domingo, 6 de janeiro de 2019

Positivismo, Odem e Progresso, Liberalismo e Democracia


 Francisco Miguel de Moura*
    
          O Positivismo, filosofia que dominava o mundo no final do séc. XIX e começo do séc. XX, no Brasil exerceu fascínio semelhante ao que Aristóteles causou à “inteligência” da Idade Média. Sobrevivência disto está em nossa bandeira, símbolo mais visível da nação Brasil; está na nossa primeira Constituição republicana, elaborada pelos juristas da época e, por extensão, em muitas leis cunhadas no período; presidiu parte da nossa reforma política, a reorganização e fortalecimento das Forças Armadas, a reforma educacional de 1891, e, na arte, quem sabe, a romancística do naturalismo e do movimento literário de 30. Enfim, foi popularizado pelo samba “Positivismo” de Noel Rosa e Orestes Barbosa, que termina assim: “O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezaste esta lei de Augusto Comte / E foste ser feliz longe de mim”.
          Augusto Comte (n. em Montpellier, 19-I-1798, f. em Paris, 5-IX-1857). Pai do Positivismo, pensou em botar ordem no mundo. Sua doutrina começa com a revolta antimetafísica, tenta criar uma sociedade baseada no amor-ordem-progresso, arquiteta a religião da humanidade na qual os deuses eram substituídos pela sociedade (esta baseada nos núcleos da família e da propriedade).  Eram os princípios. Aos 17 anos matricula-se na Escola Politécnica, aos 19 é expulso por liderar movimento de protesto; depois estuda medicina, mas volta a Paris, onde vive de dar aulas e publicar nos jornais. Foi secretário de Saint-Simon, que o encaminhou para o estudo da sociologia. Publicou muitas obras, mas sobressaem “Cours de Philosophie Positive” (1830-1842) e “Catéchisme Positivista” (1852).
            Para Comte, segundo as enciclopédias e tratados de filosofia, “a análise científica aplicada à sociedade é o cerne da sociologia, cujo objetivo seria o planejamento da organização social e política”, planejamento que traria o bem-estar do homem. A ideia era de que tudo o que se refere ao saber humano pode ser sistematizado segundo os princípios e critérios de verdade das ciências físicas e biológicas, e aplicar-se-ia perfeitamente aos fenômenos sociais.   Ciência, religião, filosofia e saberes, tudo o positivismo abarcou. Por isto é uma teoria absolutista, onde a liberdade de criar e inventar, de mudar e de encontrar estaria condenada. Sendo assim, influiria em tudo: na religião, na educação, na política. Nossa escola, se bem estudada, guarda resquícios dessa doutrina. Por exemplo, a máxima “magister dixit” – a verdade sem contestação – observada fielmente desde a prática do ensino engessado ao livro escolar, da formação do mestre-escola ao método de avaliação, sem possibilidades de mudança e com o castigo da reprovação.
Mas a doutrina positivista é realmente positiva quando coloca como responsabilidade dos educadores infundirem nos educandos o altruísmo, em detrimento do egoísmo. Entretanto vemos que a ingrata sociedade abandonou esta parte e ficou com a pior: a doutrina do Grande Ser, como era conhecido e amado o chefe Augusto Comte.
    Creio que o fato de, por lei, colocar-se uma data na bandeira do Piauí (principalmente porque nós temos outras datas históricas para a independência do Estado), é resquício desse positivismo. Se a moda pega, daqui a pouco, cada Estado também colocará dizeres, datas ou recados em seu pavilhão.

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*Francisco Miguel de Moura, poeta, ficcionista, crítico literário, mora em Teresina, capital do Estado do Piaui, o mais pobre da República Federativa do Brasil m- Email: franciscomigueldemoura@gmail.com

domingo, 30 de dezembro de 2018

OS NOMES E O VENTO - Alcides Buss

Alcides Buss*

Os nomes, que importam os nomes?
Eurico, Anaclete,
Geraldo, Valquíria,
o que levam no orvalho das sílabas?

Se Maria fosse, e não Ismênia,
teria mais sorte
ao passar dos dias?

Ao invés de Clemente,
de Bel se chamasse,
mais perto estaria de algum paraíso?

É de lei cada qual consigo levar
um nome
cravado no umbigo.

Bonito, enérgico,
simplório, erudito;
é sempre um chamado à vida.

No afã de servir
ao seu dono ou à dona,
combina no íntimo espelho?

Não nego. Pudesse daria meu nome
por esse que, caprichosamente,
teus lábios inventam.
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*Alcides Buss, poeta catarinense, que o conheço há alguns anos, quando estive em Florianópolis (SC).  Poeta dos bons, agora completa 80 anos, por isto lhe faço este presente, fazendo-o conhecido no Piauí e a quem interessar possa acessar este meu blog (Francisco Miguel de Moura, quem me deu autorização de publicá-lo)

sábado, 22 de dezembro de 2018

FACA AMOLADA – UMA CRÍTICA SOBRE O LIVRO DE WP

     
  Francisco Miguel de Moura*                                              

            Faz alguns meses que, por intermédio do meu amigo Roosevelt Silveira, recebi o livro de poemas “Faca Amolada”, FUNPEC-Editora, Ribeirão Preto (SP), 2017, de Waldomiro Peixoto. Roosevelt Silveira me fez sentir que o autor gostaria de ter uma opinião crítica sobre sua obra. Mas não sabia a quem recorrer. Meu amigo se dispensou de avaliar sua poesia e me mandou o volume, também sem dedicatória, para minha apreciação.
            Dessa forma, me vi na obrigação de ler e escrever (se fosse o caso) sobre “Faca Amolada” e em seguida, enviar ao intermediador, o amigo Roosevelt Silveira, com a solicitação de dar o destina que lhe for mais conveniente, sem tirar-me a obrigação de tornar esta matéria pública, através do minha página na internet, visto que já não escrevo mais para os jornais.
            Li todo o livro, não cometo a injustiça de fazer qualquer crítica a um livro sem que o tenha lido. Waldomiro Peixoto é um poeta de primeira viagem, se bem que não tão novo, pois nasceu em 1950, em Ipuã (SP), sendo casado, pai e avô. Avaliando essas condições e a obra, juntando o que puder juntar, o que direi? Seu livro tem 118 págs. Não é tão grande nem tão pequena, representando várias fases sua vida, ao que nos parece. Tudo bem. Não importa.
            Estilisticamente começa mais ou menos bem, com o poema sem nome: “Essa vida madrasta! /Arrasta arrasta arrasta / Escorre escorre escorre. /Só o tédio não morre”. Como se fosse uma epígrafe do que há no livro. E há. Assunto não lhe falta, é verdade, e assuntos que podem transformar-se em poesia, ou seja, um trabalho normal do vulgar ao clássico, onde transpareça a alma do poeta, a alma de todos os poetas, quiçá de todos os homens, pela invenção da poesia.  Concordo com seu apresentador (Antônio Carlos Tórtoro), quando escreve que “o percurso de um livro de poemas é exatamente como o percurso da vida: não sabemos o que vamos encontrar, se um pente ou um cadáver. É como pular num abismo e para pular de um abismo não precisamos de muitos artifícios ou justificativas.”  Porque a poesia não precisa de justificativas, a poesia é a própria justificação, quer trate do tudo ou do nada. A poesia precisa dizer o indizível, enquanto não encontramos a forma de dizê-lo não devemos parar a procura. O poeta é caçador, palavras, sons e acentos, para atingir a altura nos píncaros da leitura verbal ou apenas  silenciosa. Pode parecer impossível, mas é com o possível que o poeta encontra o impossível: seu eu, o eu dos outros e a alma das coisas.
            Sem mais delongas, passemos ao seu poetar, à sua maneira de escrever poemas, com “A Indiferença do Poeta”: O primeiro verso seria mais forte se “Lápis e papel sobre a mesa caídos”. Até aí apenas descrição, e as descrições são antipoéticas. Se substituísse o adjetivo “caídos” por “desfalecidos” ficaria bem mais forte.  Outras  e outros em que a poesia mais vibrasse: No oitavo verso, eliminar-se-ia “uma relação”; no décimo quarto verso, eliminando “de sua poesia”; e o quarteto final seria resumido num terceto, assim: “Indiferente a ambos /o poeta conta a própria história./ - Quem sabe a outro história, a nossa!”
            Quando assim escrevo é pensando em quanto foram úteis as conversas que mantivemos, eu e poeta Hardi Filho, de saudosa memória, quando nos criticávamos e até recebíamos auxílios um do outro para este ou aquele poema. Era uma troca muito rica! Que poetas como Waldomiro Peixoto encontrem amigos poetas para sua convivência verbal, artística, vis-a-vis. Se me proponho a fazer a análise de um poema, não é simplesmente para bancar de doutor no assunto, mas para pensar-se em fortificá-lo, com mais e mais imagens, mais mistérios, mas criação, menos descrição, menos o trivial – tudo o que ficaria para a prosa.
            Waldomiro Peixoto começou bem o seu livro “Faca Amolada”, com dois poemas que qualifico de bons. Porém melhores ficarão se, no futuro, lendo e ouvido poesia e sobre poesia, fizesse uma reescrita para nova edição. Os bons poetas e escritores costumam reescrever sempre o que foi escrito. Eu reescrevo, nunca acho que ficou bem. Ainda hoje reescrevo “Areias”, de minha estreia, em 1966. O primeiro crítico de mim sou eu mesmo. Estilo é uma coisa que se constrói, não é um elemento com o qual apenas se nasce. O que chamam de inspiração não existe num sentido global. Outros poemas: “Eu e o Poeta” e “A Necessidade do Poeta”, onde WP conclui com versos que fazem um fecho de ouro: “Concluí, amargo, obscuro: / O homem é limite puro.” Quando falamos em fecho de ouro não significa que o começo, os primeiros versos também sejam de ouro, devem ser, sim.
            Nota-se também que o poeta não abusa das rimas. Rima não é uma necessidade dentro do poema. Só deve acontecer quando for espontânea e vigorosa, principalmente se o achado for de rima rica.  A rima rica tem várias formas: quando vem com as palavras de diferentes categorias gramaticais: imenso – venço, por exemplo.
            Comparando mal, o poema é o apartamento de um edifício, onde se difere dos outros pela arrumação: móveis, quadros artísticos, enfeites. Sem deixar de ser um apartamento, dentro do edifício, ele é seu; as visitas chegam e sentem o cheiro, o colorido, as paredes, os enfeites, a luz e a música da beleza. Não precisa você explicar: está em ou não está. O poema se explica por si mesmo. Também não precisa de adjetivos em profusão, de palavras polissilábicas, tais como advérbios em “mente” e outras; nem precisa de repetições inúteis, mas apenas quando o quadro, o assunto exige para fazer bem ao ouvido ou até para fazer mal quando se trata de poema satírico.
            No livro em estudo, quero citar os poemas “Sinfonia Mágica”, “Existe Solidão”, “Quarto de Hotel”, e “Sonhar e Despertar” (vejamos como colocou bem o advérbio “pa qui der mi ca men te”), além de outros também terminados em “mente”, que foram bem colocados. Por isto aqui se confirma: “não há regra sem exceção”, cada poema tem sua regra, tem sua forma, seu estilo, basta procurar. É bom lembrar sempre o mestre Carlos Drummond de Andrade: Lutar com a palavra/ é a luta mais vã, / no entanto lutamos, / mal nasce a manhã”.  Quando se diz que as palavras polissilábicas não são boas para a poesia é, simplesmente, para apontar que o nosso idioma é rico em dissílabos e trissílabos paroxítonos, é nessa classe que encontramos volume extraordinário de palavras. Outros poemas importantes nos quais WP frequenta a concisão são “Vazio” e “Mudança”. Já o grande escritor Edgar Allan Poe confessou que os poemas longos não marcam tentos, já não existem as epopeias como antes. A lírica é melhor quando curta. Só os grandes poetas conseguem um poema mais ou menos longo como “O Corvo”, pois amarra o leitor (ou ouvinte) ao refrão inerente ao título, até fim. Melhor não arriscar, para não cair em descrições e narrativas.  Outros poemas: “E o Homem?”, (oferecido a Ferreira Gullar), “Infinito de Amor” (concreto) e “Faca Amolada”, são poemas que oferecem tons fortes, imagens indistintas entre o espírito e a carne. O livro vale por todos os poemas já citados.
            Outros poemas poderia citar entre os bons, os quais o poeta só deverá mesmo reescrever alguma coisa, palavras, locuções, cancelamentos, substituição, com  vagar e sempre baseando-se nos grandes escritores nossos, como Ferreira Gullar, Drummond e Manoel de Barros, para citar apenas os modernos, e não se deixar levar pelos poetas da música popular, onde raramente encontramos bons versos. Não citei os clássicos Olavo Bilac e Guilherme de Almeida – estes me vieram à mente porque encontrei no livro “Faca Amolada”, um poema que o autor diz ser soneto, mas soneto não é, pode ser que seja um poema de médio alcance. Soneto tem regras, só quem as conhece e já construiu alguns, pode brincar com elas.  Não estou dizendo que o autor em estudo não tem capacidade de escrever um soneto, que é uma forma secular consagrada onde somente os grandes autores encontram lugar e colocam-se entre os mestres. Mas, sinceramente, precisa de mais treino, sim. Aliás, um treino que até os grandes poetas modernos fizeram, mas alguns  não publicaram nenhum (veja o caso de Oswaldo de Andrade), para não confessarem o “pecado”.
            Enfim, “tudo vale a pena se alma não pequena”, concordo com Fernando Pessoa. Assim, para o poeta Waldomiro Peixoto restam dois caminhos: um deles é reescrever o “Faca Amolada”, no todo, ou em parte; o outro é escrever nova obra tentando melhorar sempre, como os poetas fazem. Poeta não nasce, poeta se faz. Faz-se com muito suor, papel e letras, acompanhados de obstinação. Não quis desanimá-lo, assim. Faço-lhe esta crítica com a mão no coração. É cheio de boa vontade que lhe vou apontando o que sei. Os leitores que me julguem, pois os críticos também erram. Mas é preciso provar que não tenho razão.
          
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 Francisco Miguel de Moura é poeta, cronista, contista, crítico literário e romancista. Membro da Academia Piauiense de Letras e União Brasileira de Escritores - UBE-São Paulo.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

CARTA AO ESCRITOR MONTEZUMA DE CARVALHO


Francisco Miguel de Moura*
para Joaquim de Montezuma de Carvalho

                Teresina, PI, 16/11/ 2004. 
            – O que está acontecendo com meu amigo, que nunca mais me escreveu nem me mandou notícias através de seus artigos? Somos agora, amigos, de presença, mas gostaria de continuar a ser amigos escritos. Estou ansioso por conversar com você, é bom conversar com um mestre, diante do qual sempre se aprende muito. Qual sua opinião sobre a reeleição de Bush, nos Estados Unidos? O mundo vai melhorar ou piorar? Vamos ter mais guerras do que as que já temos? 
         Estive pensando em algumas coisas do que você escreve, com as quais eu concordo e até gostaria de ter conhecimento melhor para comprová-las a meu jeito. Li, entre outros, seus artigos a respeito de Galiza, no Suplemento “Das Artes das Letras”. Na verdade, o que faz a diferença entre os homens e os outros animais é a cultura, todos estamos carecas de saber. E desse ponto de vista os homens são iguais, compõem a humanidade. Mas somente até aí. Porque são diversas as culturas é que os povos se diferenciam ao perpassar dos séculos, milênios.
            Em virtude das distâncias, do isolamento, da geografia, da família, das religiões, das raças, dos meios de vida, de transporte, das descobertas, das línguas e de alguns sentimentos especiais – a saudade, por exemplo – desenvolve-se a arte de modo desigual, em civilizações mesmo próximas, como Grécia e Roma. Tudo isto resulta nas grandes e pequenas nações, as grandes famílias e as pequenas, os povos peninsulares e os insulares, os continentais e os de pequenos países. No conjunto, mesmo dentro de um país, dentro de uma nação há divisões, uma delas entre maioria e minorias. De caráter político, portanto, visto que todos os governos são mantidos pelas maiorias. Quando no país se adota ou pratica a democracia, ainda bem. Ali as minorias são vistas, embora que nem sempre respeitadas. Às vezes são temidas, perseguidas, massacradas. Nas guerras, todas injustas.
            Galiza pertence politicamente à Espanha, mas de forma indevida, pois até sua língua, o galego, é um dialeto português. A política divide o que deve ser unido e une o que deve ser deslindado, sem critério a não ser o do poder da maioria. Você transcreve um soneto de Leite de Vasconcelos, grande filólogo português, em dialeto galego, onde mostra que “Leite de Vasconcelos nutriu um afeto desmedido à Galiza”, pois (...) “sabia que lhe estava proibido amputar o que nascera num berço comum de múltiplos laços e estreitos vínculos na língua, nos costumes, etc. aquilo a que podemos chamar a grande pátria ideal das memórias coletivas afins e escapa aos poderes políticos incultos e bárbaros, cada dia mais desconhecedores da modernidade do pretérito, aqueles poderes tão só lidando com o presente efêmero como as governantas de casa...” O soneto de Leite de Vasconcelos, cheio de sentimento, não obstante as críticas que lhe fizeram, fica gravado nesta carta, a qual guardarei para utilizá-lo em boas oportunidades que me apareçam:
          “Galicia, terra irmán de Portugal / onde voan os mesmos paxariños
e as mesmas frores bordan os camiños, / e son uns mesmos, pobos e ideal. //Lindo berce de Curros e Pondal, / - um que escoita os queixumes dos airiños / outro, que abrindo vellos pergamiños / canta os feitos da historia rexional. // Eu te saúdo! E atópome feliz / pois sentín hoxe, destes bôs amigos, / o corazón ao rente latexar... // Soño da beira mar, verde país, / viva eu de cote sin correr perigos, / pra acó mais unha vez, virte a saudar”.             
             Sou apaixonado pelos pequenos povos e tomei-me de amores por Galiza. Bem que gostaria de conhecê-la. Sinto muito ter ido à Europa e não conhecido Galiza. Tenho por certo que não me decepcionaria, pois gosto dos pequenos. Num artigo de jornal estou tentando dizer isto. Aliás, aquela viagem, com relação a Portugal não valeu a pena.
            Vou juntar uns euros novamente, e, antes que a saúde não me permita, penso em dar com os costados na terra lusitana, dessa vez para conhecer direitinho, sobretudo, Lisboa, Porto, Coimbra, a cidade Moura (de onde eu provenho), e outras, as ilhas da Madeira e dos Açores, Galiza...
            Mando-lhe alguns recortes de jornais e uma revista (do Ceará), com uma excelente entrevista do Chico Buarque.
           Abraço de saudade, inclusive recomendações de minha esposa, D. Mécia.
           Ex corde!
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Francisco Miguel de Moura - Carta tirada do fundo do baú, ao meu prezado e ilustre amigo, escritor Joaquim de Montezuma de Carvalho - Portugal

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

VIDA, LITERATURA E OBRAS DE MEU ESPECIAL CARINHO*

Francisco Miguel de Moura*

            Em algum lugar, li ou ouvi alguém dizer que seria simpático se todos os discursos acadêmicos começassem já citando o patrono e os ocupantes da sua cadeira. Concordando com a assertiva, digo: O patrono da cadeira nº 8, a que ocupo, é José Coriolano de Sousa Lima (J. Coriolano), de quem pretendo ainda escrever uma biografia, se me houver tempo  e saúde: os ocupantes da cadeira foram Antônio Chaves, Breno Pinheiro, Celso Pinheiro Filho e Francisco da Cunha e Silva.
            Dito isto, afirmo que minha vida literária começou com um poema que escrevi em papel de embrulho, na loja de tecidos onde trabalhava, pelos idos de 1950, no povoado Jenipapeiro, município de Picos, Piauí. Declamei o poema para os amigos daquela época, entre os quais estava Sebastião Nobre Guimarães – um agrimensor que trabalhava na região. E então ele me disse: 
        - “Chico Miguel, se você consentir, quero levar este poema para publicar no jornal “A Fâmula”, dos estudantes do Ginásio de Picos”.
             Eis o poema denominado de “Teu Valor”:
           “És filha de sangue azul, / Rainha de Norte a Sul, / Princesa do meu torrão./ É meigo o teu ar de riso, / Baloiçando o puro friso / Das belezas de um Éden./ Ai! Me dói o coração /Ver a tua condição / Tão diferente da minha: / A tua  mais se dilata, / A minha se definha! / Ora sinto-me aprazer / Na beleza do teu ser, / Ora me sinto um ninguém. / De cobiça é meu viver, /É um triste vai-   e-vem...”
         O poema foi publicado no jornal dos estudantes em Picos, outros também seriam publicados depois, por exemplo, em “A Gazeta”, jornal editado por Odonel Castro Gonçalves, um finalista do Ginásio, que me procurava a cada número para escrever, fosse prosa ou poesia. Mas “Teu Valor” é marcante, levou-me até a cidade. E assim me levou ao Ginásio, depois de um bom “Curso de Admissão” ministrado pelo Prof. Manoel de Moura Fé, que lecionava história no dito Ginásio.                           
            Caiu a sopa no mel”, como diz o vulgo,  era tudo que eu queria, pois já pensava em mudar-me para a cidade, onde poderia, quem sabe, frequentar o tal ginásio, na época denominado de “Marcos Parente”, o qual, embora fosse público, do Estado, não o era totalmente, pois a Prefeitura combinara com a criação do ginásio, ficando ela com as despesas decorrentes: professores e localidade. As demais ficariam por conta dos alunos. Assim, foi através de conversas de Nobre Guimarães com seu irmão Francisco Almeida Guimarães, que morava em Picos, o qual informou ao construtor Abrahão Conrado da minha situação. Prontamente, seu Abrahão concordou com minha hospedagem gratuita em sua casa, pois que eu tinha muito futuro,  e ele gostava de ajudar os parentes nessas condições.  Não preciso nem dizer que tive o curso primário muito bem feito, com meu pai, Miguel Borges de Moura, conhecido com mestre Miguel Guarani, que foi laureado recentemente com a importe tese de doutorado da professora Cristiane Feitosa Pinheiro: “Entre o Giz e a Viola: Práticas Educativas do Mestre-Escola Miguel Guarani, no Vale do Guaribas”, Universidade Federal do Piauí, 2017.
            Foi assim: Ginásio de graças (visto que eu fora aprovado no Curso de Admissão em primeiro lugar), roupas e livros de graça, porque o Milton, filho de seu Abrahão, justo acabara de fazer o primeiro ano e de forma muito irmã e amiga, cedeu-me seus pertences mencionados.  No segundo ano, seu Abrahão já me arranjara um emprego temporário num cartório e depois fui nomeado Escrivão de Polícia, na Delegacia da cidade.  No final do segundo ano do Ginásio, já eu tinha roupas próprias e só não pagava a anuidade exigida pelo curso porque continuava sendo o primeiro ano da classe. Logo, logo fui aprovado em concurso do Banco do Brasil, passando a ter minha autonomia financeira. E, claro, pensava em casar, o que não demorou muito, uns 2 ou 3 anos, em cujo período minha biblioteca cresceu enormemente.
            Nesse tempo, eu lia muito, principalmente à noite. Lembro que fiz a leitura de Eça de Queiroz – “O Crime do Padre Amaro – em um dia e uma noite. Vê-se que não teria dinheiro para comprar livros, nem precisava porque a “Biblioteca” do Agente de Estatística, tio de Milton Portela Costa, e me foi colocada à disposição. De Bandeira a Drummond e Fernando Pessoa, em poesia. De José de Alencar, a Humberto de Campos, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Euclides da Cunha e Visconde de Taunay (“Inocência”) – que me influenciou na prosa - e tantos mais, além dos franceses como Flaubert, Victor Hugo e outros, eu “papei” todos. Meu gosto pela leitura começou muito cedo, meu pai me colocava mãos livros e antologias das melhores.  Já meu avô paterno, dado a leituras interessantes como “100 Cartas de Amor”, cujo nome do autor me fugiu da memória, tinha os poetas românticos:  Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu, etc. que eu houvera lido às escondidas, quando ele estava no trabalho.
            Em 1961, eu já me encontrava na cidade de Itambé-BA, onde fora com missão de Chefe da Carteira Agrícola e Industrial do Banco do Brasil, onde continuei minhas leituras de poesia, crítica literária e história dos Brasil e Universal, pois a cidade, apesar de pequena, possuía livraria e jornal. Em 1959, casei-me com Maria Mécia, com quem convivo até hoje e de cujo consórcio resultaram meus filhos Franklin, Fulton, Laudemiro, Miguel Jr. e Fritz Morais Moura. Já em Teresina, depois de criados os filhos de sangue, adotamos a menina Mécia, que ainda hoje mora conosco.
            Foi no final de 1964, voltei para o Piauí, Teresina, e continuei com a minha atividade literária, criando, com os companheiros Herculano Morais e Hardi Filho, o famoso CLIP (Círculo Literário Piauiense). Continuando no Banco do Brasil, à noite fiz a Faculdade Católica de Filosofia (FAFI), enquanto organizava meu primeiro livro,  “Areias” (1966). Publicado, iniciei a escrita de “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”, que me valeu a edição no Rio (RJ), tornando-me conhecido e admirado como crítico literário no Brasil e em alguns outros países. Justamente esta obra me inscreveu como crítico nacional, sendo catalogado na “História da Crítica no Brasil”, do Prof. Wilson Martins.  Essas obras se inscrevem entre as que têm meu especial carinho. Mas não só elas: “Areias” prefaciado por Fontes Ibiapina, que me deu o batismo de poeta, e O. G. de Carvalho me possibilitou a escrever um dos melhores, se não o melhor, livro de crítica literária do Piauí, divulgando-o pelo Brasil e pelo exterior.
           Porém vieram outras obras, não pretendo citá-las, pois são muitas. Só não devo esquecer  “Universo das Águas”, meu 3º. livro de poemas, elogiado por Carlos Drummond de Andrade,  e “Vir@gens”, lançado por Waldir Ribeiro do Val (Edições Galo Branco, 2001), que me levou à Bienal do Rio de Janeiro e foi bem aceito e elogiado pela imprensa e pela crítica.
            Mas como é costume dizer-se que o melhor livro do autor é aquele publicado por último, acrescento que me sinto bastante satisfeito com a publicação de “Minha História de Picos”, Ed. da Universidade Federal do Piauí, 2017, porque, praticamente, nele eu trabalhei todos os meus anos de Teresina, quer pesquisado no Arquivo Público da Casa Anísio Brito, quer lendo e colecionando jornais, livros e documentos. E, não só isto, porque para escrevê-lo gastei cerca de 3 a 4 anos.   Como pode um livro desses não ser um dos meus preferidos? Nele conto, em forma de crônicas, como se fosse a renovação das narrativas portuguesas da época trovadoresca, cujos escritores se movimentavam em torno dos reis e  seu feitos (porque não era permitido mostrar defeitos). Aproximo-me muito das chamadas obras de “cavalaria”, cuja espécie, até hoje ninguém superou Miguel Cervantes de Saavedra, com o seu “Dom Quixote”. Na verdade eu fui, levemente, um imitador desses escritores. Por fim, chamo a atenção dos leitores para a quantidade de nomes e sobrenomes de pessoas e famílias que que cito, sem ser uma obra tipicamente genealógica. Num livro de 350 página cito cerca de 5.000 nomes de pessoas, famílias e apelidos, material que me fez construir a obra, sem falar na emoção e no carinho que dedico a essas pessoas. Se é grande obra, não sei. Mas sei que é uma obra do bem.
                                         
 ___________________                                  
*Membro da APL -Discurso impronunciado na APL, em 22-08-2018*

           

           
           

      



terça-feira, 11 de dezembro de 2018

AMOR DE SALVAÇÃO e O SEXO DOS ANJOS - Elmar Carvalho

1. AMOR DE SALVAÇÃO
             
Elmar Carvalho*

O teu grande amor
foi o que te salvou
e me salvou,
pois nos arrebatou
dos amores tentadores
em que seríamos arrastados.
Já que me amavas
eu tive que te amar
para que não sofresses,
nem eu, amiga, por
por te ver sofrer.
Não gosto que ninguém sofra
e muito menos tu, amada,
frágil frasco de fragrâncias
e de refrigérios refrescantes
que me ama muito além
do que mereço.

2. O SEXO DOS ANJOS

                   Elmar Carvalho*

Que temos a ver
com o sexo antisséptico
dos inatingíveis
anjos da hostes celestiais?
Que temos a ver 
com os anjos machos e fêmeas
de falos decepados e de
vaginas obturadas?
(A ânsia por asas e
a sede de infinito.)
_____________
*Elmar Carvalho, poeta contido e objetivamente concreto, cronista, orador e ensaísta, colaborador de vários jornais do Piauí e formado em Direito. Nome completo: José Elmar de Melo Carvalho. Nasceu em Campo Maior (PI), em 09-04-1956. Foi Juiz de Direito, em várias Comarca do Piauí. Filho de Miguel Arcângelo de Deus Carvalho e Rosa Maria de Melo Carvalho. Presidiu a União Brasileiros de Escritores do Piauí (PI) e o Conselho Editorial do Fundação Cultural “Mons. Chaves”, Teresina (PI). Recebeu diversas honrarias entre as quais a Comenda do Mérito Renascentista do Piauí. Obras: “Cromos de Campo Maior (1990-1995), “Noturnos de Oeiras”(1994), “Rosa dos Ventos Gerais”(2016-3ª edição). Lira dos Cinquentanos (2006), “Bernardo Carvalho – o Fundador de Bitorocara (2016- 2ª ed.) e tantos outros.
          

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

XOSÉ LOIS GARCÍA – BIO-BIBLIOGRAFIA E POEMAS



Aricy Curvello (1945-2018)*


                  Um homem vasto

Nascido na cidade de Lugo (Galícia) em 22 de abril de 1945, Xosé Lois García garbosamente chega à altura de seus sessenta anos em 2005.

Em sua pessoa podemos saudar o poeta dedicado a vários gêneros literários e à arte, o autor de peças teatrais bem como o estudioso da realidade social, o ativista político e cidadão empenhado. A mim, sobretudo, chamam-me a atenção o seu fervor e o seu trabalho em prol das literaturas em dois dos mais antigos idiomas da Península Ibérica, o Galego e o Português.

Quando menino, por certo conheceu em sua vida escolar a repressão do governo do Generalíssimo Franco (1936-1975) aos idiomas concorrentes do Espanhol como o Galego e o Catalão. Muito duradouras em XLG terão sido as impressões a respeito da violência ditatorial franquista, considerando-se a riqueza literária de seu idioma natal e a paixão que ele lhe desperta, o Galego, que do século XI ao XIV predominou como a língua da poesia na Península, enquanto o Castelhano era reservado para a narrativa épica e histórica.

Ainda jovem, coincidentemente, radicou-se na Catalunha onde reside na cidade que foi o último bastião livre da República Espanhola a cair, em 26 de janeiro de 1939 e, ali, licenciou-se em Geografia e História pela Universidade de Barcelona. Dada a sua feição antifranquista, por certo terá preferido fixar-se na sempre inquieta e livre Barcelona ao invés da Madri burocrática e oficialesca.

É sintomático que tenha procurado licenciar-se justamente em Geografia e História, as duas ciências que mais de perto são capazes de falar do passado e do presente, bem como do ambiente e da habitação do homem. A Universidade terá ilustrado a XLG mais intensamente a história da Galícia, de sua cultura e de seu idioma, bem como também de sua familiagem com o Português.

Destaco, por exemplo, a edição de XLG de "Cantares d' Amor e de Amigo" (A Coruña: Ediciós do Castro, Série Documentos, 1990) compostos em Galego pelo poeta barcelonês Carles Riba (1893-1959), intelectual comprometido com a República e que teve de se exilar em 1939 na França. (Carles Riba traduziu para o Catalão obras capitais de Sófocles, Ésquilo, Plutarco, Kavafis, Hölderlin, Poe, Rilke e Kafka, entre outros, além de nos deixar uma extensa bibliografia em poesia e ensaios literários.)

Também destaco, na área de filologia, "Os Trobadores das Terras de Chantada" (A Coruña, 2001), livro composto por vários artigos que XLG publicou em diversos jornais e com eles pronunciou a conferência sobre o tema, no Cassino de Chantada (Galícia), em 28 de Janeiro de 2000. O volume se abre com "Airas Moniz de Asma, o Precursor", poeta pioneiro da Chantada, do século XIII, que precedeu os trovadores registrados nos cancioneiros medievais, deixando de ser Xohan de Requeixo o único deles. Sobre este último, "Interpretacións sobre o Trobador Xohan de Requeixo" tenta levantar o véu das incógnitas a respeito da vida e das canções deste poeta da Idade Média.

Na brilhante introdução que abre seu ensaio "Lectura e Itinerário Posibel pólo Terra Cha de Manuel Maria" ( Lugo: Talleres Gráficos Diputación Provincial, 1994), em que se pergunta se a Galícia já tem o seu grande poema, responde que: "Os poetas galegos, sobre todo os do século XX, dán suficientes mostras de ter construido a gran Poema de Galicia. Cada um dendes o seu meio nativo. Pensamos, ao respecto, na terra de Bergantiños cantada por Pondal; o xa nomeado libro de Novoneyra, sobre o Caurel; de Antón Tovar, sobre o Limia; de González Garcés sobre a mariña coruñesa; de Fiz Vergara Vilariño, sobre as sabreiras terras do Incio; de Leiras e máis de Noriega, sobre Mondoñedo e así podíamos citar unha longa ringleira de contribuintes a esse gran Poema de Galicia que, gracias a eles, está feito e asentado nesa fragmentación que marcan a esencilidad hexemónica da nosa lírica" (p. 7).

             Uma vasta obra e um vasto salto

Além de assinar vários livros de poesia e de ensaios, XLG é articulista de crítica literária e de arte, também tratando de temas sociais em revistas e jornais especializados.

Autor de várias peças de teatro, em sua bagagem há também "Xente de Inverno" (A Coruña, 1995), livro de contos em que faz renascer a Galícia de sua infância, a dos anos quarenta e cinquenta do século XX, em histórias do mundo rural galego.

Como estudioso de arte é um sério investigador da simbologia românica, sobre a qual produziu dois livros, "Simboloxía do Românico de Amarante"(em Portugal) e "Simboloxía do Românico de Pantón" (na Galícia).

É deveras impressionante o trabalho desenvolvido e publicado por XLG em Galego e em Português, seja em literatura, seja nos vários campos de seus estudos, de forma a outra vez enlaçar Galícia e Portugal como constituindo região cultural única embora diferenciada, mas decididamente não-castelhana.

Não tardou muito em considerar as consequências dos empreendimentos coloniais de Portugal que alargaram de muito o espaço do idioma português no mundo. A partir de seu apoio à independência das antigas colônias portuguesas no continente africano, XLG desenvolveu a consciência da necessidade de enlaçar em sua obra e em suas atividades também os países lusófonos da África, América e Ásia.

Escreveu prefácios para várias obras de escritores africanos lusófonos, dentre os quais se destaca um verdadeiro ensaio curto em Português intitulado "Amílcar Cabral: Ideologia, Nacionalismo e Cultura" que abre o livro de Cabral "Nacionalismo e Cultura", lançado em Português pela Edicións Laiovento (Santiago de Compostela, 1999).

XLG tem desenvolvido também várias atividades em palestras individuais, em Congressos e simpósios sobre a cultura e a literatura dos diversos países de expressão lusófona, bem como nos meios de divulgação da Espanha, sobretudo na Galícia e na Catalunha.

                              Vocação galaico-lusófona

Além de vasta, a obra do mestre de potente é multifacetada. No entretanto, em todos os gêneros há nela, sempre, pontos de contato galego com o mundo da lusofonia. Uma vocação de enlace, esta é uma de suas características mais marcantes.

Sabemos que até o século XI o Galego constituía um complexo linguístico com a antiga fala portuguesa do norte do Douro, o Galaico-português ou Galego-português, o qual historicamente originou o Português moderno. São os mesmos do Português os traços gerais característicos do Galego, ambos se diferenciando de modo geral na ortografia e na pronúncia. Uma das mais expressivas diferenças é a substituição da fricativa sonora j pela fricativa surda x, donde o lusitano José e o galego Xosé. Da mesma forma, o ditongo ui pelo ditongo oi, donde o português "muito" e o galego "moito". Os falantes de ambos os idiomas no entretanto se compreendem perfeitamente, dada a sua similitude.

Por influências castelhanas, o Galego adquiriu outras características próprias a partir do século XI, processo que veio a culminar no reinado de Afonso X , o Sábio (Toledo-1221, Sevilha-1284), rei de Castela e de Leão (1252-1284), imperador germânico ( 1257-1272), quando o Galego foi assumido como o idioma da poesia na Península. O próprio rei compôs cerca de 420 cantigas em Galego, em honra da Virgem Maria (Cantigas de Santa Maria). Tal situação alterou-se no século XIV, quando o Castelhano passou a ganhar terreno, vindo a constituir o Espanhol comum.

Com a decadência política da Galícia, os cancioneiros foram esquecidos e, com o correr do tempo, o Galego passou a ser considerado uma língua inculta. Após quase meio milênio, o seu renascimento veio ocorrer apenas em meados do século XIX com o Romantismo, com a valorização do passado medieval e das tradições locais. Não sem razão, foi um escritor galego, Nicomedes Pastor Díaz (1828-1863), um dos iniciadores do Romantismo na Espanha., sendo sua obra A alborada (1828) geralmente reputada como a iniciadora da literatura galega moderna.

Também a linguística auxiliou a preparar o ressurgimento literário e da dignidade do Galego, com os trabalhos do precursor Xoan Manuel Pinto (1811-1876), gramático e poeta, entre vários outros como Cuveiro Piñol que publicou El Habla Gallega e o Diccionario Gallego- Castellano (1868). O despertar histórico da Galícia contribuiu para o aparecimento de grandes poetas como Aurelio Aguirre, Francisco Añon y Paz, Rosalia de Castro, entre os vários que marcam o renascimento e a maturidade literária do Galego.

Hoje, é o idioma falado na Galícia por mais de 3 milhões de pessoas. Seu domínio linguístico vai além da Galícia, atingindo as regiões de Leão e de Astúrias, na Espanha, e o norte de Portugal.

Verifica-se que na obra de Xosé Lois García há uma aguda consciência da história do Galego e do Português, da história da Galícia e de Portugal. Desconheço outro autor espanhol contemporâneo que a demonstre em tão alto grau e com a dimensão de sua obra.

Em poesia, se a maioria absoluta de seus livros está em seu idioma materno, o Galego, a eles se deve acrescentar também títulos em Português: "Indícios do Sol" (1988), "Labirinto Incendiado" (1989) e o belo "O Som das Águas Lentas" (1999) de poemas sobre velhos azulejos lusitanos, cujas fotos (de Luís Ferreira Alves) enobrecem o volume, que se abre com os versos aplicados à figura do barqueiro, em que ressoam os ecos das grandes navegações marítimas e dos descobrimentos:                         
                                             
O SOM DAS ÁGUAS LENTAS

       Xosé Lois Garcia

Surpreende-te a primeira atmosfera,
na condensação do movimento em maresia
Na íntima delicadeza da barca
estremece-te a líquida dimensão
duma potência solar que doura a água.
Deve ser o teu primeiro ofício,
nesta profunda paixão pelo desconhecido;
precisas do contacto que transparece
em tudo o que o barqueiro-mor
sabe das clareiras que iluminam o eco.
Herdaste a linhagem do marinheiro
para poupares a espessura do líquido,
e habitar as mudanças no próprio tempo
onde inclinas o teu rosto meio aceso
meio salgado para consagrar-te ao mar.
Já eras eterno no ritual dos balanços,
e serás mistério no pudico destino do ar.

     Outro título em Português, o quarto, é o surpreendente "Sambizanga" (Braga/Port.: Frouseira, 1999), formado por composições de inspiração angolana, livro prefaciado por Pires Laranjeira (Paris e Coimbra, Junho de 1999), que bem ressaltou: "A publicação deste livro, significativamente intitulado Sambizanga - o bairro mítico do filme homônimo de Sara Maldoror, de algumas estórias de José Luandino Vieira, e do nacionalismo angolano, em geral, de Mário Pinto de Andrade a António Jacinto e Viriato da Cruz -, vem acrescentar à obra de Xosé Lois García franjas do território imaginário da lusofonia. Vem propiciar-nos a perspectiva aproximada, por via poética, do lento deslocar do discurso de uma galaico-lusofonia que é propiciatória de amplas leituras sociogramáticas, de deslocação do sentido unívoco do 'poeta' tutelar para o da sociabilidade abrangente, mas não 'universalista', de um mundo extra-galego, mas paragalego, extra-espanhol e decisivamente não-castelhano" (p.11).

Com relação a autores angolanos, muito tem feito XLG. Além de tradutor da obra de Agostinho Neto (escritor e primeiro presidente de Angola livre) para o Espanhol, sobre este autor publicou vários ensaios que abordam sua poesia, bem como a de João Maimona. Entre eles: "A Bíblia, presente em Sagrada Esperanza"; "Música e dança na obra de Agostinho Neto"; "A Medicina, na poética de Agostinho Neto"; "As fogueiras de África na obra de Agostinho Neto". Em 1995 lançou um estudo fundamental sobre a vida, o pensamento e a obra de António Jacinto, outro poeta angolano," Jacinto: a luta do poeta-guerrilheiro contra a alienação". Já escreveu inúmeros prefácios e ensaios curtos de análise crítica de vários escritores de Angola, país que já visitou, entre outros na África.

"Homenagem a Angola no XXV aniversário da sua independência nacional (1975- 2000) - Textos e edición de Xosé Lois García" ( A Coruña, Ediciós do Castro, 2000) dá-nos notícia de três viagens de XLG a Angola e exibe fotos por ele tiradas de aspectos populares do país, de alguns de seus escritores mais conhecidos e de capas de alguns de seus livros, como António Jacinto, António Cardoso, Uanhenga Xitu, Arnaldo Santos, Costa Andrade, Henrique Abranches, Luandino Vieira, Pepetela, João Maimona, entre outros, e dos jovens como Amélia Dalomba e Lopito Feijóo.

                          O grande organizador de antologias

Grande trabalhador intelectual, XLG já traduziu ao Espanhol um sem número de poetas de expressão portuguesa, com eles organizando importantes antologias da poesia contemporânea de cada país lusófono. Tais traduções ao Espanhol têm por objetivo uma ampla divulgação na Espanha, nas Américas e em outros continentes. Entre elas:

Antología de la Poesia Actual Portuguesa (Barcelona, 1982); Poesía en Acción - antología de poesia de Moçambique ( Saragoça, 1986); Poemas a la Madre África - antología de la poesía angolana del siglo XX (A Coruña, 1992); Floriam Cravos Vermelhos - antologia poética de expressão portuguesa em África e Ásia ( A Coruña, 1993); Antologia de Poesia Feminina dos PALOP {Países de Língua Oficial Portuguesa} ( A Corunha, 1998); Antologia de la Poesia Brasileña ( Santiago de Compostela, 2001).

Nós brasileiros temos com XLG uma dívida especial de gratidão pela recolha de nossa poesia contemporânea que incluiu 44 autores, entre os quais: Antônio Brasileiro, Aricy Curvello, Astrid Cabral, Carlos Nejar, Cassiano Nunes, César Leal, Hugo Mund Júnior, Joanyr de Oliveira, Jorge Tufic, José Santiago Naud, Lêdo Ivo, Myrian Fraga, Raquel Naveira, Renata Pallottini, Ruy Espinheira Filho, Susana Vargas. Sem sombra de dúvida, é uma das mais atualizadas e equilibradas antologias da atual poesia do Brasil, exceto os concretistas, em idioma espanhol. A publicação pela galega Edicións Laiovento foi tornada possível pelo Ministério da Cultura do Brasil (MINC) / Fundação Biblioteca Nacional, por meio do Programa de Apoio à Tradução de Obras de Autores Brasileiros.

Não deixou XLG de também dar existência a coletâneas temáticas, como "Junto ás Águas Velhas - Poemas ao Castiñeiro de Podente (Braga/Port.,1999), com poetas lusófonos e galegos, e o interessantíssimo volume que é "Sursum Corda - Poesia Galego-Portuguesa ao Viño" ( Santiago de Compostela, 2000), este último com a parceria de Carlos Dias Martínez na seleção e organização.

Tanto como tradutor de poesia quanto como ensaísta, XLG tornou-se um grande conhecedor e divulgador das literaturas de expressão portuguesa. Sem dúvida, um dos maiores, senão o principal deles, em Espanha e no mundo hispanoamericano.

A Xosé Lois García, nossa gratidão e nosso aplauso. Sobretudo, nossos cumprimentos por sua vida e por sua obra, nesta bela altura de seus sessenta anos em 2005, ocasião em que é justamente homenageado.
__________________

Sobre o autor:
*Aricy Curvello, poeta brasileiro, ensaísta e tradutor. Autor de, entre outras obras: "O Acampamento" (poesia), "Mais que os Nomes do Nada" (poesia); "Anto: revista portuguesa de poesia" (ensaio, Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita, 2000); "Uilcon Pereira: no coração dos boatos" (ensaios, Prêmio Joaquim Norberto, da União Brasileira de Escritores, 2001). E-mail: curvello.vix@terra.com.br

POEMA 

   (Homenagem a Xosé Lois García 
  
Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila...


É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis)


Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses...

___________________________________
Fonte:
1. Wikipedia e Jornal da Poesia
2. Luz Mediterrânea.




sexta-feira, 16 de novembro de 2018

GUERRA E PAZ, COMPETIÇÃO E GUERRA CIVIL



 Francisco Miguel de Moura* 
 Não quero falar nem estou falando de “Guerra e Paz”, o romance de León Tolstoi, nem de Dostoiévski, autor de “Recordações da Casa dos Mortos - dois grandes escritores da Rússia, sendo que o último citado passou dez anos nas prisões do seu país, acusado por crime de opinião (política, sim). Meu leitor os conhece? Bem que gostaria de falar sobre literatura, uma espécie de paz e amenidade alcançada pelo espírito dos seres humanos. No momento, outras matérias se sobrepõem: o futebol, assunto que nada entendo, e a política pré-eleições. A Copa está aí, não há quem ignore. Num desses jogos do Brasil, meu neto Franz quis vir, com o pai, assistir e torcer pelo Brasil, alegando que eu, seu avô paterno, cuidava muito bem dele. Fritz, meu filho e pai de Franz, argumentava que tinha algo mais importante a fazer do que assistir a jogo de futebol.
- Vó, vovó, convença meu pai a me deixar ir pra aí, eu gosto muito de sua casa e meu avô cuida muito bem de mim – assim falou o garoto pelo telefone.
Vieram os dois, Fritz e Franz, pai e filho. O pai resolveu deixar pra depois o que tinha de fazer. Franz é um menino tão vadio quanto foi o pai.   Ai meu Deus, se me lembro! Não é que não gostasse, mas as brincadeiras dele eram demais, sem fim. E o filho saiu ao pai. Numa das brincadeiras durante o jogo, meu neto me perguntava sobre futebol, quando eu era menino, se eu gostava de jogar bola e mais uma dezena de outras perguntas. Peguei a bola dele e segurei. Minha resposta, entre mentirosa e inventada, foi a seguinte:
- Franz, seu avô não sabe jogar bola. Quando eu era pequeno e fui jogar bola, logo me decepcionei.
- Por que, vô? Por que vovô?
- Olhe, eu até quis aprender o jogo, mas quando eu chutava a bola, que é redonda, saía bem. Mas, ao se aproximar da trave do gol, ficava quadrada. Nunca consegui meter um gol, unzinho sequer.
Não sei se me entendeu. Porém, não se incomodou com minha resposta e muito menos com minhas risadas, visto que sou um mau humorista: - em lugar de esperar que a plateia ria, eu rio primeiro. Foi o que eu fiz.
Por estas e outras é que hoje tenho pouco assunto para minha crônica. Não conheço nada de jogo, muito menos de futebol. Se eu for falar sobre ele, farei com tanta ciência e sabedoria quanto à de um cego que se meta a descrever o arco-ires.  É que, a esta altura, não sei se estamos numa competição futebolística, numa guerra entre nações ou o assunto mesmo é a nossa política, péssima política desde o tempo em que o Barba (Lula) e a atual presidente desmandam neste país.
Eu gostaria mesmo era de ter paz para tratar de minha literatura, ler meus livros, fazer nem que fosse uma releitura de “Guerra e Paz”, mas termino assistindo a jogos da Copa, para não ficar por fora e não parecer bobo. Pois todo mundo é só na Copa e no nacionalismo que nasce com ela, que se acaba ela: “O Brasil será o campeão, estamos na nossa casa e o nosso time é o melhor do mundo” - todo mundo falava mais ou menos isto até o jogo Brasil x Alemanha: placar 1 x 7. Aí cadê o nosso time, o nosso técnico, a nossa raça, como fala o povão? - agora pergunto. Saímos da copa sem sair de casa, isto não seria nada se a goleada não fosse tão grande. Não foi jogo de Copa do Mundo o que fizemos, foi uma peladinha entre muros de um clube social qualquer. Vergonhosamente.  E foi no Mineirão, em Minas Gerais, a terra do Aécio Neves, candidato da oposição ao governo Dilma, candidata da situação. E esta é outra guerra em que já estamos e durará cerca de seis meses, quando saberemos quem foi eleito presidente (ou reeleito), quem vai governar o país desgovernado como está e já no fundo do poço em matéria de indústria, inflação, educação, saúde e segurança. A FIFA é riquíssima e trabalha para poucos. Já o governo brasileiro é responsável pelo bem de milhões de pessoas. Continuar, eles querem. Mas se houver uma reviravolta, para tomar de conta desse passivo sem ativo, vai ser difícil. Não é fácil refazer-se de um passado em que só pensaram em gastar (e mal) e enriquecerem-se por conta do erário público, aqueles que dizem que cuidam do estado. É um pessoal que gosta demais dos cofres públicos. Não estou dizendo nada, mas parecem até com os ladrões, assaltantes de bancos e com o que mais possa haver de delitos semelhantes. Assim, dinheiro para gastar nas eleições não lhes faltará. Como não faltou no caso do Barba (codinome do Lula, na Comissão da Verdade), com o mensalão e outras “mumunhas”. Esta guerra é mais braba ainda. Quem vencerá? Nós, o povo; ou eles, os burocratas e donos poder? Já perdemos a guerra da Copa, e feio, no jogo com a Alemanha. São essas duas guerras que estão na ordem do dia. A paz é que nunca esteve na ordem de nada. A paz é uma coisa rara. Mas existe uma afirmação de que “guerras são necessárias” porque trazem inovações, progresso. Eu, de poeta e tolo, desejo a paz, que foi o que mais Jesus Cristo pregou. E ele mudou o mundo, trazendo o mandamento do amor, quando o que existia era apenas “o dente por dente, olho por olho”.  Foi assim que o Império Romano desabou e as nações que aceitaram o Cristianismo, especialmente na Europa, ergueram-se para uma paz aqui e acolá duradoura. Outros dizem “guerras sempre existiram e acontecem quando o poder e a diplomacia falham”.
No Brasil, outra guerra, porém surda, é a da droga e dos traficantes contra o povo bom e pacato que somos. Imagine-se que já fundaram até partidos, há por aí um zunzum de que colaboram com altas autoridades através verbas astronômicas para os candidatos ao governo.
Assim, o povo não tem nenhuma esperança de que ela (a guerra) acabe tão cedo e nos venha a paz.  Certamente é a uma guerra civil em andamento.

______________________
Escritor da Academia Piauiense de Letras, e-mail:franciscomigueldemoura@gmail.com

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