domingo, 21 de agosto de 2016

A FILOSOFIA ONTEM E HOJE - MEMÓRIAS


Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da APL-PI


Pra começo de conversa, tudo muda, “o tempo é senhor de tudo”, minha mãe recitava em um dos seus velhos poemas. Dizia, como segurança, que era criação de um dos seus tios. Mas nunca se referiu ao nome do poeta. Desconfio que já fosse uma coisa caída na vala do popular, já não tinha dono.

Mas a vida, se bem observada, é um constante fluir. Não sei em que setor isso é mais notado. Aprendi o que é filosofia pelas doutrinas da Igreja Católica, a filosofia tomista. Eis a definição encontrada em Teobaldo Miranda Santos, em seu “Manual de Filosofia”: “É o conhecimento cientifico que, pela luz natural da razão, considera as causas primeiras ou as razões mais elevadas de todas as coisas”

Não sei se entendia ou não, mas ficava sempre em busca de mais.

Outros conceitos me vieram mais tarde, especialmente os provindos do existencialismo de Sartre e Camus, muitas vezes misturados com os do marxismo. Por falta de espaço, talvez nem todos possamos analisar aqui.

Fui aluno da Faculdade Católica de Filosofia, Curso de Língua e Literaturas Portuguesa e Brasileira. No primeiro ano, geral para as turmas dos demais cursos, estudava-se filosofia. E eu demonstrei não ser um bom aluno de filosofia, o professor era o Pe. Raimundo José Ayremorais Soares. Uma de minhas piores notas foi a de Introdução à Filosofia, talvez porque eu me recusasse a aprender qualquer filosofia que não se estribasse no marxismo da época.

Mas os tempos se foram, o marxismo também, especialmente em filosofia. Nas ciências sociais ele deixou marcas. Mas, em filosofia, quase nada. Por quê?

Porque uma filosofia baseada na dialética materialista fora codificada e se petrificara. Não tinha como sair dali. Era um túnel onde não se via sequer uma luzinha dentro. Não havia lugar para o pensamento movimentar-se. A filosofia, no sistema marxista, fora engessada.

No ocidente, entretanto, com suas altas e baixas, ela ia flutuando entre escolhos, trombando aqui, afogando-se acolá, pedindo socorro mais à frente...  Mas a ciência é quem progredia. Com o marxismo ou sem ele. As religiões perdiam poder. Os dogmas totalitários – comunismo, nazismo, fascismo – caíram, por insustentáveis.

O que restou no final do século XX? Um sistema formal de democracia combinado com o princípio da liberdade de mercado.

E a ciência continua a sua progressão para tudo abarcar. E a humanidade, aos trancos e barrancos, foi saindo dos regimes tirânicos e adaptando-se aos princípios da liberdade de mercado, de ir e vir, de crescer e distribuir, de viver. Ao contrário, o comunismo só “pensava” em distribuir, mas na prática, não. A burocracia do partido único deu no que deu. Ninguém mais acredita em política marxista. Todos nós somos iguais porque somos seres humanos, mas somos todos desiguais também por isto mesmo, e só assim poderemos ter a escolha de ser humanos.

A ciência progride ininterruptamente. Quem não acredita na ciência, hoje? Nem as religiões mais “caretas”, salvo aqueles credos desumanos que colocam seus rapazinhos já com armas na mão, ensinando que quanto mais matarem, mais terão virgens a seu dispor, no céu: OS TERRORISTAS.
E a filosofia? Não há mais filosofia?

É dentro da ciência que se acolhe a filosofia, hoje.  Não há mais filosofia sem ciência. Por isto é que um dos maiores estudiosos do nosso tempo, Edgar Morin, diz:

“A ciência impõe, cada vez mais, os métodos de verificação empírica e lógica. São as novas luzes da Razão. E parece que as luzes da Razão rejeitam, nos autos do espírito, mitos e trevas”.

Assim, quais são os grandes filósofos de hoje?

Pergunta difícil de responder. Pode-se pensar, inclusive, que os chamados filósofos da atualidade se escondem sob a capa de economistas, historiadores, sociólogos, etc. E isto é um perigo. O último grande filósofo, que também era romancista, foi Jean-Paul Sartre, pregando o existencialismo. Mas antes dele, já os romancistas russos Dostoiévski e Tolstói já haviam descoberto o pensamento filosófico que deságua no existencialismo sartreano e camusiano.

A filosofia virou poesia, virou romance, virou literatura, virou humanismo. Lendo os grandes poetas como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade, neles encontramos poesia. Até em algumas (poucas) musicas letradas de um Caetano, de um Vinicius de Morais – surpreendentemente.

Mas, se queremos realmente uma definição, temos que voltar a um pensador como M. Garcia Morente:  “Não se pode definir filosofia antes de fazê-la. (...) Só se sabe o que é filosofia quando se é realmente filosofo”.

Tudo o que se disse é pouco. Então, voltamos ao início: Filosofia significa a própria sabedoria (Sócrates, Platão, Heródoto, Tucídides e outros filósofos gregos), e não apenas o amor à sabedoria.

E como é que fica a religião, a Teologia? Outrora todos os conhecimentos do homem se resumiam na Teologia. Depois, esta ficou tripartida como hoje, assim: - a Ciência – Trata da natureza do homem e de todas as coisas; a Filosofia – trata da alma, do espírito, da sabedoria; a Religião - trata da transcendência, logo, de Deus. O perigo das religiões são os dogmatismos e as idolatrias.

sábado, 30 de julho de 2016

CULTURA: INCESTO E FAMÍLIA

Francisco Miguel de Moura - Escritor
Membro da Academia Piauiense de Letras.

Um dia destes escrevi sobre o incesto. Mas, por falta de sorte, o artigo saiu com título diferente: “Preço do amor”. Além da duplicidade da palavra preço quando ligada ao nome do amor, ficou-me a dúvida de que, quem o lesse, pudesse pensar que eu chamava incesto de amor.

Precisamos ir à Grécia, berço da cultura ocidental, para aprender, através das palavras, o que é amor, cujo termo vem sendo tomado apenas como EROS, quase exclusivamente: Amar é sexo, amor é sexo. Na origem, a palavra AMOR tinha três sentidos: FHILIA, ÁGAPE e EROS.     

  “PHILIA” era traduzido por amizade de modo geral. Era o amor vivido no seio da família, entre seus membros, e também aquele amor que existe entre os membros de uma comunidade. Ele é expresso pela generosidade, o desprendimento e a reciprocidade. Além deste sentido geral, Aristóteles diz que “todos os que desejam bem aos seus amigos e por eles são amados, eis os verdadeiros amigos”. Conclui, entretanto, que tais amizades não sejam muito freqüentes, visto que tais homens são raros. Talvez seja por isto que a gente diz: não tem amigos quem tem muitos amigos. “Amigos são como vinho, quanto mais velhos melhores”, diz o povo, em sua sabedoria. Demoramos a adquirir amigos, embora o desejo de amizade seja comum e surja rapidamente. O contrário de amigo é inimigo e, em relação a este tipo, já tenho dito: não tenho inimigos e, se os tenho, são gratuitos. “Ninguém merece”! – para ter que colocar uma frase do chavão popular. Também é comum dizer-se: quem não tem inimigo, não tem amigo. Logo, conclui-se que as duas relações são raras.
“ÁGAPE” significava amor fraterno, amor ao próximo, daí a palavra fraternidade, daí também a extensão para a caridade.  Já está nos mandamentos da lei de Moisés, que foram renovados por Cristo: “Amar o próximo como a si mesmo”. Ao contrário de “PHILIA”, este tipo de amor não exige reciprocidade.  Ama-se por amar, sem esperar retribuição, sem esperar o mesmo tratamento. Portanto, ama-se, indiferentemente, os bons e os maus.  

Já o termo “EROS”, na antiguidade, referia-se à relação amorosa propriamente dita e entendida: homem x mulher e vice-versa. Hoje, a paixão amorosa está diferente em si e também mais complexa, se comparada às duas antes descritas. É associada à exclusividade e à reciprocidade. É o tipo de amor mais complexo, pois que movido pelo prazer humano. Nós somos seres desejantes, impulsionados pelo prazer, pela conquista. Nosso desejo não visa apenas alcançar o outro como objeto: quer também ser objeto do amor, ou seja, amar e ser amado. Essa força do desejo é a que tem dominado a nossa cultura. Durante séculos e séculos foi necessário dominar esse tipo de amor, os nossos instintos. E daí nasceram os costumes, a moral, as leis e as punições. A razão passa a reger a onda quase incontrolável do amor. Em casos especiais, ela se torna incontrolável. E é por aí que nasce a violência e a maior parte dos crimes: o amor em busca do poder do outro, o amor em busca do poder dos outros. A atividade sexual é natural e comum aos homens e aos animais, porém só o erotismo e o gosto do domínio são psicológicos, independentemente do fim natural – que é a reprodução. E é pela linguagem que tenta dominar a consciência do outro. É cultura. Amor erótico é cultura, é arte, gozo e sabedoria, prazer e amizade. Aqui amor e amizade misturam-se. Aí se aproxima do incesto, prática que universalmente é repudiada pela consciência social e individual, No entanto, ele acontece. Em muitos países, o Brasil é um deles, o incesto não é proibido, não é crime. Nossas leis são muito lenientes. Os legisladores acham que se um dos incestuosos não molesta o outro – tudo bem – não há como enquadrá-lo em crime, mas também não há como legalizá-lo oficialmente.

Perguntei a meu filho, Miguel de Moura Júnior, advogado, sobre a situação legal do incesto e ele me disse que a lei brasileira não incrimina o incesto pelo incesto simplesmente. E cita um caso publicado na Folha, 11 de junho 2010: - “Ele me batia muito, me empurrava... Ele me procurava de 3 em 3 dias, de 8 em 8 dias, mas eu não pensava que isso fosse crime. Dessa forma, Sandra Maria Monteiro, 29, escreveu como era o relacionamento com seu pai, o lavrador José Agostinho Bispo Pereira, 54, preso na teça-feira passada em um povoado de Pinheiro, no interior do Maranhão. Segundo a Polícia, os dois tiveram juntos 7 filhos. Analfabeta e abandonada pela mãe, Sandra contou à “Folha” que viveu desde os 12 anos sem saber que a violência sexual, o cárcere privado e os maus tratos cometidos pelo pai eram crimes”.

Assim, se pode notar que o perigo do incesto é quando ultrapassa o incesto, passando existir com a violência. Aí vem o caso do estupro, dos maus tratos, do cárcere privado, etc. inclusive o da pedofilia. Todos punidos pela lei. Também a sociedade quer proteger-se contra os males que, por acaso, venha o casal transmitir aos filhos. A semelhança muito aproximada de “genes”, na criação de um novo ser, não favorece geneticamente uma geração saudável, acredita-se. Embora a ciência, até então, tenha sido muito tímida em afirmar categoricamente.

 Assim, a lei brasileira não diz sim, nem não. Fica de olho no que possa acontecer à família. E a família é o germe da sociedade. Sem uma boa constituição familiar não se chega a uma boa comunidade. Fica no ar a espontânea repulsa do incesto, tal como a sociedade sadia sente repulsa pela pedofilia. O mundo começou pelo incesto, segundo consta no Gênesis, primeiro livro da Bíblia, mas caminhou para a diversidade. Na verdade, nascemos iguais, mas somos psicologicamente desiguais, diferentes.

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*Francisco Miguel de Moura, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras, da UBE- União do Escritores do Brasil - São Palo, da Academia de Letras da Região de Picos(ALERP) e da Associação Internacional de Escritores (IWA), esta nos Estados Unidos.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

PE. JOÃO MORAIS SOBRINHO, ENSAIO BIOGRÁFICO

 Francisco Miguel de Moura*


Quando eu já havia terminado o livro “Minha História de Picos”, encontrei-me com o Padre João Morais Sobrinho por acaso, no Supermercado Carvalho, saudável e alegre. Perguntou-me, então, se havia incluído uma biografia dele.  E eu respondi que ele estava citado em várias partes do livro, como não poderia deixar de ser. É que eu tive o propósito, na concepção da obra, de não fazer biografias dos vivos, visto que a biografia é uma peça que se escreve apenas quando a pessoa faleceu. 

Depois foi que me lembrei: Ele é, atualmente, a pessoa mais idosa da família Morais Feitosa. O nome João Morais Sobrinho é uma homenagem que seu Mirô (Laudemiro Morais Feitosa) fez a seu irmão João Morais Feitosa, tio do futuro Pe. João Morais Sobrinho.   O futuro padre Morais (ou Joãozinho, como é chamado pelos mais íntimos) nasceu em Picos, Piauí, aos 27 de outubro de 1927. É o primogênito do casal Laudemiro Morais Feitosa e Isabel Francisca da Costa, de cujo casal nasceram mais os seguintes filhos: Antônio Morais Sobrinho e Maria do Socorro Morais Ferreira. Laudemiro Morais Feitosa, pai do Pe. João Morais, enviuvou. Depois do nascimento dos três filhos mencionados, casou, pela segunda vez, com Esther Morais de Araújo. Desse segundo casamento nasceram mais dois rebentos: Maria Mécia Morais Araújo Moura e Francisco Morais Araújo, meio irmãos do Pe. João Morais. Ele comemora os seus 89 anos idade, no próximo mês de outubro. Atualmente, está convalescendo de um tratamento de câncer intestinal, no seu próprio apartamento, na Avenida Rio Poty, bairro de Fátima. 

Contando um pouco de sua vida, ele diz que, depois dos estudos primários, em Picos, no Colégio Coelho Rodrigues, teve uma vida muito movimentada. Foi para Recife por algum tempo, voltou para Picos e ficou esperando uma vaga no Seminário de Teresina, mas não havia vagas no Seminário. Finalmente, o bispo D. Paulo Hipólito de Sousa Libório conseguiu criar uma vaga para ele, onde fez o correspondente ao Curso Científico. Depois foi para João Pessoa onde terminou os cursos de Filosofia e Teologia, os quais duraram cerca de quatro anos. Aí então volta para Picos, onde foi ordenado padre, na Igreja Matriz de N. S. dos Remédios, em 22 de dezembro de 1958. Foi ele quem oficiou o casamento de sua irmã Maria Mécia Morais Araújo com Francisco Miguel de Moura, em 08 de dezembro de 1959.

Após a ordenação, foi designado pelo bispo de então para dirigir a Paróquia de Pio IX – PI. Dita paróquia abrangia um território que ia de Jenipapeiro a Riachão, seguindo por Alagoinha e São Julião, e chegava às cidades de Fronteiras-PI e Pio IX-PI. Em Pio IX construiu grandes amizades, inclusive com o escritor José Magalhães da Costa, Juiz de Direito da Comarca. Por causa do seu trabalho, mantinha a fé e a religião naqueles lugares e cidades mencionados, arrecadava simpatia e contribuições para a Igreja, mas suas relações com os bispos nunca foram muito tranquilas, pacíficas. De vez em quando aconteciam arrepios. Tanto é que, segundo me declarou resolveu “tirar a batina” como se diz no interior e casar-se. Foi dispensado do ministério sacerdotal em 1970, depois de diálogos não muito amistosos com o bispo de Picos, D. Augusto. As suas desavenças eram, sobretudo, por dinheiro. O bispo achava que a arrecadação estava minguada e o Pe. Morais não sabia o que fazer para aumentá-la. 

Casou-se, em 1980, com Francisca Pereira de Sousa, nascida em 20-03-1930, já então viúva do Prof. Cosme, um parente meu que há muito tempo eu não via. Foi na época do seu primeiro casamento que conheci a atual esposa do Pe. João Morais. E, em nossa entrevista, ele lembrou que ela tinha sido sua secretária, na Igreja de Fronteiras - PI, quando era o pároco de Pio IX(PI). “Naquela época nunca imaginei que viesse a ser minha esposa”, confessa. E diz também: “Depois que fui dispensado do ministério sacerdotal, passei um ano sem comunicar-me com a Igreja nem pedir-lhe a devida licença para o matrimônio, cujo processo demorou muito e só alcancei em 1976”. 

Pe. João Morais Sobrinho tem um temperamento forte, o sangue dos Feitosa dos Inhamuns e também dos Conrado Costa, de Picos. Compreende-se, assim, porque algumas vezes se desentendeu com os superiores hierárquicos da Igreja. Isto não quer dizer, muito pelo contrário, que não seja um cidadão virtuoso, crente em Deus e em Jesus.  Operoso e trabalhador, depois de ter desistido do sacerdócio, tornou-se professor, o que já vinha fazendo nos colégios da paróquia (Pio IX) e depois em Teresina, quando já estava casado com Francisca Pereira de Sousa Morais. Foi Diretor do Colégio Lourival Parente, no bairro do mesmo nome, onde também lecionava português, francês e inglês. A atividade de professor cessou quando nela se aposentou, em 1985. Sua inquietude, entretanto, levou a desenvolver sua tendência para os negócios, construiu e comprou vários imóveis, muitas vezes auxiliando os sobrinhos, filhos dos seus irmãos Antônio Morais Sobrinho e Maria do Socorro Morais Ferreira, especialmente nos estudos. Passou também a adquirir pequenas propriedades onde praticava criação de gado. Por último, já aqui, em Teresina, comprou um sítio na zona rural onde cria gado, planta e cultiva cajueiros, em pequena escala, fabricando cajuína de ótima qualidade para distribuir aos parentes, amigos e, esporadicamente, vender a quem interessar-se. Emprega seu tempo disponível nisto, mais por lazer que por necessidade. Por tudo isto, faço-lhe esta homenagem.
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*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras (APL) e da Academia de Letras da Região de Picos(ALERP)

sábado, 9 de julho de 2016

A GRAÇA DE CADA DIA – UM LIVRO, VÁRIAS HISTÓRIAS.


Francisco Miguel de Moura
Escritor 
e membro da Academia Piauiense de Letras.

          A crônica é sempre uma conversa silenciosa, como me escreveu a escritora portuguesa Maria Helena Ventura.  Conversa deliciosa, acrescento. Quando o escritor não tem nenhum assunto em pauta, vale-se de si mesmo e constrói as chamada crônicas de memória. Há, assim, uma variedade de crônicas que não é possível nomearmos: o artigo é crônica, a história é crônica, a memória, a biografia, até o conto pode transformar-se numa crônica.

         Quando escrevi meu livro de crônicas “A graça de cada dia”, escolhi este nome de propósito, para ver se os leitores me entenderiam (eu sei que, de acordo com a gramática deveria escrever: entender-me-iam).  Parece que entenderam. E me levaram a sério. E hão de me entender porque uso aqui a colocação do pronome em desacordo com os gramáticos.

Sobre o livro, não recebi praticamente nenhuma crítica, salvo a da escritora portuguesa Maria Helena Ventura. E não me digam que não vendi o livro, não o ofertei a amigos e escritores desconhecidos do Brasil e do exterior. Minhas anotações garantem que não estou mentindo. Mas os críticos ficaram calados e caladinhos estão a respeito deste livro que fiz com tanto cuidado, trabalho, persistência e amor. Silêncio. Parece que ninguém me levou a sério ao ponto de me apontarem erros e defeitos de estilo. Nem mesmo de verificar que o título é dúbio, como a palavra graça é dúbia, como todas as palavras têm múltiplo sentido na arte.

         E por que, então, como se me queixasse, estou escrevendo isto?  Claro que a gente escreve para ser lido. O drama do escritor, hoje, é que não sabe pra quem está escrevendo. Vivemos o grande mundo da imagem cinematográfica, televisiva e das redes sociais, através do computador e, principalmente, do celular.  E foi por uma das tantas mensagens que recebi a segunda crítica séria sobre “A graça de cada dia”, nestes últimos sete anos, visto que sua edição é de 2009, sendo daquele ano o seu lançamento na AABB, por ocasião de um churrasco oferecido aos funcionários aposentados do Banco do Brasil. Foi um lançamento popular e supimpa, graças ao meu conceito junto aos colegas do BB que dirigiam o Clube naquele tempo. Depois, muito depois, eu enviaria uma mensagem aos meus amigos de uma rede social, nestes termos: Só me sinto bem quando estou rodeado de pessoas que sinceramente gostam de mim, mesmo que não digam, mas eu saiba. Por isto, minha casa é meu escudo contra todos os males do mundo. Mas também me sinto bem quando o que escrevo - tenha dor ou alegria ao concluir e editar - é lido e admirado por aqueles que gostam de poesia e crônicas, romances e contos ou quaisquer outras formas, inclusive cartas. Nesses momentos "me sinto um deus / mas um deus muito pequeno" – que Deus me perdoe usar o seu nome em tão banal vaidade, lembrando-me sempre de que “VAIDADE DAS VAIDADES, TUDO É VAIDADE”. Então, acabo de sentir uma dessas alegrias (ou vaidades), pois recebi do meu amigo, escritor José Solon de Sousa (que às vezes assina Solon Reis Jacob), a seguinte apreciação de “A graça de cada dia”, através de uma rede social que não vou referir o nome. 

        “Li, reli e li pela 3ª vez o seu livro de crônicas “A graça de cada dia”, maravilhado com o ritmo, a sonoridade. Crônicas que foram feitas para se ler o ano inteiro e por toda a vida, de tão boas! Não consegui encontrar sequer uma pior nem outra melhor. Seria contradição. Afirmo que cada uma supera a outra, sem mácula! Melhor afirmar assim: cada uma tem seu caudal de bondade e beleza, que só um “poço dos mortos” vivos e ressuscitados consegue ter! Ora, que chegada impraticável! Mas certamente visualizadas no frenesi que, mesmo em paz, não podem sossegar, e elucidam tudo! Acho, inclusive, que vou perder meu medo de almas. Adorei tudo, grande Chico! Tive vontade de mastigá-las, e mastiguei-as. Tive vontade degustá-las e degustei-as. Colá-las na interface da minha mente e colei-as como se faz na mágica da internet: copiar, colar... 
          Fico-lhe a dever todo o prazer e encantamento. 
          Abraços de Solon Reis Jacob”.

         Quanto ao assunto inicial, vou buscar apoio num dos maiores escritores e filósofos de minha admiração, Arthur Schopenhauer. Ele escreveu que “um livro não pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor”.  Neste caso, posso dizer que Solon de Sousa e Maria Helena Ventura foram os únicos que me conhecem e reconhecem nessas crônicas que fui fazendo ao sabor dos dias e publicando nos jornais da Capital. Confesso que algumas crônicas do livro são realmente criadas, inventadas para contar minha verdade, como é o caso de “O poço dos mortos”.  

        Há uma variedade de temas que a capa, feita por Jota A. sugere em pequenos traços, temas que apanhei na vida, andando pelas ruas, conversando com as pessoas e interpretando-as nos meus artigos, lendo os jornais e abordando os mesmos temas com o viés de cronista. Algumas têm humor, não aquele macarrônico, que faz o gosto do povão, muitas impublicáveis. Mas na medida de quem pensa e critica, pensa e se arrepende, pensa e chora, pensa e ri também. Digamos que como um filósofo popular e não como um pretensioso humorista. Para terminar, lembro o pensamento de um clássico francês, cujo nome me foge à memória, segundo o qual “tudo que acontece de mal nas ruas é porque o homem não fica no seu quarto, quietamente, só lendo e pensando”. 

         Esse homem que ele desejava não seria nunca um cronista. Pois o que é o cronista? Um homem simples, do povo, que com ele conversa em palavras silenciosas, pensadas e repensadas, trabalhadas, feitas ao gosto da maioria dos leitores que ainda existem e resistem.

terça-feira, 5 de julho de 2016

A FLOR E O PERFUME

                     Francisco Miguel de Moura*


a flor se guarda para o fruto
o fruto se guarda para a boca
a boca... perde-se no beijo

o beijo é monte que se move
em tórrido país
seja manhã ou fim de tarde
dos janeiros:
- indo e vindo em cócegas
brinca com os vírus de asas
quebradas pelo desespero

e cochicha com os deuses

a flor se guarda no perfume
o perfume pelo frasco
(sem fiasco)
em si se resume:
- volátil, volúvel, venal...
e amanhã se apagará no ar sensual

tudo, então,  se tornará em fumo

a alma das coisas tem a cor da fumaça.

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*Francisco Miguel de Moura, poeta, contista, cronista, romancista e crítico brasileiro, mora em Teresina, Capital do Piauí, onde se aposentou pelo Banco do Brasil. Tem semanalmente publicado artigos no jornal “O DIA”, o mais antigo da capital.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

UMA RÉPLICA A TODOS OS DESCRENTES

Francisco Miguel de Moura*

Por causa de uma carta-circular, anexa a outra de 04-06-2016, dando-me parabéns por meu aniversário, ambas de autoria da Profª. Terezinka Pereira, dos Estados Unidos, faço esta réplica. Ela responde aos sócios da IWA (International Writers And Artists Association) e a seus correspondentes, a quatro perguntas que lhe fazem: 1) Porque Deus permite o sofrimento? 2) Como ter uma vida familiar feliz? 3) Onde estão os mortos? 4) Por que Deus permite o sofrimento? No documento, questiona Deus e Jesus Cristo, entre outros quesitos. Política, futebol e religião são indiscutíveis, entretanto não podemos deixar em branco as perguntas e respostas das quais dependem nossa vida física, moral e espiritual. Até que achei interessante, se for verdadeira, uma frase do escritor Charles Baudelaire: “Deus é o único ser que, para reinar, não precisa existir”. E é por aqui que começamos: Será mesmo que Deus não é necessário, não precisa existir?
Deus, como grande parte das religiões deístas, especialmente, as monoteístas, não foi criado pelo homem nem por ninguém, porque ele sempre existiu e existirá para sempre. É um mistério? É. Porém o homem não é capaz de desvendar tamanho mistério, até nem os menores, haja vista a ciência quando se aflige para conseguir um remédio que venha a debelar as epidemias. Se Deus não existe, nada existe, nem a Terra nem outros mundos que enxergamos (mal) daqui de onde estamos. Assim não existimos nós nem o pensamento. E por que então ficam pessoas pensando que estão pensando, vivas como se estivessem vivendo, se foi o filósofo Platão que declarou no seu tempo que “A realidade é o pensamento”? Então, existiria o pensamento sem o homem, a natureza, a comida, a água, sem a sociedade e suas organizações milenares como a família? Estas são algumas das perguntas que lanço agora para meus leitores. E passo, da mesma forma, a contestar o pensamento de nosso poeta Humberto Del Maestro de que “é mais fácil explicar a um cego de nascença, o que é o luar, do que a um descrente quem é Deus”. Explicar não podemos, nem mostrar-lhe o céu nem Deus, nem a alma, nem ele a si próprio. Mas ele sabe, desde que tenha consciência, não seja um débil mental completo, ele sabe que existe. E por que existe? E por que é cego, não enxerga os caminhos como lhe dizem os outros que tem a visão completa? Os mistérios continuam. Tudo é mistério. Mas precisamos acreditar em alguma coisa. Essa coisa já é seu Deus, um superior, porque iguais são o próximo, iguais e diferentes, que ele reconhece mesmo sendo cego e não possa ver os espelhos. O problema maior seria um cego, surdo e mudo explicar a outra cego que seja ao mesmo tempo cego, surdo e mudo qualquer coisa que não pudesse tocar. Tocar é sensação, sensibilidade. É algo que está acima de nós, chega à poesia, a todas as artes, à beleza e à bondade. Deus é a bondade e a beleza, e tudo isto chega ao espírito, à alma.
A escritora Teresinka Pereira não acredita em Jesus também, diz que ele não havia morrido na cruz nem ressuscitou, segundo pesquisas históricas recentes - não afirmando quais pesquisas, nem se são fidedignas. Ora, que eu saiba, até hoje, seriamente, nenhum pesquisador ou historiador contestou a vida de Jesus e sua morte. Tudo o que ele pregava já era da lei de Moisés e dos profetas. Nunca foram contestados os seus milagres e sua doutrina a respeito do amor e das boas ações. E mesmo que Jesus não fosse o filho enviado por Deus para salvar os homens, nós, os irmãos, seria um profeta como os dos tempos antigos e um santo como os que assim são considerados hoje pela Igreja Católica Apostólica. Eis aí uma opção para os que não acreditam em Jesus como Deus ou uma das três pessoas da Trindade, junto com o Pai e o Espírito Santo, formando um só Deus. Porque Deus é um. Não somente Jesus é filho de Deus, nós também somos uma espécie de partícula infinitamente pequena de Deus. Não experimente nos ver por nenhum meio mecânico, elétrico ou eletrônico. Nós existimos e pronto.
E sobre a família? Feliz é aquela que é composta por pessoas que se amam e se suportam, com a finalidade de prolongar a célula que tece a humanidade, dentro dos princípios históricos, morais e inteligíveis da sociedade. É aquela que pratica a humanidade, na vida comum e, por exemplo, nos hospitais, nas casas saúde, nos orfanatos, nos presídios, nos degredos. Um por todos e todos por um, isto é a família, no meu pequeno entendimento. Esqueci os cemitérios, lá também se pratica a humanidade: a honra aos mortos. À pergunta: - Para onde eles vão? Eu diria apenas: Perguntem a Deus. Para os que não acreditam em Deus, defendo a liberdade de pensar que ali tudo se acaba. Para nós outros, que acreditamos na eternidade do tempo, se “Deus é duração” como disse Ascendino Leite, é no tempo eterno que enxergamos Deus. Se alguém tem explicações melhores para as perguntas formuladas por minha amiga Teresinka Pereira, da IWA, entidade da qual faço parte como sócio, tem toda a liberdade de expressar-se da forma que pensa.
Quanto à permissão de Deus para existir o sofrimento humano, só tenho a resposta num soneto feito há muito tempo, onde digo que ele arrependeu-se dessa permissão, criando depois um paraíso sem dor, na alegria e desfrute da glória celeste para os justos e/ou perdoados. Leitores, não me peçam mais explicações - repito como minha interlocutora epistolar Teresinka Pereira - porque não tenho outras. Posso dizer apenas que sou feliz, tenho uma família feliz, somos felizes com os defeitos que temos, mas com a liberdade de expressão e o dever de ouvir o outro. E é por aí que decidimos: com amor, porque só o amor nos leva ao céu.
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*Francisco Miguel de Moura, poeta, crítico literário, romancista, contista e cronista, mora em Teresina, PI. Email: franciscomigueldemoura@gmail.com

UMA RÉPLICA A TODOS OS DESCRENTES

Francisco Miguel de Moura*

Por causa de uma carta-circular, anexa a outra de 04-06-2016, dando-me parabéns por meu aniversário, ambas de autoria da Profª. Terezinka Pereira, dos Estados Unidos, faço esta réplica. Ela responde aos sócios da IWA (International Writers And Artists Association) e a seus correspondentes, a quatro perguntas que lhe fazem: 1) Porque Deus permite o sofrimento? 2) Como ter uma vida familiar feliz? 3) Onde estão os mortos? 4) Por que Deus permite o sofrimento? No documento, questiona Deus e Jesus Cristo, entre outros questionamentos.
Política, futebol e religião são indiscutíveis, entretanto não podemos deixar em branco as perguntas e respostas das quais dependem nossa vida física, moral e espiritual. Até que achei interessante, se for verdadeira, uma frase do escritor Charles Baudelaire: “Deus é o único ser que, para reinar, não precisa existir”. E é por aqui que começamos: Será mesmo que Deus não é necessário, não precisa existir?
Deus, como grande parte das religiões deístas, especialmente, as monoteístas, não foi criado pelo homem nem por ninguém, porque ele sempre existiu e existirá para sempre. É um mistério? É. Porém o homem não é capaz de desvendar tamanho mistério, até nem os menores, haja vista a ciência quando se aflige para conseguir um remédio que venha a debelar as epidemias. Se Deus não existe, nada existe, nem a Terra nem outros mundos que enxergamos (mal) daqui de onde estamos. Assim não existimos nós nem o pensamento. E por que então ficam pessoas pensando que estão pensando, vivas como se estivessem vivendo, se foi o filósofo Platão que declarou no seu tempo que “A realidade é o pensamento”? Então, existiria o pensamento sem o homem, a natureza, a comida, a água, sem a sociedade e suas organizações milenares como a família? Estas são algumas das perguntas que lanço agora para meus leitores. E passo, da mesma forma, a contestar o pensamento de nosso poeta Humberto Del Maestro de que “é mais fácil explicar a um cego de nascença, o que é o luar, do que a um descrente quem é Deus”. Explicar não podemos, nem mostrar-lhe o céu nem Deus, nem a alma, nem ele a si próprio. Mas ele sabe, desde que tenha consciência, não seja um débil mental completo, ele sabe que existe. E por que existe? E por que é cego, não enxerga os caminhos como lhe dizem os outros que tem a visão completa? Os mistérios continuam. Tudo é mistério. Mas precisamos acreditar em alguma coisa. Essa coisa já é seu Deus, um superior, porque iguais são o próximo, iguais e diferentes, que ele reconhece mesmo sendo cego e não possa ver os espelhos. O problema maior seria um cego, surdo e mudo explicar a outra cego que seja ao mesmo tempo cego, surdo e mudo qualquer coisa que não pudesse tocar. Tocar é sensação, sensibilidade. É algo que está acima de nós, chega à poesia, a todas as artes, à beleza e à bondade. Deus é a bondade e a beleza, e tudo isto chega ao espírito, à alma.
A escritora Teresinka Pereira não acredita em Jesus também, diz que ele não havia morrido na cruz nem ressuscitou, segundo pesquisas históricas recentes - não afirmando quais pesquisas, nem se são fidedignas. Ora, que eu saiba, até hoje, seriamente, nenhum pesquisador ou historiador contestou a vida de Jesus e sua morte. Tudo o que ele pregava já era da lei de Moisés e dos profetas. Nunca foram contestados os seus milagres e sua doutrina a respeito do amor e das boas ações. E mesmo que Jesus não fosse o filho enviado por Deus para salvar os homens, nós, os irmãos, seria um profeta como os dos tempos antigos e um santo como os que assim são considerados hoje pela Igreja Católica Apostólica. Eis aí uma opção para os que não acreditam em Jesus como Deus ou uma das três pessoas da Trindade, junto com o Pai e o Espírito Santo, formando um só Deus. Porque Deus é um. Não somente Jesus é filho de Deus, nós também somos uma espécie de partícula infinitamente pequena de Deus. Não experimente nos ver por nenhum meio mecânico, elétrico ou eletrônico. Nós existimos e pronto.
E sobre a família? Feliz é aquela que é composta por pessoas que se amam e se suportam, com a finalidade de prolongar a célula que tece a humanidade, dentro dos princípios históricos, morais e inteligíveis da sociedade. É aquela que pratica a humanidade, na vida comum e, por exemplo, nos hospitais, nas casas saúde, nos orfanatos, nos presídios, nos degredos. Um por todos e todos por um, isto é a família, no meu pequeno entendimento. Esqueci os cemitérios, lá também se pratica a humanidade: a honra aos mortos. À pergunta: - Para onde eles vão? Eu diria apenas: Perguntem a Deus. Para os que não acreditam em Deus, defendo a liberdade de pensar que ali tudo se acaba. Para nós outros, que acreditamos na eternidade do tempo, se “Deus é duração” como disse Ascendino Leite, é no tempo eterno que enxergamos Deus. Se alguém tem explicações melhores para as perguntas formuladas por minha amiga Teresinka Pereira, da IWA, entidade da qual faço parte como sócio, tem toda a liberdade de expressar-se da forma que pensa.
Quanto à permissão de Deus para existir o sofrimento humano, só tenho a resposta num soneto feito há muito tempo, onde digo que ele arrependeu-se dessa permissão, criando depois um paraíso sem dor, na alegria e desfrute da glória celeste para os justos e/ou perdoados. Leitores, não me peçam mais explicações - repito como minha interlocutora epistolar Teresinka Pereira - porque não tenho outras. Posso dizer apenas que sou feliz, tenho uma família feliz, somos felizes com os defeitos que temos, mas com a liberdade de expressão e o dever de ouvir o outro. E é por aí que decidimos: com amor, porque só o amor nos leva ao céu.

                                  (Publicado no jornal O DIA, Teresina, Piauí, 02 de julho de 2016)
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*Francisco Miguel de Moura, poeta, crítico literário, romancista, contista e cronista, mora em Teresina, PI. Email: franciscomigueldemoura@gmail.com

domingo, 26 de junho de 2016

INTRODUÇÃO À DRAMATURGIA PIAUIENSE

Francisco Miguel de Moura*
                           
          O Piauí é rico em artes e artistas, falta-lhe apenas a estrutura para que esses artistas levem o nome do nosso estado a todos os recantos deste enorme Brasil.  Portanto, faz muito bem a Academia Piauiense de Letras por incluir na sua “Coleção Centenário”, todas as formas de arte, desde a poesia, o conto e a crônica, até o romance e a história, contemplando autores do passado e do presente.
 
Agora é a vez da dramaturgia, o teatro. Embora os textos não sejam de autoria de acadêmicos, a escolha tem a vantagem de recair sobre peças de três autores contemporâneos dos mais fortes e atuantes no meio teatral: Francisco Ací Gomes Campelo, Walfrido de Melo Salmito e Adalmir de Miranda Moura, conhecidos de forma abreviada, na vida artística, por Ací Campelo, Walfrido Salmito e Adalmir Miranda, respectivamente. São, digamos sem exagero, três grandes batalhadores pela arte do palco, conhecida e considerada como a mais completa de todas. 

O teatro é a vida, a linguagem da vida, a linguagem do povo levada ao próprio povo, de forma tão agradável. Não é apenas arte, mas divertimento, seja sob a forma de drama, comédia ou mesmo tragédia. Por ter a palavra como um dos seus instrumentos, quando, então, o teatro é considerado literatura, ele tem as suas estranhezas, esquisitices e sabedoria vincadas em frases e estilo que lhe dão a marca. O teatro é um conjunto harmônico de história, romance, poesia, música, dança e quantas mais formas de arte houver. Não pode, portanto, ser julgado pelos padrões das outras formas de arte da escrita. É especial.

    Em boa hora, esta arte ganha letra de forma. Três autores com a mostra de sua arte são enfeixados neste volume “Dramaturgia Piauiense”. Há quem diga até que o autor da peça teatral é o diretor, pois este faz tantas modificações nela, embora sem propósito de mudar a sua mensagem. Enfim autores, diretores e atores e quem mais participe do espetáculo são artistas. É o que acontece com a maioria dos autores de textos para teatro, no Piauí. Importante também é saber que todos os autores escolhidos – Ací, Salmito e Adalmir - fazem tudo isto e com maestria. E não somente representaram e representam no Piauí: vão além. Eles têm apresentado sua arte principalmente no Teatro “4 de Setembro”, levando-a também às escolas e instituições culturais e sociais do Piauí, assim como a quase todo o país, participando de festivais e ganhando valiosos prêmios pelos espetáculos e como atores, tudo graças a sua pertinácia, seu conhecimento também adquirido em cursos superiores de dramaturgia.    

Lendo e relendo estes textos, eu imagino quanto de sabedoria da vida e da arte esses dramaturgos conseguiram amealhar e disseminar entre os sedentos freqüentadores dos seus espetáculos. São textos limpos, apropriados a qualquer público, como estes “A incrível pedra fina”, “A casa de Pedro Malasarte” e o “Auto da folia de reis”, especialmente destinados à criançada.  E como educam e divertem, aproveitando espertezas e molecagens dos personagens!

A bibliografia literária piauiense, com esta edição de três textos teatrais de uma só vez, fica enriquecida. Como historiador da literatura, confesso que pouco, muito pouco conheci como foi o teatro antigo. Registrei apenas quatro peças na “Literatura do Piauí”, editada recentemente pela EDUFPI: um fragmento da obra de Jônatas Batista (“Jovita, ou a Heroína de 1865”), uma parte da de Chico Pereira da Silva (“Reino do mar sem fim”) e outro trecho de Gomes Campos (“Auto de Lampião no além”). E pronto. E ainda citei outros três nomes bem no fim do livro: Ací Campelo, Wellington Sampaio e Afonso Lima. 

Felicidade têm Ací Campelo, W. Salmito e Adalmir Miranda de participar desta coleção centenária da Academia de Letras. Quantos outros dramaturgos poderiam ser citados mesmo neste prefácio! Já participei, como julgador, de um concurso de textos para teatro, se não me engano, o de nome “Jônatas Batista”, da Fundação Cultural do Piauí, onde li e me deliciei com belíssimas peças como estas e creio que nem a premiada recebeu edição.

Deste grupo ora editado pela Academia, parece-me que o mais clássico é realmente o Ací, criando uma historinha realmente encantadora; ele é um escritor de alta criatividade. Criadores também são o W. Salmito e o Adalmir, dentro do universo folclórico brasileiro, descobrindo-nos coisas incríveis. Posso dizer que os três se igualam em qualidade e pujança de criação. 

Cumpre, pois, a nossa Academia, como agora o faz, o dever de desenterrar autores que há séculos ou centenas de anos permaneceram ignorados do nosso público, sem esquecer os escritores de ontem e de hoje, acadêmicos ou não, desta ou de qualquer que seja o ramo da arte.


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*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina-PI.
E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com
Links:www.revistacirandinhapiaui.blogspot.com
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