quinta-feira, 26 de novembro de 2009

BIOGRAFIA - MESTRE MIGUEL GUARANI


UMA BIOGRAFIA:
MIGUEL GUARANI


Francisco Miguel de Moura* (Chico Miguel)
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Biografia é a história de uma vida. Toda biografia é também um romance, dependendo do desenvolvimento que o escritor quis dar. E os romances comportam no mínimo quatro dimensões: espaço, tempo, imaginação e fatos.

Aqui e agora começa a biografia do mestre Miguel Borges de Moura, que depois, em virtude de sua atividade de violeiro, passou a ser mais conhecido como Miguel Guarani.

Miguel Guarani nasceu no Diogo, um lugarejo da fazenda Jenipapeiro, hoje município de Francisco Santos, Piauí, no dia 18 de maio de 1910. Não se sabe se foi uma festa ou não quando nasceu o segundo filho (e o primeiro varão) do casal Feliciano Borges de Moura/ Rosa Maria da Conceição, pais de Miguel. Comumente no Nordeste o é.

Como era o Diogo de então? À margem do rio, para o lado do norte subia um planalto que chamavam de “Serra” ou “Gerais” onde fazia limite com o Ceará. Atravessado pela estrada real que vinha do povoado Jenipapeiro e corria para o sul, no rumo de Picos, passando antes por Rodeador, Bocaina, Sussuapara, era a única via de comunicação com o mundo, porém apenas para pessoas e animais. Nem mesmo por carro de boi podia ser percorrida, em virtude do areal tremendo na maioria do seu percurso. O solo sáfaro, cansado de tanto sofrer queimadas, composto de areia, lajedos, cascalhos, quase nada fornecia à agricultura que não fosse um pé de mandioca, feijão, abóbora, melancia para subsistência. Somente quando Sinhô do Diogo subiu a “Serra” e chegou aos “Gerais” foi que encontrou melhores terras e a agricultura prosperou. A renda maior era tirada da vazante do rio, onde se plantava, na estação seca. Na formação da terra do Diogo havia caldeirões que durante a estação chuvosa serviam para os bichos beberem mais perto – a fonte principal era o Rio Riachão – e os meninos tomarem banho. Miguel deve ter tomado banho nessas águas frias e gostosas do começo do inverno como todos os meninos de sua época. Porém, por pouco tempo, que a sua infância foi curta: O trabalho da roça e, agora, as letras, o absorviam.

No mais, o Diogo era só moitas de mofumbo, pequiá, catingueiras, imbuzeiros (com cujos frutos a garotada fazia a festa nas primeiras águas), juremas, marmeleiros, macambira, xiquexique e arbustos sem muito valor. No inverno enverdeciam, na estação seca secavam, tinham a cor cinza. Para se ver a cor verde era necessário olhar para os juazeiros e carnaubeiras, nos longes da beira do rio. Não havia nenhuma árvore grande no quintal nem na frente da casa grande de Feliciano (Sinhô do Diogo). Havia uma “latada” coberta de folhas de oiticica, complemento comum das habitações naquele tempo.

Os filhos do casal Feliciano/Rosa foram nascendo um atrás do outro, chegaram a dez. Uma família e tanto. Sinhô do Diogo, não podendo contratar um mestre-escola para ensinar aos filhos em casa, alfabetizou o mais velho dos varões, Miguel Guarani, que depois se tornaria o professor dos irmãos e irmãs. E assim se fez o começo do que viria ser o maior e mais conhecido mestre-escola da redondeza de Picos.


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Uma bela manhã de verão Sinhô do Diogo começa a executar seu plano de fazer de Miguel, o mais franzino dos filhos, um professor. Pega a carta de ABC, passa-lhe a tarefa.

– Quando eu chegar da roça, quero ver o que aprendeu.

À noite, Sinhô chega e chama o filho. Pede-lhe conta da lição, como havia prometido. Para sua surpresa, o menino – devia ter entre 6 ou 8 anos – soube todas as letras do ABC na carretilha. Examinadas uma a uma e salteadas, reconheceu todas. Sinhô animou-se. Nos dias seguintes passou-lhe a “carta de sílabas”, a “de nomes...” E em menos de um mês a leitura ia desembaraçada, lia uma carta e desenhava outra. Depois Miguel enfrentaria a “carta de tabuada” – somar e multiplicar, com a mesma inteligência, sem fazer corpo mole. Nem podia. A disciplina do velho era dura. Se não desse para as letras ia para o cabo da enxada, da foice e do machado, na derruba do mato para o plantio de mandioca, na “Serra”, de sol a sol.

Mas não só de trabalho era a vida do velho Sinhô. Gostava de festas. Aniversários, batizados, casamentos... Festas de arromba. Muito leitão gordo era abatido. As mulheres da casa preparavam os quitutes, faziam o chouriço (um doce preparado de farinha com o sangue do porco, temperado com toucinho e outros temperos), uma das comidas mais gostosas do Nordeste. Havia danças também. O Diogo conheceu dias felizes quando Sinhô descobriu e começou a explorar os “Gerais”, estabelecendo roças no lugar “Caldeirões”. Os invernos eram bons, o rio botava água no inverno; na seca, no seu leito plantavam-se vazantes de alho, cebola e batata – produtos de mercado, de onde se apurava dinheiro na feira de Picos, aonde se ia também comprar as fazendas (tecidos), roupas, chinelos, sapatos, chapéus, e outras mercadorias. Cada viagem dessas a Picos, em lombo de animais, era uma odisséia. Contavam-se histórias fabulosas aos filhos, sobrinhos e netos.

Assim era o Diogo daquele tempo, onde passou Miguel sua infância, adolescência e mocidade, também indo a festas como os rapazes e moças da época, com toda descrição e o cuidado dos pais. Principalmente as moças.

Sinhô do Digo teve uma filha fora do casamento, de nome Anísia, conhecida como Anisinha, homenagem a Anísia Rosa de Moura, filha do casal. Havia, então, se tornado senhor do Diogo, literalmente, aonde chegara ainda rapazinho e se, casara com Rosa, uma das filhas de Quincas Chaves: O maior proprietário das terras, o maior lavrador e muito benquisto. Diferentemente dos demais proprietários locais, que reservavam as moças para os serviços de casa, ficando para os homens as tarefas pesadas da roça, ele colocou todas (eram seis) no eito.

Só no começo da vida Sinhô do Diogo não criou gado. Criava porco, cabras, ovelhas e outros bichos miúdos. Se muito, possuiu uma ou duas vacas leiteiras para o consumo da família. Gostava de caçar e sua casa era abastecida de carne de caitetu, tatu, onça, tamanduá e outros animais da floresta dos arredores ou mais distantes.

Era assim o Diogo de Sinhô e de Miguel Guarani.


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Ninguém sabia porque Miguel Guarani, nascido no “Diogo”, onde moravam seus pais e seus irmãos, fora morar, depois do casamento, numa casinha que construiu no lugar “Curral Novo”, perto do povoado Jenipapeiro. Casinha de taipa e telhas, de uma única porta no único quarto. O resto era um alpendre que servia de sala, copa, e, talvez de mais outras funções. A cozinha, um alpendre menor, dava para o cercado ao lado. Situada entre catingas-de-porco, velames, cipós, mofumbos, urtigas, croás, macambiras, xiquexiques e “favelas”, a maioria dessa flora era de arbustos muito espinhentos. Ali a família morou por cerca de 5 anos e, a partir daí, Mestre Miguel torna-se uma espécie de andarilho, gostava muito de mudar-se. Ou a isto se via obrigado.
Quando casou Josefa Maria de Sousa (Zefa de Chico Ana), de família pobre mas tradicional na região, era órfã de pai e mãe e possuidora daquele pedaço de terreno estéril à beira dum riacho também seco na seca, e somente no inverno, quando chovia muito, via água. Era bonito para os olhos dos meninos, pois feito de pedras de altitudes diferentes por onde as águas desciam em cachoeiras. O leitor “não se vexe não” como diz o baiano. Água era só por um ou dois dias no ano. Os imbus, que dão nas primeiras chuvas, normalmente em janeiro, eram uma festa para o estômago da garotada. Depois sobrevinha a terrível estação das secas, permanecendo verdes apenas os juazeiros da beira do rio e alguns paus-ferros para comida das cabras. Além do terreno onde Miguel levantou a casa acima, havia uma roça no baixão, também pequena, de produção limitada de milho, feijão, abóbora e melancia. Acabado o inverno, acabava a fartura. Quem plantava na “Serra”, teria a mandioca para fazer farinha e tapioca, para comer e vender para comprar roupas e chinelos, sapatos e redes, e outros pertences como pente, sabão, querosene para a lamparina, e acho que só.

Quem não plantava mandioca na “Serra”, tinha a vazante no rio, plantio de alho e cebola, um trabalho muito duro, penoso. O resultado, nalguns anos, dava mais ou menos para comprar os alimentos que faltavam; noutros, perdia-se tudo com a enxurrada extemporânea do rio Riachão de setembro/outubro. Perdia-se “tudo o que Marta fiou” e ficava-se no “ora, vejam!”.

Para suprir as necessidades da seca, Miguel trabalhava nas “desmanchas” (farinhadas) como forneiro. Era sua especialidade torrar a massa de mandioca no forno para transformar-se em farinha. Era o trabalho mais leve, que merece uma certa “ciência”, cousas que bem se adaptavam ao perfil de trabalhador que tinha. Passava nesse trabalho dois/três meses, quando não pisava em casa, não obstante os reclamos de D. Zefa de Chico Ana, ou, para outros, Zefa de Miguel. Depois, era mesmo apelar para o trabalho de escola, na casa dos fazendeiros.

Conforme depoimentos da própria Josefa Maria de Sousa, que fazia nas suas conversas uma separação entre os seus parentes (irmãos, cunhados, primos) e os de Miguel de Sinhô, seu povo não consentia no casamento dela – a mais nova da família – se Miguel não resolvesse a morar perto deles.

E foi o que aconteceu.


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Cedo Miguel toma outro rumo na sua vida de trabalhador braçal, torna-se mestre-escola, em virtude de sua inteligência reconhecida pelo pai e pelos irmãos, pelos parentes e conhecidos do Diogo. Então é preciso, desde logo, registrar sua vida de mestre, a profissão que, bem ou mal, lhe deu o sustento e à família.

Cantorias, só a partir do princípio dos anos 1940 – não é possível precisar bem o ano – ele realizava-as esporadicamente, quando aparecia um parceiro em sua casa. Nunca saiu de viola em punho, em busca de cantoria. Saía, sim, em busca de alunos – pequenos e grandes – para alfabetizar e ensinar os primeiros rudimentos da aritmética. Conhecia as lições de Antônio Trajando do princípio ao fim, ou seja, a Aritmética Elementar. Com o passar dos anos, Miguel Guarani foi-se aperfeiçoando, quer por conta própria, quer procurando pessoas mais experientes, e já na idade madura destrinchava também a Aritmética Progressiva, passo mais avançado do Prof. Antônio Trajano.

Anos e anos lecionou em casas e fazendas, aonde era chamado, em toda a redondeza de Picos (de Itainópolis a Alagoinhas, de Jenipapeiro às Guaribas e até muito pra lá, no sertão de serras planas já limítrofes com Valença e Pimenteiras). Só em 1941 passou a lecionar por conta da Prefeitura Municipal de Picos, recebendo salário. Mas, como não possuía os documentos de reservista (do Exército), fazia esse trabalho em nome de sua irmã, Adélia Rosa de Moura, legalmente a professora. Ele nunca se incomodou com essas bobagens da burocracia, vindo a pagar caro por isto no futuro.

Assim continuou trabalhando no nome de sua irmã por algum tempo, Não pode o pesquisador precisar o ano em que realmente recebeu seu documento militar, mas não deve ter demorado muito não.

Uma reviravolta na política do Estado, porém, colocou-o fora do quadro de professores municipais da Prefeitura de Picos, já à época, no povoado Santo Antônio, ribeira do Riachão – e teve que se ajeitar com uma escolinha particular. O resultado é que a escolinha cresceu contando com a boa amizade dos proprietários e comerciantes mais influentes dali, que lhe mandaram seus filhos e filhas para melhorar a bolsa do mestre-escola.

Mais tarde, quando precisou aposentar-se, encontrou todas as portas da lei fechadas. A reviravolta política que lhe ocasionou a demissão foi a eleição e posse do Governador Rocha Furtado. Pelo Estatuto do Funcionário Público da época, faltavam-lhe apenas 6 meses para ter direito à merecida efetivação no cargo. Nunca conseguiu aposentadoria. Ainda tentou, pelo que se sabe, pela Previdência Social, mas foi barrado. Não tinha condições de provar o seu tempo de serviço, a maior parte dele prestado em nome de sua irmã Adélia, acima mencionada.

No próximo capítulo, transcreveremos documento referente ao fato, anotado na imprensa e na literatura dos livros da história do ensino público no Piauí.


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Continuando o dito no capítulo 4, aqui se faz mister pequena pausa para um registro da imprensa, se bem que muito posteriormente. Sobre o governo de Rocha Furtado, em “Trechos do Meu Caminho”, Teresina, 1976, livro de memórias do ex-governador Leônidas Melo, estão registrados esses dois parágrafos, que foram transcritos no jornal “Diário do Povo”, de 16 de fevereiro de 1991, pág. 4:

“O Governo udenista (1947-1951) iniciou-se sob maus auspícios, praticando atos de prepotência e perseguição partidária que atingiram, sobretudo o funcionalismo público. Preterição de direitos; demissões injustas; transferências desnecessárias; atraso de pagamento tornaram-se normas seguidas.

O Ensino e a Receita do Estado foram consideravelmente prejudicados com as repetidas transferências de professores e coletores.”

Historiador da Associação dos Professores do Estado do Piauí, no livro “APEP, Organização, Lutas e Conquistas”, ao tratar do governo de Rocha Furtado (1947-1951) diz José Olímpio Leite de Castro que ele deixou profundas feridas no seio do magistério e, a título de ilustração, transcreve alguns depoimentos, entre os quais o que Francisco Miguel de Moura lhe prestou:
“Quando houve aquela mudança na política piauiense, Rocha Furtado pela UDN sobe ao poder. Papai contava com 9 anos e 6 meses de magistério público. Faltavam apenas 6 meses para efetivar-se, segundo a Constituição do Estado. E foi aquela expectativa. É claro que meu pai não se rendeu à política, não era do seu feitio. Nunca pensou em recorrer a um político do lado de Rocha Furtado (UDN), para pedir proteção. Não. Pertencente, pelo lado materno, à família Santos (primo legítimo do coronel Francisco Santos, de Picos), tendo sido toda a vida acompanhante de seu partido, não iria agora procurar quem não conhecia e naturalmente o odiava por pertencer ao outro lado, o PSD. Pois bem, papai ficou desempregado. E sem condição de adquirir seu emprego. Ficou lecionando a particulares. Felizmente as pessoas do lugar deram-lhe apoio. Durante um ano não foi nomeado nenhum professor, no povoado Santo Antônio, fazenda Rodeador. Aí prova a maldade dos que agiram na proposta de sua demissão do cargo de professor.

– E quando uma professora para lá foi nomeada, quem era?

– Uma ex-aluna sua... ”

Também Miguel nunca mais recuperou o seu cargo, mesmo no governo seguinte, do pessedista Pedro de Almendra Freitas (1951-1955) e por isto nunca se aposentou. Apesar dos esforços do Cel. Francisco Santos, não voltou a ser professor pago pelos cofres públicos, pois continuava sem o poder municipal. E a subida de um Governador do PSD não alterou sua posição diante dos políticos do município de Picos. Já era democracia, mas como se não fosse. Não havia concursos, não havia seleção, tudo provinha da vontade dos chefes locais. Mesmo na área da educação.

Mas muitas pessoas lhe deram apoio para continuar vivendo com sua escolinha particular. Eram os homens mais importantes da terra, todos alinhados com o PSD: Arlindo Cipriano, Manoel Sinhô, Antônio, Licínio e Gabriel Lima (os três Limas), Antônio Joaquim, os irmãos Batistas (Justino e outros), Joaquim Bineta, seu André, Manoel Carlos, entre outros, a maioria moradores do povoado Santo Antônio (fazenda Rodeador), ou muito próximo.

CONCLUSÃO

Da meia idade em diante, Miguel sempre trabalhou por conta própria, particular, para sustentar a família composta de mulher – Josefa Maria de Sousa – e os seguintes filhos grandes: Francisco Miguel de Moura, Teresinha de Jesus Moura, Maria Josefa de Sousa e Helena Josefa de Sousa, lecionando ora nos povoados Santo Antônio de Lisboa e Francisco Santos, ora em outros quando era convidado. E mais comumente em casas de fazendeiros dessa região e de outras que fazem o entorno de Picos, Piauí: Aroeiras do Itaim, Itainópolis, Carnaíbas, Angico Branco; Riachão, São Julião, Alagoinhas, Fronteiras e Pio Nono; Bocaina, São Luís do Guaribas, Varjota, Sussuapara e outros. Quando morava no lugar Angico Branco (dos Macedos), apareceu-lhe, um dia, em sua residência, o poeta popular, improvisador, cantador, violeiro de nome Campo Verde. E foi uma nova descoberta na vida de Miguel, que sempre gostou de aventuras. O moreno Campo Verde, cearense, tornou-se seu professor de viola e repente, e dentro poucas semanas Miguel o enfrentava em duelo de gigante. Cantando durante as noites, primeiramente com seu mestre, depois com outros, mas sem sair de sua casa (som aceitava cantoria com quem lhe vinha procurar), assim Miguel adicionou outra fonte de renda, unindo o útil com o agradável – pois gostava muito do que fazia, tanto de lecionar, quanto de fazer repentes, ao som da viola.
Miguel Guarani (Miguel Borges de Moura) tornou-se famoso, em toda a região, por sua sabedoria, dedicação, lealdade aos amigos, honradez e independência de governos, embora votasse sempre a favor do amigo e parente Cel. Francisco Santos.
Para ter-se uma idéia aproximada de quanto era conhecido, amado e respeitado, é bastante saber que, falecido em 7 de agosto de 1971, o jornal “O Dia”, Teresina, 22 de agosto de 1971, estampou a seguinte nota:
“Faleceu no dia 7 do corrente, em sua residência na cidade piauiense de Santo Antônio de Lisboa, o conhecido Mestre Miguel Borges de Moura, conhecido também por Miguel Guarani. Era natural de Francisco Santos e morreu vitimado por um ataque de trombose. Pai do companheiro Francisco Miguel de Moura, colaborador desta página, o Prof. Miguel dedicou toda a sua vida à causa do ensino primário, lecionando pelo interior e cidades de Picos, Itainópolis, São Luís do Piauí, Bocaina, Santo Antônio de Lisboa, Francisco Santos, Mons. Hipólito, São Julião, etc. Ultimamente era professor particular, com auxílio da Prefeitura de Santo Antônio de Lisboa. Foi também inspetor de escolas primárias naquelas regiões e, ao falecer, fazia o Censo Agrícola, em que vinha trabalhando desde 1940. Viúvo (era casado com D. Josefa Maria de Sousa), deixou três filhos: Francisco Miguel de Moura, bancário, universitário de Filosofia, poeta e crítico literário dos melhores de nossa terra; Professora primária Maria Josefa de Sousa, em Francisco Santos, e Helena Josefa de Sousa, diretora do Ginásio de Santo Antônio de Lisboa.
Seu sepultamento em Francisco Santos foi o mais concorrido de quantos já houve naquela cidade interiorana, tendo acompanhado o féretro, entrando no cemitério cerca de 1.000 pessoas. O velo Prof. Miguel, que era também poeta-impvisador, tinha uma grande multidão de amigos e alunos, e deixou, com seu desaparecimento, um grande vácuo no setor educacional da juventude daquela região. A Prefeitura de Francisco Santos, num preito de justa e reconhecida homenagem aos trabalhos do morto, cedeu à família deste a cova onde dorme o derradeiro sono o velho e querido Mestre”.



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OBSERVAÇÕES:
O trabalho acima foi escrito em cinco capítulos que foram publicados no jornal "Diário do Povo". semanalmente, às sextas-feiras, antes da publicação do livro "MIGUEL GUARANI - MESTRE E VIOLEIRO", Edições Cirandinha/FUNCOR, Teresina, 2005, de autoria de Francisco Miguel de Moura.


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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras, da Academia da Letras da Região de Picos, da União Brasileira de Escritores - São Paulo e da IWA (sigla em inglês) – Associação Internacional de Escritores e Artistas – Estados Unidos. Mora em Teresina, Piauí, Brasil. E-mail:franciscomigueldemoura@superig.com.br

domingo, 22 de novembro de 2009

EU, POEMA




Francisco Miguel de Moura*





Ninguém me leve a mal:
– me leve e lave.
Porque sou cativo
de mim, sem disfarce.
E não me apresso
de lançar ao léu
uma inspiração
de céu nenhum
– meu nem seu.
Faço o poema que pos(suo)
e ofereço a quem traspassa
manchas de sangue e suor.

Meu grito guarda a sede
e o sal
que transpiram os homens
na feira de seus cacos.

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*Francisco Miguel de Moura, escritor, brasileiro, é membro da Academia Piauiense de Letras(Teresina, Piauí, Brasil), União Brasileira de Escritores (São Paul) e da Associação Internacional de Escritores e Artistas (IWA – sigla em inglês), com sede em Toledo, OH, EUA

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A FELICIDADE SEM SEGREDOS




Francisco Miguel de Moura*






O sustentáculo da pessoa feliz é a bondade. Quem é mau nunca alcançará a felicidade. Ninguém faz mal ao outro. Todo mal que o homem pratica contra alguém se reflete sobre si mesmo. Fazer o bem é obedecer a sua consciência, especialmente, e agir de acordo com as regras sociais, sempre que puder. Não é necessário ter uma vida exemplar, ninguém é exemplo de ninguém, visto que somos todos diferentes. Não precisa cumprir-se o que diz a sabedoria popular: “Fazer o bem sem saber a quem”. É preciso ser generoso, perdoar, amar, mas também é preciso viver e ser feliz. Esta é a vocação do homem neste mundo, assim como a condição da liberdade. Pois é a partir dela que o homem pode escolher ser feliz ou criminoso, ladrão, traficante, assaltante à mão armada, etc. Quem faz o bem e não exige nem espera recompensa, este, sim, terá muitos amigos. Mas, noutro lugar, escrevi uma fábula cuja lição da história é que até a bondade tem limites. Temos exemplos de santos e mártires, mas não é preciso ser Jesus Cristo para chegar a ser bom. Qualquer pessoa normal pode ser boa. Agora, o que não sei é de criminosos que sejam felizes, esteja pagando suas dívidas para com a sociedade ou não. Serão uns torturados pelas suas más ações? Como seriam seus sonos ou pesadelos? São homens sem consciência, sem moral, sem bons costumes, que vivem entre nós, os que temos e procuramos ter dignidade. Seriam nossos irmãos? Sim, pela espécie. Não pela cultura nem pela sabedoria, não pela inteligência nem pela razão. Brutos e maus, entre os civilizados e bons, isto sim.

Como gosto de ler e sou curioso, lembro-me de uma revista semanal (ou mensal) que relata, com o nome de “O segredo da vida”, uma espécie de pesquisa científica, assim: “Durante 70 anos, o mais fascinante estudo científico feito até então acompanhou a vida de 260 homens e comprovou: Nem o dinheiro nem a saúde garantem a felicidade. O segredo da sua alegria está nos seus amigos.” É bom saber que o estudo não trata de longevidade nem de família. Todos nós acreditamos que uma vida feliz, mesmo curta, é superior a uma longa vida infeliz. Como é notório que o homem despregado de tudo, sem sua origem – uma família, a intimidade do sangue ou de vivência – não é inteiramente feliz. Saber que há alguém com quem contar, mesmo sobrevindo uma cegueira, paralisia ou mal da Alzheim, é confortante. Traz segurança e felicidade. No resumo da matéria relatada o jornalista apresenta duas pessoas como exemplo, Mike e John, e então dá um toque sobre família e casamento. “O olhos de Mike encheram-se de lágrimas quando falou sobre seu casamento e sentiu muito prazer em relembrar as férias em família. Ele trabalhou muitos anos em associações de serviços sociais e também espontaneamente ajudava os mais pobres. John, aos 47 anos, parecia ter 60, um cirurgião cuja motivação fora apenas a estabilidade no trabalho, passara por três casamentos e havia sido proibido de visitar os filhos das relações passadas”. O primeiro tinha muitos amigos, já o outro, perguntado sobre suas relações de amizade, disse apenas que não tinha amigos no momento, mas sabe-se que essa situação fora uma constante em sua vida.

Ter amigos é bom e fácil para quem nada exige nem espera, e os aceita como são, respeitando suas idéias e suas faltas, porque ninguém é santo. Ter amigos é uma bênção. Amigos na família e amigos fora.

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Francisco Miguel de Moura – Escritor, Membro da Academia Piauiense de Letras (APL) e da International Writers and Artists Association (IWA), com sede em Toledo, OH - Estados Unidos. E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O PAPEL DAS ACADEMIAS NA SOCIEDADE


Francisco Miguel de Moura*

1. Introdução:

“Mestre não é aquele que só ensina, e sim aquele que de repente... aprende”, disse o sábio psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961), médico suíço, discípulo de Freud e fundador da psicologia analítica.

Pois bem, ouvindo, lendo e estudando, eu aprendi que pessoa (ou persona) é o ser humano socializado, consciente, embora carregando no fundo de si o indivíduo. Indivíduo – de onde se deriva o individualismo – seria o homem fora da sociedade ou sem a devida sociabilidade. A criatura é por natureza e essência incomunicável, embora sinta o desejo de troca, de comunicação. O homem, no mínimo, é duplo. Daí ser muito difícil, senão impossível, existir uma sociedade composta por indivíduos.

É necessário que o homem se associe a outros homens, através de alguma coisa em comum, pois é aí onde eles se encontram. A natureza é excelência, mas os desejos também são. Daí vêm a organização e a lei para que “não faças aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem.”

Depois dessas pequenas explicações, estamos mais ou menos concordes em que o indivíduo não terá vinculo sustentável antes de transformar-se em persona. Estamos falando filosoficamente, porém numa filosofia de base lingüística, o que vem a dar na prática.

A sociedade é muito complexa porque composta de muitas cabeças, muitos indivíduos, e com a complexidade dos meios de comunicação (artificiais) mais difícil ficou. Não há sociedade sem o poder, mesmo que simbolicamente. E enquanto o poder ou o sistema lhe dita regras, como às vezes impõe, ele se encarrega de dar-lhe o correspondente sedativo para que ninguém perceba. É a sociedade moderna, o mundo globalizado, neoliberal de mentirinha. Enquanto você é despersonalizado, vai substituindo seu poder de decisão por prazeres fúteis e enganosos: velocidade, fuga do tempo e de si. E com isto o indivíduo sofre por dois lados: por um, vê, perdidos, os seus traços pessoais de desejos e criatividade; por outro, o poder lhe tira seu individualismo, a fim de que você se entregue à multidão, à massa. Uma espécie de atomização. Foi nisto que se tornou o homem ocidental: atomizado, dividido, despersonalizado. Por quê? No cipoal de coisas e solicitações no fundo iguais, mas com cara de diferenças, o homem nada sabe e volta-se para a religião, buscando o que há de ilusório: um paraíso na terra ou no outro mundo (depois da morte). Vive essa dualidade indivíduo x pessoa, porém de modo artificial: Deus, do que vem a ser a semelhança.

2. Academias, o que são?

Precisei de muitas palavras para definir indivíduo e pessoa, essa dualidade que carregamos durante toda a nossa vida. Entretanto, poucas palavras definiriam o que vem a ser uma Academia e qual o seu papel na sociedade: – As academias são as ONGs das letras e sua função específica é defender o patrimônio lingüístico nacional (no caso nosso, a língua portuguesa e a literatura que essa língua produziu e produz primeiramente no Brasil). Uma Academia é também um clube, um lugar onde nos reunimos para debater, estudar assuntos do interesse comum dos sócios e, assim sendo, um lugar de respeito e sabedoria, onde quem tem presença constante pode mais, visto que tudo é resolvido pela maioria. Não devemos guardar ressentimentos por dissentir alguém de nossa opinião, não devemos nos considerar os “donos da verdade”.

Mas não é só uma definição de poucas palavras que nos levará ao espaço e tempo de seu começo, sua história, sua bonita e longa tradição. Começou na Grécia com o filósofo Platão. A primeira academia, na verdade uma escola de filósofos e cientistas, foi assim chamada por funcionar no Jardim de Academus, pertencente um herói grego do mesmo nome, no tempo de Platão. Não pensem que aqueles sábios ficavam o tempo todo discutindo “o sexo dos anjos”. Faziam altos discursos; estudavam a palavra, a língua, o pensamento; aplicavam-se ao estudo da ciência e da mitologia, em que acreditavam. E tinha que ser assim, pois naquele tempo tão recuado, no ano 385 antes de Cristo, quando Platão instituiu a primeira academia, a filosofia e a ciência, a arte e a religião eram saberes ainda muito ligados.

Também não é por causa da história, cujos fragmentos são encontrados em quase todas as enciclopédias. Há mais dificuldade em fazer com que o povo entenda o papel das Academias, no passado e hoje. Perguntam sempre o que é que as Academias fazem. Ora, elas se reúnem, falam e fazer discursos, conferências e palestras, às vezes recitais de poemas, outras vezes publicam livros (com subsídios vindos de outras entidades, especialmente dos Governos). Os acadêmicos fazem o que os políticos fazem, só que, na maioria das vezes, sem jetons, sem salários ou outras vantagens monetárias e sem pensar no poder político. Ao contrário, nas Academias tudo deve ser em favor da literatura e da língua: a ABL, APL, as dos demais Estados e as regionais, em favor também da língua portuguesa e da literatura mas sempre levando em conta a sua regionalidade, suas pequenas diferenças locais, tendo em vista que é também do seu dever dar atenção a suas manifestações culturais, folclóricas, etc. que naturalmente se estende pela linguagem. No fundo, no fundo, quem pertence a uma academia tem o dever de escrever certo e não permitir o erro lingüístico, não apenas ortográfico. Toda a gramática, todas as boas normas da língua devem ser cultivadas. Falamos em regionalidade, sim, pois como seria possível estudar a literatura piauiense, sem Fontes Ibiapina, seu teatro folclórico, suas cantigas de roda, seu adágios, provérbios, etc. apanhados na cultura popular? Fontes Ibiapina é o maior romancista e contista picoense, seu nome se estendeu ao nacional, recebeu prêmios por entidades de São Paulo e teve livros publicados lá. A ALERP tem que reservar um lugar de honra em sua memória e promover o estudo de suas obras.

Que seria do estudo da literatura brasileira sem Machado de Assis? E é ele o maior conhecedor da cidade do Rio de Janeiro do Segundo Império, descreve as ruas, as cenas, as famílias e os escravos de modo todo especial. A ABL é a “Casa de Machado de Assis”, a APL é a “Casa de Lucídio Freitas”. Lucídio Freitas era, no seu tempo, o maior poeta de Teresina, depois vieram H. Dobal, Torquato Neto, e hoje uma carrada de poetas novos cantam o Piauí e sua Capital, nenhum destes superando o poeta Da Costa e Silva, o príncipe dos Poetas Piauienses.

Partindo, agora, para coisas mais objetivas, nós nos perguntamos: O que faz com que o acadêmico seja tão distinguido, tão valorizado na sociedade, não obstante os novos atiraram pedras na instituição acadêmica? Primeiramente, à semelhança da Academia Francesa, todas elas constam nos estatutos as principais finalidades já apontadas acima: a) cultuar a língua respectiva; b) propagar a literatura respectiva, da mesma forma. São instituições de elite, não mais do que 40 lugares, sócios vitalícios, mas não hereditários; somente com a morte do acadêmico, sua vaga será preenchida, por eleição dos pares, com toda aquela solenidade conhecida e vestes distintas. Isto aí é a tradição. As academias só se renovam pelas administrações da diretoria e pela entrada dos sócios recentes. Mas não costumamos festejar a morte, preferimos o centenário de nascimento, o centenário da obra mais importante de cada um, ou outras datas marcantes. Porque só existem, em determinado momento, 40 acadêmicos. A seleção para entrar para instituição, deve ser e é rigorosa, só entram escritores (poetas, contistas, romancistas, historiadores, etc.), cientistas e personalidades. Nesta última classe, que deve ser bem reduzida no quadro de cada Academia, contam-se aqueles que trabalharam pela cultura do país, estado ou município; algum político aí entrará inevitavelmente; e, ainda podem ser classificados como tal um ou outro artista de grande destaque: pintor, teatrólogo, músico, arquiteto, etc.

Assim, para as Academias entram as pessoas mais importantes, na sua especialidade. Por exemplo, qual o político mais importante do Piauí, que trabalhou enormemente pela cultura, criando o chamado Plano Editorial do Estado, a Secretaria de Educação, cuja entidade foi sepultada algum tempo depois por políticos sem nenhuma sensibilidade para a cultura, as letras e as artes? Alberto Silva. Foi eleito para a APL. Com sua morte recente, a vaga está aberta.

Mas, um pouco mais de história seria importante. Voltamos à França. A Academia Francesa, padrão para as demais entidades acadêmicas do classicismo e da modernidade, foi fundada em 1626 pelo Cardeal de Richilieu, o homem forte do rei Luis XIII. Durante a Revolução Francesa, em 1793, ela foi fechada, só reaberta por Napoleão, em 1803. É a mais antiga das 5 instituições que compõem o Instituto de França.

3. O que outros disseram

Neste ponto, passo a palavra ao escritor e membro da Academia Mineira de Letras, José Afrânio Moreira Duarte, falecido recentemente, para mais informações sobre as academias, em cujo assunto tinha bastante conhecimento:

“Há numerosas academias, em muitos países, principalmente na Itália e nos Estados Unidos da América do Norte. Neste último, quase todas são Academias de Ciências, Letras e Artes, não cuidando apenas de literatura. Como na França, a principal entidade do gênero não se chama Academia Francesa de Letras, mas apenas Academia Francesa, e podem integrá-la intelectuais não escritores, embora os literatos predominem.

Uma outra particularidade da Academia Francesa é que não se exige a nacionalidade francesa para o ingresso de um acadêmico, basta que ele escreva suas obras em francês. Marguerite Youcenar, a célebre autora das obras primas “Memórias de Adriano” e “A Obra em Negro”, entre diversos outros livros era belga naturalizada norte-americana. Foi a primeira e até hoje a única mulher a ingressar na Academia Francesa.

Outra academia de grande repercussão internacional é a Academia Sueca, pois ela é que concede, entre outros, o Prêmio Nobel de Literatura, o mais importante do mundo no gênero.

No Brasil, a entidade mais notável, literariamente falando, é a Academia Brasileira de Letras, fundada por um grupo de escritores liderado por Lúcio de Mendonça, em 15/12/1896. Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, foi unanimemente aclamado presidente. Embora fundada em 1896, a sessão inaugural da ABL só ocorreu em 20/7/1897”.

Voltando ao principal objetivo desta minha fala, transcrevo a parte final de um artigo (publicado no “Jornal da ANE”, Brasília, Jun/2009) assinado pelo poeta e crítico literário Anderson Braga Horta, um dos 4 ou 5 melhores escritores do Brasil atualmente, quando fala no significado das Academias de Letras no Século XXI:

“A academia não é, por definição, nem deve ser mesmo, sistematicamente contrária ao novo. Nem é atribuição sua defender indiscriminadamente, isto é, sem critérios valorativos, tudo o que se abrigue sob o rótulo de tradição. Compete-lhe, isto sim, preservar das razias de vândalos e, já hoje, de pseudo-vanguardas irresponsáveis a integridade lingüística e o patrimônio literário nacionais”.

Sem querer me considerar mestre, pois de repente somos todos nós também discípulos, torno minhas as palavras iniciais de Jung e acrescento as de Arthur Schopenhauer, a seguir:

“A primeira regra do bom estilo, uma regra que praticamente se basta sozinha, é que se tenha algo a dizer. Ah, sim, com isto se chega longe!

Mas a negligência com relação a essa regra é um traço característico e fundamental dos filósofos e, em geral, de todos os escritores teóricos na Alemanha. (...) Em tudo o que eles escrevem, percebe-se que pretendem parecer que têm algo a dizer, quando não têm coisa alguma.

E concluo o pensamento contundente do filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860) sobre os maus escritores de sua época, na Alemanha, depoimento que é valido para os inteletuais de todas as épocas e assim para os escritores e acadêmicos de ontem e de hoje.

Essa maneira de escrever, introduzida pelos pseudos-filósofos das universidades (...) é a mãe tanto do estilo forçado, vago, ambíguo e mesmo plurívoco, quanto do estilo prolixo, pesado e da torrente inútil de palavras.

4. O que digo, para terminar

A literatura, as artes, as letras, a língua são objetivos comuns aos acadêmicos, onde podemos ser persona (pessoa) e indivíduo ao mesmo tempo, com aquele respeito e educação que todo intelectual deve ter. Nosso encontro de seres duais como falei na introdução. Quem não observa esses princípios não será nunca um bom acadêmico. Pode-se fazer muito sendo correto, ético e educado. Academia é lugar de encontro, estudo, realização de palestras e conferências, votação do que é importante para entidde e também socialmente. Não é lugar próprio para discutir-se “o sexo dos anjos”, como nos acusam “os não-acadêmicos”. Os acadêmicos da APL visitam colégios e recebem turmas de universidades e de cidades do interior para falar sobre literatura e, naturalmente, sobre o que é a Academia.

Temos certeza que, para os piauienses, a Academia Piauiense de Letras é entidade necessária, significativa, a mais antiga instituição de cultura do Estado em funcionamento (90 anos, sem interrupção) desde que foi criada, e padrão para as regionais. Foi fundada, em 30 de dezembro de 1917, por um grupo de intelectuais liderado por Clodoaldo Freitas, a exemplo de outros Estados como Pará, Maranhão, Ceará, São Paulo e Minas Gerais (esta em 1909). Mas somente em 24 de janeiro de 1918, assumiu a primeira Diretoria composta pelos escritores Clodoaldo Freitas – Presidente; João Pinheiro – Secretário Geral; Fenelon Castelo Branco – 1º Secretário; Jônathas Batista – 2° Secretário; Antônio Chaves – Tesoureiro; e Edison Cunha - Bibliotecário.
Nunca defendi academias municipais. Porém as regionais como a ALERP – Academia de Letras da Região de Picos, são outra coisa. Reconheço que as cidades pólo como Picos têm essa função de agrupar, reunir e estudar também a cultura intelectual da região. Se voltarmos à Grécia, veremos que as cidades pólos é que conduziam a cultura, bata lembrar Esparta e Atenas. Por outro lado, a entidade pública mais antiga no Brasil não é o Estado nem a Província, mas o município. Daí não sei por que não respeitar e ajudar o soerguimento daqueles que lideram dentro do Estado. A região de Picos já deu tantos escritores e homens de espírito intelectual que seria um desperdício nomeá-los visto que há sempre o perigo de esquecer um ou outro. Mas, entre os falecidos que me vêem a lembrança, estão Fontes Ibiapina, Lourenço Campos e Miguel Borges de Moura. Picos também é um celeiro de músicos, cantores, pintores, teatrólogos, poetas, cronistas e contistas, residentes aqui ou noutras partes do Brasil.

A Academia da Região de Picos foi fundada em 22 de outubro de 1989, com o apoio e orientação dos escritores Francisco Miguel de Moura, Hardi Filho, Rubervam du Nascimento, vindos de Teresina, e Mundica Fontes, Heraldo Santos, Ozildo Barros e outros escritores da região, liderados por Rosa Luz, que foi aclamada presidente da entidade até que houvesse a primeira eleição. Tem sede própria, faz reuniões mensais, publica livros, revistas e jornais, apóia grupos jovens de teatro e poesia, faz seminários de literatura anualmente, sendo portando a entidade que representa a cultura da região, incontestavelmente, assim como a Academia Piauiense de Letras representa o Estado. Atualmente dirigida por Francisco das Chagas Sousa – Presidente; José Evilásio de Moura – Vice-presidente; Francelina Macedo de Holanda Ribeiro e Antônio Gomes de Sousa – 1º e 2º Secretários; Inácio Baldoíno de Barros e Fátima Soares Miranda – 1º e 2º Tesoureiros.

Eu me orgulho de pertencer ao quadro de sócios da Casa de Lucídio Freitas. Também me orgulha ser membro da ALERP, principalmente por ter como patrono Miguel Borges de Moura (Guarani), meu pai. E não me assusta nada que os novos (ou que assim se consideram) falem mal das Academias. O saudoso A. Tito Filho, inteligência brilhante, que presidiu a APL por cerca de 20 anos, com sabedoria e amor, dizia e proclamava que até os 30/40 anos, os jovens (ou que assim se julgam) são os mais ferozes críticos da entidade, alguns até debocham. Mas esses mesmos jovens, quando chegam aos 50 e daí por diante namoram a Academia e se decepcionam se não conseguem entrar.

De minha parte, com experiência que temos da APL, acho que nossa Academia é bem representativa da cultura do Piauí, devendo-se o fato a que há bastante critério e seriedade no preenchimento das vagas. Disse noutro lugar e repito agora: os melhores escritores vivos do Piauí estão na APL embora que nem todos consigam entrar. Não é possível, são apenas 40 vagas. E essas vagas são muito desejadas por isto, por sua raridade, haja vista a ebulição do que ocorre quando da morte de um de nós.

Como não posso nem devo dizer tudo sobre Academias de Letras, aqui encerro com o meu muito obrigado pela paciência de me ouvirem.

Auditório da Academia de Letras da Região
de Picos - ALERP,
em 24 -10- 2009 - às 14 horas.

___________
Observações: A palestrou foi encerrada com um vídeo mostrando as principais tomadas fotográficas (e parte dos discursos) da posse de Francisco Miguel de Moura, na Academia Piauiense de Letras, em 30 de outubro de 1990.

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*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da APL
e da ALERP, mora em Teresina – PI.
Mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PRECONCEITO, O QUE É ISTO?






Francisco Miguel
de Moura*





Voltaire já dizia: “Se queres conversar comigo, define tuas palavras.”.


Todas as palavras subjetivas são conceituais, precisam ser explicadas. Mas também as concretas carecem de alguma explicação, mesmo que apenas a do dicionário. O homem é um animal que pensa, logo também preconceitual, ou preconceituoso. O pensamento se encadeia, palavra puxa palavra, conceito puxa conceito. Toda linguagem será sempre complexa. As substâncias existem, os conceitos são formulados.

O velho Aurélio registra, em primeiro lugar, o que conceito significa: “Representação de um objeto pelo pensamento, por meio de suas características gerais”. “Preconceito: conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos, idéias preconcebidas”.


Mas, para nós, quando se fala em preconceito, vem logo à baila o preconceito de cor (apenas o contra os negros). Acontece que há muitos outros preconceitos: de religião, de feiúra, de pobreza, de classe, de profissão, de raça, de família, de doenças, de idade (velhice), de virgindade etc. E por falar no último da série, é bom que lembremos como as mocinhas de colégio se manifestam: – “Fulana, você ainda é”? ¬E se a resposta é positiva, riem a valer. Significa que, hoje, a virgindade também é motivo de riso ou chacota.


Outrora havia uma cláusula nos concursos e nos testes de admissão de funcionários ou empregados, pessoal de modo geral, assim: “ter boa aparência”. A exigência caiu da lei, do papel, mas na prática e na surdina continua funcionando.

O que deve ser exigido é que o funcionário (principalmente, se público), tenha boa presença, receba bem, seja educado. A sociedade muda e repassa conceitos e preconceitos, de pessoa para pessoa. A língua portuguesa, devido aos maus costumes pelo preconceito, perdeu as palavras “senhor” e “senhora”, substituídas por “tio”, “tia”, “vô” e “vó”. Mas, cuidado, que, por trás dum tratamento familiar, esconde-se o preconceito contra a velhice, a idade, além de ser uma mentira. Família é família (ou devia ser) e os outros são os outros.

No campo social, quando uma comunidade não pensa, e age movida por preconceitos, pratica desumanidade. Humanidade é considerar todos iguais: é civilidade, é conhecer a natureza humana e aceitá-la nos seus “defeitos” e “qualidades”. Nossa linguagem é plural, multívoca, carrega consigo os preconceitos da sociedade. Mas é inacreditável que, quando a pessoa conhece suas possibilidades, seu limite, suas fraquezas, queira arremeter contra os limites do outro.

Quando “intelectuais petistas” de hoje, os que estão no poder, numa reunião formulam frases como “Todos e todas”, terminam praticando um preconceito contra os do “terceiro sexo”. Quando criam uma lei favorecendo os negros, discriminam os brancos. É difícil. Mas é assim que entendemos.

Piadas contra o português são uma discriminação, sim, senhor. Aliás, pelos textos do baixo humor podemos observar quanto mexem com profissionais (padres, médicos), lugares e estados (pacientes), entre outros. Falo do humor macarrônico, não do fino humor que tão bem os ingleses praticam, embasado no jogo da linguagem e nunca cruelmente nas condições sociais dos sujeitos.


Todo preconceito é desumano, fere o cidadão (ou a cidadã). Em suma, conceito é também julgamento. Se feito com conhecimento de causa, é comum e aceitável. Mas se são ignoradas as causas e os efeitos, a história e tudo mais que envolve a coisa julgada, é abominável. Eis o preconceito, que é também maldade. As sociedades mais civilizadas procuram a medida certa nos seus conceitos e, quando erram, imediatamente buscam reparação.

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*Francisco Miguel de Moura, Escritor brasileiro, Membro da IWA (Associação Internacional de Escritores e Artistas - EUA) e da Academia Piauiense de Letras


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

ESCOLHA


Do útero desperto
o caolho menino
fotografa o mundo
o tempo e a rua.

Tudo longe e perto.
Do nada que lhe sobra
soçobra uma réstia
de restos.

Só o rosto flutua.




O QUE É O PODER


se corre do pé ao peito
a raiz que não se apanha
vem gana

se o cuspe seca da boca
a cada palavra ou senha
empena
engana

se nas transfigurações
sente um peso nas entranhas
fere até o rei daqui
ou de Espanha

com brisa jamais se empenha
o poder, dourada aranha
arranha
a pele dura acoitada
perdida entre sonho e sanha


SÊ/MEN


O sêmen semeia
a semente da hora.

O sêmen não chora,
supira na senda,
Em livre cadeia,
na busca do novo.
O sêmen não morre:
- Vida que aflora,
Ou água, ou suor
que voa...Revigora
e some nas estrelas.

Sêmen, sumo, saber,
sopa e vitória.
Há séculos e séculos
faz história.

Salve o sêmen que vence
e aquele que evapora.

The. 11 de outubro de 2009

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*Poemas Inédios de Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina. E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A ATOMIZAÇÃO DA PERSONA





Francisco Miguel
de Moura*






Primeiro vamos ver o que entendemos por persona (ou pessoa): É o ser humano socializado, consciente, embora carregando no fundo de si o indivíduo. Indivíduo, de onde se deriva o individualismo, seria o homem fora da sociedade ou sem a devida sociabilidade. A criatura é por natureza e essência incomunicável, embora sinta o desejo da troca, da comunicação. O homem duplo. Daí que é muito difícil, senão impossível, uma sociedade de indivíduos. É necessário que os homens se associem a outros através de alguma coisa em comum, pois é aí onde eles se encontram. A natureza é excelência, mas os desejos também. Então vem a organização e o “não faças a outros aquilo que não gostaria que lhe fizessem”. Depois dessas pequenas explicações, estamos mais ou menos concordes em que o indivíduo não terá vinculo sustentável antes de transformar-se em persona.

Estamos falando filosoficamente, porém numa filosofia de base lingüística, o que vem a dar na prática. A sociedade é muito complexa porque composta de muitas cabeças, muitos indivíduos, e com a complexidade dos meios de comunicação (artificiais) mais difícil ficou. Não há sociedade sem o poder, mesmo que simbolicamente. E enquanto o poder ou o sistema lhe dita regras, não apenas dita como impõe, lhe dá o correspondente sedativo para que você não perceba. É a sociedade moderna, o mundo globalizado, neoliberal de mentirinha. Enquanto você é despersonalizado, vai substituindo seu poder de decisão por prazeres fúteis e enganosos: velocidade, fuga do tempo e de si. E com isto o indivíduo sofre por dois lados: por um, vê, perdidos, os seus traços pessoais de desejos e criatividade; por outro, o poder lhe tira seu individualismo, a fim de que você se entregue à multidão, à massa. Uma espécie de atomização. Foi nisto que se tornou o homem ocidental: atomizado, dividido, despersonalizado. Por quê? No cipoal de coisas e solicitações no fundo iguais, mas com cara de diferenças, o homem nada sabe e volta-se para a religião, buscando o que há de ilusório: um paraíso na terra ou no outro mundo (depois da morte). Vive essa dualidade artificial: Deus.


Pela pertinência do assunto, cito aqui Leonardo Boff, num artigo sobre a crise da cultura do Ocidente, o “zen” e o “zen-budismo”, com suas sábias observações, num diálogo imaginado por ele, mas possível na realidade:

– “Que é o “zen”? pergunta um discípulo a seu mestre.

E o mestre respondeu:

– “São as coisas quotidianas; quando tiver fome, coma; quando tiver sono, durma”.

O discípulo, então, lhe disse que era o que fazia todos os dias.

- “Sim, respondeu o mestre. Mas”...

– “Mas o quê, mestre”?

– “Os seres humanos normais, neste mundo ocidental, quando comem pensam noutra coisa; e quando dormem, o fazem cheios de preocupação e têm seus pesadelos”.


Bastam estes exemplos para sentir-se que, aqui, o indivíduo se desintegra da natureza, passa a viver uma vida artificial. Torna-se um átomo, uma partícula e não uma parte. No mundo em que vive o homem está sempre querendo impor uma lógica fora de si, fora da natureza. Leonardo Boff explica que o “zenbudismo” não é uma religião, é uma atitude do homem perante si e a natureza.

Conclusão: Lógica ocidental: quanto mais longe da natureza, mais desintegrado e melhor. Lógica oriental: a natureza é mãe, premia e castiga, dependendo de sua posição nela e diante dela. A persona do oriente não desaparece, fica mais concorde com o indivíduo. É como se o corpo e o espírito se unissem para chegar a uma vida mais humana, pacífica, civilizada, plena. O certo é que a cultura ocidental, atomizada e globalizada, só pode ter seus dias contados. Pois pretende, depois de acabar com o indivíduo, atomizar a pessoa e liquidar com as condições de vida natural no planeta Terra.


Crédito da imagem:
http://portugaldospequeninos.blogspot.com

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Francisco Miguel de Moura - Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina,

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

SOBRE PROSOPAGNOSIA


Entrevista:
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA
Entrevistadoras: Alunas do Curso de Psicologia - Unicastelo - Centro de Formação de Psicólogos.

Questionário:


1- Discorra um pouco sobre o período de sua gestação, como se deu o parto, se teve algum tipo de intercorrência, se ficou internado.

É difícil dizer muita coisa sobre minha gestação e o parto de minha mãe, porque as informações que chegaram a mim foram muito poucas e algumas naturalmente já foram esquecidas. Mas, para a pesquisa em questão, creio valioso informar que sou o primeiro filho do casal. Nasci no lugar “Curral Novo” do hoje município de Francisco Santos (região de Picos – Piauí), lugar muito seco, onde se bebia água de cacimba cavada no leito do rio seco. Durante a gravidez de minha mãe, que se alimentava de massa de macambira (não sei o nome científico) – uma planta espinhenta, que serve de comida para o gado, nas épocas secas. Obviamente meu pai se alimentava da mesma massa. Havia carne, mas cereais não. Por isto a apelação a uma massa muito amargosa, para comer com a carne de porco, galinha ou mesmo de vaca. Toda a literatura sabe da seca de 1932 e suas conseqüências: fui gerado nela. Nasci sem médico, fui assistido por uma parteira da família, acredito que tenha sido de um parto normal. Depois, sim, fui uma criança, magra, doentia, talvez por falta de leite – somente conheci o materno durante seis meses, pois minha mãe logo engravidou e a fonte secou.

2- Discorra sobre o seu desenvolvimento neuropsicomotor, (fala, marcha, etc).

Como diz o ditado popular aqui “nasci de tempo e mamei de jeito”. Tudo o que sei é que minha mãe notou que eu tinha pé meio torto e fez promessas com São Francisco, culminando na volta ao normal. De forma que caminhei no tempo certo e falei também no tempo certo. Nunca tive doença de olho. As doenças que me atacam eram comuns: gripe, disenteria, etc.

3- Durante a sua Infância e Adolescência, você teve algum tipo de dificuldade devido à prosopagnosia? (por favor, considere aspectos, emocionais, sociais, convívio familiar, desenvolvimento escolar e infantil, entre outros). Em caso afirmativo, como estas foram resolvidas ou enfrentadas?

Toda dificuldade em minha infância e adolescência é que eu era considerado um menino feio – e sou feio mesmo - mas naturalmente que, naquele tempo, eu não aceitava isto. E uma das formas que encontrava para evitar o problema “dizerem que eu era feio”, constantemente, principalmente uma tia rica, de nome Tia Rosa, era esquecê-la, esquecer tudo a respeito disto. Daí, penso que talvez isto tenha me causado trauma. Porém, já na adolescência, ouvia minha mãe queixar-se de que não lembrava das feições das pessoas e ficava meio atarantada e triste. Ela dizia assim: “Eu não tenho bom conhecimento”. Lembrava do nome, da família e de outros elementos, menos das feições (o rosto). Minha mãe, por outro lado, era órfã de pai e mãe e teve muitos traumas na sua infância. Daí porque penso que minha mãe tinha essa dificuldade mental que há pouco foi batizada de prosopagnosia. Não sei se outras pessoas de sua família tinham isto.

4- De uma forma geral como ocorreram suas relações familiares e afetivas?

De modo geral, posso dizer que foram boas. Meu pai viajava sempre, mas minha mãe nos dava toda a assistência possível. Meus tios e primos também me queriam muito. Do lado de meu pai me chamavam Chico de Miguel; do lado minha mãe, chamavam-me de Chico de Zefa. Carinhosamente, em casa, eu era Chiquinho. A exceção era tia Rosa, que me critica tanto pela feiúra como porque eu comia muito: era uma criança faminta e, sendo ela mais abastada, minha mãe freqüentava muito sua casa, onde se almoçava ou jantava e às vezes dormia.

5- Conte como e quando você descobriu que era portador de prosopagnosia? Qual foi sua reação? E se mudou algo na sua vida?

Minha vida não mudou muito, pois a consciência de tal problema veio durante a minha vida de bancário do Banco do Brasil, com cerca de 40 anos. Mas sempre trabalhei em setores que isto não era uma constante, e quando necessitava pedia ajuda a um colega. Que eu sou portador de prosopagnosia, vim a descobrir depois que a revista “Veja” lançou uma nota, depois uma reportagem sobre o assunto – cotejando os sintomas. Depois o “Jornal do Brasil” e a revista “Época” também escreveram sobre o assunto. A esta última dei uma entrevista, mas a repórter deturpou um pouco minhas palavras, aumentando que eu não conhecia nem meus próprios pais. Que eu tinha a deficiência de não gravar fisionomias, rostos humanos, eu sabia e declarei. Que era uma doença e se tinha tratamento, eu nunca soube. Mesmo porque a revista “Veja” falava apenas em deficiência localizada da memória, que não chegava a ser uma doença. E que cerca de 2% da população do mundo sofriam do problema e sequer sabiam. Eu não sabia se tinha nome, nem o que haviam descoberto a respeito. Tinha vergonha quando encontrava uma pessoa de minhas relações, depois de algum tempo que a tivesse visto, e não lembrava nada dela, olhando-a no rosto. Depois, vim a perceber que gravava muito bem a voz, a fala, e me tranquilizei porque isto diminuía o problema em 50%, segundo minha própria avaliação.

6- A prosopagnosia interferiu no seu convívio social? (considere aspectos interativos, emocionais, dificuldades, estratégias, etc.). Se positivo, comente tais dificuldades.

Claro, mas depois eu pensava comigo mesmo: “minha mãe era assim?...” Então, viverei normalmente, superarei essa dificuldade (e até hoje procuro superá-la). Nos lançamentos de meus livros – que já foram trinta (entre poesias, contos, crônicas, romances e crítica literária), no princípio ficava encabulado, mas não tinha o que fazer senão perguntar: “Como é seu nome completo?” Noutros ocasiões fazia perguntas deste tipo: “Onde foi que nos vimos à última vez?” Ou “já sei, você e de tal lugar, assim e assim.” Não sendo a pessoa que eu imaginava ser, ela responderia logo “não” e ia acrescentando dicas que me levavam finalmente a descobrir de quem se tratava. Hoje, eu já digo normalmente que tenho esta deficiência, peço desculpas, escuto melhor sua voz, lembro da roupa, dos gestos, de um sinal particular etc. Mas, um dia destes, encontrei uma mulher que vira a última vez há cerca de 20 anos, digamos, e era moça, solteira. Agora me aparecia casada, com filha e neto, em lugar inesperado e – por incrível, até para ela, que sabia da minha queixa de que não conhecia as pessoas depois de um longo tempo assim - conheci-a de imediato, e chamei-a pelo seu próprio nome. Ela me disse que eu não estava com falta de memória, era conversa fiada. Atribuo que casos positivos, assim, vêm acontecendo devido a minha persistência em tentar lembrar o rosto das pessoas, inclusive, no cinema, na tevê, nas novelas. Foi aí que passei a experimentar-me mais ainda. Uma coisa, porém, não é possível ao prosopagnósico como eu (não sei todos): – fechando os meus olhos não consigo visualizar nenhum rosto, por mais que a pessoa seja minha conhecida de muito e eu a veja constantemente.

7- Na sua família tem outros casos de prosopagnosia?

Não vou apontá-los, identifica-los, além de minha mãe, porque faleceu já há muito tempo. Sei que dos meus 5 filhos, dois se queixam do mesmo problema. Isto, para mim, já prova que há a prosopagnosia hereditária, como dizem as revistas e livros que já li e há a que é adquirida, principalmente por traumas: desastres de carro, avião e outros.

8- Em sua opinião, qual seria a contribuição da psicologia, aos portadores de prosopagnosia?

A contribuição da psicologia, aos portadores da “prosopo” seria grande. Mas é preciso, em primeiro lugar, a confissão e conhecimento da deficiência por parte do portador; segundo, querer melhorar, pois creio que se pode, com força de vontade, diminuí-la e/ou encontrar caminhos para conviver bem com ela, socialmente. Eu convivo. No meu entendimento, não é tão difícil. È praticamente nula a restrição de acesso às profissões. No meu julgamento, o prosopagnósico somente não exercerá bem a de policial, o que é óbvio. Recentemente, uma jornalista que me entrevistava para o canal 5, sobre o assunto, confessou-me ser também portadora de prosopagnose. Disse-me que sentia vergonha de ter que recorrer à ajuda de um colega ou de outra pessoa para apontar-lhe, entre tantas pessoas, o político ou a autoridade que a empresa escalou para uma entrevista.

9- O que em sua opinião poderia ser feito em termos de diagnóstico, tratamento e reabilitação, para melhoria da qualidade de vida do prosopagnósico?

Primeiro que tudo seria a universalização do conhecimento da deficiência, sem medo nem susto, principalmente os esclarecimentos médicos de psicólogos, psicanalistas, etc. Por outro lado, a ciência devia preocupar-se mais com essa deficiência, examinar e explicar se ela tem algo a ver com o mal de Alzheimer, a doença temível dos velhos e familiares.

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Entrevista concedida por Francisco Miguel de Moura, brasileiro, casado, mora em Teresina, Piauí, Brasil. Profissão: Funcionário do Branco do Brasil aposentado e escritor na ativa, com cerca de 30 livros publicados: poesia, contos, cônicas, crítica, romances e história literária.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“RÉQUIEM PARA MÁRIO” - Romance


Francisco Miguel
de Moura*




Rejane Machado - foto

Trata-se do mais novo romance da escritora Rejane Machado, escrito de um fôlego, em poucos dias do mês de janeiro deste ano. Se foi inspiração, premonição, mensagem recebida do além, psicografia (como dizem os espíritas) – a Autora não sabe. Ela estreou numa coletânea de contos resultados de concurso literário promovido por jornal carioca “Diário de Notícias”, em 1969. Depois publicou “A Dimensão das Pedras”, 1972, e o romance “Informação a um Desconhecido”, 2000. Porém, daí em diante não mais publicou ficção, salvo algumas historinhas para crianças. Isto demonstra que, no setor editorial, o Brasil está há milênios de atraso em relação ao civilizado. E ainda há quem pergunte por que somos tão subdesenvolvidos.

Com “Réquiem para Mário”, Rejane Machado dá continuidade ao seu bem tecido modo de escrever com amor e humor, numa linguagem coloquial segura e severa. Não poderia ser de outra forma, em se tratando de entender a vida de um escritor em família (tratado com carinho pela Tia Eunice,) e a literária com seu rol de fãs (masculinos e femininos) e um editor dedicado. De fácil leitura, tecendo personagens que ficarão para a história, literária, tais como André, Florentina, Dimo, Leni, Regina Manhães, Raquel, Pe. Ramos, entre outros menores. Assim é que, num curto e certo tempo, quero dizer breve, ela traça a trajetória do escritor Mário Teles, através do ponto de vista da mulher, Doralice, Dora familiarmente. A leitura de “Mário”, para abreviar, não dá nenhuma preguiça ao leitor, comecei a lê-lo e não o larguei até o fim. Justo porque ela o escreveu num estilo tão simples, fluente e, ao mesmo tempo, substancioso e profundo, que a vontade é saber até onde chegará a protagonista Dora, Doralice, mulher de Mário, com seu ciúme intempestivo.

Não vale a pena contar a história de um romance, o leitor sabe disso. Primeiro, porque aquilo que o comentarista diz não vai ser nunca o que ele, leitor comum, encontrará. “Quem conta um conto aumenta um ponto”. Aumenta muito mais: transforma, muda, cria. Cada leitura é singular. A história na ficção, como disse E.M. Forster, é a coisa mais primitiva, “uma narrativa de acontecimentos dispostos em sua seqüência no tempo”, coisa que a Autora tenta desconhecer por princípio e sapiência. História tem, pois tudo são histórias, mas contam mais o enredo e o estilo – e eu acrescentaria o clima, aspecto que Forster não anotou. O enredo é a intensidade da história, o clima é o ambiente psicossocial do protagonista e de personagens principais. Em “Réquiem para Mário” toda a ação principal se passa entre o enterro do escritor e a visita de Dora à sepultura dele, depois de algum tempo, motivada por um desejo secreto de sepultá-lo de uma vez por todas, daquela falta e de seus pensamentos a respeito da suposta amante de Mário, que teria motivado o livro inédito do marido: Antígona (que ela pronunciava Antigna). Por isto é sombrio, não obstante o humor do estilo de Rejane. Claro, é um romance bastante elucidativo dos viventes da família urbana do Rio, com algumas ligações em Minas. E educativo pelo que subliminarmente há de ética na maioria dos seus viventes, mas também de suas falhas humanas, defeitos de caráter e a bondade e paciência de outros.

Uma das coisas que a crítica observa no bom escritor é o modo dos diálogos. E nisto Rejane Machado é mestra. Seus diálogos são tão naturais como numa conversa. Aliás, ela é uma grande conversadora em cartas. Uma das melhores epistológrafas (arre (!) que nome) que conheço. A técnica de colocar a palavra na boca do o personagem que quer e na hora que deseja ela tem como ninguém.

Rejane Machado e seus diálogos internos, diálogos externos, narrativa e descrição num verdadeiro tecido estilístico, com certeza chamará a atenção dos estudiosos do romance deste milênio. Modernidade e experimentação, beleza e realismo, alma e coração, encontram-se irmanados nas suas páginas. Rejane, que mais obras venham para fazer a diferença na ficção brasileira de hoje.
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Francisco Miguel de Moura, Escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras. Email: franciscomigueldemoura@superig.com.br

terça-feira, 29 de setembro de 2009

UNIVERSIDADES E DIPLOMAS



Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras - Teresina
e da IWA - International Writers and Artists Association-EUA



Que fazer do meu diploma? Esta é a pergunta que os formandos e formados, nas universidades, sejam públicas ou particulares, estão se fazendo. E com razão, pois não encontram emprego dentro das respectivas áreas escolhidas. Pregar o diploma na parede de sua alcova, ou mesmo na sala de visita, por melhor que seja, para que todo mundo saiba de sua formatura, isto não satisfaz à sua sede de trabalhar, de contribuir. Pior é quando o formado termina a universidade e não pode receber o diploma, pois a entidade de ensino não é reconhecida pelo Ministério da Educação.

Estamos construindo um século novo em que a técnica é chamada para tudo. Quem sabe fazer alguma coisa útil encontrará mercado, sempre alguém es
tará disposto a usar, comprar, consumir. Por que não se estimulam mais aberturas de boas escolas técnicas do que universidades? Ao que se sabe, o estudo universitário brasileiro, por mais que a área seja técnica, por menos que seja intelectual, tende para o academicismo. Talvez seja um vício gerado no colonialismo português. Ou seria atavismo? Quanto tempo necessitamos para apagar o mau vezo, ou para nos desfazermos dos vícios de quatro séculos? Não, “o hábito, esta segunda natureza” poderá ser com pertinácia, vontade política e trabalho, obstaculizada, zerada.

Mas não creio que as autoridades educacionais, inclusive os senhores Ministros da Educação, Cultura e Economia ou Desenvolvimento já tenham pensado seriamente nisto. Por isto não respondem a esses milhares de formados e desempregados sobre tal aflição. O setor educacional deveria ter um rígido controle. Universidade sem capacidade de ensinar intensamente ao bacharel – médico, dentista, engenheiro, agrônomo, etc. – seria uma excrescência. Coexistindo a medicina, a filosofia, a teologia, os cursos de bacharelato em letras, línguas, lingüística, estatística, informática, todos em bom nível, é isto que faz a universidade. O mundo social e humano é diversificado, plural, e, hoje, o mundo da competência. Enquanto houver mercado de trabalho haverá concursos, modos de escolha dos melhores. Reclama-se é porque se abrem universidades e escolas às tontas, sem certeza do tipo que a nação quer, precisa. O formado, depois 5 ou 6 anos alisando bancos, fazendo pesquisas e trabalhos, entrevistas e ensaios, experimentando no campo, chega à casa dos pais, de volta, e fica olhando as telhas, contando as manchas de sol entre as vagas do telhado, esperando por quem não vem: o emprego. Simplesmente porque a sociedade não comporta. Esse mal da tanta abertura universitária – e é necessário, pois mais gente quer fazer vestibular, entrar, fazer seus estudos e depois voltar ao campo de atividade para o qual se preparou – são a autorização e reconhecimento de favor, para satisfazer este ou aquele deputado ou senador.


Sentado no consultório de um médico, esperando a vez, pego a revista “Isto É”, do ano passado, precisamente de 13/8/2008, e dou de cara com alguns dados impressionantes: 87% dos cursos foram classificados de ruins pela ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), entidade da dependência e administração do MEC; apenas 4 faculdades tiravam nota máxima, isto é, são excelentes: Ciências Médicas – Porto Alegre e as Universidades Federais do Rio, Rio Grande do Sul e Mato Grosso; dos 153 cursos de Medicina, pelo menos 27 não têm condição de funcionar; e 4 médicas tiraram as notas mais baixas da avaliação. Por sorte nenhuma das quatro está no Piauí, mas duas são do nordeste. Não sei dos dados relacionados a este ano, mas acredito que não mudaram muito.


Se for assim, só nos resta lamentar.