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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA – SINÔNIMO DE LITERATURA

“(...) Notei ainda que as pessoas mais sábias nem sempre têm o que comer e que as mais inteligentes nem sempre ficam ricas. Notei também que as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião” (Ec 9.11b)
    
  
          *Gilson Chaga, escreveu:                                                                                                                     
 Em 1973, a publicação de meu primeiro livro me propiciava, entre outras alegrias, a chance de conhecer, em pessoa, alguns dos expoentes da imprensa e letras do meu estado natal, o Piauí. Com o encantamento do quase adolescente que se vê diante de seus mitos, pude, enfim, entrevistar-me, num plano favorável, com Carlos Said – o legendário “magro de aço” - que se tornara padrinho e divulgador de minhas colaborações ao seu programa “Poesias do Piauí”, na “Rádio Pioneira de Teresina”. Inestimável apoio recebi de Herculano Moraes, já poeta de renome e secretário de redação do jornal “O Estado”, concorrente de “O Dia” na liderança jornalística regional.  Encontrei generosa acolhida em A. Tito Filho, ícone da cultura, emérito incentivador dos autores iniciantes e eterno presidente da Academia Piauiense de Letras. Conservo, ainda indeléveis, preciosas lições de Fontes Ibiapina, em nosso encontro de apresentação, na casa de seu irmão Pebinha, na cidade de Picos. Daquela primeira conversa que, ao lado do hoje destacado jurista e poeta Ozildo Barros, tive com o notável escritor, pincei a enfática afirmativa que ele ali fizera sobre Francisco Miguel de Moura. Este, a quem eu conhecia de Santo Antônio Lisboa e, à época, já com três livros na praça, era nome emergente na literatura do estado. Dentro de um contexto mais amplo, disse-nos Fontes Ibiapina, sem reserva: - “O livro de Chico Miguel, “Linguagem e Comunicação em O.G. Rego de Carvalho”, é tão bom quanto a própria obra por ele analisada”.      
O veredicto de Fontes – doutor da lei e das letras - era apenas um minirretrato de uma carreira em começo - alvissareiro por excelência. No curso destas décadas subsequentes, a obra de Chico Miguel expandiu-se e aperfeiçoou-se. Cresceu em número e profundidade; abriu-se para variados gêneros; diversificou-se.    Lançou ele, até aqui (2012), 33 livros: 15 de poesias 4 romances, 3 volumes de contos, 2 volumes de crônicas, 7 de crítica ou história literária, 1 biografia, 1 memorial, sem contar opúsculos de crítica, depoimento e discursos. Além destes, há milhares de artigos espalhados por jornais e revistas do Brasil e do exterior.  Como diria Zé da Luz, o poeta do absurdo, ele está na “Oropa, França e Brasil”.
Pelo esmero e densidade dos textos em prosa ou verso e de sua militância quase religiosa em favor da literatura, tem sido fartamente estudado e saudado pela crítica qualificada; lido e aplaudido pelos núcleos seletos aonde sua criação tem conseguido chegar. Tornou-se, enfim, nesses anos, referencial e fonte para pesquisas, dentro e fora do Piauí. É também analista e prefaciador concorrido por autores novos e veteranos

sábado, 12 de dezembro de 2009

JOANYR DE OLIVEIRA - BIOGRAFIA E ANTOLOGIA


JOANYR DE OLIVEIRA
(1933-2009)




Francisco Miguel de Moura
*



Escritor pioneiro de Brasília - Joanyr de Oliveira, nascido aos 6 de dezembro de 1933, em Aimorés, MG, e falecido em Brasília, recentemente (05-12-2009), a notícia me pegou de surpresa. Na manhã do dia 6 de dezembro, abrindo minha caixa de e-mails recebidos, eis o que encontro uma nota de falecimento não mais nem menos que dele, nestes termos: De Linguagem Viva, em 05-12-2009, às 10,29 h

Para Francisco Miguel de Moura: “Tenho a triste missão de comunicar-lhe que o escritor pioneiro de Brasília, Joanyr de Oliveira, faleceu na manhã do dia 05, no Hospital Santa Helena em Brasília e será sepultado, no dia 06 (data em que completaria 76 anos), no Cemitério Campo da Esperança em Brasília. O corpo será velado na capela nº 3 do referido cemitério, a partir das 14 horas, e sepultamente às 17 h.Atenciosamente, Rosângela Trindade”.

Imediatamente, respondo: “Obrigado pela infausta notícia de meu amigo, grande poeta, Joanyr de Oliveira. Deixe-me dizer-lhe que mantive com Joanyr uma boa comunicação em cartas, troca de livros e impressões que muito me enriqueceram. Sua morte é uma grande perda para a literatura de Brasília e do Brasil, uma lacuna que demorará ser preenchida ou nunca o será, acredito. Cada pessoa de valor e cultura que falece é sempre irreparável porque jamais voltaremos a ter aquele prazer de comunicação com ela, salvo pelo lado espiritual, pois a lembrança e a saudade se vão juntas, salvo o que fica registrado em nossos papéis, livros e no coração. Peço que transmita à família enlutada, as minhas condolências”. Francisco Miguel de Moura.

Fiz a comunicação do falecimento do poeta, em 12-12-2009, na Academia Piauiense de Letras, lendo os dois e-mails, antes fazendo o prólogo de que, hoje, a poesia e os poetas são tão pouco divulgados que muitas vezes só se toma conhecimento deles, mesmo de importantes produtores e divulgadores da arte, quando morrem, e isto por muita sorte.
Havia recebido, recentemente, dois livros dele – um de poemas (uma espécie de poesia escolhida ou reunida, como se uma preparação para a morte) e outro de prosa contística, Arquitetura dos dias (Tesaurus Editora, Brasília, 2004), muito gostoso, que estou ainda terminando de ler. Não me lembro do nome do primeiro livro que me mandou há anos, quando iniciamos nossa amizade. Talvez fosse O grito submerso (1980). Fiz uma apreciação positiva, com alguma ressalva sobre sua filiação ao movimento modernista de 1945. O artigo foi publicado num jornal de Teresina, do que não mais encontrei cópia em meus recortes da imprensa.. Sem demorar muito, retribui-o com minhas obras. Outros livros me chegaram e passei a sentir sua evolução, com rapidez, para uma forma poética bem contemporânea, bem atualizada, com simbologia e metáforas às vezes desconcertantes pela novidade, em versos melódicos e vazados num estilo bem característico.

Bacharel em Direito, jornalista desde os 16 anos e analista legislativo (aposentado) da Câmara dos Deputados, depois de haver ingressado, também por concurso público, no quadro de revisores do Departamento de Imprensa Nacional (Rio, 1959), teve uma vida profissional bastante movimentada. Além de poeta, várias vezes laureado, escreveu crônicas e contos de ótima qualidade. Sobressaiu-se também como antologista. Organizou Poetas de Brasília (1962), primeira obra literária editada no DF, Antologia dos poetas de Brasília (1971), Antologia da nova poesia evangélica (Rio, 1978), Brasília na poesia brasileira (Rio, 1982), Poesia de Brasília (Rio, 1998); Poemas para Brasília (2004) e Horas vagas, contos (1981), o que significa que foi um dos maiores divulgadores dos poetas de Brasília, sem dúvida.
Na sua obra poética individual constam os seguintes livros: Minha lira, Rio, 1957; Cantares, Rio, 1977; O grito submerso, 1980; Casulos do silêncio, Rio, 1982; Soberanas mitologias e A cidade do medo, Anaheim, CA, EUA, 1991; Luta a(r)mada, id., id., 1992; Flagrantes Líricos, Buffton, OH, EUA, 1993; Pluricanto - trinta anos de poesia, 1996; Canção ao Filho do homem, Rio, 1998 e 2000; Vozes de bichos (infanto-juvenil), Rio, 2000 e 2002; Tempo de ceifar, 2002; A hora de Deus, Jaboatão, PE, 2002; 50 poemas escolhidos pelo autor, Rio, 2003; Por que chora a chuva? (infanto-juvenil), Rio, 2005 e (no prelo) Antologia pessoal - 7 e Biografia da cidade. Prosa: O horizonte e as setas (contos, em parceria com Anderson Braga Horta e outros, 1967), Caminhos do amor (contos, Rio, 1985), Entre os vivos e os mortos (romance, Rio, 1985).

Participa de várias antologias (poemas, contos, crônicas) e outras publicações, no Brasil e no exterior: Argentina, Canadá, Espanha, EUA, França, Índia, Itália e Portugal.. Membro de academias e outras entidades culturais. Residiu em Vitória, Rio, São Paulo, Goiânia e cidades do interior e nos Estados Unidos (Nova Inglaterra e Califórnia).

Muito mais teríamos que colocar em sua biobibliografia, pois decerto publicou muito na imprensa e deixou outros livros inéditos. Mas, passamos a registrar algo que também foi importante na sua vida – o ministério religioso. Era evangélico. São algumas palavras e informações do pastor Antônio Mesquita, datadas de 6 de dezembro do corrente ano:
“Pastor Joanyr de Oliveira partiu para a Glória, neste sábado, e será sepultado hoje (domingo), quando faria aniversário, às 17h, em Brasília. Sempre foi homem aplicado, literato, politizado e verdadeiro intelectual. Como tal, amava a poesia. Durante seu contrato de trabalho no Rio, quando editou o livro História Ilustrada das Assembléias de Deus no Brasil (CPAD, 1997), tive a oportunidade de conviver determinado tempo com ele. Também o ajudei na correção do texto do livro e cheguei a visitar, com ele, a Biblioteca Nacional, onde buscava informações para a referida obra. Natural de Aimorés (MG), 1933. Casou-se em 1959, no Rio de Janeiro, durante sua permanência na CPAD, com a colega de redação, Nelcy Ferreira Guimarães. Em 1960, foi para Brasília, onde prestou concurso e tornou-se revisor da Imprensa Nacional. Foi escritor, poeta, pesquisador, advogado, jornalista, intelectual, literato, conferencista e exímio orador. Durante sua experiência profissional na área de comunicação, passou por Vitória, São Paulo, Goiânia, Rio de Janeiro e em Brasília, onde foi redator da Rádio Educadora, revisor do Departamento de Imprensa Nacional e funcionário da Câmara de Deputados e membro de inúmeras entidades culturais, como a Academia Evangélica de Letras do Brasil, União Brasileira de Escritores de Goiás, da Associação Goiana de Imprensa, da Academia de Letras do Brasil, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Associação Nacional de Escritores, Academia Taguatinguense de Letras, Academia de Letras de Brasília, International Writers and Artists Association (IWA), Academia Interamericana de Literatura e Jurisprudência. (...) Depois de aposentar-se como Técnico Legislativo da Câmara dos Deputados mudou-se em 1988, para os EUA, onde atuou como pastor em Boston, Hartford, Santa Ana e Anahaim. retornando ao Brasil em 1994. Na editora assembleiana – CPAD – ele construiu história e patenteou seu nome. Começou ainda garoto e chegou a diretor de publicações e fundou as revistas A Seara, Jovem Cristão (extintas) e O Obreiro (atual Manual do Obreiro). Ministro respeitado por seus conhecimentos, sempre se manifestava nas reuniões convencionais da CGADB. Na última delas, divulgou uma verdadeira obra literária, que lhe rendeu o reconhecimento de todos, sob o título Minha Assembléia de Deus. No texto criticou as mudanças sofridas pelas ADs no Brasil, no decorrer dos anos, exaltando a postura da igreja, como referência e escola no meio cristão pentecostal”.

Que sua poesia continue “singrando o ar e a vida”, disse Jorge Amado. “A poesia de J.O. é merecedora da estima dos bons leitores” – Carlos Drummond de Andrade. “Riquíssima temática, senhor da língua em geral e da poética em particular. Sou seu admirador, agora que tenho a alegria de conhecê-lo e os seus versos. Suas elegias são pungentes, seus poemas a Brasília são intrinsecamente belos paradoxos, pois ressaltam o criticável socialmente para, apesar disso, louvar a sensível beleza da obra feita e in fieri”, disse Antônio Houaiss.

POESIA (Nossa seleção):

O EU CENTAURO

O vento esculpe na nuvem
o meu eu todo centauro.
Nele me encanto. E o cavalgo,
vou trotando sobre o tempo.
As patas sobre o azul
jorram sendas, luminares.
Alimária e seus mistérios
imersos na Grécia antiga,
a renascer fulgurante
das constelações e do
ventre côncavo da lenda.
Bebo assim mitologias
a desaguar nas alturas.
A somar bailado e canto
das mil tribos submersas
no negro mar da memória,
de candentes epopéias,
sou as crinas tremulantes
e o retinir mais agudo
dos cascos enluarados.
O vento beija-me o corpo
em rodopios, no espaço.
Dois olhos resplandecentes
entre luas apagadas
espraiam meu níveo rosto
neste trotar de centauro.


CANTARES II
(Colóquio)

Pelas pisadas dos rebanhos
na quietude do outono,
Deus espraia o mel de Sua voz.
Ouvi, ó tendas de pastores,
rodas de carros faraônicos,
eqüinos revestidos de auroras.
Tranças debruçadas no silêncio
somam-se à bondade das videiras
e aos cachos bailarinos da seara.
No dorso intangível da solidão
Deus espraia o mel de Sua voz.


O MENINO MUTILADO

Bagdá, seis de abril, domingo.
No subúrbio de Diala,
um menino chamado Ali Abbas
perdeu as mãos e o sonho.
O coração do mundo contraiu-se
ferido pela imagem enfática.
Seus pais se desintegraram
nas profundezas do sono.
Com que sonhariam no instante
em que o míssil desvairado
saltou sobre as velhas telhas
e o assombro total das paredes?
Os pais de Ali Abbas talvez
no seu amplo tapete onírico
navegassem o branco da paz.
O sonho, ingênuo e sem olhos,
não situa as portas detonadas.
O míssil de nome Tomahawk
bradou "não" e "não", e categórico
fez da casa sombras e ruínas.
Devorou falanges, falangetas,
os braços, o amanhã e o sorriso
do guri sonhador Ali Abbas.
Comovido indagou Ali Abbas:
"Quem sabe poderias trazer-me
meus dois braços de volta?"
As lágrimas envoltas no silêncio
afagaram as palavras do menino
e odiaram o míssil e seu ofício
de antropófago no céu de Bagdá.


ESCRÚPULO

Deito o poema na aragem,
longe dos sacrilégios.
Os vassalos do metal,
os abismos, os delírios,
os tímpanos de pedra e cal,
as destras mãos na rapina
e as sinistras nos fuzis,
os decibéis desvairados
com quatro pedras nas mãos,
as volúpias dos cifrões,
os parlatórios e fossas,
as fomes palacianas,
os lobos condecorados
pelos guantes do Sistema
não fazem jus ao poema.

NEW YORK CITY

Os altos ponteiros da noite
apontam exaustos para o céu.
A chuva choraminga e cai
nos pés da Quinta Avenida.
Um negro talvez do Harlem,
rouca voz angelical,
oferta o reino de Deus.
Judeus de barba e casacos
em três manadas de espantos
a derramar-se na esquina.
Trinta passos saltitantes
a expor com jeito os trejeitos
contra vitrinas e nomes.
Um rio a jorrar piranhas
sobre o passeio apinhado.
A Estátua da Liberdade
matreira sorri no escuro
do topo de sua glória
e eis "The New York Times"
a pontificar soberbo
para reinos e universos.
Fumaça apunhala o ar,
conduz o peso das vidas.
Sonhos flutuam seus braços
em altas viagens brancas.
Passam passos de Al Capone,
passam dráculas.
Passam lânguidos
sobre fantasmas de bondes.
Há mortos embriagados.
Casais de corvos de Pöe
escarnecem da Lei Seca.

***
(Minas Gerais nem suspeita
deste doido mundo esconso.
Juntinhos na madrugada,
seus profetas ressonam...)
_________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro que mora em Teresina, Piauí, coligiu os presentes dados e poemas em vários sitios e documentos da internet.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

FORTUNA CRÍTICA DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA


Roberto Carvalho* Brasília (DF)

Esteve em Brasília, no mês de junho 18 a 20 – o escritor, poeta e romancista piauiense Francisco Miguel de Moura oportunidade em que conversamos sobre literatura e valores culturais do Piauí, do Brasil. Chico Miguel, como é mais conhecido estava acompanhado de sua filha Mécia e esposa que também é Mécia – e, bem informado sobre os temas atuais do mundo, o escritor revelou projetos literários que pretende empreender e em andamentos.

Respeitado pela qualidade de sua extensa bibliografia literária, Chico Miguel, nascido em 1933, é um coração de magnitude ímpar. Tem nas letras, garantida a posteridade de uma vida dedicada ao ofício de gravar na história as imagens que servem e servirão às gerações do país – leitores, professores e pesquisadores dos romances, ensaios críticos, historiográficos, contos, crônicas e poemas deste escritor piauiense, brasileiro.
Seu livro mais recente “Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura”, Edições Cirandinha, 306 pág. 2008, reúne artigos, resenhas, notas, citações, cartas de escritores, jornalistas, leitores de todos os estados do Brasil. Entre outros autores que compõem a obra se poderia citar - Assis Brasil, Moura Lima, José Ribamar Garcia, Oton Lustosa, Cunha e Silva Filho, Roberto Carvalho, Fernando Py, Herculano Moraes, Hardi Filho, M. Paulo Nunes, Eduardo Maffei, Magalhães da Costa, O. G. Rêgo de Carvalho, Jean-Paul Mestas e, a lista de nomes continua.

“Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura”, não mostra apenas a trajetória literária do escritor Chico Miguel, mas revela as várias reflexões sobre sua obra. Sobremodo, facilita a pesquisa, e principalmente, um melhor entendimento através de opiniões diversas – que construíram o painel Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura, espelhado por abalizados valores de nossa cultura brasileira.

Em artigo publicado no jornal O Dia, de 17/09/97, com o título POESIA IN COMPLETA, F. M. DE MOURQA, referente ao livro de mesmo nome – afirmei: “Na obra literária de Francisco Miguel de Moura a poesia é o gênero literário que imprime mais profundamente a psicologia humana. Sua lírica – neoconcreta, de vanguarda, dentro dos conceitos modernistas que continuam com os trajes pós-modernos – é revestida de multiplicidades expressivas.”, p. 118, Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura, que está à disposição dos leitores.

__________________
*Roberto Costa Carvalho, jornalista, cronista, crítico literário, mora em Brasília - DF

sábado, 25 de abril de 2009

DOIS POEMAS - EMANUEL MEDEIROS VIEIRA


ASTROLÁBIO

Emanuel Medeiros Vieira
(Para Lucas, meu filho)


A bússola e o astrolábio:
velas ao vento.
Existe outro Bojador nestes mapas interiores?
Os navegadores estão no exílio:
há faróis neste degredo?
Findou a aventura no mundo.

Singrando-me, cumpro-me.
Além de mim, além da vida:
do pó que serei.



BRASÍLIA

(Poema de emanuel medeiros vieira)


Cidade das mangueiras em flor,
dos fundadores da utopia,
candangos, barra vermelho, florzinhas do cerrado
pássaros, encantos cerrados,
cidade do amolador de facas
(ela tem esquinas sim, mas é preciso decifrá-las),
da louvação às primeiras chuvas,
terra molhada em janeiro


Não, meu coração não quer saber da urbe palaciana,
dos maquiáveis planaltinos,
intrigas com soda cáustica.


Cidade dos criadores,
Da mistura de tantas raças, vários brasis
(ah, a moça tomando sorvete no ponto de ônibus).


Cidade do meu viver e do meu sobreviver,
de todos os sonhos,
das linhas retas do arquiteto,
e cidade do meu repouso.

______________
*Emanuel Medeiros Vieira, escritor brasileiro (poeta, contista, romancista e crítico literário), nasceu em Santa Catarina, em 1945, e mora em Brasília - DF há cerca de 30 anos. Estreou com "A Expiação de Jerusa". Em 2002, apresentou o livro de contos "Os Hipies Envelhecidos"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

SERES HUMANOS NA CRISE DO CAPITALISMO

Litografia de J. Margarida

Emanuel Medeiros Vieira*

(Modesta meditação dedicada em favor do pessimismo da inteligência e do otimismo da vontade.)



André Gide escreveu: “Todas as coisas já estão ditas, mas como ninguém escuta, é preciso recomeçar sempre.” E o ofício de escrever é um eterno recomeçar: lutar com palavras mal rompe a manhã, para usar a expressão de Drummond.

Creio que travamos, através da linguagem, o que T.S.Eliot chamou de “combate intolerável com as palavras” que “se estiram, racham, escorregam, perecem.”

Mas a batalha da vida não é formal. O que percebemos é a banalização do mal e não do bem. A mercantilização das relações, a hegemonia do ter e do parecer, o estímulo à futilidade e ao egoísmo, geraram um ilhamento entre as pessoas, onde muitos seres parecem apenas fingir e camuflar os seus sentimentos.

O modelo vigente acreditava que éramos meros números. Minha geração não viu crise maior do capitalismo. Crise ou colapso? O “Muro de Berlim” dos neoliberais?

Onde estão aqueles que exigiam Estado mínimo e nos chamavam de dinossauros?

Eles tinham verdades consagradas. Diziam que o capitalismo havia vencido.

Como disse Cesar Benjamin num artigo intitulado “Karl Marx manda lembranças”, os “Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas”.

O que se vê não é erro nem acidente. O projeto todo estava centrado na acumulação do capital.
Tantos anos de falso consenso resultaram neste quadro dantesco.

Benjamin está convicto de que o Brasil pagará alto preço por ter subordinado sua economia ao grande cassino.

Resultado? Colapso financeiro, desemprego crescente, desigualdade social obscena. E assim por diante.

O concílios acabaram com o limbo e com o purgatório. Com o inferno não... Formou-se uma geração de políticos espertos, inebriados pelo marketing, não pela verdade. E a degradação ética, internalizada em muitas almas, parece não ter fim.

Só unidos poderemos recuperar o núcleo do humano. (Não digo nada de novo. Eu sei. Mas nossa força é essa: nossa união, forjada em tantas lutas.)

Como observou Boris Pasternak, “viver a vida até o fim não é tarefa para crianças.”

Vamos vivê-la?

(Brasília, fevereiro de 2009
__________________
*Emanuel Medeiros Vieira, escritor brasileiro, mora em Brasília - DF

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

ORTOGRAFIA:: MUDANÇAS - 2009

Fonte: Congresso em Foco, Geral - , 31/12/08 09:02

O ano de 2009 começará com uma nova forma de escrever em língua portuguesa. A mais nova reforma ortográfica eliminará acentos gráficos em prol de uma padronização da escrita dos oito países que adotam o português como língua oficial. Formam a comunidade lusófona os seguintes países: Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Neles vivem aproximadamente 230 milhões de pessoas.

A partir de amanhã (1º) terá início no Brasil o chamado período de transição, que vai até o ano de 2012. Até lá, as duas formas de grafar no idioma de Camões estarão em vigor. A partir de 2012, apenas será aceita a nova maneira.

Uma das principais mudanças diz respeito ao fim do trema (acento gráfico específico da vogal “u”) em todas as palavras. Ou seja, a partir de 2009 será permitido escrever linguiça, em vez de lingüiça. Ou frequência em vez de freqüência. O alfabeto passará a ter 26 letras, com a inclusão oficial de “k”, “w” e “y”.

Também será abolido o uso de acento circunflexo nas palavras terminadas em êem e ôo (ou ôos). Exemplo: crêem, vêem, lêem passarão a ser escritas da seguinte forma: creem, veem, leem. O mesmo princípio se aplica para palavras como vôo e enjôo, que passarão a ser grafadas como voo e enjoo.

O acento diferencial também vai acabar. Dessa forma, palavras como pára, pêlo e pêra, serão escritas da seguinte maneira: para, pelo e pera.

Em outro ponto da reforma desaparecem os acentos agudos nas palavras paroxítonas, aquelas cuja penúltima sílaba é a mais forte. Dessa forma, as palavras assembléia, Coréia, idéia e jibóia serão grafadas dessa forma: assembleia, Coreia, ideia e jiboia.

É válido destacar que o que muda nessa reforma é a o ato de escrever determinadas palavras. Portanto, permanecerá inalterada a maneira de pronunciar essas palavras que sofrerão apenas alterações gráficas.

Hífen

A alteração na forma de escrever determinadas palavras também atingirá o hífen. Será necessário usar esse instrumento, por exemplo, quando a palavra seguinte ao hífem começar com “h” ou com vogal igual à última da palavra anterior. Exemplo: mini-hotel, anti-imperalista, micro-ondas.

Também será necessário utilizar o hífen quando a segunda palavra começar com “h” ou com “r”. Exemplo: super-homem, inter-racial. No caso de palavras compostas iniciadas por “vice”, sempre será necessário utilizar o hífen. Exemplo: vice-presidente.

Contudo, o hífen vai sumir de determinadas palavras, que ganharão mais uma letra em sua grafia. Exemplo: antissocial, minissaia e minirreforma.

Integração

No Brasil, a reforma ortográfica foi assinada pelo presidente Lula no dia 29 de setembro deste ano, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Na ocasião, Lula estava na Academia Brasileira de Letras (ABL), participando de sessão solene em homenagem ao centenário da morte do escritor Machado de Assis, aclamado como o maior expoente da literatura brasileira.

Segundo o presidente, a reforma ortográfica da língua portuguesa tem “uma importância maior do que pode parecer à primeira vista”, notadamente na integração brasileira com outros países lusófonos.

Naquela ocasião, o presidente brasileiro citou as relações bilaterais com Portugal, mas ressaltou os “laços substantivos” entre Brasil e a África de língua portuguesa.

“Para nós representa mais, muito mais do que uma prioridade geopolítica. Diz respeito à nossa alma, à nossa identidade como nação multiétnica e multicultural, ao próprio destino da civilização brasileira e é o reencontro do Brasil com algumas de suas raízes mais profundas, não raro recalcadas. Nesse sentido, podemos dizer que é o reencontro do Brasil consigo mesmo”, afirmou.

Lula destacou as parcerias educacionais “em todos os níveis” com nações africanas e resumiu o sentido dessa reforma ortográfica numa maior aproximação com os países daquele continente.

“Mas como avançar nesse rumo sem fortalecer a nossa base lingüística comum? Como difundir em cada país a rica literatura dos demais e sua variada produção intelectual sem a adequada padronização da língua escrita? Como produzir, por exemplo, material didático compartilhado, em escala massiva, sem a unificação da ortografia?”.

Interesse político

Assinado em 1990, o acordo ortográfico enfrentou forte resistência, sobretudo, em Portugal, onde as mudanças na grafia vão atingir cerca de 1,5% das palavras utilizadas no país. No Brasil, as alterações não afetam 0,5% dos vocábulos. O Parlamento português aprovou o acordo apenas em maio deste ano. Por lá desaparecerão, por exemplo, o “c” e o “p” em palavras como “acto”, “acção”, “ótimo” e “Egipto”. Antes, Brasil, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde já haviam assinado o acordo antes.

Os defensores das mudanças argumentam que a padronização uniformizará termos jurídicos utilizados em contratos internacionais e abrirá caminho para que o português se torne, em breve, uma das línguas oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU), incorporando-se aos seis idiomas considerados oficiais pela instituição: o inglês, o espanhol, o francês, o árabe, o mandarim e o russo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A PAIXÃO


João Erismá de Moura*

O tema a ser comentado faz parte da história da humanidade desde os seus primórdios. Cientistas mundiais em seus abalizados estudos asseguram que o cérebro primitivo, através do hipotálamo é o responsável pela manifestação do desejo e do interesse sexual, regulando as respostas emocionais e afetivas no comportamento humano. Cientificamente está provado que o neuro-transmissor chamado feniletilamina é o grande condutor da paixão. É fato que a paixão se manifesta em todos sentidos do corpo humano. A visão é responsável pela fonte de inspiração, o desejo, o interesse por alguém; a audição, através de uso de frases, sons e canções amorosas causa uma excitação determinante no ser humano; o tato proporciona sensações de prazer e satisfação; o paladar é a base do prazer, sendo a língua uma das partes mais sensíveis do corpo, e o olfato o sentido que transmite as fragrâncias expelidas pelo parceiro despertando interesse e sensações prazerosas. Biologicamente, em resumo, eis a paixão.

Nós, seres humanos, sem distinção, experimentamos, naturalmente, esse sentimento prazeroso, arrebatador, descontrolado e contínuo. É inerente, aliás, a todo ser vivo. A paixão se apresenta em três fases segundo os estudiosos. São elas: a luxúria, que é o desejo ardente por sexo. Período curto com relação geralmente passageira; atração, envolvimento emocional, acompanhado por fases de conquistas evolutivas; e, ligação, relação calma, duradoura e madura.

O homem é mais suscetível aos encantos da paixão. A mulher é mais passional. Normalmente, a duração do período apaixonado é variável entre dezoito e trinta meses. Algumas paixões não passam dos seis meses de convivência. Outras permanecem até a separação dos companheiros com a morte. A história nos deixou belas páginas apaixonadas que se tornaram obras literárias, filmes, e músicas inesquecíveis.

Atire a primeira pedra aquele que não passou por uma grande paixão. Quem não se recorda daquela atração infantil por uma colega de sala de aula, quando experimentamos as primeiras sensações de desejo, de conquista, de ser aceito por alguém? A primeira preocupação com a aparência, o cuidado na apresentação pessoal, a alegria em vestir uma roupa nova para exibir-se frente à pretendida? Lembramos do estímulo e a ansiedade de iniciarmos uma semana escolar com prévia intenção de rever a pessoa querida. As noites de insônia pensando em alguém nos inspiravam belas poesias e declarações de amor noturnas, inscritas em nossa imaginação e jamais declaradas à pessoa amada. É provável que nesse período tenha ficado gravado em nosso subconsciente a maioria de nossas paixões, muitas delas platônicas.

Na adolescência, quando vivenciamos a fase da quantidade em detrimento da qualidade passamos por um período de paixonites agudas. São experiências traumáticas proporcionadas pela nossa intensa imaturidade. Aí já existe um envolvimento psicológico muito forte no sentido do conquistar, do experimentar o sexo, propriamente dito. É a fase do conhecimento, da descoberta do parceiro. Nesta etapa enfrentamos algumas decepções amorosas que podem deixar marcas profundas na formação da nossa personalidade e principalmente no campo sentimental.

Por outro lado, nessa fase o jovem se envolve com ferramentas apropriadas para a conquista do parceiro. O primeiro carro, as roupas de grifes, as viagens, os ambientes de glamour freqüentados, a ostentação dos bens materiais, enfim. O objetivo principal com a prática dessas ações é tirar proveito na competitividade, é a auto-afirmação, é ser aceito na sociedade. Parece que hoje o significado da conquista segue um sentido diferente. Os valores anteriores sofreram grandes modificações. A paixão anda um pouco esquecida, apesar de ser a seiva do amor na maioria dos relacionamentos humanos. Claro que existem muitas diferenças entre a paixão e o amor, embora uma seja a complementação do outro. Existem ligações intrínsecas. A primeira manifestada numa emoção forte e incontrolável que domina até a própria razão. O outro sentimento traduzido numa atração afetiva ou física entre semelhantes. Como se diz popularmente: “a paixão é o tempero do amor”.

A paixão amorosa se revela num sentimento impulsivo de aproximação entre sexos opostos (respeito possíveis exceções) traduzido no desejo de estar próximo, querer, amar e gostar continuamente. No período inicial sentimos uma atração pela pessoa e, às vezes, descontroladamente, cometemos exageros em nosso comportamento. O cérebro estimula algumas mudanças em nossos hábitos, tais como: vaidade exagerada, necessidade de comunicação e vontade da presença física do companheiro, enorme atenção, carinho e compreensão para com a pessoa amada. Não medimos esforços para agradarmos nossa paixão. Respiramos um ar de felicidade e contentamento.

No relacionamento apaixonado há uma reciprocidade acentuada na troca de confidências e responsabilidades. Os gostos se confundem, os problemas parecem mais fáceis de resolução. Os ambientes de encontros e prazer são inesquecíveis. O trabalho e as conversas passam a ser interessantes. É um período fértil de produção em diversos campos. Parece haver um clima de felicidade e prazer em cada momento.

Os encontros, alguns furtivos e reservados, se traduzem em momentos prazerosos. O tempo parece passar despercebido. Cada local freqüentado tem uma história para ser narrada. O apetite diminui, a libido aumenta, alguns compromissos são desconsiderados, o ambiente externo não tem tanta importância, o hoje se vive intensamente, há um brilho acentuado no olhar. Estas são algumas das características do período em que se vive apaixonado.

Infelizmente, na história da humanidade registraram-se acontecimentos envolvendo amantes apaixonados que tiveram desfechos trágicos. Muitos livros, filmes, peças teatrais e músicas retrataram momentos de fraqueza de seres humanos que não souberam conduzir uma paixão até o seu final. A vida real também nos oferece casos semelhantes.

O inconformismo do homem com tudo que lhe cerca denota uma vontade de sentir a conciliação entre a paixão e o amor. O ideal seria que todos os casais vivessem eternamente apaixonados, condição essencial para a manutenção de um lar harmônico e feliz. De certo modo devemos usufruir das paixões que se nos apresentam. Sejam elas pelo amor a Deus, pela nossa amada, pelo nosso projeto de vida, pelo nosso trabalho, pelas nossas conquistas, pelo nosso lar, pelos nossos filhos, pelos nossos amigos e pelos nossos entes queridos que já nos deixaram.

Como já cantava o poeta Vinicius de Moraes com os versos da bela música As cores de abril: “Ser feliz é viver morto de paixão”.

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* João Erismá de Moura, brasileiro, cronista, formado em Direito, professor, funcionário público federal aposentado, mora em Brasília-DF.

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