inhuma, de seu Adauto, de Dr. José Gregário, de seu Vicente Sá e tantas outras, sem esquecer minhas colegas de ginásio, Socorro Dantas e Maria José Dantas, entre outras como a Cecília, que tenho encontrado de vez em quando, em Teresina. Diante de tanto estudo e trabalho, pois chegado aqui comecei a trabalhar no Cartório de José Rocha, filho de seu Ulisses Rocha; diante de tantas pessoas boas e bonitas, minhas amigas ou apenas conhecidas, fui escolhido ou escolhi, uma das meninas mais lindas da cidade: Mécia, filha de seu Mirô. Tinha que ser assim. Foi o destino ou Deus que nos juntou. Eu já era feliz, mas não completamente. Maria Mécia assenhoreou-se de meu coração, completou minha felicidade. Hoje, como ontem, não posso viver sem sua companhia, sua graça, suas virtudes, seu amor. Para ela já fiz muitos poemas, mas pretendo recitar dois sonetos, que teem a marca da novidade e são inéditos e recentes. Eles dizem muito de nós:



AMOR, SEMPRE AMOR (1)



Eras tu a mais linda da cidade.
E eu cheguei, um matuto impertinente,
apelidado até de inteligente
por colegas, amigos na verdade.

Teus sorrisos me enchiam de vaidade
e àqueles que te tinham de inocente,
e a mim me enfeitiçaram de repente,
como ninguém calcula. Ninguém há de

saber o que lutei para ganhar-te,
para querer-me ali, e em qualquer parte,
e, enfim, nos enlaçarmos com ardor.

Fogo em que conservamos, te asseguro,
a minha felicidade e o teu futuro
para viver tão puro e santo amor.


AMOR, SEMPRE AMOR (2)


Mudam-se tempos, vidas e pesares,
mas, como outrora, a amar continuaremos.
Amo-te mais, não queiras nem saber,
amas-me mais, agora e como sempre.

Se outrora caminhamos de mãos dadas,
era o medo do mundo e suas garras.
Já hoje nos soltamos pra andar juntos,
pra mais amar, que o nosso amor se aclara.

Teu corpo de menina e de mulher
Que tanto outrora já me deu ciúmes,
Hoje é prazer e graça como nunca.

Sendo eu feio, invulgar, e tu, tão bela,
formamos lindo par por toda a vida
e abraçaremos outras se inda houver.

Apesar de ser “pequeno, pobre, feio e morar longe”, repetindo o popular, minha vida foi um sucesso. Vindo do interior (Jenipapeiro) para Picos, posso dizer que ganhei muito, aproveitei conversas e conselhos dos mais velhos e a amizade e confiança dos mais novos. Não separo as dívidas materiais das espirituais: – Devo muito a Seu Abraão Conrado, Conrado da Costa Neto, Justino Luz, Almeida Guimarães, Paschoal e Nobre Guimarães, Lourenço Campos, João de Deus Filho, João de Sousa Libório, José Carlos Filho, Laudemiro Morais Feitosa, seu Samuel Portela – o Agente de Estatística – o qual me emprestava livros clássicos para minha melhor leitura, e os contemporâneos o quase da mesma idade Antônio de Barros Araújo, Odonel Castro Gonçalves, Ozildo Albano, e antes Toinho Santos, Drs.João de Moura Santos e Valdemar Santos (e os demais Santos e Reinaldo, meus parentes e amigos como seu Abrahão). E que dizer dos Eulálio, dos Baldoíno, dos Luz, e dos colegas Milton Portela Costa, Luiz Pereira, Edilson Santos, Carlos Sá, José Bezerra, Chico de Júlio, Antenor Fonseca Sobrinho? Guardo boa memória da generosidade deles! Credito parte do meu sucesso a isto: escutar os velhos. Eles teem uma sabedoria que os novos ainda não podem ter: – a sabedoria da vida. É com sabedoria que alcançamos a felicidade. Mas, segundo o poeta Vicente de Carvalho “Felicidade existe, sim, mas nós não na encontramos porque está sempre aonde pomos e nunca a pomos aonde nós estamos.”


A felicidade completa ninguém encontra, concordo, mas, relativamente, eu já a encontrei, e este momento é um exemplo de outros tantos momentos em que me senti feliz. A soma destes é maior do que a dos momentos infelizes.

***

Abro um parêntese para publicar dois fatos inusitados, em ocasiões como esta. Mas é do meu estilo não calar, principalmente quando se trata de alguma coisa ligada a mim. Sendo ligado a meus pais é ligado a mim. Vejamos: Com 38 anos de construído, o novo Cemitério de Francisco Santos já não tem lugar para um único morto. Por isto ninguém hoje sabe onde o corpo de meu pai foi sepultado nem se, entre tantas covas recentes, muitas delas estão por cima de onde seria a cova de meu pai. Por outro lado, minha mãe, falecida um ano antes de Miguel Guarani, foi sepultada ainda no Curral Novo, no Cemitério Velho, o qual por meus cálculos, é o prédio mais antigo de Francisco Santos, onde estão os restos mortais de todos os fundadores de Jenipapeiro. Da última vez em que lá estive, encontramos, solto, um pedaço de lápide que dizia ser do Major Antônio Francisco Rodrigues, nascido em 13.7.1863, casado com Maria Izabel Rodrigues Rocha, e falecido em 20.5.1918 (ano da construção da igreja do povoado). Isto prova que aquela necrópole é o prédio público mais antigo de Francisco Santos, e foi deixado ao abandono total, paredes caídas, ervas e arbustos espinhentos tomando conta, não sendo possível a sua visitação. Isto é uma omissão imperdoável que ainda pode ser sanada.

***

Bem, Sr. Presidente, senhores e senhoras, fechemos o parêntese. Esta noite é de reconhecimentos, de agradecer e abraçar, esta noite é de muitas recordações e saudades. Pelas andanças de Mestre Miguel Guarani, como foi dito antes, todos podem avaliar em quantas casas eu morei, as quais estão dentro de mim como estive dentro delas. Nunca vi tanta mobilidade e tanta capacidade de adaptação/inadaptação quanto à de meu pai. Só no Angico Branco moramos em dois locais diferentes, sendo que a escola onde lecionava ficaria em outra localidade.


Miguel era um homem simples, sisudo, mas bem humorado, pobre de bens, rico de inteligência e coragem. Ele fazia de tudo, e o melhor possível, quando se dispunha a fazer, por necessidade ou por simples prazer. Conheci-o criança torrando massa de mandioca para fazer farinha, no tempo das desmanchas, fazendo vazantes no rio, de alho, cebola e batata, e ainda nas primeiras chuvas botava o roçado.


E quanto a mim, que mais deveria a dizer?

Mas confesso que, através do que disse sobre meu pai, falei de mim. Nossas vidas se confluem durante minha meninice e juventude. Meus livros já disseram e minha própria figura sempre popular onde vivo. E os senhores não avaliam quanto gosto de ser admirado entre os meus parentes, amigos e conhecidos, adoro mais do que se ganhasse o “Prêmio Nobel”. O prêmio que quero ganhar é o “Prêmio Miguel” – e aqui o estou recebendo, nesta noite, tanto em nome de meu pai como no meu próprio, em honra dele e minha. Não vejo glória maior do que esta: Estar rodeado das pessoas que nos amam. A simplicidade e a compreensão são minhas características, mesmo quando me mostro brigão, polêmico, crítico. Gostaria de estender-me sobre minha vida nesta cidade mais do que fiz, a partir de quando vim para a casa de seu Abrahão Conrado, primo de meu pai, quando morei no “Picos Hotel”, com cuja proprietária eu brigava, mas lhe queria muito bem, como a suas filhas. Pois minha vida foi só querer bem. E também parte do namoro e noivado com Mécia Morais Araújo, se não fosse indiscrição. Mas tudo isto pode resumir-se no meu soneto pouco divulgado, mas muito sentido, retratando minha afeição por esta terra e com o qual quero encerrar:

RECORDAÇÕES DE PICOS

Não sei se diga: No teu seio... Ou diga:
Nesses teus lábios lúbricos bebi,
como bebe na flor o colibri,
da minha vida a fase mais amiga.

Dos colegas, que é feito? A sorte liga
os corações, deixando-os por aí...
Mas bem que sinto batucar aqui,
dentro do peito, uma saudade antiga.

Poeira e sol, calor, mais outras falhas
da natureza – tudo são migalhas!
Guarda o velho Guaribas meus amores.

Cidade-mestra, e mestra enternecida,
tanto me deste para a minha vida,
que hoje só quero te cobrir de flores.

Disse o que tinha de dizer.


Picos, 4 de setembro de 2009.
Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel).

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Copiado, por Francisco Miguel de Moura, de http://www.portalentretextos.com. LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES

quinta-feira, 11 de junho de 2009

DISCURSO DE POSSE DE JOÃO ERISMÁ DE MOURA*

CADEIRA Nº 13 DA ACADEMIA DE LETRAS DA REGIÃO DE PICOS-PAUÍ - ALERP
Em Picos-PI, 27/ 8 /2005.
Nesta noite tão alegre, num recinto tão acolhedor, tenho a satisfação de salientar que num período de pouco menos de quatro meses estou assumindo a segunda cadeira numa academia de letras regional. No dia 29 de abril passado, tive a felicidade de tomar assento na Academia Açailandense de Letras, no Estado do Maranhão, como membro correspondente, representando, com muita honra, os Estados do Maranhão, Piauí e Distrito Federal. Coincidentemente, naquele dia era sepultado aqui em Picos o acadêmico Francisco de Moura Barbosa, ocupante da cadeira que a mim será destinada nesta noite.

Neste instante tão significativo da minha vida, ocasião em que estou tomando posse no honroso cargo de Acadêmico na Cadeira nº 13, desta conceituada agremiação literária que tem como Patrono o Sr. Francisco Lopes dos Santos, e seu primeiro ocupante o já mencionado Francisco de Moura Barbosa, solicito uma dose de paciência à seleta platéia para, em breve histórico, descrever um pouco das duas ilustres figuras piauienses.

II
A Academia de Letras da Região de Picos, fundada em 22 de outubro de 1989, tem como Patrono da sua Cadeira nº 13º o senhor Francisco Lopes dos Santos.
O homenageado nasceu no povoado de Buriti Grande, pertencente à época ao município de Oeiras, antiga capital piauiense, no dia 26 de outubro de 1875. Descendente de tradicional família portuguesa era o primogênito do casal Cícero Leopoldo dos Santos e a professora Evangelina Lopes dos Santos.

Francisco Lopes dos Santos foi casado com a senhora Estefânia Conrado Lopes nascida em Amarante, terra do nosso poeta maior Antônio Francisco da Costa e Silva. O casal teve dois filhos: José Conrado Lopes (in memoriam) e Raimundo Conrado Lopes (in memoriam). A família Lopes é composta de pessoas, consideradas inteligentes e cultas.

Profissionalmente, o Patrono da Cadeira nº 13 da ALERP exerceu a patente de capitão oficialmente titulado, tendo assumido o cargo de guardião do povoado Cabeço, hoje, comarca de Dom Expedito Lopes. No século passado foi influente fazendeiro e dono de engenhos na região.
Em 1959 sua esposa veio a falecer, causando ao Sr. Francisco uma enorme angústia, acompanhada de solidão, isolamento e depressão. No mesmo ano, num ato desesperador, veio a suicidar-se, inconformado com seu estado de viuvez e solidão.
III
A mesma Cadeira nº 13 da Academia de Letras da Região de Picos – ALERP teve como seu primeiro ocupante e fundador Francisco de Moura Barbosa. Recentemente falecido, no dia 28 de abril do corrente ano, Chico Barbosa foi um defensor da literatura picoense. Publicou três livros: “Perdi meu Tempo”, “Tempo sem Tempo” e “Reminiscência” mostrando o seu lado poético. Além de fundador da Academia de Letras o meu antecessor na Cadeira nº 13 foi um confrade ativo que se dedicou intensamente às atividades deste Sodalício.

Nascido no local denominado Baixio dos Macacos, no dia 10 de outubro de 1917, era filho de José Gonçalves de Araújo e Maria Raimunda de Moura. Foi casado com Maria de Moura Barbosa com quem teve 11 filhos. Passou pela imensa dor e padecimento, este sofrimento eu o conheço muito bem, de ter perdido três deles.

Enfrentou muitas dificuldades na sua vida, iniciando sua luta como lavrador. Foi comerciante, com mercearia e loja de tecidos, sendo vendedor ambulante nas décadas de 1950/60. Ainda trabalhou como farmacêutico em Teresina.

Levou uma vida muita animada. Foi amante das artes, escrevendo poesias, prosas, compondo músicas e participando de serestas, chegando a apresentar um programa na Rádio Difusora de Picos, intitulado Luar do Sertão.

Foi um homem de visão futurista e empreendedora. São vários os fatos praticados pelo pranteado que culminaram com uma trajetória de sucesso profissional. Era obstinado pelo trabalho, dedicado pai de família, íntegro e cumpridor dos seus deveres e obrigações.
Antes de ser acometido pelo mal que o levou à morte, reuniu seus familiares e tomou uma decisão inusitada: Fez, ainda em vida, a partilha do seu patrimônio, oficializada em cartório, deixando para si apenas os bens suficientes para a sua sobrevivência. Ficou feliz e pretendia, com esta decisão, evitar alguma possível desavença por ocasião do inventário dos bens, post mortem.
Por ocasião do seu falecimento a Academia de Letras da Região de Picos – ALERP, em Sessão solene, prestou-lhe uma merecida homenagem. De longe, e ainda sem nem mesmo sonhar com o meu ingresso nesta Instituição, através de e-mails, encaminhei minhas condolências à família enlutada e votos de parabéns à Academia por importante iniciativa tomada. Fiz ali, na minha mensagem, uma comparação entre a figura do falecido e do meu saudoso avô, Francisco Rodrigues de Sales, Chodó, vereador de Picos, poeta, escritor, comerciante, fazendeiro, juiz de paz e ilustre homem público da vizinha Francisco Santos.

Não imaginava eu que, quatro meses depois, Deus e o destino conduziriam o meu nome para ser eleito e agraciado com a cadeira onde sentou o confrade Chico Barbosa, vindo, honrosamente, a ocupar a sua vaga na mencionada Academia de Letras.

A bela homenagem póstuma consagrada ao senhor Francisco de Moura Barbosa, ocupante da Cadeira nº 13 desta Agremiação, realizada no dia oito de maio de 2005, Dia do Artista, teve a participação de nobres confrades, sob a presidência do acadêmico Francisco das Chagas de Sousa. Entre os presentes, abrilhantaram o evento: Manoel da Costa Moura (Guanambi Sonial), os Acadêmicos, Luís Bernardes Lima, José Osvaldo Lavor de Lima e Olívia da Silva Rufino Borges, e ainda, Rangel Barbosa e Liana Barbosa, filho e neta do homenageado. Naquela oportunidade foi lançado o livro “Um Tributo a Chico Barbosa”. Bela obra dedicada ao recém-falecido poeta. Em Picos, também, recebeu nome de rua, Moura Barbosa, e nome de Unidade Escolar, Francisco de Moura Barbosa, além de ser patroneado com a próxima cadeira a ser ocupada pela ALERP, a de número 27.

Depois de traçar um pouco do interessante perfil do imortal Francisco de Moura Barbosa, acredito que minha responsabilidade aumentará na expectativa de ocupar a lacuna deixada pelo meu antecessor. Reconheço que será uma missão de difícil realização.

IV
Agora, falarei um pouco de mim, da minha luta, da minha formação, dos meus propósitos, enfim, da minha vida.

Sou oriundo de família considerada pobre, nascido em Santo Antônio de Lisboa, à época, pertencente à comarca de Picos. Até os doze anos de idade fui criado entre Francisco Santos e Santo Antônio de Lisboa, mais naquela do que nesta, ou seja, à beira do Rio Riachão. Sou descendente dos Borges de Moura, de Picos e dos Rocha de São Julião.

Meu avô paterno chamava-se Feliciano Borges de Moura, falecido logo após o meu nascimento. Foi figura admirável na região. Inteligente, gostava de ler e escrever cartas e poesias. Apreciava a escassa literatura da época, traduzida no cordel, alguns romances e contos. Foi também um homem perspicaz e de visão avançada para o seu tempo. Pelo lado materno, infelizmente, também não conheci o meu primeiro avô, Cícero Clímaco da Silva, falecido muito jovem, embora tenha sido professor renomado em toda a região de Picos. Era um intelectual, culto e elegante.

Em compensação, tive o privilégio de conhecer e conviver, diariamente, por mais de 10 anos, com o meu segundo avô (padrasto da minha mãe), Francisco Rodrigues de Sales (Chodó), e dele herdar as principais qualidades de um homem, não só no tocante à formação intelectual e moral, bem assim, receber do mesmo uma boa orientação que serviu por toda a minha vida. Como já disse noutras ocasiões meu avô era a minha carteira de identidade. Ser apresentado como neto de Chodó era um orgulho e uma demonstração de prestígio. Ele foi personagem marcante em toda a região de Picos. Suas principais virtudes foram transmitidas através da honestidade, caráter, responsabilidade, ética, retidão, equilíbrio, respeito ao próximo e altruísmo, ações praticadas no decorrer de toda a sua vida.

Minhas avós Isaura da Rocha Sales e Rosa Maria da Conceição também muito contribuíram na minha infância para uma boa formação como ser humano.

Devo aos meus pais, Euclides Borges de Moura e Rosa da Rocha Moura, que estão chegando aos 80 anos de idade, quase tudo o que sou. Com eles aprendi muito. Deles recebi mais ainda. Foram princípios fincados em valores morais que adquiri ao longo deste meio século de vida, espelhando-me nos seus exemplos de vida.

Sou autodidata. Aprendi a ler na década de 1960, com ajuda do meu citado avô, Francisco Rodrigues de Sales (Chodó), na ocasião político e intelectual residente em Francisco Santos, Piauí e da minha tia Teresinha da Rocha Sales, dedicada professora daquele município, onde, como aluno ouvinte, recebia minhas primeiras lições ministradas em suas aulas particulares.

O meu avô, um dos poucos intelectuais no município naquela época, já era assinante da revista O Cruzeiro e Jornal do Commércio, editado no Recife-PE. Com a sua ajuda, e soletrando as primeiras sílabas, aprendi a ler algumas palavras nesses periódicos.

Em 1962, já com 12 anos de idade, transferido que fui com meus pais para Brasília, iniciei meus estudos, em escola pública, na cidade satélite de Sobradinho. Na despedida do meu saudoso avô-pai, ficou gravada em minha mente uma frase sua, que me serviu como incentivo maior para que chegasse aonde cheguei. Dizia-me ele: “Vá meu filho para Brasília, estude, seja homem e vença na vida!”. Com a graça de Deus, e por isso agradeço-Lhe sempre, segui o conselho do meu avô ao pé da letra. Alcancei um patamar intelectual e profissional jamais imaginado. Brasília me deu muito mais do que eu almejava.

Entretanto, no meu caminho, foram inúmeras as dificuldades encontradas na nova Capital. Quando lá cheguei, ainda menino, era uma cidade em construção, com carência de tudo. Formada basicamente por pessoas procedentes dos mais distantes rincões brasileiros, principalmente nordestinos que fugiam da seca e agruras da região, em busca de trabalho e, com isso, construíram Brasília, nossa Capital, bela e encantadora. Como já disse alguém, sabiamente, a construção de Brasília se deu da seguinte maneira: Os nordestinos trabalhando, os mineiros mandando, os cariocas reclamando, os paulistas ganhando dinheiro e os goianos desconfiando de tudo.

Não dispúnhamos de nenhum conforto. Morávamos em barraco de madeira, sem luz elétrica e água encanada. Para suprir minhas necessidades básicas tive que engraxar sapatos, vender pão e jornais e trabalhar em chácara, bar e frutaria. Minha infância foi sacrificada, embora saudável e feliz, sendo o pilar maior de um alicerce que contribuiu para a minha futura formação. Orgulho-me muito deste meu passado. Aprendi lições de vida que até hoje me são úteis. Por detrás das dificuldades desta nova vida, ecoavam sempre as palavras de incentivos, de apoio e solidariedade do meu querido avô, Chodó, que, mensalmente, escrevia-me dando a maior força. Cada carta sua era um grande estímulo. Trocamos centenas de correspondências, as quais guardo com muito carinho.

A minha vida escolar começaria assim. Em agosto de 1962, já pré-adolescente, matriculei-me na 1ª séria primária, numa turma de crianças, onde, obviamente, eu era o mais velho. Segui um propósito de recuperar o tempo perdido no Piauí. No segundo mês de aula, constou no meu boletim escolar, o qual guardo até hoje com muito orgulho, um elogio da minha primeira professora brasiliense, Maria da Purificação dos Santos, por ter alcançado o primeiro lugar da classe. Sem falsa modéstia, isso passou a ser rotina no meu currículo escolar. Recuperei um pouco o atraso nos meus estudos, quando fui promovido, por mérito, nos idos de 1964, à 4ª série primária, sem cursar a 3ª série regulamentar. Estava, assim, recuperando o meu tempo perdido. Meu esforço pessoal estava sendo compensado.

Finalmente, em dezembro de 1965, tive a satisfação de ser eleito como orador da 1ª Turma de Formandos do antigo primeiro grau, na Escola Classe do Nazareno. A seguir, submetido ao exame de Admissão, na época um verdadeiro vestibular, consegui o 2º lugar geral na cidade de Sobradinho-DF. Daí, sempre com enormes dificuldades, trabalhando durante o dia e estudando à noite, segui os meus estudos, cursando ininterruptamente, o Ginasial e Científico no Colégio de Sobradinho, Direito no UniCEUB, Pedagogia, com especialização em duas áreas: Magistério e Administração Escolar, na Universidade Católica, e finalmente, Pós-graduação em Políticas Públicas na Universidade de Brasília.

No campo profissional, iniciei minha vida de labor em 1968, prestando serviço, por dois anos, na empresa privada MAC – Manufaturas Auxiliares da Construção S/A. No primeiro ano de trabalho, na função de Ajudante de Marceneiro, descobri que ali não era o meu ramo, como se diz na gíria: “não era a minha praia”. No ano seguinte, fui promovido ao posto de Apontador, desempenhando serviços burocráticos, entre uma centena de trabalhadores, que embora humildes e rudes, ensinaram-me as primeiras lições de vida funcional. Trabalhava durante o dia e estudava à noite, cursando o antigo ginásio. Naquela época, estudava muito e já me preparava para enfrentar os primeiros concursos públicos.

No início de 1970, comecei a colher os primeiros frutos. Sempre com aprovação pelas portas estreitas, embora meritórias dos concursos públicos, trabalhei no Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal – DER-DF, Fundação Educacional do Distrito Federal e Tribunal de Contas da União. Neste último, prestei serviço por trinta anos, exercendo as principais funções administrativas e de assessoria no órgão, tendo sido aposentado como Chefe de Gabinete do Procurador-Geral, Dr. Francisco de Salles Mourão Branco, em agosto de 2003, cargo exercido por mais de dezoito anos ininterruptos.

Por outro lado, no decorrer da minha carreira acadêmica sempre participei de grêmios estudantis, jornais escolares e fui representante de turma em várias ocasiões. Escrevi muitas crônicas, reportagens e contos, alguns esquecidos pelo tempo.

Quando lecionei, por mais de três anos, em escolas públicas do Distrito Federal, no exercício do magistério, dentre outros, criei biblioteca e jornal escolar, promovi concursos de literatura e poesia e incentivei meus alunos a gostarem da leitura e das artes, principalmente da pintura, música, cinema, teatro, esporte, etc.

Particularmente, nunca desprezei o gosto pela literatura. Li e continuo lendo várias obras de grandes autores brasileiros e estrangeiros. A literatura brasileira é rica e vasta. Poderia citar dezenas de bons escritores pátrios do naipe de um Machado de Assis, Érico Veríssimo, José de Alencar, Euclides da Cunha, Castro Alves, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, entre outros.

V
Ao tomar posse como membro desta importante Academia, gostaria de ressaltar que pretendo continuar a exercer o mesmo gosto pela leitura. De antemão, reafirmo que sempre fui e serei um defensor dos meus conterrâneos. Se acaso pairou alguma dúvida sobre o meu interesse de concorrer a uma cadeira na ALERP, tendo em vista o fato de ser residente em Brasília, asseguro que atualmente estou aposentado apenas do Tribunal de Contas da União, onde fui acolhido e prestei relevantes serviços por trinta anos de dedicação e exclusividade. Depois da inatividade, recusei alguns convites para trabalhar em órgãos do governo e escritórios de colegas advogados somente para realizar algumas atividades prazerosas no período restante da minha vida. Entre elas tenho como ocupação e entretenimento, como já disse, o hábito da leitura, da escrita e realização de viagens. Em complementação às minhas atividades rotineiras, pratico esportes, sou estudioso da música popular brasileira, ocupo meu tempo com minha família e amigos e, finalmente, faço parte de algumas diretorias e conselhos de associações e clubes. Este é o meu perfil.

Sempre acompanhei todos os fatos e acontecimentos de interesses do Piauí. Tenho residência própria em Francisco Santos, onde reside meu pai, e visito freqüentemente nossa região. Acompanho, ainda, todos os movimentos literários, culturais e políticos daqui.

Neste momento tão sublime da minha vida, agora coroada com a satisfação de tomar posse neste importante cargo, quero, de público, manifestar o meu desejo de contribuir para com esta Academia produzindo textos literários, com o objetivo de desenvolver a cultura e a arte e promover outras atividades literárias, ajudando-a, no que me for possível, para o engrandecimento desta instituição e da comunidade picoense.

Tenho o propósito de participar e ajudar a nossa Academia a crescer ainda mais, divulgando a nossa cultura, a nossa arte, o nosso folclore e as nossas riquezas, enfim, o que há de melhor para a nossa região. Já possuo um plano de trabalho com algumas sugestões para melhoramento e aperfeiçoamento da ALERP, no que concerne à divulgação do seu trabalho e atribuições. No momento oportuno pretendo apresentar essas sugestões ao presidente e aos membros desta Academia.

Em contrapartida espero que esta Casa traga-nos além da amizade sincera entre os seus membros, também a possibilidade da troca saudável do saber e da cultura no nosso meio, num intercâmbio permanente, proporcionando o crescimento e a melhoria da Instituição, dos acadêmicos e a boa convivência entre os seus participantes.

Na verdade, o nosso Estado ainda engatinha na arte literária em nível nacional. Existe um preconceito muito grande com relação aos escritores nordestinos, salvo algumas exceções. A Casa de Machado de Assis, instituição centenária, acolheu em toda a sua história apenas quatro piauienses. Os ilustres imortais, paradoxalmente falecidos, Carlos Castello Branco, Deolindo Couto, Evandro Lins e Silva e Félix Pacheco. O nosso representante atual é o diplomata Alberto da Costa e Silva, que embora herdeiro do grande Da Costa e Silva nasceu em São Paulo. É muito pequena a representação piauiense na história da Academia Brasileira de Letras, mormente o número de bons escritores existentes no Piauí. Se compararmos o quantitativo dos nossos imortais com os vizinhos Estados do Maranhão, Bahia, Pernambuco e Ceará a desproporcionalidade é muito grande.

Nos dias de hoje, intelectuais do nível de um Assis Brasil, H. Dobal, O.G. do Rêgo de Carvalho, Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura; e os de ontem, Lucídio Freitas, Abdias Neves, Mário Faustino, Arimathéa Tito Filho, Alvina Gameiro e Torquato Neto, nada devem a pelo menos uma dezena de consagrados imortais brasileiros.

Mesmo assim, apesar do esquecimento e a discriminação demonstrada à cultura nordestina, por parte do resto do País, pela mídia e até mesmo por muitos conterrâneos, infelizmente isso é verdade, somos responsáveis por este preconceito contra o que é nosso, entretanto, temos que reconhecer que a região de Picos tem produzido um número expressivo de bons escritores, músicos, intelectuais, políticos e profissionais. De passagem, mencionaria, alguns representantes na literatura, do quilate de um Francisco de Sousa Martins, Raimundo José dos Reis, Antônio Coelho Rodrigues, Francisco Miguel de Moura, Gilson Chagas, Álvaro Pacheco e o grande João Nonon de Moura Fontes Ibiapina. Já na música, não posso esquecer: os pioneiros Guanambi Sonial, Gelson Gomes e as bandas Os Leões, Os Rebeldes e Os Meninos do Padre e os mais recentes, banda Dândi, o saudoso Antônio Helder, nossos acadêmicos Odorico Carvalho e Gilson Chagas, Frank Aguiar, entre outros. A política nos trouxe um Manuel de Sousa Martins, Coelho Rodrigues, Helvídio Nunes de Barros, Severo Maria Eulálio, Flávio Portela Marcílio e dezenas de outros vultos conhecidos. Produziu também grandes profissionais liberais e empresários.

VI
Tudo na vida tem uma explicação, tudo na vida tem o seu preço. Temos respostas para qualquer questão. Muitos aqui devem estar se perguntando o porquê da minha eleição nesta Academia. Passei e continuo passando por um grande drama na minha vida. Fui submetido a uma provação acompanhada de momentos de grande dor e sofrimento. Há pouco mais de dois anos perdi minha primogênita, Caroline de Moura, em trágico acidente automobilístico. Era uma jovem de 18 anos de idade, alegre, feliz e com um futuro pela frente, cursando duas faculdades, Relações Internacionais e Direito. Precocemente nos deixou, partindo para uma nova etapa, agora convivendo numa dimensão superior. Ela é a razão maior da minha presença neste evento. Seu livro “Um Anjo Retorna ao Céu”, lançado em dezembro de 2003, em Brasília-DF e em Francisco Santos-PI, teve uma enorme aceitação em Brasília e aqui nesta região, e por intermédio dele cheguei a ser eleito para esta Entidade e para a Academia Açailandense de Letras, no Maranhão.
Diz o nosso confrade Ronaldo Gomes, em sua bela Reflexão sobre o inevitável, a “Morte” que: “Nada é mais natural, mais certo e inevitável. Apesar disso, nada nos aterroriza tanto”. É pura verdade. O grande erro e triste ilusão do ser humano é pensar que os insucessos, acontecimentos desagradáveis, como por exemplo, a morte, a doença, o fracasso e a decepção só acontecem aos outros. Digo mais, a felicidade e a saúde são almas gêmeas que atuam intimamente em nós. São manifestações prazerosas, que agem, uma na mente e outra no corpo. Só percebemos os seus valores quando carecemos delas.

A nossa Música Popular Brasileira é pródiga em produzir belas páginas musicais enfocando os temas felicidade e suas antagônicas, tristeza e saudade. Outrora, o compositor Lupicínio Rodrigues já dizia: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora”. O poeta Fausto Nilo, juntamente com Moraes Moreira produziram a obra Pão e Poesia onde cantam: “Felicidade, é uma cidade pequenina, é uma casinha, é uma colina, qualquer lugar que ilumina, quando a gente quer amar”. A consagrada dupla Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes em sua belíssima A Felicidade resume tudo: “Tristeza não tem fim, Felicidade, sim”. Acredito que a felicidade é momentânea, efêmera.

A nossa família e os amigos da Caroline conviveram e usufruíram belos momentos de felicidade juntamente com ela, durante dezoito anos. Infelizmente não percebemos a plenitude desta felicidade. Por esta dádiva devemos agradecer a Deus. Só agora, na sua ausência, é que sentimos o significado da sua pessoa, a sua importância, a sua alegria o seu carisma, a falta que ela nos faz, a saudade que ela deixou a nós e à sua legião de amigos. À nossa inesquecível filha presto minhas homenagens de gratidão e saudade.

VII
Estão de parabéns os bravos e incansáveis fundadores e participantes desta novel Instituição Literária, a qual saúdo na pessoa do seu presidente Francisco das Chagas de Sousa. Essa Academia ao completar apenas uma década e meia de criação, já inspira confiança e respeito, apresentando um trabalho cultural promissor e admirável em toda a região de Picos, no Piauí e no Brasil. Seu atual presidente tem trabalhado em prol da divulgação das atividades desenvolvidas pela ALERP. Como prova podemos buscar no site do jornal Agência FCS e encontrar 25 matérias relacionadas ao tema.

Nesta oportunidade quero parabenizar a nova colega que acaba de tomar posse, juntamente comigo, acadêmica Francelina Macedo de Holanda Ribeiro, já conhecida minha por sua coluna Cultura Total do jornal Total Informativo, que com certeza virá transmitir e disseminar um pouco da sua sabedoria entre nós da ALERP e para a população picoense.

Auguramos, ainda, que este Sodalício cresça ainda mais nesta região, produzindo, divulgando e transmitindo ao povo de Picos e porque não dizer ao povo piauiense e brasileiro um pouco da vasta cultura literária local, nacional e internacional acompanhada de manifestações artísticas, musicais e folclóricas.

Aproveito o ensejo para os meus agradecimentos finais.Primeiramente, a Deus por este êxito alcançado. Segundo, a Caroline de Moura, nosso Anjo, por sua valiosa contribuição, partícipe que é nesse meu sucesso, ao tomar posse na Cadeira nº 13 desta Agremiação. Ela foi a mentora e certamente muito me ajudou na transmissão de sua linda história resgatada no livro “Um Anjo Retorna ao Céu”, memória póstuma desta pessoa maravilhosa que só nos deixou saudade e boas lembranças.

Um agradecimento especial à minha esposa Ana Maria da Silva Moura e aos meus filhos Erismar de Moura e Clareana de Moura.

Meus agradecimentos também aos ilustres confrades que votaram em meu nome, confiando numa possível vitória, em especial ao amigo acadêmico Gilson Chagas, responsável pela minha candidatura e batalhador junto aos acadêmicos pela sua aceitação. Agradeço também à acadêmica Maria de Jesus Sousa Martins que, em defesa do meu nome e da minha obra, com o seu coração bondoso, encontrara alguma semelhança do meu estilo literário à obra do grande poeta Fagundes Varela. Fico lisonjeado com a sua observação, dizendo que sou apenas um grande admirador de Fagundes Varela. Este carioca, nascido em 1841 e falecido em 1875, com apenas 34 anos de idade, foi representante da escola romântica, que passou por uma vida de sofrimentos e dor, causada principalmente pela perda prematura do seu primogênito, tão bem narrada nos belos versos de “Cânticos do Calvário”, poema dedicado ao seu saudoso filho. A semelhança é só essa.

Por último, a todos os senhores e senhoras aqui presentes que vieram abrilhantar esta solenidade agradeço a paciência e as suas valiosas presenças.
Para encerrar este prestimoso evento gostaria de deixar gravado na lembrança de cada um de nós as palavras do poeta Da Costa e Silva, nosso representante maior da literatura piauiense, na sua obra Pandora, reproduzidos nos belíssimos versos abaixo:

V
PALIMPSESTO

Se a vida sói ser isto e se resume
Nestes cuidados vários e constantes,
Que mais se agravam, quanto mais distantes
Estamos nós do bem que se presume;

Se tudo sobre a terra se consume,
Embora torne a ser o que era dantes;
E a vida não é mais que vãos instantes
Que se extinguem num ai ou num queixume,

Se é tudo, enfim, esta enganosa lida
De incertos dias à mercê da sorte
Que a natureza leva de vencida;

Só logra ser feliz, e sábio, e forte,
O que alia às doçuras desta vida
A crença de ainda ser além da morte.

Muito obrigado!
Tenham todos uma ótima noite.
______________
*João Erismá de Moura, funcionário publico aposentado, professor, cronista, com dois livros publicados ( "Um Anjo Retorna ao Céu", 2003, e "Essas Mulheres Maravilhosas", 2006) mora em Brasilília - DF.
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