sábado, 21 de setembro de 2019

A VIDA POSTA Francisco Miguel de Moura*

Francisco Miguel de Moura*


E por chegar setembro,
Com a cara que não se quer
Ali na janela ao lado,
Meu ipê, hoje amarelo, pouco florido,
Lindo, com folhas verdes ao meio.

Meu ipê vence as intempéries
Deste bruto sertão de multo sol,
Poeira, calor, luz e ainda assim,
De amor
Como nós humanos resistimos:
À vida magra, preta, agora colorida...
Como se explicar?

Amamos sempre e para sempre
A beleza das flores, o aroma, os perfumes,
Mesmo onde não há (quando o vento os carrega).

Amar vale a pena. É o melhor milagre!
Este poeta sabe o quanto vale!
E é mister que tudo eu ponha em versos.
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*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, mora em Teresina, PI, BR.

domingo, 18 de agosto de 2019

PEDRO E A PEDRA DA FÉ




*José Maria Vasconcelos, cronista


         A vontade que me dá é de voltar a Israel, pela terceira vez, não me esgotar das  emoções vividas. Não se trata de aventura turística, mas de pregrinação. Caminhar sobre um solo rico de montes, campos agrícolas de ponta, templos. Pedras e rochas que testemunham a presença divina, anjos e demônios, patriarcas e profetas, Jesus Cristo, morte e ressurreição.
         Pedra e rocha, duas metáforas presentes nos salmos, discursos de Jesus. O Mestre inquiriu a seus discípulos: “O que dizem por aí quem eu sou?” Responderam alguns: “Uns dizem que és João Batista; outros, que é profeta Elias...” Pedro adiantou: “Tu és o Cristo, o Messias, filho de Deus”. Jesus concluiu: “Bem aventurado és tu, porque não foi de ti que partiu essa afirmação, mas de meu Pai... Por isso, tu, Simão Barjonas, és Pedro e sobre esta PEDRA edificarei a minha Igreja”. E Simão virou Pedro, e não chefe.
         Evangélicos tentam negar a autoridade de Pedro e dos papas (PEDRO APÓSTOLO, PRÍNCIPE DOS APÓSTOLOS) na Igreja. A PEDRA não é PEDRO, mas Jesus, como aparece em várias passagens dos evangelhos. A fé na PEDRA/CRISTO vem por um dom de Deus. Em vários evangelhos, Jesus compara-se à PEDRA ou à ROCHA. O próprio Pedro, em vários momentos, identifica Jesus como PEDRA ANGULAR rejeitada pelos adversários.
         “A única autoridade é Jesus Cristo”, dizem os evangélicos, e com muita razão. Jesus Cristo, porém, autorizou Pedro para cuidar na aglutinação do seu rebanho. A chefia de Pedro, apesar de suas fragilidades humanas, mas ungido pelo Espírito Santo no  Pentecostes. Às margens do Mar da Galileia, já ressuscitado, Jesus perguntou-lhe, três vezes: “Pedro, tu me amas?” Três vezes, o sim de Pedro e três vezes a confirmação de Cristo: “Apascenta (chefia) as minhas ovelhas”.  Como chefe da Igreja, colocou em votação o discípulo Matias, em substituição a Judas Iscariotes.  Discursava em nome da Igreja. Nas assembleias das primeiras comunidades cristãs, Pedro apresentava-se como chefe – segundo os ATOS DOS APÓSTOLOS. Também realizava visitas pastorais.
         A Igreja primitiva não se caracterizava como Igreja Católica, denominação que surgiu depois do imperador Constantino, três séculos mais tarde. A partir dali, a Igreja das populações sofridas e martirizadas começou a receber apoio dos imperadores, principalmente em dinheiro, territórios, autoridade e pompas imperiais. Aí me lembram aqueles versos e música de Vinícius de Morais: “Você que só ganha pra juntar/O que é que há, diz pra mim, o que é que há?/Você vai ver um dia/Em que fria você vai entrar”. E a Igreja entrou, cometeu montão de condutas pouco ou nada evangélicas, causando rupturas profundas no rebanho, consequentemente na criação de igrejas, hoje em mais de duas mil. Quase sempre pela idolatria ao dinheiro, faustos e poder.
         Se me deixasse levar pelos escândalos que já vi, não passaria nem em frente a templos. Porque nem Cristo se safou de ladrões e traidores. Até tu, Pedro, O traíste? Não desisto de estar inserido no rebanho em que fui batizado. Quanto a retornar a Israel...
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* José Maria Vasconcelos, escritor, jornalista, ele me autorizou a publicação desta matéria. email:josemaria001@hotmail.com

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


Francisco Miguel de Moura*

Que canção merece o mundo escuro?
Ninguém quer ouvir nada de ão...ão..
Nem saber do peito íntimo de alguém
senão para um sexo extra (ordinário).

E assim não há canção nem poema,
é uma extra-vasação do mesmo tema,
que não sei do seio de quem vem.

Palavras!... Soltar bolinhas de sabão,
ao vento, um vento tão opresso,
e reunir verso e reverso, sem uni-verso.
Oh! íntimo desprazer solto, aranhento!

No chão fundido, confundido, há mais,
muito menos pra ser visto, ouvido...
Por que as bandas tocam e dançam
e todos “dançam” nada atrás de nada?

Nenhuma canção vale a pena e o pinho,
durante a noite inteira, esbandalhada!
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Francisco Miguel de Moura - poeta piauiense, mora em Teresina, Piauí, desencantado com as músicas e letras das canções atuais, na literatura e na música popular brasileira. Este poema não está no livro indicado pela capa. É novíssimo.
e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

NÃO VIVEMOS =- Teresinka Pereira

Teresinka Pereira*

Não vivemos, só morremos.
Isso nos dizem na escola,
na igreja e na família.
Dizem que a morte é bela,
mas a mim me parece sórdido
que os vivos dependam
das mortes dos heróis
para seguir vivendo
sua própria morte.

A primavera vem a meio passo
e morre antes da última flor.
A luz do dia é linda,
mas é durante a noite
que nos aliviamos
de nossa tristeza de viver.

O sol é mais humilde que a flor
e os sonhos são
muito mais eloquentes
que as vitórias do amor.

É uma total alucinação viver
sem um sonho puro porque
cada manhã a luz aberta
nos rouba do tempo
e do ébrio segredo da vida.
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* Professora, escritora, poeta e crítica literária, mora nos Estados Unidos, onde fundou a IWA (International writers and artists), sediada os Estados Unidos da América).
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terça-feira, 6 de agosto de 2019

COMO FAZER VERSOS II - da Antologia de Poemas e Poestas # AMADOS

  Francisco Miguel de Moura*                                      
                  “O amor partiu em busca dos espelhos”     
                                                                                              Sérgio Campos

                                                        Preliminares

            Não temos a intenção de ensinar a fazer os versos. Quero, apenas, mostrar os principais elementos que dão forma às palavras e ao discurso poético, sem naturalmente esgotar o assunto. E como o assunto é poesia, assim também retiramos os exemplos, sempre que possíveis, de poemas e de seus autores.            
            A poesia é a primeira e principal forma (ou fôrma) literária, todos os tratadistas sobre a matéria concordam. Assim também há uma concordância majoritária dos que escrevem críticas ou são poetas, tal como assinalou José Bergua, na introdução da antologia “Las mil Mejores Poesias de la Lengua Castellana”: “Todas las cosas de este mundo – decia el maestro Navarro Ledesma – pueden ser objeto de la Literatura”. E mais: Se estendemos esse pensamento, poderia dizer que todas as coisas existentes ou ainda não criadas podem ser motivo para a poesia, pois que os sentimentos e a imaginação não têm limite.  
            Antigamente, todos os grandes livros da humanidade (da Bíblia aos Vedas) foram escritos em poesia, sua sobrevivência está ainda na linguagem bíblica, composta por versículos (pequenos versos). Isto se explica porque a escrita naquele tempo era difícil, senão impossível. Vem daí serem as obras as criadas preferencialmente em versos acompanhados ou não de música. Salvo os poetas populares, alguns analfabetos e improvisadores, quem se mete a fazer literatura, especialmente poesia, e não sabe um pouco de gramática, não sei como se aterá com a língua. Por este motivo, alinho aqui alguns elementos gramaticais.
            Composta em versos, ao contrário da prosa, a poesia não vai em linha reta até o fim. Verso é quando a linha muda, vai para a seguinte, começando do lado esquerdo. Verso é o outro lado. Figuradamente é também a outra maneira de expressão do homem e do mundo. A poesia faz bem à alma, ao espírito. Porque me têm perguntado constantemente o seu significado e para que serve, pretendo explicar como segue.
            Do ponto de vista prático, a poesia não serve pra nada, daí por que os poetas são tidos como pessoas anormais. Eles sentem acima do normal, preocupam-se com o que o homem comum não se preocupa. Este pode até admirar a natureza, um jardim florido, artes como a dança e a música, gostar do céu, do sol, da lua e das estrelas, sem saber o que são e para que servem. São atitudes poéticas.. Mas o homem comum pára por aí.
            Nós, os poetas, vamos à língua, como expressar melhor esses e outros sentimentos mais fundos, como transmiti-los no seu mais alto grau e com o menor número de palavras, dentro da língua padrão e até extrapolando-a gramaticalmente pela chamada licença poética. Dessa forma, o poeta contribui para a renovação da linguagem e para uma melhor comunicação emotiva, que pode parecer ilógica e não objetiva, tanto quanto mais se eleva em emoção e sentimento. No fundo, consagra aquele adágio de que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.
            “Ah, mas poesia é difícil de ser entendida!”  - alguns arriscarão a objetar-nos e acrecentam que se fosse como a música popular, ainda bem, até que poderiam compreender e gostar.
            Sim, certamente, na poesia da música popular (falo nas letras apenas) encontram-se algumas imagens, mas ficam por conta da objetividade da prosa ou da música, que subverte a palavra, fazendo soá-las como o compositor deseja, apenas enquadrar na voz e nas notas 7 (sete) notas musicais. Se essas letras são feitas por um Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto, para citar alguns, tudo bem. Mas não se pense que todas as composições da música popular são necessariamente poesia. A poesia está ali por exceção. Outra coisa: por melhores que sejam os versos de um compositor, quando passam para a música já não são mais poesia, são música. E se se baseiam em poema de poeta-escritor, esses versos são adaptados ao ritmo da música. O ritmo, a sonoridade, o acento tônico, as imagens do escritor são diferentes e muito mais bem criadas e recriadas.                   
            Numa classificação geral, a poesia pode ser épica, lírica ou satírica, pelo que assim compreendim os antigos.  Mas na verdade, modernamente, só existem dois gêneros literários existem:  prosa e poesia. Dentro da classificação acima, aparecem, atualmente com freqüência, as formas da lírica e seus  subgrupos poéticos, em forma fixa ou em versos livres:  soneto, trova, haicai, dístico, terceto, quarteto, sextilha, oitava, décima, ode, hino, canção, elegia, madrigal, acalanto, epitalâmio, epigrama, epicdéio e epitáfio, entre outros de menor frequência, como nênia, vilancete, vilanela, sextina, rondó, rondel, pantum  e acróstico.  
            As formas épicas e satíricas, dos antigos, modernamente estão banidas da poesia. A épica se trasmutou em prosa, no romance de várias naturezas, nos contos, crônicas e memoriais.   A satírica, hoje está confundida com a lírica em poemas e poemetos que são apenas humorísticos ou depreciativos como acontece com as  paródias a sonetos e quadras (quarteto) ou epigramas que tenham um sentido crítico.
            A lírica moderna se apresenta em espécies como as já citadas, que vão do soneto, à trova, a sextilha, esta especialmente na categoria de poesia popular ou de cordel, entre outras formas. Deixamos da falar na poesia concreta, que foi realmente uma tentava de imitação das artes plásticas e no que já havia na forma de ideogramas, desde Castro Alves e Da Costa e Silva como no poema, “O Baile na Flor”, do primeiro, e  “Hino ao Sol”, do segundo poeta. É um tipo de poesia que não deu certo.
            Se o poema é livre na estrofação, nas rimas e na métrica chama-se moderno.  Mas os poetas clássicos só admitem, como prova de que o candidato a poeta já o é, se for capaz de fazer um soneto razoavelmente bom. No entanto, a poesia não se detém apenas na forma: sem conteúdo, simbologia e imagens sobre imagens, tanto gramaticais quanto lógicas, não haverá poesia. Todo poema, mesmo o moderno, possui sua chave de ouro, isto é, termina brilhantemente bem, como fizeram os grandes poetas  Camões, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles e tantos outros que não caberiam neste ligeiro escrito.
            Poesia é a linguagem da emoção e do sentimento, feita para ser, sobretudo, lida em silêncio. Quando o poema é recitado em voz alta, tranforma-se em meio-teatro e se for cantado é meio-música. Além do livro, revista e jornal, outras formas de divulgação da poesia integral são o cartaz (out-door), os painéis, as exposições, inclusive através de devedês, televisão e internete.
            Entre todos os gêneros poéticos citados, vamos nos deter no soneto, na trova e no haicai;  só depois, um pouquinho na oitava e na décima (atingindo, assim os poetas populares) e, naturalmente, em alguns poemas modernos, assim chamados porque tem a medida (metro) livre, embora muito mais fosse necessário. Mas, dado exiguidade de tempo e de pesquisa para este ensaio, ficamos apenas nos mais evidentes, os que serão, no momento, definidos e exemplificados.

                                                         Palavra/palavras

            Os poemas são escritos com palavras em versos, salvo os chamados poemas em prosa e os que adotaram e adotam a poesia concreta, que não entram em nosso estudo.
Lutar com a palavra
é a luta mais vã,
entanto, lutamos,
mal rompe a manhã...”
                                 (CarlosDrumand de Andrade)
           A palavra é a arma do poeta, contra o tempo, contra o vento, contra a morte ou até mesmo contra a vida que não seja espiritual. E as palavras são feitas com letras e sons. Modernamente, o que não é posto em letra não chega a ser poesia: é apenas um repente passageiro como um planeta obscuro. Pela versão do poeta Anderson Braga Horta, as palavras, “Sem que seja preciso em seus altares / fazer um sacrifício ou uma oração, / dão-nos de graça os deuses, quando querem, a centelha da inspiração”.
            Não me perguntem sobre a inspiração que vem com a palavra. Agora vamos para a aspiração. É bom anotar, de imediato, que a nossa língua (o português do Brasil) é muito rica em palavras e sons. O “Dicionário Aurélio da Lingua Portuguesa”, o melhor entre todos, registra cerca de 3.000.000 de palavras e 5.000.000 de ocorrências, que vêm por conta das derivações das palavras, dos acentos, da separação das sílabas da indicação da origem da palavra, se do grego, latim ou de outras línguas, etc. Este livro deve ser inseparável de qualquer escritor, não somente dos poetas. Sobre a riqueza e beleza do nosso idioma é indispensável ler o soneto, “Língua Portuguesa, em versos decassílabos,  de Olavo Bilac:                                 
                        “Última flor do Lácio, inculta e bela,
                        Eis, a um tempo, esplendor e sepultura:
                        Ouro nativo, que na ganga impura
                        A bruta mina entre cascalhos vela...

                        Amo-te assim, desconhecida e obscura,
                        Tuba de alto clangor, lira singela,
                        Que tens o trom e o silvo da procela,
                        E o arrolo da saudade e da ternura!

                        Amo o teu vício agreste e o teu aroma
                        De virgens selvas e de oceano largo!
                        Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

                        Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
                        E em que Camões chorou, no exílio amargo,
                        O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”
            vamos sentir e nos dar conta desta joia literária, quando o analisarmos, mostrando  as rimas,  as repetições, as metáforas, o  metro e a cadêcia.  
            As palavras são compostas por sons ou sílabas.  Os sons, também chamados fonemas pelos gramáticos, só valem quando escritos, tanto que, por telefone, muitos deles ficam confusos, por isto usamos o meia-duzia, de quando queremos nomear 6 e não 3.
            Os sons: Em nossa língua há uma variedade enorme de sons: as vogais naturais que são as 5 vogais orais (que podem ser tônicas ou atonas) e as 5 vogais nasais. Estas últimas são assim chamadas poque vêm  com o til na cabeça, ou as que vêm precedidas e/ou seguidas de uma falsa consoante, seja m ou seja n.  E ainda faltam ser enumeradas as 2 vogais com acento fechado: ê e ô. O Professor Napoleão Mendes de Alemida, em sua notável “Gramática Metódica da Lígua Portuguesa”, cataloga 17 fonemas ou sons vocais na língua portuguesa falada no Brasil. Não pretendemos descrevê-los todos. Portanto, esta parte puramente gramatical é por nós remetida à leitura e estudo na citada Gramática (Cap. III – Vogais).
            Mas há outros sons constituídos por grupos de vogais  juntas na mesma sílaba, ou em outra sílaba vizinha, Esses grupos vocálicos são chamados ditongos, tritongos e hiatos.  
            Pelo visto, nossa língua é muito rica de vogais, o que não acontece com o inglês ou o alemão, por exemplo, que são  por nós apelidadas de  línguas consonantais.
            Com isto, não queremos dizer que temos carência de consoantes, nada disto. Nosso alfabeto é composta de 23 consoantes (se não contarmos o K (cá) e o W (v ou u), necessários apenas em palavras de línguas estrangeiras).
            Segundo Napoleão Mendes de Almeida, “consoantes são as letras que só podem soar com o auxílio de uma vogal”, ou seja, elas são o contrário das vogais. Creio não ser necessário citar aqui todas as letras consoantes do nosso alfabeto, isto seria supor que os nossos leitores são ignorantes. Citaremos a variedade por diferenças ou semelhanças conforme seja o lugar que ocupa no vocábulo. Evoquemos aqui alguns exemplos, visto ser impossível e impraticável mostrar toda a Fonética de nossa língua. Veremos muito mais na parte da escanção dos versos no poema.
            A letra C, em certas palvras e situações, é sibilante e tem som de  Ç (cedilhado) ou SS, visto que o S simples entre vogais soa Z. Mas há certos casos em que o C  soa como Q. Exemplos: casa, cassa, caça.
            A letra G ( o Guê no alfabeto do caboclo nordestina) aparece em palavras como gato, agora, gume, ou seja, seguido das vogais a, o, u.  Mas aparece como Gê (ou J), em palavras como  gelo,  ginásio.
            A letra H não tem som, exceto nos grupos consonantais Ch, Lh e Nh. Exemplos: chave, malha, manha.
            As letras M e N são apelidadas de falsas consoantes, visto que em alguns momentos funcionam como Mê, Nê,  exemplos: mesa, nativo, mas noutros são apenas nasalizadoras das vogais anteriores ou posteriores. São importantes para nossa língua como diferenciação das outros que não possuem o sol nasal. Além da nasalização pelas letras consoantes M e N, há também aquelas que acontecem pela a indicação do til (~) sobre as vogais a e o. Sei que isto é natural para quem usa a língua escrito, mas nunca é demais esclarecer o fato teoricamente. Em suma, em português falado conseguimos observar ao todo 19 consonâncis (cf. Gramática Mética, de Napoleão Mendes de Almeida).
            Qanto às consoantes como p de adaptar (separação das sílabas a-dap-tar) e c em cac-to (separação das sílabas) e muitas outras que aparecem em inúmeras palavras não são mudas, todas soam e fazem parte da vogal que vem antes, na hora de separar as sílabas. Nenhum consoante da língua portuguesa é muda, exceto o H, acima já mencionado. HHhh

 
                                                                ***                                  
            Devemos passar, daqui a pouco, à etapa de como ler e entender, para que a estrutura dos versos no poema seja entendida: a versificação ou escanção, como dizem os dicionários da arte poética. Temos ainda que distinguir o que são  sílabas, ditongos, tritongos,  hiatos, vocábulos  e versos.
            Sílaba, segundo os gramáticos mais autorizados, citamos aqui Napoleão Mendes de Alemeida, “é o som ou a reunião de sons que se pronunciam de uma só emissão de voz, com base  em uma ou mais vogais”. E ele acrescenta: “Da reunião da sílabas obtêm-se os vocábulos ou palavras.. E as palavras podem apresentar-se em menor ou maior quantidade de sons, conforme tenham uma, duas, três ou várias sílabas. Neste sentido elas são chamadas monossílabos, dissílabos, trissílabos ou polissílabos, respectivamente. Exemplos: lá, lá-pis, ca-ne-ta, tin-tu-ra-ri-a.
            Vocábulos são as palavras que se usam no discurso. Na explicação de Napoleão Mendes de Almeida, alguns vocábulos vão aqui indicados, com a separação das sílabas: “au-tor, ca-iu, in-tui-to, ní-ve-o, tê-nu-e”, onde há ditongos crescentes e decrescentes, como au, iu, ui, eo, eu.
            Ditongos são duas vogais numa sílaba só e esses encontros se tornam em vogais crescentes ou decrescentes. No ditogo, a vogal crescente a que é mais forte e mantém a alma da sílaba: exemplo nas plavras acima: au-tor, ca-iu, in-tui-to; decrescentes são as vogais indicadas no ditongo das palavras acima: ni-veo, tê-nue. Nestes ditongos, outrora se separavam as sílalabas, formando assim hiatos. E podem ser orais ou nasais.
            Tritongos são três vogais numa só sílaba. Exemplos: Pa-ra-guai, quei-xu-mes, desse modo aparecendo o grupo gu e qu, conforme nosso exemplo.
            Hiatos são encontros de duas vogais na palavra, que se pronunciam distintamente, em duas emissões de voz, duas sílabas diferentes: sa-ú-de, gra-ú-do, tri-un-fo, per-do-e, ma-go-e, com-ti-nu-e, formando duas sílabas. Exemplos: Nos ditongos decrescentes. Eles são o encontro de duas vogais em um só vocábulo (palavra), formando sílabas diferentes. Em suma, esclarecemos que hiato é o contrário de ditongo, para nossa classificação, não importando as divergências: estas vão ser apontadas no capítulo da contagem de sílabas no verso.
            Versos  são as linhas do poema. Normalmente os poemas maiores são composto por estrofes.  Por isto, não há poema de um único verso, assim como não existem flores de uma só pétala, exceto o lírio do Nilo, ficando mais uma vez provado que as exceções não fazem a regra. O menor poema tem 2 (dois) versos, mas a menor estrofe do poema pode ser apenas apresentada por (1) um único verso. Quem pretende, escrevendo apenas uma linha, declarar que fez um poema, está equivocado. Mesmo que o verso contenha algo que signifique em forma simbólica de linguagem, não chega a ser um poema: É apenas um pensamento, pode ser o começo de uma página em prosa ou uma frase filosófica, nada mais.  

                                             Estrofes, polissemia

            Estrofes são agupamentos de versos no poema, os quais podem conter agrupamento de dois ou mais versos. Damos exemplo aqui de um poema em  duetos, exemplificando:
                                    “A canção estende as asas
                                    E voa pela janela”
                                                         (Anderson Braga Horta)                              
            Vocabulário é o conjunto de palavras. O sentido delas está nos bons dicionários.
            Entretanto, na poesia, o poeta pode criar e recriar palavras consentâneas com o texto (poema), de tal maneira que o leitor o entenda. Damos dois exemplos, colhidos em meu livro “Poesia (in) Completa”, 2016, Ed. da Academia Piauiense de Letras, cujo nome já contém em si a dicotomia completa e incompleta, pois dei-lhe este nome por tratar-se de uma antologia de minha obra completa, sendo ao mesmo tempo incompleta, singnificando que se trata de uma antologia de poemas escolhidos entre os melhores de cada livro  já publicados, incluindo os inéditos.
            No primeiro exemplo destas licenças poéticas o poeta se apropria ou uma palavra substantiva, tornando-a advébio e acrescentando sufixo mente; já neste segundo exemplo, o poeta reparte a palavra ofendida para obter outros sentidos, modelos de polissemias, dois ou mais significados em palavra expressão:  Vejamos os exemplos:             
“Uma alegria, uma tristeza,
uma distância
australopitecamente
   santa.”
                                  (Francisco Miguel de Moura)                               
            Agora, passemos para o segundo exemplo,que também caracterísca de uma polissemia, da mesma obra e autor acima mencionados:
Oh fe(n)dida ofídia!
colhe nos meus olhos
uma orquídea”.   
                                     
                                               Composição dos vocábulos

            Vocábulos sãos as palavras da língua; elas podem apresentar-se de forma simples ou compostas por sufixos e/ou prefixos, conforme sua apresentação, cujos fenômenos são necessários para entendermos os seus significados.
            Raiz - é a palavra comum, dita também radical.  Exmplos nas próprias palavras sufixo e prefixo: fix. Encontram-se nos bons dicionários da língua, procurando pela palavra no singular e no masculino.
            Prefixos e sufixos são  encontrados nas boas gramáticas, com a definição do que cada um acrescenta à raiz ou à palavra. Portanto não há necessidade de relacioná-los aqui;  seria muito oneroso para o nosso trabalho. Dispensa-se o conhecimento deles, tendo uma boa gramática ao lado.
            Sufixos:  as modificações da palavra, quanto a seu significado gramatical, ou seja singular/plural, aumentativo/diminutivo, verbal (quando se liagam as desinências verbais que são muitas: modo, tempo, número e pessoa).
            Prefixos: – A própria palavra prefixo explica onde ela é classificada, pois é antecedida por pre, que significa antes, diferente do sufixo, que é um acrescrécimos ou mudança no final da palavra, como foi dito acima, observando-se que pode haver mais de um sufixo em uma palavra.
            Como os vocábulos são compostos por sons e sílabas, as palavras ou vocábulos classificam-se segundo o número de sílabas que contêm. São: monossílabos, dissílabos, trissílabos e polissílabos, conforme tenha uma, duas, três ou mais sílabas. Como em nossa língua, os sons na palavra podem ser átonos ou tônicos, relativamente a esta classificação elas serão: oxítonas, paroxítonas ou proparoxítonas. Exemplos: café – oxítona, porque a sílaba mais forte é a última; cabelo – paroxítona, porque a acentuação recai na pernúltima sílaba; cátedra - é proparoxítona, porque o acento tônico recai na antepenúltipla sílaba.
            Para saber esta regra é preciso prestar bem atenção à pronúncia e não somente ao acento gráfico.  Necessário também é saber que a maioria dos vocábulos da língua portuguesa é composta  por dissílabos paroxítonos.           
            Mario Faustino, em um dos seus sábios ensaios  sobre poesia e literatura, disse que o poeta precisa de muitos dicionários e enciclopédias ao seu redor. Já o poeta H. Dobal,  quando lhe era perguntado o que lia ou o que estava lendo, falava: Prefiro ler as anatologias, elas são necessárias para sentir-se o que o poeta escreveu de melhor. Citei os dois poetas, sem as aspas, porque o faço de cor. Já citando textualmente, o escritor Antônio Carlos Vilaça foi mais direto: “Escrevo com o dicionário, sem dicionário não posso escrever como escritor.”

                                                           ***
            Passemos, agora, à parte mais prática do nosso trabalho, para orientação dos que lêem, analisam e escrevem poemas.
            No poema, a medida dos sons tem outras regras que não a medida gramatical, na prosa. Como a palavra diz, é pelo som que são contados esse versos. O exercício desta contagem se chama escansão, que é o ato de escandir um verso, isto é, decompô-lo em seus elementos métricos (metros, pés, sílabas, tempos, cadência etc.). Quem já tem prática faz a contagem das sílabas pelos dedos, já que são decassílabos (isto é, de 10 sílabas poéticas) todos os verso do soneto normal. Versos mais longos somente quando o poema tem 12 sílabas poéticas: são os dodecassílabos ou alexandrinos, cuja forma pode ser no soneto alexandrino, ou nas demais espécies de poemas com versos variados de uma a doze  sílabas.  Os que tem mais de doze sílabas poéticas são chamados de bárbaros e são usados com mais constância na poesia a partir da fase moderna até a contemporânea.  Mas muitas vezes esses versos degeneram em prosa poética, e não simplesmente serão creditados como poesia.
            Estrofes: Os poemas se externam pela reunião de versos em estrofes. Conforme a quantidade de versos que contenha suas estrofes, classificam-se desta forma:
            Monocóstico – quando a estrofe é de apenas 1 verso;  dístico ou parelha – para a estrofe de 2 versosterceto – para a estrofe de 3 três versos; quarteto ou quadra – para a estrofe de 4 versos; quintilha – para a estrofe de 5 versos; sextilha – para a estrofe de 6 versos; septilha – para a estrofe de 7 versos; oitava  - para a estrofe de 8 versos; nona – para a estrofe de 9 versos; décima – para a estrofe de 10 versos; alexandrinos para versos de 12 sílabas;  irregular – para as de mais de 12 versos.
            Métrica é a medida dos versos, isto é a contagem de sílabas. No soneto acima transcrito, Olavo Bilac usou o decassílabo nos versos. E, se ainda não foi dito, quando o poema é um soneto é composto 14 versos, com  2 (duas) estrofes em quartetos e 2 (duas) estrofes em  tercetos, duas quadras e dois tercetos: o soneto tem 14 versos, se somados os versos de sua composição.
            Há versos de uma sílaba apenas e de várias sílabas conforme indica a “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, de Napoleão Mendes de Almeida: são versos sem significação em si próprios.                                
            Regra primeira: Na escansão não se contam as sílabas átonas do final de cada verso: Sílabas átonas são o contráriao das sílabas tônicas, pois estas levam o acento de maior força da plavra. Ex.: água: a primeira sílaba acentuada é tônica, a que vem depois, no final, não é, e chama-se átona.  Porém, observe-se que nem toda sílaba tônica, no final dos versos, é acentuada.
            Regra segunda: Para o efeito de rima, todas as sílabas das palavras finais dos versos são consideradas, para formar uma rima perfeita.
            A contagem acontece não simplesmente pelas sílabas gramaticais acima explicadas e como na prosa. Há algumas exceções como na prosa poética de Alvina Gameiro, José de Alencar e O. G. Rego de Carvalho. Mas outros escritores que podem entrar nesta lista são Euclides da Cunha e Eça de Queiroz.  E daí teremos o poema em prosa. Exemplos:  “Iracema”, de José de Alencar,  “Curral de Serras”,  de Alvina Gameiro, “Rio Subterrâneo”, de O. G. Rego de Carvalho, “Os Sertões” de  Euclides da Cunha., entre outros.                                              
            Como ainda não foi dito, explico aqui: Há versos de apenas uma sílaba, nos quais, como exceção, entram as sílabas átonas e as tônicas, sejam orais ou nasais, que serão exemplificadas na escansão.          

                                         Escansão: metro, ritmo, cadência e rima  
               
            Aqui, praticamente, começa a escansão, isto é a técnica de contagem das sílabas em cada verso, repetindo que as sílabas do verso são sílabas poéticas e não gramaticas, não se contando a última sílaba, desde que a vogal não seja tônica, acetuada ou não, dependendo de lei ortográfica. Em qualquer momento da escansão podem ocorrer vários fenômenos chamados de metaplasmos, mas também ditos licenças poéticas, por acréscimo ou supressão.
            No caso de acréscimo chama-se prótese, quando no ínicio da palavra ou som; se no meio, chama-se epêntese,   e no final da palavra tem o nome de  paragoge. E ainda no deslocamento de fonemas, quando se dá pelo fenômeno chamado metástase (já bastante em desuso na poesia moderna.
             A supressão   ganha outra nomenclatura: aférese, quando no princípio da palavra ou som; síncope, quando no meio; e apócope, quando no fim fa palvra.
            Deixamos de dar exemplos de tais modificações na palavra ou som, para que não possa causar confusão no leitor, que, como poeta ou amante da poesia, normalmente encontrará tais exemplos tanto na escanção, como na construção dos versos que venha ler ou escrever, até mesmo dentro desta Antologia.
               Os leitores verão frequentemente a ocorrerência de outros fenômenos mais visíveis como: reunião de duas vogais numa só sílaba:  por elisão ou sinalefa (a supressão de uma vogal para ligar-se à outra na contagem da sílaba seguinte): “Os/ poen/tes se/pul/crais/ doex/tre/mo/ de/sen/ga/no” (Alphonsus de Guimães); por hiato (disjunção de palavras contíguas no meio do verso), como em Florbela Espanca, neste verso: “Ó/ An/to!/ Eu/ a/do/ro/ os/ teus/ es/tra/nhos/ ver/sos”, onde se encontram dois hiatos, no primeiro hemistíquio, entre Ó e Anto, como também entre Anto e eu.
             Aqui ficamos, pois a nomenclatura de todos os metaplamos é difícil e longa, de forma que só a prática da contagem de sílabas, dando ouvido ao ouvido, é que vai ensinar essa contagem de sílabas em cada verso e em cada poema.

                                          A prática da escansão

            Escansão: Assim, partimos dos versos mais curtos da nossa poesia, com o trecho de um poema de Cassiano Ricardo - uma sextilha, marcando as sílabas poéticas:
            Monossílabos (ou monocórdios):
            “Pin/go
            d”á/gua,
            Pin/ga,
            Ba/te
            Tu/a
            Má/goa!”                                                  
            Observamos que cada verso tem apenas 1 (uma) sílaba poética, pois que  não se conta a sílaba átona, na escanção, salvo quando o acento é grave. São os chamados versos monossilábicos ou monocórdios, obsevando os traços separativos das sílabas, mostrando as finais não contadas.
            Dissílabos são os versos com 2 sílabas poéticas, como neste exemplo de Casimiro de Abreu:
            “Quem/ de/ra
            As/ do/res
            De a/mo/res
            Que / lou/co
            Sem/ti!
            Quem/ de/ra
            Que/ sin/tas!...
            Não/ ne/gues,
            Não/ min/tas...
            Eu/ vi”
            Trissílabos: versos com 3 sílabas poéticas, como nestes versos de Gonçalves Dias:
           “Vem/ a au/ro/ra
            Pres/su/ro/sa,
            Cor/ de/ ro/sa,
            Que/ se/ co/ra
            De/ car/mim;
            A/ seus/ rai/os
            As/ es/tre/las,
            Que e/ram/ be/las,
            Têm/ des/mai/os,
            Já/ por/ fim.                           
            Tetrassílabos:  versos com 4 sílabas poéticas, como no exemplo de poema de Vinícius de Moraes:
            “Ó/ mi/nha a/ma/da
            Que/o/lhos/ os/ teus
            Quan/to /mis/té/rio
            No/s o/lhos/ teus
            Quan/tos/ as/vei/ros
            Quan/tos/ na/vios,
            Qua/tos/ nau/frágios
            No/s olhos/ teus!”...
            Pentassílabos (também chamados de Redondilha Menor): versos com 5 sílabas poéticas, como nestes versos de Luiz Vaz de Camões:
            “A/que/la/ ca/ti/va,
            Que/ me/ tem/ ca/ti/vo,
            Por/que/ ne/la vi/vo
            Já/ não/ quer/ ser/ vi/va.
            Eu/ nun/ca/ vi/ ro/sa
            Em/ su/a/ves/ mo/lhos,
            Que/ pa/ra/ meu/s o/lhos
            Fos/se/ mais/ fer/mo/sa.
            Hexasílabos: são versos de 6 sílabas poéticas, como nestes versos de Carlos Drummond de Andrade:
            “O/ me/ni/no am/bi/cio/so
            Não/ de/ po/der/ ou/  gló/ria
            Mas/ de/ sol/tar/ a/ coi/sa
            O/cul/ta/ no/ seu/ pei/to
            Es/cre/ve/ no/ ca/der/no
            E/ va/ga/men/te/ con/ta
            À/ ma/nei/ra/ de/ so/nho
            Sem/ sem/ti/do/ nem/ for/ma
            A/qui/lo/ que/ não/ sa/be”.
            Heptassílabos, também chamados de Redondilha Maior: são versos de 7 sílabas poéticas, como nos versos de Luíz Vaz de Camões, em Redondilha Maior, homenageando, novamente, o fundador de nossa idioma clássico:
            “Sem/ vós/ e/ com/ meu/ cui/da/do
            O/lhai/ com/ quem,/ e/ sem/ quem.
            A/mor/ cu/ja/ pro/vi/dên/ci/a
            Foi/ sem/pre/ que/ não/ er/ras/se,
            Por/que/ n’al/ma/ nos/ le/vas/se,
            Res/pei/tan/do o/ mal/ de au/sên/ci/a
           Quis/ que em/ vós/ me/ trans/for/mas/se.”
            Observação: Em heptasílabos, ou Redendilha Maior é que são construídos a maioria das  trovas modernas – que se conservou como as antigas.
            Octasílabos: Versos que possuem 8 sílabas poéticas, como exembro, ainda de autoria de Drummond:
            “Ó/ so/li/dão/ do/ boi/ no/ cam/po,
            Ó/ so/li/dão/ do ho/mem/ na/ ru/a!
            En/tre/ car/tas,/ trens,/  te/le/fo/nes,
            En/tre/ gri/tos,/ o er/mo/ mais/ pro/fun/do”.
            Eneassílabos:  Versos que possuem 9 sílabas poéticas,  exemplicando com parte de um poema de Manuel Bandeira, seu livro de estreia “A Cinza da Horas”:
            “Eu/ fa/ço/ ver/sos/ co/mo/ quem/ cho/ra
            De/ de/sa/len/to.../ de/ de/sen/can/to...
            Fe/cha/ meu/ li/vro,/ se/ po/r a/go/ra
            Não/ tens/ mo/ti/vo/ ne/nhum/ de/ pran/to.”
            Decassílabos: Versos que possuem 10 sílabas poéticas, como neste primero quateto, do poema “Sensual Alice”, de autoria de Francisco Miguel de Moura:
            “Foi/ na/ cur/va/ da/ mi/nha/ me/ni/ni/ce,
            De/sa/guan/do/ na/ mi/nha/ ju/vem/tu/de,
            Que/ me/ vei/o à/ ca/be/ça/ es/ta/ vir/tu/de
            De/ te/ gra/var/ no/ co/ra/ção,/ A/li/ce”.      
            Outra observação: os Sonetos modernos, como os antigos, são quase sempre construídos em decassílabos.
            Hendecassílabos: Versos que contêm 11 sílabas poéticas, como em Gonçalves Dias, no poema “A Tempestade”:
            “Nos úl/ti/mos/ ci/mos/ dos/ mon/te/s er/gui/dos
            Já/ sil/va,/ já /ru/ge /do/ vem/to o/ pre/gão;
            Es/tor/cem/-se os/ le/ques/ dos/ ver/des/ pal/ma/res,
            Vol/tei/am, /re/bra/mam,/ dou/de/jam/ no/s a/res,
            A/té/ que/ las/ca/dos/ ba/quei/am /no /chão”.
            Uma terceira observação: Pelo ouvido, nota-se logo que o hendecassílabo se parte em dois versos de 5 sílabas cada um, principalmente nos grandes poetas como Gonçalves Dias, tornando-se assim bastante melodiosos.. 
            Dodecassílabos: Versos de 12 sílabas poéticas, também chamados de alexandrinos, como nos versos do soneto “Duas Almas”, de Alceu Wamosy:
            “Ó/ tu/ que/ vens/ de/ lon/ge,/ ó/ tu/ que/ vens/ can/sa/da,
            Em/tra, e/ so/b o /meu/ te/to em/com/tra/rás/ ca/ri/nho,
            Eu/ nun/ca/ fui/ a/ma/do e/ vi/vo/ tão/ so/zin/ho,
            Vi/ves/ so/zi/nha/ sem/pre e/ nun/ca/ fos/te a/ma/da”.

            Aqui vale uma observação importante sobre  a escansão do verso alexandrino, visto que ele se desdobra em 2 (dois) versos, sendo o primeiro de 6 (seis)  silabas e o segundo de 7 (sete) sílabas. Uma delas será cortada pela cesusa – ou seja, o encontro dos dois versos mediais, chamados de hemistíquios) quando uma das sílabas desaparece pelo encontro de vogais que se agregam  em forma de crase (sem acento), perfazendo o total das 12 (doze) sílabas normais. Quem não tem a capacidade de construir o alexandrino com o uso dos 2 (dois) hemistíquios para o efeito da censura, faz um verso que chamamos de pé quebrado, nada eufônico.

                                                                 ***
            Rítmo: É o  movimento medido e contado, no poema como na música.  Ele se obtém pelo estudo e uso de três fatores conjugados, na análise externa dos poemas, que são a  métrica, a cadência e a rima.   Partimos do exemplo do primeiro verso do soneto “Contraste”, do Pe. Antônio Tomás, “Quando partimos no vigor dos anos...”. É quando, ao declamá-lo, lendo ou apenas ouvindo, nota-se bem o altear e o baixar das vozes (indicadas em negrito), que são  contadas como eufonia num verso decassílabo, recaindo na 6ª, 8ª e 10ª sílabas (tônicas), deixando de ser contada apenas a do final do verso, pois não se contam as últimas sílabas quando são átonas (breves). Ritmo é, explicando mais claramente, a disposição das tônicas e das breves sílabas em cada verso.
            Métrica: Cada verso tem sua medida de tantas sílabas breves (átonas) tantas outras graves (tônicas)  entre aquelas que a compõem. Como já fizemos a escanção dos versos de l (uma) a 12 (doze), sílabas, passamos agora a indicar os acentos (tônicos) obrigatórios em cada verso poético da poesia em língua portuguesa.
            Monossílabos:  São versos que têm apenas uma sílaba acentuada, por ser única. Exempo: “amo/clamo/bebo/danço”(uma quadra em monossílabos).
             Pentassílabos: São os versos de 5 (cinco) sílabas, também chamados de Redondilha Menor, tal como os versos de Carlos Drummond de Andrade, que a seguir transcrevemos, inclusive com a indicação das sílabas tônicas:
                                “A/ma/r o /per/di/do
                                 dei/xa/ con/fun/di/do
                                 es/te/ co/ra/ção.
                                 Na/da/ po/de/ o ol/vi/do
                                 con/tra o/ sem/ sem/ti/do
                                  a pe/lo/ do/ não”.
            Septsílabos: São os versos de 7 (sete) sílabas, mais conhecidos como Redondilha Maior ou Trovas, que, por serem curtos e sonoros, são muito populares. Exemplo raso é o meu nome completo, Francisco Miguel de Moura, que é uma perfeita redondilha maior, tendo em vista cadência de três acentos poéticos: cis, guel e mou.
            Como foi dito no início deste ensaio, vamos dar mais ênfase às trovas, aos sonetos e aos haicais, pois estes tipos poéticos têm tido a preferência da poesia atual.             Comecemos com a trova, que se compõe em estofes apenas 4 versos, ou seja uma redondilha maior, porque em versos de 7 (sete) sílabas, cuja acentuação é obrigatória apenas na 7ª sílaba. Entretanto, para ficar mais completa em eufonia, mas também na 2ª  e na 5ª sílaba, como indicado acima, em meu nome completo:
                             “Se a/ vi/da/ tem/ tra/vo e/ tre/va,
                              A/ tro/va/ po/de/ ser/ cha/ma
                              Que a/pon/ta o/ ca/mi/nho e/ leva
                              Ao/ en/con/tro/ de/ quem/ a/ma!”                         
                                      (Maria Thereza Cavalheiro (in “Encontros e Desencontros”)
            Lembremos ainda que, no exemplo acima, não há uma só palavra proparoxítona, ou seja, palavras da língua porguesa que tenham mais de (3) três sílabas, pois elas não são muito eufônicas quando na poesia, salvo em casos muito especiais.
            Octassílabos: Têm obrigatoriedade de mais acentos noutras sílabas que não as da trova. Assim sendo, vejamos os acentos na 4ª. e na 8ª. sílabas do versos que copiei na Gramática Metódica, de Napoleão Mendes de Almeida, mas pode ter outra forma de cadência, como no segundo exemplo, com acetuação obrigatória na 2ª, 5ª e 8ª silabas poéticas:
a)     “No hor/ren/do/ pân/ta/no profundo”.
b)     Bem/ co/mo/ ser/pen/tes/ que o/ frio...”
            Eneassílabos: Tipo de versos que têm 9 sílabas poéticas, sendo que a acentuação das fortes (ou tônicas) recaem: a)   na 4ª. e na 9ª sílabas, no primeiro verso citado abaixo: b) como no segundo verso: nas 3ª, 6ª e 9ª, como assinalamos, primeiro exemplo, mas podem pegarem acentos diferentes, como no segundo verso escaneado:
                        a) “Noi/te/ de/ rosas, noite de palmas;
                        b) Ó guerreiros da tapa sagrada...”
            Decassílabos:  Tipo de versos que tem 10 sílabas, com acentuação obrigatória na, 6ª e 10ª sílabas ou na 8ª e 10ª. Mas comporta também outras variações de rítimo como anotadas depois de cada verso do soneto a seguir:  na 6ª e 10ª sílabas, ou na  4ª, 8ª e 10ª, a seguir:
      “Foi/ na/ que/da/ da/ mi/nha/ me/ni/nice – 3ª, 6ª e 10ª sílabas poéticas
      De/s a/guan/do/ na/ mi/nha/ ju/vem/tu/de – 3ª, 6ª e 10ª idem
      Que/ me/ vei/o à/ ca/be/ça es/ta vir/tu/de – 4ª, 6ª e 10ª
      De/ te/ gra/var no/ co/ra/ção, A/lice.– 4ª, 8ª e 10º .       
                 
      Tu brin/ca/vas/ na/ prai/a, on/das/ sal/ga/das - 3ª,  6ª e 10ª  sílabas
                        Vi/nham/ que, brar/-se/ nos/ teus/ pés,/ sem/ pe/jo.- 4ª, 8ª e 10ª, sílabas
                        A/pro/vei/tar/ meu/ pre/ma/tu/ro em/se/jo – 4ª, 6ª e 10ª sílabas     
                        Se/ri/a um/ céu/. Per/di/ tu/as/ pe/ga/das...” – 4ª, 6ª e 10ª sílabas.
                                                             ( Francisco Miguel de Moura, in “Areis”,1966).
            Endecassílabos: Versos de 11 sílabas poéticas, tem acento da seguinte forma:
                        “No/ meio/ das/ ta/bas/ de/ a/me/nos verdores – 4ª, 8ª e 11ª  sílabas
                        Cer/ca/dos/ de/ tron/cos/ – co/ber/tos/ de/ flo/res – 2º, 5º, 8º e 11º sílsbas
                        Al/tei/am-/se os/ tec/tos/ d’al/ti/va na/ção –  idem
                        São/ mui/tos/ seus/ fi/lhos,/ no/s â/nimos for/tes – ídem
                        Te/mí/veis/ na/ guer/ra,/ que/ em/ den/sas/ co/ortes - idem
                        As/som/bram/ das/ ma/tas/ a i/men/sa ex/tem/ção” –  idem
                                                       (Gonçalves Dias, 1ª sextilha, do “I-Juca-Pirama”)           
            Observamos que os endecassílabos se dividem claramente em dois versos de 5(cinco) sílabas poéticas cada um, tornando o poema bastante melodioso, digamos mesmo – cantante.
            Dodecassílabos: Versos de 12 (doze) sílabas poéticas, também chamados de alexandrinos, são os versos mais difíceis para escansão. O soneto “Duas Almas”, de Alceu Wamosy, é nosso primeiro exemplo. Devem ser indicadas todas as sílabas
poéticas e também quais as tônicas, ou sejam, acentuações obrigatórias, na 1ª e/ou 2ª, 6ª, 10ª e 12ª sílabas poéticas, o que não impede que tenha outras tônicas, por exemplo, na 2ª, 4ª, 6ª, 10ª e 12ª :  
            “Ó/ tu/ que/ vens/ de/ lon/ge,/ ó/ tu/ que/ vens/ can/sa/da -
            En/tra, e/ so/b o /meu/ te/to em/com/tra/rás/ ca/ri/nho,
            Eu/ nun/ca/ fui/ a/ma/do e/ vi/vo/ tão/ so/zin/ho,
            Vi/ves/ so/zi/nha/ sem/pre e/ nun/ca/ fos/te a/ma/da”.
            Vejamos agora a observação interessante, para a escansão do alexandrino, usando apenas o nome Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac -  nome completo do Príncipe dos Poetas Brasileiros: – A acentuações das tônicas marcadas nas sílabas 2ª, 4ª, 6ª, 10ª e 12ª, deparamo-nos, pela escansão, com um alexandrino perfeito, cadênciado, que se desdobra em dois hemistíquios, ou seja, dois  versos com 6 (seis) sílabas poéticas cada um, em cujo encontro dos dois há uma distinta separação sonora chamada denominada cesura. Indicamos, sublinhados, os hesmistíquios da estrofe acima, ou seja, onde há cesura ou separação dos dois versos de 6 sílabas, tal como nesta estrofe abaixo:
            “/tria,/ la/te/jo/ em/ ti/ no/ teu lenho, po/r on/de
            Cir/cu/lo! e/ sou/ per/fu/me, e /som/bra, e/ sol,/ e or/valho!
            E, em/ sei/va, ao/ teu/ cla/mo/r a/ mi/nha/ voz/ res/ponde,
            E/ su/bo/ do/ teu/ cer/ne ao/ céu/ de/ ga/lho em/ galho”!
                                                                                 (Olavo Bilac, in “Pátria”)
            As cesuras e os hemistíquios dos versos de 12 sílabas acima também chamados de alexandrinos, no exemplo do soneto “Pátria”, de Olavo Bilac, estão em negrito, como indicado; mas são apenas  alexandrinos comuuns.  Os alexandrinos mais completos recebem acentuações outras, cujas explicações se tornam desnecessárias.
            Completamos o assunto dodecassílabos com a observação que alguém fez ao escritor português, Antônio Feliciano de Castilho: “se o alexandrino se compõe de 2 versos de 6 sílabas, então não é preciso fazer alexandrinos; basta compor 2 versos de 6 sílabas”. Castilho respendeu de pronto: “É verdade, mas o alexandrino tem mais imponência, mais brilho. Assim, quando temos muita sede, preferimos beber um só copo grande de água a beber dois pequenos”.
            Napoleão Mendes de Almeida, nosso gramático preferido, acrescenta mais três regras para que o alexandrino seja considerado clássico:
            a) quando o primeiro hemistíquio termina por palavra paroxítona, a palavra que inicia o segundo hemistíquio deve começar por vogal ou h mudo;
            b) quando a última palavra do primeiro hemistíquio é oxítona, a primeira do segundo pode indiferentemente começar por vogal ou consoante;
            c) a última palavra do primeiro hemistíquio nunca pode ser proparoxítona.
            Assim, notamos que a partir dos versos octassílabos é que a sonorização fica mais complicada, por isto mesmo são os versos mais belos, mais clássicos. Os poetas modernos, para se salvarem da escansão, preferem os versos menores, ou então os chamos versos livres, de mais de 12 (doze) sílabas. Eu disse: preferem. Não significa que não produzam trovas, haicais, sonetos e muitas outras espécies líricas.
            Cadência: Como já vimos acima,  a cadência caracteriza-se pela alternância de vozes breves e longas dentro de cada verso, justamente para dar ênfase às altas vozes (tônicas), ou seja aos acento obrigatórios, como acima mencionados, e queda nas baixas (átonas) vozes.          
            Rima - O que é rima? São os sons iguais, de dois versos, na sílaba poética final de cada um. E isto requer um ordenamento igual, no fim da estrofe, sejam em rimas cruzadas ou intercaladas, ou em outros tipos de rima que indicaremos a seguir:
            a) quanto à fonética: perfeita, consoante, imperfeita, toante ou assonante;
            b) quanto ao valor: rica, pobre, rara e preciosa;
            c) quanto à acentuação: aguda (ou masculina), grave (ou feminina) e exdrúxula;                 d) quanto à posição na estrofe; alternadas (ou cruzadas), emparelhadas (ou paralelas), interpoladas (ou  intercaladas), encadeadas, mistas e versos brancos (ou soltos).
            Vamos dar poucos exemplos, pois, como já dissemos que o valor da rima, no poema, é mínimo. Mas quando  o autor se propõe a usá-la deve ser bem usada. Peguemos um soneto, sem nome, moderníssimo, do grande poeta Sérgio Campos, prematuramente falecido, que usou rimas cruzadas, sendo que o primeiro e terceiro versos são com rimas toantes ou soantes, enquanto que  o segundo com o quarto versos têm rima perfeita:
                        “A vida não calou a pera amarga - A
                        e o que era amargo fez-se feio e frio- B
                        e o frio se lançou como quem crava - A
                        seu último punhal contra o vazio” – B
            Vamos ver agora outro exemplo de rimas diferentes das que apontamos acima, através deste quarteto de minha autoria, no soneto “Essa chuva”, em que aparecem rimas intercaladas: B e B, que também são chamadas de agudas, por ter a terminação em sílaba oxítona e não paroxítona como as de referênica A e A
                        “Essa chuva a bater no meu telhado, - A
                        Pelas bicas descendo em borbotão, - B
                        Tangida a raio, a ronco de trovão,  - B
                        Dá-me um sono tranquilo e temperado.”- A
            Agora vamos mostrar exemplo de rimas ricas com com versos meus no soneto “O tempo existe”.  Todas as rimas deste quarteto são ricas, pois que elas têm categorias gramaticais diferentes, ou seja verbo com substantivo (A e A) e  verbo com adjetivo (B e B). Está escrito que as rimas pobres são de categorias gramaticais iguais: verbo com verbo, substantivo com substantivo etc. tal como não acontecem neste quarteto de minha autoria, conforme soneto “O tempo existe”:
                        “Existe mais: um tempo em que sorrimos, - A
                        Diferente do tempo em que chorou-se,- B
                        E um tempo neutro: nem amaro ou doce. -B
                        Tempos alheios, nem sequer são primos!” – A
            Aproveitamos, o exemplo acima, para acrescentar que há duas licenças poéticas, neste quarteto, ou seja o deslocamento do pronome se para no final do verbo, enquanto pela regra gramatical seria antes do verbo, por causa do conectivo que, pelo fenômeno da atração; e também amaro por amago.
            Licenças poéticas – São algumas margens de liberdade consentidas ao poeta para que torne o verso mais agradável, seja por causa do metro, rima, estrofação,  ritmo, entre outros itens, tudo para embelezar o verso sem, no entanto, torná-lo obscuro.           
A rima pode melhorar ou piorar o poema, depende do conhecimento, habilidade e criatividade do autor, bem como a diversidade de sons de vocábulos rimantes. Há até dicionários de rimas, mas este tipo de obra não chega a ser urgente para o trabalho do poeta, visto que, muitas vezes os versos não rimados satisfazem bem ao ouvido e aos olhos.  Rima é  um adereço, um enfeite do verso, usada com sabedoria. Pode haver e há muitos poemas sem rima. As repetições de um ou mais sons dentro do poema é outro enfeite, mas pode enfeiá-lo, depende da maestria do poeta. Nem rimas nem repetições de sons ou mesmo de versos são necessários, Só podem ser usadas quando houver conveniência, para o tipo poema, como os hinos, por exemplo. Estes adereços, quando sabiamente dispostos embelezam e enriquecem o texto.
            As variações de sons vocais em cada um poema podem torná-lo melhor para ouvido interno ou externo. Nosso ouvido interno deve ficar bem apurado quando praticamos os versos, lendo em voz alta ou baixa (que significa em silêncio).
            Ainda sobre a rima: -
            1 –  Rima não é uma necessidade poética: pode haver qualquer tipo de rimas diferentes das que já foram  apontadas
             2 – Qualquer rima é normal tanto na poesia clássica  e até na moderna, quanto na popular.
             3 -  O que não pode haver é erro gramatical, salvo quando o poeta o usa como lencença poeta, usando-o conscientemente, como exceção e não como regra.
            Entretanto, além das licenças poéticas, muito além, vem a substância da linguagem que está nas comparações, imagens, metáforas, sinestesias e cenestesias, hipérboles, símbolos, catacreses, sinédoques, metonímias – chamada,  figuras ou tropos – que só se aprendem na leitura das boas antologias, onde figuram os grandes poetas.
            Poesia tem linguagem cifrada, porém de forma que chegue à inteligência dos leitores. A poesia é diferente da linguagem comum, as palavras, as frases, os versos adquirem novas formas e novas substâncias. Para o encontro dessa linguagem  cifrada podemos levantar mais as seguintes normas:   a) não usar advérbios termomnados em mente, salvo em situações muito exdrúxulas como já fizemos com o exemplo de “australopitecamente”, por mim usado no penúltimo poema de “Poesia in Completa”, denominado “Sem nome – poema”; b) entre o uso dois adjetivos, corte os dois, lembando sempre que no poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, onde não há nenhum adjetivo; c) entre os verbos no passado e no presente é melhor escolher o presente; d) entre o uso do plural e do singular, escolha este, pois que o úno é mais universal;  e) entre o simples e o composto, escolha o simples;  g) elimine todas as palavras  denecessárias e sem substância - neste ponto inclui-se o uso do pronome oblíquo e se excluem as repetições necessárias que dão ênfase ao poema; h) claro que todas as regras têm exceção e só devem ser seguidas quando forem úteis à força do poema e  não deixem dúvidas quanto à clareza do verso.

                                               Trova, soneto e haicai

            A trova vem do início de nossa língua, quando até os reis e príncipes se tornaram trovadores, misturando-se com as cantigas de bem de dizer, de mal dizer, entre outras outras.  Inicialmente era usado com música, depois ganhou corpo e tornou-se esta forma tão popular que é.
            Já o soneto, segundo os historiadores, é uma forma lírica criada pelo siciliano Giacomo da Lentini, do século XII, e daí por diante granhou fama e todos os grandes poetas o praticaram.
            De longe, as duas formas poéticas mais comuns, na literatura, são a trova e o soneto, por isto, vamos nos deter mais um pouco sobre elas.
            Trova - Comecemos com a trova, citando a exemplar sobre o assunto, de autoria do poeta Adelmar Tavares, cuja escansão já mostrada nos versos de 7 sílabas, heptassílabos, também chamados de redondilha maior, cuja estrofação correta é ABAB:           
                                          “Ó/ lin/da/ tro/va/ per/fei/ta  
                                          Que/ nos/ dá/ tan/to/ pra/zer!
                                          Tão/ fá/cil/ de/pois/ de/ fei/ta,
                                           Tão/ di/fí/cil/ de/ fa/zer!”
             Trata-se de uma trova perfeita, versos de 7 (sete) sílabas, rimas ricas, com acentuação mais do que sonoras, pois poderia ter acento apenas a última sílaba poética. É como eu digo: quanto mais sílabas acentuadas houver no verso, mais nos aproximamos da contagem dos vesos gregos e latinas, pela alternâncias sons fortes e sons fracos.  Quem quiser saber mais sobre a trova deve ler o livro “Tovas ara Refletir”,  de Maria Thereza Cavalheiro,  também uma mestra na matéria.       
            Por nossa vez, dizemos que podem ocorrer muitas variações no gênero trova, especialmente no que refere à rima, como aconteceu com  Castro Alves, no poema “O gondoleiro do Amor” o grande poeta brasileiro, que começa e vai até o fim assim:
                                          “Teus olhos são negros, negros,
                                          Como as noites sem luar...
                                          São ardentes são profundos,
                                           Como o negrume do mar.”
             Ou ainda pode ser como esta de Mário de Sá Carneiro (1890-1916), poeta português, com as rimas diferentes: o primeiro com o último verso e o segundo e terceiro fazendo uma parelha, ou sja rimados
                                          “Perdi-me dentro de mim
                                           Porque eu era labirinto,
                                            E hoje quando me sinto,
                                           É com saudades de mim.”
            Mesmo assim, ainda há outros tipos de trovas, conforme a rima e até trovas sem rima, pois este tipo de poema, sendo muito popular, alguns modernistas se lançam a ela, mostrando que a rima não indica nada, é apenas enfeite sonoro que pode ser alcançado de outra maneira. Exemplo: uma trova inédita, de minha autoria, com apenas uma rima, isto é terceira com a quarta:                                 
                                           “Pelas horas desfiladas
                                           No branco leito dos dias,
                                            Medimos nossas tristezas
                                            E também as alegrias.”
            Por último, encontramos a trova sem rima, de autoria do poeta Mário de Andrade, já no modernismo:
                                          “Sou um escritor difícil,
                                          Porém culpa de quem é?...
                                          Todo difícil é fácil
                                           Abasta a gente saber”.
            Note-se uma licença poética, denominada prótese: o acréscimo da letra A à palavra basta, para que realmente o verso ficasse perfeito, com 5 sílabas, pois que é uma trova. Mas os acréscimos podem vir também no meio ou no começo da palavra, tal com as supressões de vogais e eliminação de consoantes, tando no meio, no fim, ou no começo da palavra.
            Soneto:  Vamos à  análise de um soneto, uma das espécies líricas mais usadas. E quando o escolho é porque ainda se frequentam outras menores como a trova e o haicai. Partimos de um soneto da minha lavra, inédito. Além de inédito, ele se coaduna bem com a forma mais geral da poesia clássica. Inicialmente vem o primeiro quarteto com as tônicas acentuadas para a cadência e harmonia de sons:
                        “Já/mais/ foi/ fá/cil/ ter/mi/nar/ quar/te tos
                        Sem/ sa/ber/ do/ so/ne/to os/ se/gui/men/tos           
                        Mais/ di/fí/cil/ quan/do ar/dem/ sem/ti/men/tos
                        En/car/ce/ra/dos/ na al/ma/ dos/ ter/ce/tos”.
              Nosso soneto denominado “A lição do soneto” vai a seguir completado, pois que o leitor pode muito bem dar continuação à escanção:
                        “Jamais foi fácil terminar quartetos
                        Sem saber do soneto os seguimentos
                        Mais difícil quando ardem sentimentos
                        Encarcerados na alma dos tercetos.

                        Se o iniciante ouvisse o sofrimento
                        Do desafio, a construção difícil,
                        Não ficaria em vão terreno físsil,
                        Com nojo do soneto e seu tormento.

                        Fazê-lo é fácil, sim, no compromisso
                        De ouvir e ver, amando o movimento,
                        E em cada “lá maior” cantando o viço.

                        Sem a prima lição, perde-se o mastro
                        E o poeta se enlaça em pé-de-vento,
                        Fracassado no “dó” de um poetastro.”

            Notamos, na escansão do primeiro quarteto, um fenômeno muito comum na contagem sílabas dos versos; a crase de vogal final de uma sílaba é seguida palavra começada em vogal: qundo ardem e na alma. As vogais juntam as sílabas poética em uma só. Também pode dar-se o contrário, como na palavra seguimento, que, pelo dicionário seria segmento, mas poeta abandona esta ideía, acrescentando o grupo vocálico gu, donde surge a palavra seguimento, para dar melhor sentido ao substantivo gerado diretamente no verbo seguir. Licença poética ou não, o certo que a palavra seguimento no poema, cria alma nova, uma criação poética, sem dúvida.  Existe também o caso de transformar um ditongo em hiato, como no caso da palavra saudade, transformada em sa/u/da/de, como neste verso do grande poeta José Albano: “E / só/ com/ sa/u/da/des/ me/ a/tor/men/to”.  
            Análise: Trata-se de um soneto em decassílabos, com rimas do tipo A-B-B-A, nos dois quartetos; já nos dois tercetos, tem rimas do tipo A-B-A,  sendo que ficam rimas cruzadas nos tercetos, ou seja, rimando as palavras movimento com pé-de-vento. É o típico soneto clássico, com rimas amarradas nos tercetos. Os acentos caem nas sílabas indicadas do primeiro quarteto, ficando o resto dos versos para serem experimentados pelos querem iniciar-se na escanção.
            Haicai -Finalmente chegamos ao haicai, uma forma de poema lírico que a literatura brasileira acolheu, tendo origem japonesa, onde tem o nome de haiku. Originalmente é uma forma de poesia curta, caracteriza-se pela seguinte composição: Estrofe de 3 versos, sendo o primeio e o terceiro de 5 sílabas poéticas, o segundo, com 7 sílabas, não podendo ultrapassar as 17 sílabas poéticas. Não precisa necessariamente ter rimas, mas quem quer pode usá-las. Geralmente, o haicai busca a natureza como tema.   No Brasil, o grande divulgador da forma haicai foi o poeta Gulherme de Almeida, por isto é o modelo. Historicamente a forma foi usada pelos  cortesãos e aristocratas, lá pelo séculos VIII a XI. Depois se espalhando pelo mundo pela belza que encerra. Na forma se parece muito com o epigrama, outra forma poética cutra. Na essência, busca a irregularidade cíclica da natureza “Por outro lado, as 17 sílabas parecem equivaler  a uma emissão de fôlego, emanação da própria alma, ou atestam, no jogo de cinco-sete-cinco, os três momentos da vida humana: ascenção-apogeu-decadência”, conforme “Dicionário de Termos Literários, de Massaud Moisés”. O referido decionário mostra um haicaI de autoria de Matsu Basho, este em tradução livre:
                                   “Noite de primavera:
                                   As cerejeiras! Para elas
                                   A aurora desponta!”
          Agora um exemplo de haicai de Guilherme de Almeida:
                                   “Chão humilde. Então
                                    Riscou a sombra de um voo.
                                   “Sou céu!” disse o chão”.
            Poesia Popular (Cordel): - Como prometi falar sobre a poesia popular,  aqui vai um pouco. Deixo de lado as populares cantigas, que nada mais são do que trovas ou quadras, das quais já falamos e exemplificamos noutra parte.
            Poesia popular é, geralmente, um tipo de poesia feita pelos poetas improvisadores e pelos cordelistas, espécie de letritas das músicas simples que são cantadas  nas praças, feiras e até em auditórias e academias. É bom saber que, assim como existem acacademias de letras, também há muitas de trovas e de violeiros, gente inteligentíssima como Patativa do Assaré, Pedro Costa, Miguel Guarani e muitos outros. Há também a poesia da música popular, poemas gravados até em gravadoras oficiais do mercado, como outras que são livres, que apelidamos de domésticas.
            Porém, duas coisas importantes devemos notar: 1ª – toda poesia popular tem rima; 2ª – as sílabas são contadas não como nos poetas clássicos, mas pelas sílabas gramaticais simplemente. Alguns bem letrados como meu pai, Miguel Guarani, não caem constante em muitos erros gramaticais  e de métrica.
            Sendo assim, quando nós, poetas cultos ou clássicos, lemos os versos populares dizemos que tais versos estão de pés quebados, ou seja, não têm a quantidade de sílbas poéticas para fechar o verso, seja de 7 sílasbas (heptassílabos), seja de 10 (decassílabos), que são os mais comuns na literatura popular.  
            Quanto à forma das estrofes e à quantidade de sílabas nos versos, referimos à sextilha, à oitava e à décima, que são as mais comuns. O primeiro exemplos é uma sextilha de Pedro Costa, inserida na revista “De Repente”, onde encontramos o erro gramatical no emprego do verbo dar, que não devia estar no infinito, mas sim no presente do indicativo, ou seja, o correto seria “dá”:
             Sextilhas:
                                “Democracia não dar
                                 Liderança vitalícia
                                 O ex-presidente Lula
                                 Tornou-se alvo de notícia
                                 Denegrindo sua imagem
                                 Virou caso de polícia.”
                                               ”.
            Apresentemos mais outra sextilha, para que os leitores compreendam o que vem a ser verso de pé-quebrado. Embora tudo pareça muito certinho, a  estrofe do cordel “Francisco Soares – sempre alegre, nunca prantos”, contém um  verso de pé-quebrado,  ou seja o verso que contém  erro de mética, o qual foi assinalado:
                                “Preste bastante atenção
                                Nesta bela narrativa,
                                Uma história de garra
                                Com labuta muito ativa,
                                 De um cidadão que venceu
                                 Na seara educativa.”
            Nesta segunda sextilha analisamos, que suas rimas também são comuns (o contrário de rimas ricas). E mais: vemos que elas na acontecem na 1ª,  2ª, 4ª e 6ª sílabas, como na sextilha anterior:
                                      “Certo dia no meu Sertão
                                       Fazendo uma caçada
                                       Encontrei um pica-pau
                                        Que de forma educada
                                        Me cumprimentou dizendo:
                                        Como vai camarada?”
                                                            (Jucivaldo Dias, in “ De Repente”)                                                                                                          
            Trata-se de um “repente” onde se encontram 4 versos de pés-quebrados: 1º, 2º, 4º e o 6º, cujas sílabas foram contadas (ou cantadas) na medida gramatical e não metrica clássica. É um vício que os poetas populares têm: - não sabem fazer a separação das sílabas poéticas, cujos vagos são preenchidos por um esticamento sonoro.
            É assim que a poesia pode transformar-se em não-poesia, a falta de métrica,  mesmo que o conteúdo esteja contido na forma que o poeta elegeu e não seja muito banal. A rima somente não faz o poema, nem a técnica. É preciso que haja a união da duas coisas.
            Agora vem uma estrofe de oito versos rimados, mas livres, quero dizer, sem métrica, sem regularidade na quantidade de sílabas nos versos, de autoria de Marina Maria de Sousa Carvalho, colhida na antologia “Romanceiro dos Versejadores e Repentistas de Jenipapeiro”, org. pelo escritor João Bosco da Silva:
            Oitavas ou quadrão):
                                   “A noite é sombria
                                   Mas logo a luz vem
                                   Não temas essa sombra
                                   Tudo vai ficar bem
                                    O choro alivia
                                   As lágrimas fazem bem
                                   Porque choras agora,
                                   Se a beleza da vida você tem?”
            Décimas: Exemplo de estrofe dez sílabas, em versos decassílabos, colhida na revista “De Repente”, de autoria de Pedro Costa:
                                    “Os poetas cantores da saudade
                                   Da tristeza, alegria e das paixões
                                    Eles têm motivo e mil razões
                                    De expressar o valor da liberdade
                                   Que nos levam para a felicidade
                                   É a grandeza da nossa existência
                                   A poesia nos enche de beleza
                                    Como Deus moldou a natureza
                                    Aos poetas lhe deu inteligência.
            Sublinhamos os dois últimos versos para indicar que a falta da métrica no 9º  e o erro gramatical 10º são características da poesia popular.
            Aqui não pretendemos encerrar o assunto, que é  muito vasto,  mas dizemos que a poesia populsr é muito rica e enriquece a vida das populações mais pobres, muitas vezes analfabetas, com histórias, elogios, críticas e até doutrinas. Por isto não pode ser desprezada.
            Se neste ensaio não agradei a todos os leitores, peço que me perdoem. Não tenho condição didática de apontar tudo, exemplificar tudo. Assim, resta consultarem nossa biobibliografia, onde se abeberá de mais saber e mais beleza. Pois que a poesia é uma das mais ricas fontes de beleza e sabedoria.
                          
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