Terça-feira, 14 de Julho de 2009

A FLEXA E A CANÇÃO




Henry W. Longfellow(1807-1882)






Atirei uma flecha no horizonte
E ela caiu em terra, não soube onde;
Porque, de tão veloz que voou, a vista
Não poderia seguir a sua pista.

Atirei uma canção no horizonte
E ela caiu em terra, não soube onde;
Pois quem tem vista forte e penetrante
Capaz de acompanhar o som viandante?

Mais tarde e longe, num carvalho enfiada,
Eu vi, inteira, a flecha arremessada;
E a canção, do início ao fim, consigo
Achar depois, no peito de um amigo.

_______________
Tradução de Francisco Miguel de Moura

Sábado, 11 de Julho de 2009

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA - ESCRITOR


SOBRE “OLHOS AZUIS – AO SUL DO EFÊMERO”

José Antônio Zago*


Há mais de uma década tenho contato com os textos de Emanuel Medeiros Vieira. Recentemente li o primeiro volume de suas memórias, sobre o qual escrevi algumas linhas e as enviei ao autor.


Agora, Emanuel nos brinda com o seu livro Olhos Azuis – Ao sul do efêmero –, pela Thesaurus Ed./FAC, Brasília, 2009, 292 páginas.

Eu uso o verbo brindar porque o texto faz justiça a isso.

Misto de romance, memórias, ficção, relato do real e, sobretudo, da própria construção da narrativa.


Emanuel debruça sobre si mesmo para de forma catártica, como que retirando camadas e camadas da memória, num processo de elaboração, para o encontro de uma alma límpida, tal qual vivenciada na infância. Não se trata de redundância de alguns temas, contudo de assinalar, evidenciar e não deixar no esquecimento certas passagens. Verdadeiras, e não mera figura de retórica, essas passagens. Num certo sentido, cada passagem significa um triunfo da vida sobre a morte. Em algumas delas não necessariamente sobre a morte de ideais, mas da morte do corpo mesmo. E a lembrança de companheiros associados, ou melhor, irmanados na mesma busca: Canora e Wanda.

Idas e vindas, retorno à figura paterna. Doces, ci
garros, conversas lembranças. Mas, nada disso apaga, pois foram momentos gravados na eternidade do e pelo autor; as andanças por Porto Alegre, São Paulo... Júlia, figura central na narrativa. Alter-ego de Emanuel? Seu anima, num linguajar junguiano? Ficção ou memórias do real?

Não importa muito se ficção ou se memórias. Emanuel expõe de maneira crua suas andanças. Não andanças sem rumo, porém bem estabelecidas. Nelas a busca da liberdade e do amor. A alma do revolucionário da liberdade e, ao mesmo tempo, a saborosa “prisão” da paixão. Os extremos. A mocidade e a madureza da vida De um lado a rudeza de questionar e lutar por direitos humanos e democráticos; de outro, a do gesto adolescente de fazer de tudo para a amada, de comprar flores, de passear de mãos dadas, de amar sem conseqüências.

Mas esses extremos aparecem também nos relatos sobre as visitas nos “porões” da (des) humanidade e na atual situação sócio-econômica que, para variar, mantém os privilégios dos que sempre tiveram a maior parte do bolo. Isso também é (des) humanidade. Afinal, toda a sociedade é fruto da construção humana e des-humana.

O romance de Emanuel trouxe-me à mente lembranças de quando li a Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera. O povo tcheco esmagado pela invasão Rússia cria resistências de imediato. É um peso tão concreto e tão sentido que automaticamente, ou seja, prontamente, cria resistências. Mas, a mulher não sente o peso do amado durante o ato do amor, porque este enleva, anestesia. É um peso de leveza. Contudo, o peso da ideologia alheia é leve, não perceptível, mas é um fardo ou peso tamanho que nem se percebe que está nos ombros.

Percebi essas mensagens no mais novo romance de Emanuel. As lutas contra a ditadura, as torturas e as mortes por se pensar diferente da ideologia imposta. As lutas para manter ou para compreender o amor, a perda irreparável que parece sem sentido. Por que extinguir a própria vida? Como escreveu Emanuel, quer ter, enquanto viver, condições para escrever e não ficar cego para poder ler a vida toda. Isso sumariza a celebração da sua vida, que é a produção literária. Essa produção que permite expor suas dores, amores, paixões, amor filiar, amor fraternal, ideais... Essa produção que permite tornar público o quanto é humano no sentido mais transcendental da palavra.

Olhos Azuis, tal como nosso firmamento, azulado porque contém aquilo que nos mantém vivos (nem percebemos o quanto o oxigênio é importante e vital), é um convite à celebração da vida. Mas da vida com sentido, da vida com significando, sabendo por que se vive e para quê se vive. Pareceu-me essa, não só neste texto, mas em toda a sua obra, a linha que costura o romance. Por isso, utilizei o verbo brindar no início. É um texto que brinda a vida. Viver concretamente é nascer, crescer, reproduzir e morrer? É muito disso. Mas, não é apenas isso. Vida envolve alegria, dores, idéias, paixões, inteligência, no dizer de Kierkegaard “vitórias precárias e derrotas provisórias e sempre renascentes”, enfim, é muito mais que um ciclo que observamos em outros seres vivos.

Assim, para entender Olhos Azuis é preciso ir mais além do óbvio, porque o autor quer nos passar para além das aparências das escritas, das palavras, da narrativa. Entendo, então, que o material que constitui a linha que costura o romance é especial. Fica muito óbvio, quando se vai além do óbvio, que o romance é um questionamento sobre a juventude que hoje carece de ideais. A juventude esmagada pela eletrônica, pelo cartão de crédito; um peso não sentido porque está anestesiada exatamente pela ausência de ideais, substituídos, é evidente, pela ideologia do tudo pronto ou do imediato. Como se a vida não precisasse ser construída bloco a bloco de história pessoal numa conjuntura social, mas como se a vida de cada um fosse pré-definida, sem história singular, como larvas processionárias.

Não sei se minha compreensão do romance está de acordo com o que o autor planejou passar aos leitores. Não sou escritor, porém fico em dúvida. Penso: quem escreve quer passar o que sente e elabora esses sentimentos, independente do que irá entender aquele que o lê.
E é isso, na minha simples maneira de ver literatura que a entendo. Para mim é isso que diferencia o escritor do escritor. E esse texto, mais uma vez, mostra que Emanuel é um escritor diferenciado.

__________________________
*José Antônio Zago é psicólogo e trabalha no Instituto Bairral de Psiquiatria - Itapira - SP. E-mail: joseantoniozago@ig.com.br

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O BANCO DO BRASIL E SUA FILA ÚNICA


Francisco Miguel de Moura*



Se a gente for, hoje, a qualquer agência do Banco do Brasil deparar-se-á com uma fila enorme, logo de entrada. Fila única. A questão de filas sempre foi um problema. Não sei se está acontecendo o mesmo noutros bancos, pois não tenho outros negócios senão os que dizem respeito a minha conta no Banco do Brasil, agência do centro, onde a mantenho desde 1964, quando aqui cheguei. A agência era única naqueles idos, tudo bem. Mas o Banco, não. Já existia o Banco Agrícola do Piauí, que depois se transformaria em Banco do Estado – recém falecido. Mas o que quero dizer mesmo é que o Banco do Brasil, por ser o primeiro a existir no país (criado em 12 de outubro de 1808 e realmente instalado em 11 de dezembro do ano seguinte), e por ter dado certo, era o padrão. E creio que ainda continua sendo padrão no sistema bancário. Por isto, logo no ano em que comemora o seu bicentenário, não podemos admitir que as leis que temos de proteção ao idoso, aos deficientes, às mulheres grávidas sejam descumpridas com uma simples fila única de entrada. A fila especial tem que ter e eu explico. Velhos, deficientes, grávidas têm mais dificuldade de locomover-se que os outros, assim é que chegam ao salão de entrada do banco e já encontram a fila enorme. A aí, como é que fica? Vão receber senhas muito avançadas, além de esperarem enormemente na fila única. Vão esperar dentro e fora. Essas pessoas referidas têm preferência no atendimento. É claro que entre eles vai existir uma fila, mas não é tão enorme como a fila única. Pode muito bem ser criada uma sala “vip”, com cadeiras para eles, dentro do banco.

No geral, não sei como admitir-se fila única, partido único, regime único, presidente sendo repetidamente eleito no cargo – tornando-se o único numa geração e, Deus nos guarde, nas seguintes. Lembra em tudo a ideologia do estalinismo, do partido único, do país único (para os comunistas daquele tempo, a União Soviética; para os capitalistas de hoje, os Estados Unidos). E sabem em que isto deu? Deu na chamada “globalização” – contrafação do estalinismo apenas nominalmente – globalização apenas do sistema financeiro, que é o que interessa ao capitalismo. Em outros setores, nada se fez, ao contrário tudo foi feito para piorar: O trabalho não foi globalizado, o ir-e-vir também não; a educação e a saúde, voltaram praticamente a zero. Quem não tem um plano de saúde – e só os ricos podem pagar – vai penar nas garras do SUS (se não me engano, sigla de Serviço Único de Saúde) pública. Lá vem de novo o “único”.

Tenho medo da unidade. Lembram, em matéria de religião, quando praticamente a Igreja Católica era a única? – Quem esqueceu da terrível força e crueldade da Inquisição?

Voltando ao assunto inicial, acredito que ainda há cabeças inteligentes, pensantes e sadias dentro do quadro dirigente do Banco do Brasil, incluindo aqui diretores e presidente. E sinceramente espero que reestudem o assunto e retifiquem esta falta (no meu entender, ilegal e antiética) que se instala em empresa de tão elevada tradição, justo quando comemora seu bicentenário. Não custa nada, acho até que sai mais barato e mais bonito, livrar-se da fila única. Único somente o indivíduo, a criatura e esta é criada por Deus e não pelos homens. A pessoa é social e social significa comunicação, transformação, humanização. Não só máquina, não só dinheiro, não só razão. Somos homens dotados de razão e sentimento. Para que dizer mais?

___________________
*Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Domingo, 28 de Junho de 2009

O QUE É ISTO, SR. MINISTRO?


Francisco Miguel de Moura*

No dia 18 de junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal aboliu o ato legal de 1969 que exigia dos jornalistas a posse de uma formação universitário em jornalismo, "obrigando-os a pertencer a uma associação ou colégio profissional para poder desempenhar o ofício", informou a SIP e os jornais noticiaram.

Abolir a formação universitária, para mim e para muitos brasileiros direta ou indiretamente prejudicados é praticamente um contrassenso. No dia 15 de agosto de 1984, numa conferência sobre “A língua portuguesa, flexibilidade e modernidade”, pronunciada no Gabinete Português de Leitura, em Salvador, eu ia além e propunha, entre outros itens, o seguinte: - Obrigatoriedade de curso superior para os que têm parte na redação ou veiculação de notícia nos órgãos de imprensa, rádio e televisão. Em outras palavras, eu dizia que não apenas aos jornalistas profissionais, mas também a quem quer que redigisse notícias, informações, editais, organizasse programas de rádio, tevê, etc. deveria ser exigido o Curso Superior, a fim de que estivessem preparados para a redação com elegância, fluência, clareza e conhecimento da língua, ou seja, com consciência do seu trabalho.

Naturalmente, quando o governo criou os Cursos Superiores de Jornalismo foi para dar oportunidade a quem desejasse ser jornalista ou exercesse a função de redator nas repartições, empresas pudessem praticar a escrita com consciência e sabedoria para que os leitores e/ou ouvintes recebessem um texto de qualidade. Para um ato deste, por uma Corte de Justiça tão elevada, penso que seria necessário um estudo intelectual e de campo em torno da validade e da necessidade dos cursos existentes, consultando, por que não? a população leitora, os professores e alunos, os jornalistas e empresas. Porque falar e escrever corretamente a própria língua não é uma brincadeira que se possa fazer ou deixar de fazê-la, mas uma obrigação, um dever cívico. Se no Brasil de hoje nos deparamos com cada barbarismo, cada aleijão entre falantes e escreventes letrados, mesmo os que fizeram cursos de graduação e pós-graduação – como ficariam as novas gerações sem curso superior? E o que será do jornal, da revista, do rádio, da tevê e da internet, dos atos oficiais, etc. com esses profissionais “feitos a facão”, como diz a franqueza do nosso caboclo?

Nunca se sabe que interesse corre por baixo de uma decisão inusitadamente apressada. Mas podem pensar: “Aí tem coisa!” Será que os “filhinhos de papai” não estão querendo agarrar os melhores lugares da imprensa, sem cursar escola nenhuma? Se a coisa pega, daqui a pouco teremos médicos sem curso de medicina, advogados, desembargadores, juízes sem cursos de direito, professores sem licenciatura na sua matéria etc. Uma verdadeira revolução ao contrário. Não! Sem escola, sem estudo, nenhum país progredirá. Não importa se a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) expressou sua satisfação pela decisão do STF. É o que se poderia esperar dela. Já Roberval Renard, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa, do jornal americano “San Antonio Express News” não concordou, justo porque “trabalho por um jornalismo cada vez mais profissional e responsável”, disse.

De bom grado, minha consciência não suporta inconsistências. O Brasil não vai bem. E ver o poder da justiça cair na onda geral dos legisladores, que vão fazendo, a seu bel prazer, leis e mais leis casuísticas, é triste. Parece-me que o monstro devorador que é o Poder, em qualquer parte, com qualquer nome, quer atacar o chamado 4º poder, o mais livre, para fazer estragos em nossa tão frágil democracia.
____________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da
Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina, Piauí.
E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br



Terça-feira, 23 de Junho de 2009

DEPOIMENTO NECESSÁRIO - BODAS DE OURO

Maria Mécia Morais Araújo Moura

Nasceu em Picos, Estado do
Piauí, é do signo de Áries. Estudou no Instituto Mons. Hipólito (Colégio das Feiras) da mesma cidade, onde aprendeu a ler, escrever, contar, e também bordado e costura, vindo depois a fundar sua própria escola de corte, costura e bordados. Casou-se com Francisco Miguel de Moura, rapaz que ela conheceu numa noite de São João, onde começou o namoro. Tinha apenas 16 anos. O casamento se deu no dia 8 de dezembro de 1959, dia de grande festa em Picos porque seu pai, Laudemiro Morais Feitosa (seu Miro), fez questão de receber todos os seus amigos por ocasião daquele acontecimento. Quem fez o casamento foi o irmão da noiva, João Morais, que na época era padre. A cerimônia aconteceu na própria casa do pai da noiva.

Do casamento com Francisco Miguel de Moura teve 6 filhos, cinco homens: – o segundo faleceu com 6 meses de idade, na cidade Itambé, na Bahia, e os demais estão todos vivos. Depois Deus lhe deu a menina que o casal tanto queria, que hoje tem 15 anos e se chama Mécia, uma homenagem que o pai quis fazer à mãe quando foi registrá-la no Cartório.
Dediquei-me sempre à família, deixando os estudos de lado. Houve uma época em que tentei voltar a estudar, mas desisti com a perda do 2º filho, Fulton, falecido ainda na primeira infância, como foi dito. Vindo da Bahia para Teresina, onde a família fixou residência e era perto de um Colégio, novamente tentei voltar ao estudo, por insistência de Franklin, meu filho mais velho, amoroso e preocupado, que chegou até a fazer greve de fome – uma semana sem se alimentar direito, até que me convenceu, e assim terminei o 2º grau. Mas, não quis continuar. A vida tem sido boa para nós, eu diria que realizei mais de 90%: - formei meus filhos, que estão casados e bem casados, e tenho 10 netos. Só falta, para cumprir a minha missão aqui, terminar a educação de Mecinha, que Deus me mandou por um anjo de asas de ouro. E creio que conseguirei. E ser esposa do escritor Francisco Miguel de Moura muito me orgulha.”

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

DISCURSO DE POSSE DE JOÃO ERISMÁ DE MOURA*

CADEIRA Nº 13 DA ACADEMIA DE LETRAS DA REGIÃO DE PICOS-PAUÍ - ALERP
Em Picos-PI, 27/ 8 /2005.
Nesta noite tão alegre, num recinto tão acolhedor, tenho a satisfação de salientar que num período de pouco menos de quatro meses estou assumindo a segunda cadeira numa academia de letras regional. No dia 29 de abril passado, tive a felicidade de tomar assento na Academia Açailandense de Letras, no Estado do Maranhão, como membro correspondente, representando, com muita honra, os Estados do Maranhão, Piauí e Distrito Federal. Coincidentemente, naquele dia era sepultado aqui em Picos o acadêmico Francisco de Moura Barbosa, ocupante da cadeira que a mim será destinada nesta noite.

Neste instante tão significativo da minha vida, ocasião em que estou tomando posse no honroso cargo de Acadêmico na Cadeira nº 13, desta conceituada agremiação literária que tem como Patrono o Sr. Francisco Lopes dos Santos, e seu primeiro ocupante o já mencionado Francisco de Moura Barbosa, solicito uma dose de paciência à seleta platéia para, em breve histórico, descrever um pouco das duas ilustres figuras piauienses.

II
A Academia de Letras da Região de Picos, fundada em 22 de outubro de 1989, tem como Patrono da sua Cadeira nº 13º o senhor Francisco Lopes dos Santos.
O homenageado nasceu no povoado de Buriti Grande, pertencente à época ao município de Oeiras, antiga capital piauiense, no dia 26 de outubro de 1875. Descendente de tradicional família portuguesa era o primogênito do casal Cícero Leopoldo dos Santos e a professora Evangelina Lopes dos Santos.

Francisco Lopes dos Santos foi casado com a senhora Estefânia Conrado Lopes nascida em Amarante, terra do nosso poeta maior Antônio Francisco da Costa e Silva. O casal teve dois filhos: José Conrado Lopes (in memoriam) e Raimundo Conrado Lopes (in memoriam). A família Lopes é composta de pessoas, consideradas inteligentes e cultas.

Profissionalmente, o Patrono da Cadeira nº 13 da ALERP exerceu a patente de capitão oficialmente titulado, tendo assumido o cargo de guardião do povoado Cabeço, hoje, comarca de Dom Expedito Lopes. No século passado foi influente fazendeiro e dono de engenhos na região.
Em 1959 sua esposa veio a falecer, causando ao Sr. Francisco uma enorme angústia, acompanhada de solidão, isolamento e depressão. No mesmo ano, num ato desesperador, veio a suicidar-se, inconformado com seu estado de viuvez e solidão.
III
A mesma Cadeira nº 13 da Academia de Letras da Região de Picos – ALERP teve como seu primeiro ocupante e fundador Francisco de Moura Barbosa. Recentemente falecido, no dia 28 de abril do corrente ano, Chico Barbosa foi um defensor da literatura picoense. Publicou três livros: “Perdi meu Tempo”, “Tempo sem Tempo” e “Reminiscência” mostrando o seu lado poético. Além de fundador da Academia de Letras o meu antecessor na Cadeira nº 13 foi um confrade ativo que se dedicou intensamente às atividades deste Sodalício.

Nascido no local denominado Baixio dos Macacos, no dia 10 de outubro de 1917, era filho de José Gonçalves de Araújo e Maria Raimunda de Moura. Foi casado com Maria de Moura Barbosa com quem teve 11 filhos. Passou pela imensa dor e padecimento, este sofrimento eu o conheço muito bem, de ter perdido três deles.

Enfrentou muitas dificuldades na sua vida, iniciando sua luta como lavrador. Foi comerciante, com mercearia e loja de tecidos, sendo vendedor ambulante nas décadas de 1950/60. Ainda trabalhou como farmacêutico em Teresina.

Levou uma vida muita animada. Foi amante das artes, escrevendo poesias, prosas, compondo músicas e participando de serestas, chegando a apresentar um programa na Rádio Difusora de Picos, intitulado Luar do Sertão.

Foi um homem de visão futurista e empreendedora. São vários os fatos praticados pelo pranteado que culminaram com uma trajetória de sucesso profissional. Era obstinado pelo trabalho, dedicado pai de família, íntegro e cumpridor dos seus deveres e obrigações.
Antes de ser acometido pelo mal que o levou à morte, reuniu seus familiares e tomou uma decisão inusitada: Fez, ainda em vida, a partilha do seu patrimônio, oficializada em cartório, deixando para si apenas os bens suficientes para a sua sobrevivência. Ficou feliz e pretendia, com esta decisão, evitar alguma possível desavença por ocasião do inventário dos bens, post mortem.
Por ocasião do seu falecimento a Academia de Letras da Região de Picos – ALERP, em Sessão solene, prestou-lhe uma merecida homenagem. De longe, e ainda sem nem mesmo sonhar com o meu ingresso nesta Instituição, através de e-mails, encaminhei minhas condolências à família enlutada e votos de parabéns à Academia por importante iniciativa tomada. Fiz ali, na minha mensagem, uma comparação entre a figura do falecido e do meu saudoso avô, Francisco Rodrigues de Sales, Chodó, vereador de Picos, poeta, escritor, comerciante, fazendeiro, juiz de paz e ilustre homem público da vizinha Francisco Santos.

Não imaginava eu que, quatro meses depois, Deus e o destino conduziriam o meu nome para ser eleito e agraciado com a cadeira onde sentou o confrade Chico Barbosa, vindo, honrosamente, a ocupar a sua vaga na mencionada Academia de Letras.

A bela homenagem póstuma consagrada ao senhor Francisco de Moura Barbosa, ocupante da Cadeira nº 13 desta Agremiação, realizada no dia oito de maio de 2005, Dia do Artista, teve a participação de nobres confrades, sob a presidência do acadêmico Francisco das Chagas de Sousa. Entre os presentes, abrilhantaram o evento: Manoel da Costa Moura (Guanambi Sonial), os Acadêmicos, Luís Bernardes Lima, José Osvaldo Lavor de Lima e Olívia da Silva Rufino Borges, e ainda, Rangel Barbosa e Liana Barbosa, filho e neta do homenageado. Naquela oportunidade foi lançado o livro “Um Tributo a Chico Barbosa”. Bela obra dedicada ao recém-falecido poeta. Em Picos, também, recebeu nome de rua, Moura Barbosa, e nome de Unidade Escolar, Francisco de Moura Barbosa, além de ser patroneado com a próxima cadeira a ser ocupada pela ALERP, a de número 27.

Depois de traçar um pouco do interessante perfil do imortal Francisco de Moura Barbosa, acredito que minha responsabilidade aumentará na expectativa de ocupar a lacuna deixada pelo meu antecessor. Reconheço que será uma missão de difícil realização.

IV
Agora, falarei um pouco de mim, da minha luta, da minha formação, dos meus propósitos, enfim, da minha vida.

Sou oriundo de família considerada pobre, nascido em Santo Antônio de Lisboa, à época, pertencente à comarca de Picos. Até os doze anos de idade fui criado entre Francisco Santos e Santo Antônio de Lisboa, mais naquela do que nesta, ou seja, à beira do Rio Riachão. Sou descendente dos Borges de Moura, de Picos e dos Rocha de São Julião.

Meu avô paterno chamava-se Feliciano Borges de Moura, falecido logo após o meu nascimento. Foi figura admirável na região. Inteligente, gostava de ler e escrever cartas e poesias. Apreciava a escassa literatura da época, traduzida no cordel, alguns romances e contos. Foi também um homem perspicaz e de visão avançada para o seu tempo. Pelo lado materno, infelizmente, também não conheci o meu primeiro avô, Cícero Clímaco da Silva, falecido muito jovem, embora tenha sido professor renomado em toda a região de Picos. Era um intelectual, culto e elegante.

Em compensação, tive o privilégio de conhecer e conviver, diariamente, por mais de 10 anos, com o meu segundo avô (padrasto da minha mãe), Francisco Rodrigues de Sales (Chodó), e dele herdar as principais qualidades de um homem, não só no tocante à formação intelectual e moral, bem assim, receber do mesmo uma boa orientação que serviu por toda a minha vida. Como já disse noutras ocasiões meu avô era a minha carteira de identidade. Ser apresentado como neto de Chodó era um orgulho e uma demonstração de prestígio. Ele foi personagem marcante em toda a região de Picos. Suas principais virtudes foram transmitidas através da honestidade, caráter, responsabilidade, ética, retidão, equilíbrio, respeito ao próximo e altruísmo, ações praticadas no decorrer de toda a sua vida.

Minhas avós Isaura da Rocha Sales e Rosa Maria da Conceição também muito contribuíram na minha infância para uma boa formação como ser humano.

Devo aos meus pais, Euclides Borges de Moura e Rosa da Rocha Moura, que estão chegando aos 80 anos de idade, quase tudo o que sou. Com eles aprendi muito. Deles recebi mais ainda. Foram princípios fincados em valores morais que adquiri ao longo deste meio século de vida, espelhando-me nos seus exemplos de vida.

Sou autodidata. Aprendi a ler na década de 1960, com ajuda do meu citado avô, Francisco Rodrigues de Sales (Chodó), na ocasião político e intelectual residente em Francisco Santos, Piauí e da minha tia Teresinha da Rocha Sales, dedicada professora daquele município, onde, como aluno ouvinte, recebia minhas primeiras lições ministradas em suas aulas particulares.

O meu avô, um dos poucos intelectuais no município naquela época, já era assinante da revista O Cruzeiro e Jornal do Commércio, editado no Recife-PE. Com a sua ajuda, e soletrando as primeiras sílabas, aprendi a ler algumas palavras nesses periódicos.

Em 1962, já com 12 anos de idade, transferido que fui com meus pais para Brasília, iniciei meus estudos, em escola pública, na cidade satélite de Sobradinho. Na despedida do meu saudoso avô-pai, ficou gravada em minha mente uma frase sua, que me serviu como incentivo maior para que chegasse aonde cheguei. Dizia-me ele: “Vá meu filho para Brasília, estude, seja homem e vença na vida!”. Com a graça de Deus, e por isso agradeço-Lhe sempre, segui o conselho do meu avô ao pé da letra. Alcancei um patamar intelectual e profissional jamais imaginado. Brasília me deu muito mais do que eu almejava.

Entretanto, no meu caminho, foram inúmeras as dificuldades encontradas na nova Capital. Quando lá cheguei, ainda menino, era uma cidade em construção, com carência de tudo. Formada basicamente por pessoas procedentes dos mais distantes rincões brasileiros, principalmente nordestinos que fugiam da seca e agruras da região, em busca de trabalho e, com isso, construíram Brasília, nossa Capital, bela e encantadora. Como já disse alguém, sabiamente, a construção de Brasília se deu da seguinte maneira: Os nordestinos trabalhando, os mineiros mandando, os cariocas reclamando, os paulistas ganhando dinheiro e os goianos desconfiando de tudo.

Não dispúnhamos de nenhum conforto. Morávamos em barraco de madeira, sem luz elétrica e água encanada. Para suprir minhas necessidades básicas tive que engraxar sapatos, vender pão e jornais e trabalhar em chácara, bar e frutaria. Minha infância foi sacrificada, embora saudável e feliz, sendo o pilar maior de um alicerce que contribuiu para a minha futura formação. Orgulho-me muito deste meu passado. Aprendi lições de vida que até hoje me são úteis. Por detrás das dificuldades desta nova vida, ecoavam sempre as palavras de incentivos, de apoio e solidariedade do meu querido avô, Chodó, que, mensalmente, escrevia-me dando a maior força. Cada carta sua era um grande estímulo. Trocamos centenas de correspondências, as quais guardo com muito carinho.

A minha vida escolar começaria assim. Em agosto de 1962, já pré-adolescente, matriculei-me na 1ª séria primária, numa turma de crianças, onde, obviamente, eu era o mais velho. Segui um propósito de recuperar o tempo perdido no Piauí. No segundo mês de aula, constou no meu boletim escolar, o qual guardo até hoje com muito orgulho, um elogio da minha primeira professora brasiliense, Maria da Purificação dos Santos, por ter alcançado o primeiro lugar da classe. Sem falsa modéstia, isso passou a ser rotina no meu currículo escolar. Recuperei um pouco o atraso nos meus estudos, quando fui promovido, por mérito, nos idos de 1964, à 4ª série primária, sem cursar a 3ª série regulamentar. Estava, assim, recuperando o meu tempo perdido. Meu esforço pessoal estava sendo compensado.

Finalmente, em dezembro de 1965, tive a satisfação de ser eleito como orador da 1ª Turma de Formandos do antigo primeiro grau, na Escola Classe do Nazareno. A seguir, submetido ao exame de Admissão, na época um verdadeiro vestibular, consegui o 2º lugar geral na cidade de Sobradinho-DF. Daí, sempre com enormes dificuldades, trabalhando durante o dia e estudando à noite, segui os meus estudos, cursando ininterruptamente, o Ginasial e Científico no Colégio de Sobradinho, Direito no UniCEUB, Pedagogia, com especialização em duas áreas: Magistério e Administração Escolar, na Universidade Católica, e finalmente, Pós-graduação em Políticas Públicas na Universidade de Brasília.

No campo profissional, iniciei minha vida de labor em 1968, prestando serviço, por dois anos, na empresa privada MAC – Manufaturas Auxiliares da Construção S/A. No primeiro ano de trabalho, na função de Ajudante de Marceneiro, descobri que ali não era o meu ramo, como se diz na gíria: “não era a minha praia”. No ano seguinte, fui promovido ao posto de Apontador, desempenhando serviços burocráticos, entre uma centena de trabalhadores, que embora humildes e rudes, ensinaram-me as primeiras lições de vida funcional. Trabalhava durante o dia e estudava à noite, cursando o antigo ginásio. Naquela época, estudava muito e já me preparava para enfrentar os primeiros concursos públicos.

No início de 1970, comecei a colher os primeiros frutos. Sempre com aprovação pelas portas estreitas, embora meritórias dos concursos públicos, trabalhei no Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal – DER-DF, Fundação Educacional do Distrito Federal e Tribunal de Contas da União. Neste último, prestei serviço por trinta anos, exercendo as principais funções administrativas e de assessoria no órgão, tendo sido aposentado como Chefe de Gabinete do Procurador-Geral, Dr. Francisco de Salles Mourão Branco, em agosto de 2003, cargo exercido por mais de dezoito anos ininterruptos.

Por outro lado, no decorrer da minha carreira acadêmica sempre participei de grêmios estudantis, jornais escolares e fui representante de turma em várias ocasiões. Escrevi muitas crônicas, reportagens e contos, alguns esquecidos pelo tempo.

Quando lecionei, por mais de três anos, em escolas públicas do Distrito Federal, no exercício do magistério, dentre outros, criei biblioteca e jornal escolar, promovi concursos de literatura e poesia e incentivei meus alunos a gostarem da leitura e das artes, principalmente da pintura, música, cinema, teatro, esporte, etc.

Particularmente, nunca desprezei o gosto pela literatura. Li e continuo lendo várias obras de grandes autores brasileiros e estrangeiros. A literatura brasileira é rica e vasta. Poderia citar dezenas de bons escritores pátrios do naipe de um Machado de Assis, Érico Veríssimo, José de Alencar, Euclides da Cunha, Castro Alves, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, entre outros.

V
Ao tomar posse como membro desta importante Academia, gostaria de ressaltar que pretendo continuar a exercer o mesmo gosto pela leitura. De antemão, reafirmo que sempre fui e serei um defensor dos meus conterrâneos. Se acaso pairou alguma dúvida sobre o meu interesse de concorrer a uma cadeira na ALERP, tendo em vista o fato de ser residente em Brasília, asseguro que atualmente estou aposentado apenas do Tribunal de Contas da União, onde fui acolhido e prestei relevantes serviços por trinta anos de dedicação e exclusividade. Depois da inatividade, recusei alguns convites para trabalhar em órgãos do governo e escritórios de colegas advogados somente para realizar algumas atividades prazerosas no período restante da minha vida. Entre elas tenho como ocupação e entretenimento, como já disse, o hábito da leitura, da escrita e realização de viagens. Em complementação às minhas atividades rotineiras, pratico esportes, sou estudioso da música popular brasileira, ocupo meu tempo com minha família e amigos e, finalmente, faço parte de algumas diretorias e conselhos de associações e clubes. Este é o meu perfil.

Sempre acompanhei todos os fatos e acontecimentos de interesses do Piauí. Tenho residência própria em Francisco Santos, onde reside meu pai, e visito freqüentemente nossa região. Acompanho, ainda, todos os movimentos literários, culturais e políticos daqui.

Neste momento tão sublime da minha vida, agora coroada com a satisfação de tomar posse neste importante cargo, quero, de público, manifestar o meu desejo de contribuir para com esta Academia produzindo textos literários, com o objetivo de desenvolver a cultura e a arte e promover outras atividades literárias, ajudando-a, no que me for possível, para o engrandecimento desta instituição e da comunidade picoense.

Tenho o propósito de participar e ajudar a nossa Academia a crescer ainda mais, divulgando a nossa cultura, a nossa arte, o nosso folclore e as nossas riquezas, enfim, o que há de melhor para a nossa região. Já possuo um plano de trabalho com algumas sugestões para melhoramento e aperfeiçoamento da ALERP, no que concerne à divulgação do seu trabalho e atribuições. No momento oportuno pretendo apresentar essas sugestões ao presidente e aos membros desta Academia.

Em contrapartida espero que esta Casa traga-nos além da amizade sincera entre os seus membros, também a possibilidade da troca saudável do saber e da cultura no nosso meio, num intercâmbio permanente, proporcionando o crescimento e a melhoria da Instituição, dos acadêmicos e a boa convivência entre os seus participantes.

Na verdade, o nosso Estado ainda engatinha na arte literária em nível nacional. Existe um preconceito muito grande com relação aos escritores nordestinos, salvo algumas exceções. A Casa de Machado de Assis, instituição centenária, acolheu em toda a sua história apenas quatro piauienses. Os ilustres imortais, paradoxalmente falecidos, Carlos Castello Branco, Deolindo Couto, Evandro Lins e Silva e Félix Pacheco. O nosso representante atual é o diplomata Alberto da Costa e Silva, que embora herdeiro do grande Da Costa e Silva nasceu em São Paulo. É muito pequena a representação piauiense na história da Academia Brasileira de Letras, mormente o número de bons escritores existentes no Piauí. Se compararmos o quantitativo dos nossos imortais com os vizinhos Estados do Maranhão, Bahia, Pernambuco e Ceará a desproporcionalidade é muito grande.

Nos dias de hoje, intelectuais do nível de um Assis Brasil, H. Dobal, O.G. do Rêgo de Carvalho, Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura; e os de ontem, Lucídio Freitas, Abdias Neves, Mário Faustino, Arimathéa Tito Filho, Alvina Gameiro e Torquato Neto, nada devem a pelo menos uma dezena de consagrados imortais brasileiros.

Mesmo assim, apesar do esquecimento e a discriminação demonstrada à cultura nordestina, por parte do resto do País, pela mídia e até mesmo por muitos conterrâneos, infelizmente isso é verdade, somos responsáveis por este preconceito contra o que é nosso, entretanto, temos que reconhecer que a região de Picos tem produzido um número expressivo de bons escritores, músicos, intelectuais, políticos e profissionais. De passagem, mencionaria, alguns representantes na literatura, do quilate de um Francisco de Sousa Martins, Raimundo José dos Reis, Antônio Coelho Rodrigues, Francisco Miguel de Moura, Gilson Chagas, Álvaro Pacheco e o grande João Nonon de Moura Fontes Ibiapina. Já na música, não posso esquecer: os pioneiros Guanambi Sonial, Gelson Gomes e as bandas Os Leões, Os Rebeldes e Os Meninos do Padre e os mais recentes, banda Dândi, o saudoso Antônio Helder, nossos acadêmicos Odorico Carvalho e Gilson Chagas, Frank Aguiar, entre outros. A política nos trouxe um Manuel de Sousa Martins, Coelho Rodrigues, Helvídio Nunes de Barros, Severo Maria Eulálio, Flávio Portela Marcílio e dezenas de outros vultos conhecidos. Produziu também grandes profissionais liberais e empresários.

VI
Tudo na vida tem uma explicação, tudo na vida tem o seu preço. Temos respostas para qualquer questão. Muitos aqui devem estar se perguntando o porquê da minha eleição nesta Academia. Passei e continuo passando por um grande drama na minha vida. Fui submetido a uma provação acompanhada de momentos de grande dor e sofrimento. Há pouco mais de dois anos perdi minha primogênita, Caroline de Moura, em trágico acidente automobilístico. Era uma jovem de 18 anos de idade, alegre, feliz e com um futuro pela frente, cursando duas faculdades, Relações Internacionais e Direito. Precocemente nos deixou, partindo para uma nova etapa, agora convivendo numa dimensão superior. Ela é a razão maior da minha presença neste evento. Seu livro “Um Anjo Retorna ao Céu”, lançado em dezembro de 2003, em Brasília-DF e em Francisco Santos-PI, teve uma enorme aceitação em Brasília e aqui nesta região, e por intermédio dele cheguei a ser eleito para esta Entidade e para a Academia Açailandense de Letras, no Maranhão.
Diz o nosso confrade Ronaldo Gomes, em sua bela Reflexão sobre o inevitável, a “Morte” que: “Nada é mais natural, mais certo e inevitável. Apesar disso, nada nos aterroriza tanto”. É pura verdade. O grande erro e triste ilusão do ser humano é pensar que os insucessos, acontecimentos desagradáveis, como por exemplo, a morte, a doença, o fracasso e a decepção só acontecem aos outros. Digo mais, a felicidade e a saúde são almas gêmeas que atuam intimamente em nós. São manifestações prazerosas, que agem, uma na mente e outra no corpo. Só percebemos os seus valores quando carecemos delas.

A nossa Música Popular Brasileira é pródiga em produzir belas páginas musicais enfocando os temas felicidade e suas antagônicas, tristeza e saudade. Outrora, o compositor Lupicínio Rodrigues já dizia: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora”. O poeta Fausto Nilo, juntamente com Moraes Moreira produziram a obra Pão e Poesia onde cantam: “Felicidade, é uma cidade pequenina, é uma casinha, é uma colina, qualquer lugar que ilumina, quando a gente quer amar”. A consagrada dupla Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes em sua belíssima A Felicidade resume tudo: “Tristeza não tem fim, Felicidade, sim”. Acredito que a felicidade é momentânea, efêmera.

A nossa família e os amigos da Caroline conviveram e usufruíram belos momentos de felicidade juntamente com ela, durante dezoito anos. Infelizmente não percebemos a plenitude desta felicidade. Por esta dádiva devemos agradecer a Deus. Só agora, na sua ausência, é que sentimos o significado da sua pessoa, a sua importância, a sua alegria o seu carisma, a falta que ela nos faz, a saudade que ela deixou a nós e à sua legião de amigos. À nossa inesquecível filha presto minhas homenagens de gratidão e saudade.

VII
Estão de parabéns os bravos e incansáveis fundadores e participantes desta novel Instituição Literária, a qual saúdo na pessoa do seu presidente Francisco das Chagas de Sousa. Essa Academia ao completar apenas uma década e meia de criação, já inspira confiança e respeito, apresentando um trabalho cultural promissor e admirável em toda a região de Picos, no Piauí e no Brasil. Seu atual presidente tem trabalhado em prol da divulgação das atividades desenvolvidas pela ALERP. Como prova podemos buscar no site do jornal Agência FCS e encontrar 25 matérias relacionadas ao tema.

Nesta oportunidade quero parabenizar a nova colega que acaba de tomar posse, juntamente comigo, acadêmica Francelina Macedo de Holanda Ribeiro, já conhecida minha por sua coluna Cultura Total do jornal Total Informativo, que com certeza virá transmitir e disseminar um pouco da sua sabedoria entre nós da ALERP e para a população picoense.

Auguramos, ainda, que este Sodalício cresça ainda mais nesta região, produzindo, divulgando e transmitindo ao povo de Picos e porque não dizer ao povo piauiense e brasileiro um pouco da vasta cultura literária local, nacional e internacional acompanhada de manifestações artísticas, musicais e folclóricas.

Aproveito o ensejo para os meus agradecimentos finais.Primeiramente, a Deus por este êxito alcançado. Segundo, a Caroline de Moura, nosso Anjo, por sua valiosa contribuição, partícipe que é nesse meu sucesso, ao tomar posse na Cadeira nº 13 desta Agremiação. Ela foi a mentora e certamente muito me ajudou na transmissão de sua linda história resgatada no livro “Um Anjo Retorna ao Céu”, memória póstuma desta pessoa maravilhosa que só nos deixou saudade e boas lembranças.

Um agradecimento especial à minha esposa Ana Maria da Silva Moura e aos meus filhos Erismar de Moura e Clareana de Moura.

Meus agradecimentos também aos ilustres confrades que votaram em meu nome, confiando numa possível vitória, em especial ao amigo acadêmico Gilson Chagas, responsável pela minha candidatura e batalhador junto aos acadêmicos pela sua aceitação. Agradeço também à acadêmica Maria de Jesus Sousa Martins que, em defesa do meu nome e da minha obra, com o seu coração bondoso, encontrara alguma semelhança do meu estilo literário à obra do grande poeta Fagundes Varela. Fico lisonjeado com a sua observação, dizendo que sou apenas um grande admirador de Fagundes Varela. Este carioca, nascido em 1841 e falecido em 1875, com apenas 34 anos de idade, foi representante da escola romântica, que passou por uma vida de sofrimentos e dor, causada principalmente pela perda prematura do seu primogênito, tão bem narrada nos belos versos de “Cânticos do Calvário”, poema dedicado ao seu saudoso filho. A semelhança é só essa.

Por último, a todos os senhores e senhoras aqui presentes que vieram abrilhantar esta solenidade agradeço a paciência e as suas valiosas presenças.
Para encerrar este prestimoso evento gostaria de deixar gravado na lembrança de cada um de nós as palavras do poeta Da Costa e Silva, nosso representante maior da literatura piauiense, na sua obra Pandora, reproduzidos nos belíssimos versos abaixo:

V
PALIMPSESTO

Se a vida sói ser isto e se resume
Nestes cuidados vários e constantes,
Que mais se agravam, quanto mais distantes
Estamos nós do bem que se presume;

Se tudo sobre a terra se consume,
Embora torne a ser o que era dantes;
E a vida não é mais que vãos instantes
Que se extinguem num ai ou num queixume,

Se é tudo, enfim, esta enganosa lida
De incertos dias à mercê da sorte
Que a natureza leva de vencida;

Só logra ser feliz, e sábio, e forte,
O que alia às doçuras desta vida
A crença de ainda ser além da morte.

Muito obrigado!
Tenham todos uma ótima noite.
______________
*João Erismá de Moura, funcionário publico aposentado, professor, cronista, com dois livros publicados ( "Um Anjo Retorna ao Céu", 2003, e "Essas Mulheres Maravilhosas", 2006) mora em Brasilília - DF.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

MARIO BENEDETTI: 1920 - 2009

Adiós al poeta del compromiso
Muere Mario Benedetti después de una larga vida de lucha contra la adversidad y en defensa de la alegría

JUAN CRUZ - Madrid - 17/05/2009*

Murió Mario Benedetti. El poeta resistente, que vivió el exilio y la enfermedad (un asma pertinaz, obsesiva) le fueron rompiendo, pero él se mantuvo siempre "en defensa de la alegría". Finalmente, una agonía causada por un fallo intestinal, que hizo deprimentes sus últimos días, le rompieron del todo, y murió ayer a los 88 años, en su tierra, Montevideo. Nació en Paso de los Toros, pero esta urbe que parece un microcosmos literario fue el lugar al que volvió siempre, de todos los exilios. Era al final (y esta expresión la acuñó él) un desexiliado. Pero su alma sufrió las heridas de todos los exilios.

Mario Benedetti

Nacimiento:
14-09-1920
Lugar:
Montevideo

Uruguay
:
Su muerte se produjo semanas después de su última hospitalización por fallos multiorgánicos que al final le cegaron el humor y la vida; pero había empezado a morir mucho antes; hace tres años falleció su mujer, Luz, con la que vivió toda la vida, en la libertad y en el destierro; él creyó siempre que la enfermedad de Luz, que se olvidaba de apagar las luces de la casa, en Madrid, era una simple distracción, e incluso le compró artilugios con los que dominar las consecuencias de su sordera. El poeta del compromiso, del amor y de la alegría, sintió luego que, en efecto, esas ausencias eran debidas a un alzheimer que inundó la casa de desolación y de huida.

Se fue con ella, de nuevo, a Montevideo, y allí la cuidó hasta que finalmente le dejó del todo. Y le dejó malherido. Benedetti tuvo algunos momentos de alegría después, como cuando Hortensia Campanella, su biógrafa última, le entregó el manuscrito en el que se condensa la vida entera del escritor que nos ha dejado. Él ironizó ante tanto papel, y delante de Ariel, su fiel ayudante, dijo: "¿Tanto he hecho?"

Pero su alma estaba herida; seguía escribiendo, poemas, haikus, animado por su editor de poemas, Chus Visor; tenía la casa llena de literatura; en un tiempo él fue política, enteramente, sus poemas estaban al servicio de la rabia que le produjeron las dictaduras del sur, la suya, la uruguaya, que le persiguió a muerte, y la argentina, que fue cómplice de aquella y también quiso matarle. Mató a un amigo suyo, el líder político Zelmar Michelini, y esta muerte fue un símbolo de las muertes que hubo antes y después en la vida acosada de hombres como él. Luz fue su bastón. Y Palma y Cuba y Lima sus lugares de exilio; a los tres les guardó siempre gratitud; fue un gran defensor de la Cuba de Fidel, por eso mismo, pero jamás utilizó esa afinidad para discutir, en los últimos tiempos sobre todo, lo que en esa revolución que él quiso se fue torciendo.

Era un hombre cordial, enteramente, pero era un tímido absoluto. Los que le conocieron en España le recuerda, por ejemplo, en la Feria del Libro de Madrid, puntilloso, anotando con palotes los libros que firmaba; y le recuerdan rechazando el pescado con espinas y en general las tonterías; era un conversador tranquilo; llegaba a los sitios con su maletita marrón gastada, y dentro llevaba siempre poemas o cartas, en esos momentos en que cumplía compromisos parecía a la vez el escolar que fue y también el oficinista.

Su apariencia era la de un juez de paz, pero nunca hubo paz dentro de su alma, ni siquiera cuando se le vio feliz, con sus manos a la espalda, con su mirada desvaída por las lentillas, con su bigote largo e invariable a lo largo de una vida en la tantos se enamoraron al tiempo que recitaban sus poemas o escuchaban las canciones que hicieron con sus versos su paisano Daniel Viglietti y el catalán Joan Manuel Serrat. Con Viglietti tiene una anécdota que se parece a algunas de las que le convertían también en un escolar huidizo al que le asustaba la fama, al tiempo que le agradaba que algunos, ante sus recitales multitudinarios, le dijeran que parecía una estrella de rock.

Hubiera sido incapaz de cantar, pero un día se encontró con Viglietti en París, en un aeropuerto, y Daniel le dijo a Mario: "Estoy haciendo música para sus poemas". "Y yo estoy haciendo poemas". Entonces el poeta se quedó pensando, y añadió, riendo como reía, como para no molestar:

"Tenemos que hacer algo con esta casualidad". De esa casualidad nacieron conciertos, libros; eran como dos en la carretera; cuando vimos a Viglietti en Montevideo, en el entierro de Idea Vilariño, a mediados de abril, la gran amiga generacional de Mario, el cantante nos dijo: "Y lo de Mario. Estamos tan mal, y vamos aún a lo peor".

Se apaga la voz de su compañero, pero quedan la voz de las canciones. Montevideo fue su último sitio, y fue casi el primero. Su largo recorrido por la vida conoció una interrupción terrible, cuando los médicos le detectaron tumores que aconsejaron operación, en el Hospital XII de Octubre de Madrid. Allí le atendió, entre otros, el doctor José Toledo, que le conocía, y todo el mundo se desvivió por él como si no fuera tan solo un enfermo sino un padre, o un hermano, el hombre que había iluminado con sus versos (de amor, de política, de tierra, de aire) la vida de cualquiera. Un día, poseído por el dramatismo al que a veces lo llevó su pesimismo, el que también está en sus poemas, y en sus narraciones, Mario decidió abandonarse.

Como hubiera dicho Idea, que le precedió en la muerte, empezó a decir para qué. Detrás de esa decisión de no seguir hay algunos versos, como estos:

"Me he ido quedando sin mis escogidos/ los me dieron vida/aliento/paso/ de soledad con su llamita tenue/ y el olfato para reconocer/ cuánta poesía era de madera/ y crecía en nosotros sin saberlo/ Me he quedado sin proust y sin vallejo/ sin quiroga ni onetti ni pessoa/ ni pavese ni walsh ni paco urondo/ sin eliseo diego sin alberti/ sin felisberto hernández sin neruda/ se fueron despacito en fila india".

En ese clima de desolación en el que lo pusieron la enfermedad y su porvenir Mario descuidó su aspecto, dejó de afeitarse, y alguien le dijo, una madrugada: "Así no puedes estar. Tú eres guapo, un hombre así parece enfermo. Ya no lo estás". Le bastó. Al día siguiente se rasuró del todo, se puso de limpio, y cuando este amigo le visitó otra vez y se hizo el distraído sobre su nuevo aspecto, el viejo poeta revivido le llamó la atención y le dijo:

-¿No te has fijado que hoy sí me afeité?

Era un hombre insobornable, el más comprometido de su tiempo. Su muerte deja en silencio mustio su época, su ejemplo y la raíz de sus versos. Pero los muchos que le cantan no lo dejarán, como él decía del verdadero amor, en lo oscuro.

PARÉNTESIS

Mario Benedetti

Acompáñenme a entrar en el parêntesis
que alguien abrió cuando parió mi madre
y permanece aún en los otroras
y en los ahoras y en los puede ser
lo llaman vida si no tiene herrumbre
yo manejo el deseo con mis riendas
mientras trato de construir un río
en sus nubes los pájaros se esconden
no es posible viajar bajo sus alas
lo mejor es abrir el corazón
y llenar el paréntesis con sueños
los pájaros escapan como amores
y como amores vuelven a encontrarnos
son sencillos como las soledades
y repetidos como los insomnios
busco mis cómplices en la frontera
que media entre tu piel y mi pellejo
me oriento hacia el amor sin heroísmo
sin esperanzas pero con memoria
por ahora el paréntesis prosigue
abierto y taciturno como un túnel

CERRAR LOS OJOS

Cerremos estos ojos para entrar al misterio
el que acude con gozos y desdichas
así / en esta noche provocada
crearemos por fin nuestras propias estrellas
y nuestra hermosa colección de sueños
el pobre mundo seguirá rodando
lejos de nuestros párpados caídos
habrá hurtos abusos fechorías
o sea el espantoso ritmo de las cosas
allá en la calle seguirán los mismos
escaparates de las tentaciones
ah pero nuestros ojos tapados piensan sienten
lo que no pensaron ni sintieron antes
si pasado mañana los abrimos
el corazón acaso de encabrite
así hasta que los párpados
se nos caigan de nuevo
y volvamos al pacto de lo oscuro

PRESAGIOS

Los presagios nos cercan / nos oprimen
pueden llegar con vivas o con lágrimas
son quizá las propuestas del futuro
que acuden con su estilo mesurado
en la vejez / que nos agarra exhaustos
se le meten a uno entre las canas
y al recibirlos con melancolía
les hacemos un sitio en la memoria
los presagios inspiran desconfianza
mueven sus pétalos agonizantes
y van de a poco fabricando olvidos
heridas del amor con cicatrices
presagios son augurios / vaticinios
se entienden con el alma y con la lluvia
y suelen trabajar sobre seguro
no hay presagio más fiable que la muerte.

___________________
* Nota de Francisco Miguel de Moura: a primeira notícia da morte de Mário Benedetti me chegou através de e-mail 24 de maio de 2009, da escritora Urda Klueger, de Santa Catarina - Brasil.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

UM RIO EM CHICO MIGUEL



Adalberto
Antônio de Lima*



Temporariamente eu estava no Rio. Numa dessas idas e vindas que ocorrem várias vezes no ano, apanhei a crítica-ensaio de Deolinda Marques que o Chico Miguel de Moura havia postado nos Correios pra mim. Nadei nas águas do Poti, do Parnaíba e do Riachão, lendo Deolinda Marques reportar-se ao “Universo das Águas”, “Bar Carnaúba” e a outras obras de Francisco Miguel de Moura.

Em seu ensaio Deolinda Marques não esqueceu os amigos Gilson Chagas e Ozildo Batista de Barros, também meus amigos... Mas não conheço a Deolinda, senão pelo que li. Foi muito bom esmiuçar as obras do Chico, e a Deolinda fez isso de forma admirável.

Encontrei também em meu endereço do Rio um artigo publicado pelo Chico Miguel, no jornal “O Dia”, de Teresina, edição de 24 de janeiro de 2009, sobre nossa “Senda de Flores e Espinhos” e um cheque de devolução do valor pago pela “Fortuna Crítica” de Francisco Miguel. Ele diz: “Não sou antropófago para beber o sangue e o suor de meu semelhante”.

Vou guardar tudo isso em meu baú de lembranças. Na verdade, fui seu colega de banco, mas a maior semelhança que eu queria ter com o Chico é na arte de mergulhar no universo das letras.
_____________
*Adalberto Antônio de Lima, escritor brasileiro, mora no Rio. Já publicou "Senda de Flores e Espinhos", além de outros títulos. Cronista num estilo bem desataviado, saboroso, com a virtude de mostrar a linguagem e os costumes do povo e da terra do Piauí, onde tem suas origens.
(Este artigo foi publicado na Usina de Letras como ensaio)

Domingo, 17 de Maio de 2009

TERÊSA TENÓRIO - POEMA NECESSÁRIO/97


Esta edição teve colaboração especial de Aricy Curvello (Serra, ES) e Jorge Tufic (Fortaleza, CE), com seis poemas de TERÊZA TENÓRIO, poeta pernambucana. Este PN é distribuído a 2.416 endereços e circula em homenagem a MARIA LUÍZA RAMOS (Belo Horizonte) e a GERALDO ALVES, ou Geraldo Capeta (Raul Soares / Belo Horizonte).

Paschoal Motta*


1.

IX

Amor que foi amor ora é sossego,
repouso, ardência, lúcida lembrança,
fogo tornando-se rio e represa
fluindo no sentido deslembrança

retornando como as aves toda a ânsia
migratória do sul em seu novelo
de velozes momentos e distância
daqueles que transcendem este modelo

de amor que foi amor e ora é sossego
e será ainda mais calma e repouso
afastando de si a sombra e o medo
superpondo no tempo nossos rostos.


(de Noturno Selvagem, em POEMA ACESO, Philobiblion, INL,
Fundação Pró-Memória, Rio de Janeiro, 1985)

2.

A FACA SOBRE A ÁGUA

Existe o duplo silêncio: o da flauta
e do tempo (que há mundos paralelos).
Há o movimento rítmico: o do pêndulo
no silêncio partido do hemisfério.

E foi teu último engano: a ferida
rubra e sangrenta. A branca madrugada
transformou-te de louca suicida em
clara manhã de pássaros e fadas.

Houve também a faca sobre a água
com o brilho mortal das escamas rápidas
e houve o encontro da terra com os astros
na rota dourada do fim de tarde.

(de O Círculo e a Pirâmide, idem)

3.

INVENTÁRIO DE TUDO

Teu Amor me deixou nua
seu brilho de água clara
Vestida da luz da lua
Penetrei na tua casa

Passeei pela mobília
repleta de peças caras
Mergulhei nos candelabros
envoltos em ouro e prata

Nas alamedas de vidro
repousei nas almofadas
dispostas sobre o assoalho
de brancas lajes tão raras

Através dos corredores
descerrei portas e salas
Nos jardins achei intactos
pedaços de nossas almas

Teu amor me deixou muda
seu gosto de pura lágrima
Perdida na luz da lua
desapareci na praia

(de Poema Aceso, em Cadernos de Poesia, Governo do Estado de
Pernambuco / Secretaria de Cultura / FUNDARPE, 1996)

4.

NÃO OS QUERÍAMOS SAGRADOS

A Aluizio Barro de Carvalho
e Telma Nóbrega Tenório de Albuquerque

Não os queríamos sagrados nos ritos da sombra
Peregrinos do silêncio
como saber se lembrarão o vôo dos pássaros
a textura da rosa
os insondáveis caminhos?

A obsidiana revolve a terra
em busca do coração da argila
e seus dolorosos anéis
mais o selo de sangue puríssimo

Não os queríamos no Além
os anjos pairando sobre as luminosas cabeças
as mãos em cruz
sentados à direita
do oráculo
mortos

(de Corpo da Terra, 1994. Poema escolhido por Aricy Curvello)

5.

A CASA NA COLINA

Quem sempre quis uma casa na colina
pra que pudesse namorar as árvores

Tanto sonhou o rosto de uma menina
sua cabeleira a refletir as vagas

Eu que amarguei a solidão da sina
de uma infância sofrida além da margem

de tanto amar o amor como a saudade
transformei-me ao sol dessa menina

Tendo na boca o gosto da menina
do crescer na paisagem do silêncio

degustando a palavra enquanto sina
transformando o silêncio enquanto tempo

em meio ao sonho que a estrela move
em meio à sina que se mofe ao vento

(de A Casa que Dorme)

6.

CANTO DA PAIXÃO

Meu Amor distante e mudo
preso no azul da planície
retomo no tempo e busco
o aceso rosto tão nítido.

Sobre a pele perfumada
de mirra, incenso e aloés
revoltas vestes de seda
em meu leito de dossel.

Meu Amor distante e rude
anjo noturno da sombra
dentro da noite serena
queimo de dor tua lembrança.

(de Poema Aceso)

TERÊZA TENÓRIO, A REAFIRMAÇÃO DO LIRISMO

De nome inteiro Francisca Terêza Tenório de Albuquerque, a Escritora Terêza Tenório é de Recife, 1949, onde nasceu e atualmente reside. Também advogada, tem ainda curso de Belas Artes e é mestre em Letras. Publica desde os vinte anos. Começou publicando textos no Diário de Pernambuco. Já publicou de poemas: Parábola (Imprensa Universitária UFPE/PE, Recife, 1970; O Círculo e a Pirâmide, Ed. Quíron, São Paulo, SP, 1980; Mandala, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1980; Noturno Selvagem, 1981, Edições Pirata, 1981. Poema Aceso, 1985, ainda reúne os títulos anteriores, Ed. Philoblibion, Rio de Janeiro, RJ; Corpo da Terra, 1994, Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, RJ; Treze Poetas da Geração 65:30 Anos, 1995, org. Espaço Pasárgada / Fundarpe / Sec. Turismo da Cidade do Recife, PE; Poemas de Tereza Tenório, 1996, in Cadernos de Poesia / 6, Geração 65, Fundarpe, Recife, PE; Fábula do Abismo, 1998, Ed. Bagaço, Recife, PE; A Casa que Dorme, 2002, Série Poetas Brasileiros, Ed. LivroRápido, Recife, PE.

Ainda participa do vídeo Dois Séculos de Literatura Pernambucana, 1998. Tem poemas em mais de 30 publicações entre antologias, revistas, cadernos.

Quando saiu Poema Aceso, Alberto Cunha Melo acentuou em artigo crítico: “Este Poema Aceso, de Terêza Tenório, vem reafirmar a validade, a resistência e a eternidade da Lírica como categoria poética que transcende estilos de época e correntes estéticas, historicamente determinadas, mas sem negar sua procedência, seu atavismo latino.”

Ariadne Quintela, entre outros críticos, ressalta, na Apresentação de A Casa que Dorme: “A Arte nasceu com Tereza Tenório. Depois de incursões em várias áreas – Pintura, Desenho, Escultura, Prosa – a artista elegeu a Poesia como seu canto. (...) Terêza, inscrita entre os bons poetas de Pernambuco, tem público certo porque sabe tocar na alma de cada pessoa. A autenticidade e a sensibilidade são propulsores do radar alojado em seu coração e lhe garantem o sucesso sob forma cristalina do reconhecimento através do tempo, porque a Arte não tem idade nem com conhece barreira.”

Lucila Nogueira, no mesmo A Casa que Dorme, prefácio, registra: “... o que me encanta em Terêza Tenório é sua capacidade mimética de incorporar a condição humana nas mais diversas falas das plurifacetadas personas.”

A pedido de PN, o poeta e crítico literário Aricy Curvelo, observa em três linhas sobre a criação poética de Terêza: “Uma das principais características da poesia de Terêza Tenório é o entrelaçamento dos versos de forma contínua, geralmente sem orações subordinadas e sem conjunções, o que vivifica em seus poemas um lirismo muito pessoal e próprio.”

Notícias recentes informam que a Escritora passa por inesperada enfermidade.
_______________
Copiado de POEMA NECESSÁRIO / 97 - Correio Eletrônico de maio/2009.
*Paschoal Motta, poeta, ensaísta, professor brasileiro, mora em Belo Horizonte - MG

Sábado, 16 de Maio de 2009

O SEGREDO







Francisco Miguel de Moura*





Foi ontem mesmo a cena que componho,
me está presente, e ainda sou feliz.
Aconteceu-me a mim como aprendiz
do amor, aquele que me quero e imponho.

Posso contá-la? Nem de pé me ponho!
Tinha um jovem feitiço e o olhar contente,
uma fenda entre os dois dentes da frente
e o seio farto entremostrando o sonho...

Logo tomou-me as mãos, deu-me um sorriso.
Lembrando, então, de antiga namorada,
beijei-lhe o rosto, sem perder o juízo.

E ela abraçou-me acarinhando a tez...
Hoje relembro a cena apaixonada
como se houvesse uma segunda vez.


__________ * Francisco Miguel de Moura - Poeta brasileiro, mora em Teresina, Piauí. E-mail:franciscomigueldemoura@superig.com.br