quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A HISTÓRIA DO HOMEM E A PROPRIEDADE PRIVADA

Francisco Miguel de Moura
          (Autor)

Quando a história da humanidade começou? Fala-se da civilização egípcia, também da Suméria, da Babilônia e de outras mais. Citamos o historiador Geoffrey Blainey, em “Uma Breve História do Mundo”:  

“Há 2 milhões de anos, eles viviam na África e eram poucos. Eram seres quase humanos, embora tendessem a ser menores que seus descendentes que hoje povoam o Planeta. Andavam eretos e subiam montanhas com enorme habilidade. Alimentavam-se principalmente de frutas, nozes, sementes e outras plantas comestíveis, mas começavam a consumir carne. Seus implementos eram primitivos. Se eram bem-sucedidos em dar forma a uma pedra, não iam muito longe com a modelagem. (…) Não há dúvida de que alguns moravam em cavernas – quando - quando podiam ser encontradas. (…) Esses seres humanos, conhecidos como hominídeos, viviam principalmente nas regiões dos atuais Quênia, Tanzânia e Etiópia”. 


Segundo estimativas arqueológicas, os dinossauros foram extintos há quase 64 milhões de anos. Mas as pegadas da raça definitivamente humana (dois adultos e uma criança, encontradas nas cinzas de uma erupção vulcânica recente) têm, pelo menos 3,6 milhões de anos. Se havia crianças, havia um casal, os dois adultos seriam o casal.


Até então estamos vendo os passos dados pelos hominídeos transformados em homem: desciam das árvores, começavam a caçar. E a sociedade humana teria sido começada imediatamente? Ao que parece, marcaria longo tempo até a chegada dessas criaturas humanas ao Egito e à Babilônia. Quanto lutaram e sofreram para chegar à civilização! E nós ainda nos queixamos do mundo de hoje.

Assim, não há registros confiáveis de datas, mesmo porque até a marcação do tempo pelo sol, pela lua e pelas estrelas é bem recente na história das civilização. O que nós temos (ou acreditamos) de certo mesmo está na Bíblia – conjunto de escritos inspirados pelo Deus único, segundo os hebreus. O primeiro, denominado “Gênesis”, narra a criação do mundo e o nascimento do primeiro casal humano – Adão e Eva – no Éden – um paraíso. Jardim imenso, propriedade privada deles, que perderam com o cometimento do primeiro pecado. E foi do pecado que surgiu a humanidade, a civilização, a cultura e a propriedade privada – que eles perderam para seus filhos e os filhos dos homens, o que concluímos ter sido por herança. Perdendo o paraíso, os homens ficaram obrigados a ganhar a vida com o seu trabalho, com o suor de seu rosto. Esta história mostra o começo da propriedade privada: a terra era de todos, mas precisava ser repartida. Cada um que trabalhasse para ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto. Falando em datas, a mais antiga de mais ou menos 1.850 A. C. Era na Caldeia, com o rei Hamurábi ou Hamurabi. Ele editou um código de leis, o mais antigo que se conhece. E nele, segundo já foi divulgado, havia castigos ao desrespeito da propriedade alheia, tais como: roubo, trabalho mal feito em propriedade de outrem, entre outros. Castigo maior do que o delito. Era a lei de Talião, que os hebreus modificaram para o “dente por dente, olho por olho”.

Na evolução humana, ora domina o estado sobre tudo (ele é incólume), ora domina a propriedade privada, passando o estado a ser apenas coadjuvante do poder.

Quem conhece a história, chegará aos gregos e romanos, e depois à Idade Média, com o sistema feudal. E sempre existiu a classe dos escravos, mas não como preconceito. Mais como castigo às presas de guerras. Mais como apropriação de todas as terras: regime feudal. Na História do Brasil, coisa recentíssima na história do mundo, chegaremos à escravidão especialmente dos negros e dos índios, os menos cultos e desarmados. O sistema feudal nosso funcionava com os fazendeiros e proprietários de sesmarias e gado, sem falar nos famosos engenhos de cana-de-açúcar, tudo para exportação, quando pagavam pesados impostos ao poder público em Portugal. O gado era criado solto, sistema que deu resultado nos primórdios, mas depois foi caindo ou somando-se aos donos das minas, outra forma de produzir riquezas. As minas eram de quem tinha a propriedade privada das sesmarias ou fazendas. E assim se fez a história da civilização, com base na posse de terras, na economia, no pagamento de impostos ao estado, etc. Pensando nisto é que me vem à memória do que eu via, quando menino: o gado ferrado com o ferro do dono da fazenda. Era um meio para que o ladrão fosse apanhado com mais facilidade.

Demorou muito para que o povo se tornasse político e quisesse participar da força do estado. Sem educação e sem cultura, quase sem tempo para o conhecimento do que era a vida que viviam, pois apenas trabalhavam e vegetavam, o vulgo demorou muito a tornar-se um ser político. Mas bem que queria. Dizemos assim, baseados na lição de Aristóteles, que escreveu: “o homem é, naturalmente, um animal político”. A política crescia com os meios de economizar e fazer girar essa riqueza. Daí nasceu a ciência da economia e os seus principais pensadores: Marx, Keynes, Adam Smith, entre outros.
Segundo Maquiavel, “a realidade é como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse”. Esse pensamento faz lembrar que o socialismo é uma forma de dogma político muito recente, e não deu certo em nenhum país. Do combate a seus princípios, o estado capitalista, à sua maneira, adaptou o que havia de melhor: direitos trabalhistas, planos de benefícios sociais e de aposentadoria.

Conclui-se que a propriedade privada só fez crescer desde o início da civilização. Não quero dizer que seja o melhor sistema econômico, mas é o que mais prosperou e fez o avanço em busca do homem moderno, com incentivos à educação, cultura e ciências, e ocasião para o implante das democracias. Desse estudo, além das marcas de ferro no gado de criadores do Brasil, mutatatis mutandis, ficou-me ainda a palavra “privada”, um espaço onde a tranquilidade do indivíduo reina. O leitor pode imaginar se todas as privadas fossem públicas? Seria uma vergonha e muita sujeira. Nos tempos de economia em baixa, o capitalismo pode e deve ter o bom senso de usar sanitários mistos, em parte para uso privado e parte para uso público, mas é somente nos momentos de crise. A privada pública, além de ser contrassenso, é sujeira só, onde a população tem direitos, mas não têm direito a nada. Nem ao seu momento de privação, descontração e asseio. Na mesma linha de raciocínio, dizemos que o Mercado asseia o capitalismo, enquanto o socialismo emporcalha o Estado.

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Artigo que será publicado no Jornal "O Dia", 24 de fevereiro de 2017, de autoria de Francisco Miguel de Moura

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PRISIONEIROS NO PRÓPRIO LAR

Francisco Miguel de Moura
        Autor

Neste momento cruciante da nossa vida civil e política, econômica e patriótica, somos submetidos às penas de prisão domiciliar, sem ter cometido nenhum crime, como vimos recentemente no Espírito Santo. E a população que se arriscava a sair à rua pra comprar alimentos ou remédios, entre outras coisas urgentes  - como enterrar seus mortos – foi duramente, covardemente atacada por centenas  de terroristas, por causa da greve dos militares que resolveram, em conluio com as mulheres respectivas, não saírem dos quartéis e, a mando dos superiores, cruzarem os braços. Todos nós vimos, horrorizados, pela internet, redes sociais e tevês, o flagelo da capital e de outras cidades serem ao mesmo tempo atacadas por desordeiros – por ordem de quem? - assaltando, fechando lojas e fábricas e matando os cidadãos que tiveram a desventura de serem mortos ou baleados e sem hospitais nem equipes de socorro que os atendessem. Justamente porque todos estavam no mesmo barco: sem terem a quem apelar, salvo a Deus.

Se uma classe se volta contra a sociedade, isto se chama rebelião, não importa que declare ser para reivindicar direitos seus. Conforme está escrito na Constituição, os militares não podem fazer greve, muito menos se voltarem contra a sociedade. Pior é que colocaram suas famílias como escudo, entre os quartéis e a população. Situação bastante aflitiva para o Brasil. Todos nós sofremos e lamentamos a morte de cerca de 140 pessoas, no mês, em poucos dias.  Ainda se fala, de certa forma, com grande pena, dos massacres nos presídios brasileiros - o mais recente acontecido no Rio Grande do Norte. Por conta da droga, do crime organizado, das brigas entre facções  adotadas pelos próprios residentes dos presídios. Se comparada uma situação com a outra, é mais grave o que aconteceu no Espírito Santo. 

Chegamos à anarquia, ao começo da guerra civil de que tenho falado nos últimos artigos. Caminhamos pra ela. Vinha sendo sutilmente encenada pelos terroristas do MST, com apoio do governo que caiu e do líder maior do partido do poder, tudo em consonância com os barões da droga, PCC e outros partidos de tiranos e carniceiros que têm por lema, descaradamente:  “TÁ TUDO DOMINADO”.

Nós, cidadãos, defensores dos direitos humanos no seu verdadeiro sentido, somos os prisioneiros do nosso lar. Sem direito à defesa própria por uma arma. E, pior, sem a proteção  das forças policiais que deveriam cumprir seu dever de guardar a sociedade contra os malfeitores.  A gente não pode, como cristão, querer vingança contra eles, a menos que seja rigorosamente dentro da lei, da Constituição, que eles mesmo violaram de propósito, arrimados nas armas e na força que têm – que é  outorgada por nós – e em ideologias alienígenas que trabalham contra tudo o que aprenderam no quartel: Amar o Brasil. Como se uma classe fosse o Brasil, um sindicato fosse o Brasil. Como as questões salariais pudessem ser resolvidas a ferro e fogo. Queremos o rigoroso cumprimento da lei diante de todos os implicados, inclusive as mulheres que lhes serviram de escudo.  É preciso que os nossos governos mostrem quem são criminosos e merecem cumprir penas, tornando-se inimigos da sociedade. De acordo com o crime de cada um, a justiça deve legalmente puni-los.     Não deixar brecha para que outras rebeliões aconteçam. Se assim não for,chegaremos ao fim da picada: seremos mortos, prisioneiros deles ou fugiremos como emigrantes, expatriados, etc. 

Diante dessa situação, já exposta em toda a imprensa brasileira, me vem à lembrança uma frase infeliz, não me lembro de qual autor, para dizer que ele foi muito infeliz colocando-a na testada de uma obra:“O melhor do Brasil é o brasileiro”. Se tivesse pensado mais teria dito como eu digo agora: “O MELHOR DO BRASIL É O BRASILEIRO QUE FOI EMBORA”. Sou crítico na prosa e na poesia. Assim, transcrevo um poema que fiz com o título SER BRASILEIRO:

  - “Quero ser brasileiro / me procuro no campo / de futebol e na pista de automóvel, / estou aqui, ali, acolá, além de lá, / mas não sou Deus nem diabo, / como o pão que ele amassou. / Sou vadio, não faço nada, / só samba e carnaval. / Samba, ora samba? / Carnaval, ora carnaval? / Eu queria encontrar-me brasileiro / na cor, no amor, na paixão. / No trabalho, neste não. / Brasileiro em todo lugar, / de todas as formas, / sem caráter nenhum.
// Corri mundo e não encontro: / Europa, Oceania e África, / Ilhas do Pacífico e Ásia, fui até o Himalaia / e não encontrei Brasil nem brasileiro. 
// Disseram que ele se chama Washington, / foi pra América falar, inglês / e nunca voltará. //  Como é difícil ser brasileiro!”

Sou de uma época em que o nacionalismo predominava. A gente lia “Porque me ufano do meu país”, do Visconde de Ouro Preto. A gente se postava na frente do Colégio todos os dias de aula e cantava, com reverência,  o Hino Nacional do Brasil. A gente lia a “História do Brasil”, de Rocha Pomba, onde, entre datas e textos dos acontecimentos mais importantes, via as figuras dos que fizeram o Brasil. Hoje voga o internacionalismo da moeda, dos bancos, do movimento financeiro, comércio e indústria mundiais, importando com tudo isto suas modas, seus cantores e ritmos, seu filmes dos bons aos mais estapafúrdios. Que fazer?

Pegando uma carona em “O livro dos valores”, do Des. Francisco Meton, pg.113, o que lemos e aprovamos, por ser também o nosso pensamento: “Aqui (no Brasil) a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora. Não há um fundo moral comum. Posso acrescentar mesmo que não há dois brasileiros iguais. Sobre cada um de nós seria fútil erguer o quadro de virtudes e defeitos da comunhão. Onde está, mudando de ponto de vista, a nossa virtude social? Nem mesmo a bravura, que é a mais rudimentar e instintiva, nós a temos com equilíbrio e constância, e de um modo superior. A valentia aqui é um impulso nervoso. Veja as nossas guerras, de quanta cobardia nos enchem a lembrança!… Houve um tempo em que se proclamava a nossa piedade, a nossa bondade. Coletivamente, como nação,  somos tão maus, tão histericamente, inutilmente maus!...”  Embora seja uma citação retirada do livro “Canaã”, de Graça Aranha (diálogo entre Maciel e Milkau, personagens do livro), para o escritor Francisco Meton é aceitável a análise sobre o povo brasileiro. Assim, para nosso exame, são dois autores com a mesma interpretação. Um povo prisioneiro dos maus é um povo fraco, sem iniciativa, de débil caráter, sem patriotismo, sem futuro. O BRASIL NÃO É UM PAÍS DO FUTURO! 
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(Publicado no jornal "O Dia", Teresina, PI, de 18/19 de fevereiro de 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ESCRITORES, EMPRESÁRIOS E A CULTURA

Francisco Miguel de Moura
               Autor


Na atualidade brasileira, os escritores e os artistas, de modo geral, sentem a cruel omissão ou inexistência do financiamento da cultura. Na maioria dos casos os escritores nascem como empresários de seu próprio idealismo de participar do seleto grupo dos que pensam e escrevem, pensam e pintam, pensam e fazem teatro, música, ou outras artes. Esta situação é bem retratada já no cartel de todo o arsenal que levam os estudantes (nossos melhores leitores) a obrigarem-se às normas do ENEM e de outros instrumentos (siglas) que refletem a incompreensão dos educadores e gestores governamentais do mais importante setor da cultura. Geram, antes de tudo, a concentração das edições em duas ou três editoras do Sul, ficando o resto do Brasil a ver navios, ou melhor, cegos.
Franklin Jorge, grande escritor do Rio Grande do Norte, habitante de Natal, onde desenvolve intensa atividade jornalística e de escritor, me escreveu uma mensagem em 26/03/2016, contando as atribulações que está sofrendo para publicar sua imensa “Fortuna Crítica”. No documento me pede seu apoio. Dentro de minhas atividades de escritor e as fraquezas da idade, resolvi, antes lhe comunicando, tornar o que era CONFIDENCIAL em  INCONFIDENCIAL. Transcrevo-o:

“Meu caro poeta Francisco Miguel de Moura: Tomo a liberdade de solicitar  seu apoio para a publicação de meus inéditos, além de pedir sua permissão para publicar em minha “Fortuna Crítica” o belo artigo que escreveu sobre “O Livro dos Afiguraves”. Gostaria que lesse e, se achar que vale a pena opinar a respeito, escrevesse algumas linhas sobre a contribuição de minha obra à Cultura potiguar. Queria que João Claudino pudesse tomar conhecimento disto, ele que tem me apoiado, primeiro, publicando o livro citado; segundo, comprometendo-se a publicar-me outros títulos. Só que fico acanhado: são tantos, mais de 50 prontos para publicação, com exceção dos trabalhos de revisão, diagramação e elaboração de capas, investimento para o qual não disponho de recursos nem vejo possibilidade, mesmo a longo prazo, de vir a ter algum dia, considerando-se a situação do País e a minha própria, que consiste em uma única fonte de renda que posso perder a qualquer momento ou ao fim do mandato do atual Prefeito de Natal, que assessoro através da Sala Natal, departamento da Secretaria Municipal de Cultura. Sequer tenho uma casa para morar...

Escrevo-lhe em estado de grande angustia e humilhação, mas sobretudo por sabê-lo um dos homens bons do Piauí e um intelectual solidário e desprovido de vaidades. Se me permitir, mandarei dois originais. Um deles, “Gente de Ouro”, que lhe dará uma visão resumida da posição que o Rio Grande do Norte ocupa nos meus escritos. Trata-se de uma seleção extraída de cinco volumes inéditos, cuja elaboração teve início quando, aos 18 anos, minha avó materna proporcionou-me uma viagem de seis meses por nossa terra, sob a justificativa de que, pretendendo ser um escritor, devia começar por conhecer terra e povo do RN. Comecei, então, ainda sem experiência, a ouvir e a registrar minhas conversas com todos os estamentos sociais, sobretudo aqueles que, por sua condição de pobreza, não tinham e continuam não tendo voz. Não imaginava então que podia  chegar aonde cheguei, sobrecarregado de manuscritos e sob o peso de tamanha responsabilidade - a preservação de costumes e tradições que se disseminam em milhares de páginas que eu não imaginava que podia, como um amanuense de vidas, escrever. O outro, em organização, de minha “Fortuna Critica”, para que possa fazer um julgamento criterioso sobre o que tantos escreveram sobre meu trabalho. Caso considere abusivo ou impertinente o que proponho, saiba que entenderei perfeitamente suas razões. Sem mais, receba os cumprimentos do admirador potiguar. Franklin Jorge”.

A seguir gostaria de transcrever parte de um artigo que me mandou Franklin Jorge, da escritora e psicanalista Cristina Hahn, cujo pensamento reflete um pouco do que ele sente e gostaria que o mundo seguisse:  “Quero de volta a crença na filosofia da identidade, na filosofia das luzes, na filosofia da natureza, na filosofia da existência, pela verdadeira filosofia da vida… Odeio saber que o maior aprendizado, ainda que por osmose, tenha sido o da filosofia do cinismo, onde não importa o que se faça, é preciso seguir em frente, sem tato, sem sutileza, sem pena, sem dó. O degrau do sucesso pode ser o próximo quando o próximo passa a vencer”.

Seu João Claudino é um homem de sucesso, sem que haja saído da ética e normas morais que presidem a sociedade, diferente dos muitos que hoje aparecem como corruptos da operação “Lava-Jato”, da Polícia Federal. Foi por seu esforço e sabedoria sem aspas, no verdadeiro sentido da palavra, que seu João Claudino alcançou a vitória de ser, hoje, talvez, o maior império empresarial do Piauí e que se estende a outros estados  (Pará, Maranhão, Ceará, Goiás, Paraíba, Rio Grande de Norte, além de São Paulo). Ele tem capacidade de atender a uma boa parte das solicitações culturais do Piauí e pode muito bem receber, de bom grado, o pedido do conterrâneo Franklin Jorge, e atendê-lo. É também com este sentido que quebro a CONFIDENCIALIDADE que me fez como amigo de longa data. Porque reconheço no empresário João Claudino (Armazém Paraíba), as qualidades de cidadão consciente, lúcido e capaz de compreender a situação dos artistas, tanto que muito fez por esta terra, o Piauí.
O empresariado do Brasil um dia compreenderá que, sem educação e sem cultura, não há condição de fazer crescer o país, nosso Brasil querido. E entre a classe dos artistas, o escritor tem sido sempre o mais desprestigiado. Logo aquela parte que pensa, que fala através dos jornais, revistas e livros, que não se dobra ao domínio das religiões e dogmas alienígenas, que defende com unhas e dentes o direito de dizer a verdade. Aliás, defende todos os direitos humanos, numa relação de cabeça para cima, encabeçando a lista – o direito à vida, à palavra, à propriedade e ao ir e vir de cada cidadão. A verdadeira cultura que entendo é esta, não a que está aí em busca de populismos e pauperização através do estelionato, do assalto à mão armada e da corrupção: uma parte por conta própria (imoralmente) para o enriquecimento rápido, contando ainda com os altos barões do tráfico, ligando-os com políticos e partidos.  Contrafação total: a política – que devia ser uma bela arte de dar exemplo de moral e ética ao povo, concorre para a deseducação e o empobrecimento da nossa gente. Nosso povo ainda se veste, come e fala pelos modos de Macunaíma. Mário de Andrade estava inspiradíssimo quando concebeu o livro do povo brasileiro.  Não há outro igual.
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Publicado no jornal "O Dia,Teresina", 11 de fevereiro de 2017

domingo, 5 de fevereiro de 2017

PRISIONEIROS E PRESIDIÁRIOS, O QUE SÃO E O QUE SERIAM?

Francisco Miguel de Moura
              Autor

O que é um presidiário, um presídio, um prisioneiro? O que é uma pessoa livre? O que é uma família encurralada pelos malfeitores? Como transformar presídios em escolas, igrejas, oficinas de trabalho? Por que continuar deixando que sejam depósitos de todo tipo de armas, depósito de celulares?

Pensemos numa sociedade livre, de homens livres, porém moralmente aceitáveis, eticamente controlados por boas leis, educados e instruídos, pensemos nisto e como transformar a nossa num jardim de crianças, mulheres e homens para o gozo de todos os bens deste século, muitos proporcionados pela ciência. Não seria melhor?

O espírito deste século  XXI  está voltados para o bem-estar físico, em virtude da mídia e da indústria, a internacionalização do capital e das comunicações, mas impedidos de conseguir. Isto gera grande conflito entre aqueles poucos que têm capacidade de gozar os prazeres da sociedade hedonista atual e dos marginalizados por motivos diversos. Esses motivos é que são difíceis de distinguir-se e textualizá-los, principalmente no Brasil, embora nos demais países ditos civilizados ocorram os mesmos problemas em maior ou menor proporção. Isto não confere o direito de ninguém mais pensar em “castigar os maus costumes”, como disseram os romanos.

- “Não adianta, não há jeito” - assim pensam os espíritos derrotistas.

Pensar assim é ser menos livre. Alguém sempre tem poder de modificação do contexto: - os nossos comentários sobre as prisões, a justiça, os presídios e os presidiários, os cidadãos livres e os que, por questões culturais ou inculturais, são mais livres. Em suma, sobre a insegurança por causa da sociedade de violência, sem respeito à vida, à propriedade, ao ir e vir das pessoas.

Nos Estados Unidos, o país mais poderoso da terra, a Constituição  permite o uso livre de armas porque todo cidadão tem necessidade de defender-se.  No Brasil, ao contrário, é proibido o uso de armas de fogo, por lei definida depois de um plebiscito. Assim, sendo nosso cidadão é impedido de agir em legítima defesa, embora o Código Penal registre esse direito. Mas, no frigir dos ovos, ninguém sabe quem fica pior: quem tem  o direito de usar armas para defesa própria, ou aqueles que não têm esse direito. Nem polícia, justiça, governo decente que os amparem.
Vemos é que, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, as crianças (especialmente aquelas que fazem o tráfico de droga para os “barões”) são armadas contra as pessoas comuns, os cidadãos, cidadãs e outras crianças. Enfim, contra todo mundo. São agressões nas ruas, nas casas por aqueles que fogem das instituições responsáveis pela reeducação de menores, etc., pelos assassinos, latrocidas e outras com não sei quantas passagem pela polícia e pela prisão têm, de onde fogem, e quando não fogem ficam comandando de lá mil e um crimes cá fora. A justiça faz corpo mole diante dos advogados de porta de cadeia e dispensam de renovar a prisão, por motivos diversos, senão banais. Desculpa maior: não há mais lugar na prisão para esses desocupados e malfazejos. Resultado: criminosos soltos, matando, destruindo prédios públicos, incendiando ônibus e passageiros, e mais se passam por homens de bem. Se um dia caem presos novamente, chega a hora do balanço da gangorra que se repete.

Não vou convencer nenhum juiz para que seja mais rigoroso com este ou aquele crime. Mas cadeias são feitas para quem precisa delas. Se há falta, quem responde pela  segurança da sociedade deve mandar construir outras e mais seguras, enquanto não se convencer de que foi a omissão da criação de escolas, amparo e melhora da educação que nos conduziu a este caos. Nenhum cidadão de juízo concorda em ficar sem segurança e, o pior, sem armas; que os ladrões e assassinos possam usá-las e atacar especialmente a família, a mulher e crianças  (filhos e filhas), a todo momento e em qualquer lugar. Devemos, ao contrário, deplorar a crueldade. Daí as prisões, devendo oferecer condições humanos. Mas quando algum dos agentes penitenciários for atacado, o responsável deve ser rigorosamente punido. É assim que se sustentará a manutenção de um presídio. Mas nem sempre isto acontece.

Ou então para que leis, para que cadeias, para que armas, para que tanta propaganda nos jornais, na tevê, nos filmes e nas redes sociais, se somos vítimas da prisão por conta própria em sua casa, para salvar a pele? Para que cadeias se cada   sentenciado, quando lhe vem a morte, por qualquer motivo, recebe recompensa, pensão – naturalmente em favor a família, ou quem se apresentar como tal. Tudo isto para quem tomou a vida e a propriedade dos outros, além da liberdade de ir e vir. Por outro lado, se em luta para aplicar a lei a Polícia, o policial é atacado, é este quem vai  punido. E mais: as famílias dos cidadãos/cidadãs que os criminosos assassinaram nada recebem. Evidentemente que há uma completa inversão de valores, a sociedade está de cabeça para baixo. Essa é uma maneira resumida de mostrar. Há milhares de escritores, jornalistas e outros homens da segurança, da justiça e ministério público, do  magistério, e também pessoas comuns que, como eu, dão sua opinião.
A sociedade tomou o bonde errado: é prisioneira dos prisioneiros, em sua própria casa. Aonde vai dar isto? Em guerras civis como a da Síria. Nessas guerras já estão envolvidos quase todos os países daqui e dalém mar. E em hecatombes. E qual o remédio para o mundo sair desta? Criar religiões ortodoxas, dogmáticas, que rezem, orem, façam procissão, visitem alguns necessitados e doentes nas ruas, nos hospitais, etc. Ou governos que criem esmolas oficiais com qualquer nome? Bolsas! Arg!

Urgente é dar educação ao povo. Como? Com as famílias se esfacelando e caindo na vaidade da grande ciranda em que vivemos? Este é o melhor mundo que tivemos até então, o passado era uma coisa terrível! - dirão os acomodados. Sem eletricidade, sem trens, carros, aviões, estradas asfaltadas, etc.  Hoje temos tudo, ou quase. Mas nós devemos responder, em consciência, que quem fez tudo isto foi a educação. Precisamos de novas gerações de homens e governos decididos a virar a direção social para o verdadeiro progresso, sem tantos males  físicos, mentais e espirituais quanto os que sofremos. Ou os governos do mundo inteiro e as famílias  se inteiram dessa verdade ou chegaremos breve ao apocalipse. Seria um mutirão de várias gerações com direito efetivo a escolas, professores, casas de saúde mental e físicas, tudo num conjunto harmonioso para fazer tal virada de direção.

Quem se habilita, em primeiro lugar? Os Estados Unidos com Trump?

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FRANKLIN JORGE, O ESCRITOR ESCATOLÓGICO

Francisco Miguel de Moura 
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Quando digo escatológico é metaforicamente significando o que, realmente, na filosofia grega, tinha o sentido de buscar o fim das coisas, das almas, do mundo, do universo. Franklin Jorge é um desses escritores que não medem distâncias nem sacrifícios para alcançar o sumo, a súmula da nossa cultura e civilização.


Franklin Jorge é, indiscutivelmente, um dos escritores brasileiros ainda em boa idade de produção, Portanto, não é nenhuma promessa. É, de fato, um mágico da palavra. Embora tenha nascido no Brasil e aqui permaneça, pelo seu estilo e modo de ver e sentir o homem e sua real situação como o enigma do Universo, é internacional, bem poderia ser francês ou inglês como Edgar Alan Poe, Balzac ou mesmo Shakespeare. E não brasileiro, escrevendo nessa língua tão doce e gostosa que é o português e por isto digamos que fora da imprensa internacional, como costuma fazer a mídia.

Meu espaço diga-se que é mais fechado ainda. Ele é jornalista da maior envergadura e eu vivo muito fechado, em virtude dos anos, dos males que me fustigam, das obras que também quero terminar, morando neste cubículo de mundo que é o Piauí. Não sei se vale a pena escrever alguma coisa. Espero que sim, pois está reunindo as matérias que falam sobre ele, numa espécie de fortuna crítica e, quem sabe, eu pudesse ter um cantinho lá no seu tesouro, nem que fosse pela amizade que nos une desde já um bom tempo.
É isto, afinal, que me move dar um depoimento crítico, uma opinião sobre o poeta, o romancista, o cronista, o crítico literário e o crítico de jornal, como um batalhador incansável na escavação da verdade que nos atormenta e terminamos por enganá-la pela força dos discursos intercalados da sociedade e a confusão que eles nos fazem.

Somos amigos, da forma como foi dita, ou seja, por escrito, visto que pessoalmente não nos encontramos. Talvez por isto me considero insuspeito. Ele é um poeta tão original que desiguala a poesia e os poetas contemporâneos. Como um Fernando Pessoa ou um Nietsche, pela força como abriram as portas do verbo, embora depois de passagem elas sejam novamente travadas, eis os dois escritores que me vêm à lembrança quando me deito a ler os livros de Franklin Jorge. São tantas as suas obras que nem seria possível enumerá-las aqui. Mas “O livro dos Afiguraves” e “Spleen de Natal”, são os dois que me vêm à memória. Tem também “Gente de Ouro” e os tantos livros de poesia, uns poucos editados e outros ainda inéditos (pelo que tenho notícia, são dez). Editor de tantos jornais, sejam os normais ou os denominados “on line”, sua escrita é profunda e variada, sinal de que tenta abarcar o mundo pela arte, o que não é uma má ideia, desde que os potentados comecem a sentir o fenômeno.

Sabemos ainda muito pouco de nós e muito menos das artes, das letras, da literatura, pois são tantos e ínvios os seus caminhos. Se pelo que sabemos for suficiente para que a nossa obra fique, a de Franklin Jorge ficará, com certeza. Eu disse, num poema, certa vez, que "tudo quanto existiu há sempre de existir" . E é nesta crença que nos baseamos, escritores e artistas.

Gostei muito de uma frase que Franklin Jorge escreveu, falando sobre Faulkner, aliás, outro autor que lhe é, em tamanho, semelhante; em estilo, seguro; em imaginação, fabuloso: “Um escritor, se for um bom escritor, será arrastado por demônios, perderá a paz, a decência, o orgulho, a honra, a felicidade e a segurança, desde que possa escrever, pois a arte não tem nada a ver com paz e alegria”. E acrescenta: “A impiedade seria um dos atributos mais notáveis do escritor que se compraz em sua arte e se mantém, permanentemente, ocupado” (Chatham, pg. 11/12).

Sua prosa, conforme referi num artigo de antes, sobre “O livro dos afiguráves”, sobre a cidade que estuda e sente suas pessoas (almas) mais significativas em popularidade e singularidade, é uma prosa vigorosa, de quem sabe o que faz, de quem se finca no que faz.

Finalmente, para saber quem é Franklin Jorge havemos que ler, reler e treler suas obras nem que seja porque duvide de Deus ou do Diabo, nem que seja porque duvide que a leitura vale a pena. Vale ser vivida em letra e espírito, mais do que a imagem de cores que desbotam. Ao contrário, a cada vez que abrimos uma página de Franklin Jorge, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, lá o encontra, lá duvida, lá espera, lá desespera, lá se vê também como um ser inacabado, embora vivo. Vivo por que? Vivo porque escreve, vivo porque lê, vivo por que ama desse amor esquisito que não precisa de nada - a não ser do som, da letra, da luz, do sentir em todos os sentidos.

Desculpem-me, os leitores meus e de Franklin Jorge, pela pressa, se a conversa está comprida, corte-a, se o sono e o cansaço já chegaram sente-se, deite-se, pois sua obra é incomparável. Por isto mesmo, de propósito não falei em nenhum contemporâneo. Poderia ter lembrado O. G. Rego de Carvalho, mas como ele já se foi, respeitemos o seu silêncio, pois o que não é silencioso, o que é medo e o que não é mentira, tudo isto foi escrito e não passa. Embora diga a Bíblia que tudo passa. Mas a palavra não passará, justo por ser o que somos. E se fomos e se somos, não sumiremos. Assumiremos, nas nuvens, no céu ou na terra, na lua, no sol ou em qualquer estrela onde entraremos sem pedir licença, com a nossa luz, a “Irene”, do poema de Manuel Bandeira.
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         (Artigo publicado no Jornal "O Dia",Teresina, Piauí, em 21-01-2017, pg.6)

domingo, 15 de janeiro de 2017

MALALA – PRÊMIO NOBEL DA PAZ – 2014

Francisco Miguel de Moura*
(Autor)

A pessoa que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 2014, da Organização das Nações Unidas (ONU), com sede em Nova York, Estados Unidos, tinha apenas 16 anos. Tinha o nome de Malala, nascera em 12/7/1997, no Paquistão, precisamente no Vale do Swat, era filha de pais pobres. Como vemos, ainda quase uma menina. Hoje, já quase moça. Depois de recuperada dos danos que um tiro lhe causara na cabeça continua uma estudante extraordinária, uma personalidade tão forte e de caráter tão marcante aplicado à luta pela independência das mulheres, dando-lhes as mesmas condições que aos homens, especialmente no que tange à educação.

Malala Yousafzai, seu nome, é filha de um professor e fundador de escolas, onde teimava – contra o regime do país e da região, na época – a lutar para que as meninas tivessem o mesmo tratamento que aos meninos, e por isto pai e filha eram perseguidos. Ele amava e admirava a filha Malala, dando-lhe incentivo e apoio irrestrito. E os dois conseguiram milagres. Mas, contra a estupidez dos Talibãs, que tinham tomado conta do país, era preciso ser forte e não ter medo nem de morrer pela justa causa.

A história dessa menina está toda no livro “Eu Sou Malala”, famoso já em todo o mundo. Feito a quatro mãos: as da autora e personagem com sua história e as da jornalista Christina Lamb, com a sua pena, já então famosa, formada em Oxford e Harvard correspondente para o Paquistão e Afeganistão desde 1987. Com grande empenho e sabedoria construíram a obra. É uma reportagem jornalística que se lê com gosto de romance. E olhe que gosto! Sugiro a quem ainda não o leu que vá correndo a uma livraria, compre-o e o leia imediatamente. Quem não o fizer não sabe o que está perdendo. Leia antes de morrer, e não se arrependerá. O estilo corre como água clara dos riachos cristalinos no despenhadeiro. Além das autoras, consumiu o trabalho de quatro tradutoras.

Malala não queria tornar-se famosa, ela gostava de estudar, estudava muito. E quando qualquer empecilho se punha a sua frente, lutava para vencê-lo. Sabia que sozinha não teria forças para vencer os Talibãs. Assim é contada a história: Naquela ocasião, o país, com governos fracos e até aliados à raça de Talibãs, inimigos crueis da humanidade, da vida e da civilização, escondidos atrás do Islã, para fazer o mal. O Islamismo, em virtude de sua amplitude territorial, divide-se em várias seitas, conforme a interpretação de cabeças nem sempre progressistas e que cada vez mais se afastam de Deus.

Não pude interromper a leitura de “Eu sou Malala”. É um livro de sabedoria, um livro de formação. Conhecemos uma civilização do Oriente tão diferente de nós pelos costumes, línguas e história política, onde se fundem tantas culturas, formando um povo de bom coração, cheio de humanismo, superando a violência sofrida, primeiro da Índia, depois dos Talibãs descidos do Afeganistão. A hospitalidade, a generosidade para com os vizinhos e parentes são qualidades tão arraigadas na alma dos paquistaneses que faz a admiração até de outros países vizinhos. Somando-se a isto a beleza da paisagem, dos vales, das serras, dos rios e águas, qual um paraíso dos deuses para os turistas. São favores que compensam a violência, principalmente originada em grupos que mal interpretam as leis do Alcorão e os ensinamentos do profeta Maomé.

Mas isto a gente vê de relance. A história do romance “Eu sou Malala” é realmente comovente. O ensino de seu pai, sábio professor, fizeram dela a criatura privilegiada por Deus para um destino semelhante ao de uma santa. Mas não era isto que ela queria, nunca quis ser mártir, quis batalhar por seu povo cheio de bons costumes, mas ainda tão atrasado quanto a desvalorização da mulher, e dentro desse preconceito, a desvalorização da escola, do livro, do estudo, enfim do progresso.

Malala falando, podemos avaliar melhor: “No dia em que nasci (12-7-1997), as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu os parabéns a meu pai. Vim ao mundo durante a madrugada, quando a última estrela se apaga. Nós, ‘pachtuns’, consideramos este um sinal auspicioso. Meu pai não tinha dinheiro para o hospital ou para uma parteira; então uma vizinha ajudou minha mãe. O primeiro bebê de meus pais foi natimorto, mas eu vim ao mundo chorando e dando pontapés. Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo o seu papel na vida apenas fazer comida e procriar”.

Acima está a transcrição do primeiro parágrafo, do primeiro capítulo do livro, basta abrir a pág. 21.

O pai de Malala lhe dedicava um amor extremado, não obstante depois dela ter nascido um menino na família, seu irmãozinho. Incentivava e ajudava-a. Jamais Malala pensou vir a ser uma personalidade importante no mundo. A parte do romance que se ocupa com Malala desde o dia que foi baleada gravemente por um Talibã, no ônibus em que ia para a escola, até a cura total dos danos causados pela bala – tratamento em parte feito no Paquistão e parte (maior e mais delicada) num hospital da Inglaterra é a parte central. E é o que há de mais comovente e convincente na obra. Depois de tudo, vai à ONU, onde discursou sem papel, fato que já acontecia na escola de seu pai, onde estudou, sendo a primeira aluna em notas, sempre, acompanhada de boas amigas, que iam no ônibus, no mesmo dia, havendo as demais escapado ilesas. Ela, àquela altura, já era uma líder. É sempre os líderes que os Talibãs atacavam, em primeiro lugar. Ela estava marcada para morrer. E se não morreu foi porque Deusa sabia que o mundo precisava dela.


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*Francisco Miguel de Moura -Membro da Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina - Piauí - Brasil


domingo, 8 de janeiro de 2017

ESTAMOS FICANDO CADA VEZ MAIS DESUMANOS

Francisco Miguel de Moura
Academia Piauiense de Letras

Dia 3 do corrente mês e ano, tremi e não por causa do tremor de terra que sacudiu Teresina, vindo do Maranhão. Foi por causa de uma notícia do Jornal Nacional: – “Em 2017 vamos ter, no Brasil, mais fins de semana prolongados do que em 2016, pois quase todos os feriados vão cair em dias de terças e quintas feiras”. Portanto, um chama para os ditos “feriados prolongados”. Não ficam na Capital nem os médicos, restaurantes se fecham, supermercados, tudo. Todo mundo nas praias.

Meu Deus! Tanto que eu pedi um 2017 melhor que o 2016, e vem isto aí! Qual é o aposentado, idoso, que pode sair? Ficam todos em suas casas. No dia primeiro do ano de 2017, mesmo sendo um domingo e também o feriado da Fraternidade Universal, fiz minha caminhada. Escolhi uma rua diferente. Há muito tempo não passava ali de pé. Vi coisas impressionantes, não as mudanças no comércio, não os pontos fechados por causa da crise. Vi piores. Ninguém dá bom dia a ninguém, imagine-se um sonoro “Feliz Ano Novo!” Só se via caras amarradas, ainda bem que poucas. Pelo menos para mim e minha mulher (nós sempre caminhamos juntos), ninguém abriu os lábios, salvo quando chegamos a uma banca de revista, na ponta linha, para pegar o jornal. O dono da banca quase não levanta a cabeça para atender. Por sorte, encontramos o Dr. Itamar Costa, médico e cronista que mora ali por perto, e tivemos sorrisos largos e abraços calorosos. Que homem educado, hem?

- Ele devia estar na Academia Piauiense de Letras. Por que não vai? - Mécia pergunta.
- Ele vai entrar, é que ainda não chegou a hora, eu disse. Talvez seja o próximo. Só não desejo que seja na minha vaga, pois quero votar nele, lembrando da mesma frase que me dissera o poeta Vidal de Freitas, grande benemérito de Picos, onde foi Juiz de Direito, por muito tempo, ali criando o curso ginasial, que Picos ainda não tinha. Ele foi o mentor do Colégio que depois foi denominado “Marcos Parente”.

E seguimos os nossos passos de volta pra casa, ou melhor, nosso apartamento: - Ela rezando suas rezas e eu imaginando como escrever esta crônica. Será medo que essa gente tem da gente? Será pensando que todos são ladrões, malfazejos? Era esta a primeira pergunta que vinha à minha cabeça. Ou então é indiferença pela vida, pelo tempo. Se não tiver cuidado, eles tropeçam em você. Não tire os olhos dos poucos que vão e vêm. Tudo tão diferente de uns quinze anos atrás! Hoje, os governos são desumanos, fazem leis que dizem proteger uns, mas desprotegem outros, em maior número de pessoas. Leis desumanas. Os homens das leis, fazem-nas para si, em causa próprio, leis casuísticas. Quem sobrar que se dane. Quem andar pelas ruas de Teresina vai vendo como rola a desumanidade nas pessoas. Mesmo pela manhã, quando o tráfego está manso, ralo, quase nenhum carro nas ruas e avenidas, e se é domingo ou feriado prolongado, menos ainda. Os dirigentes de tais veículos não têm a menor atenção aos pobres idosos que estão fazendo suas caminhadas nesse horário: das 7 às 9 h da manhã. Com relação a eles mesmos, os que dirigem veículos, há uma espécie de competição para ver quem chega primeiro. Pois os pedestres, já sabemos, nada merecem a não ser atropelamentos ou carreiras, com a grande probabilidade de queda, muitas vezes irrecuperáveis. Os pobres ciclistas sofrem quando vem um carro, e neste seu desespero de chegar à obra se é dia de trabalho, ou em casa, se trabalha na noite, vigias, garçons, etc., vão na mesma pisada, correndo sem parar. Só observam os carros para não serem pisados. Em resumo, o desrespeito é assim: carro grande é grande, tem todos os direitos; carro menor vem depois, mesmo que sejam camionetas. E os carrinhos, novos ou velhos, que se cuidem, pois há uma chusma atrás deles. Não falemos nos motoqueiros. Estes andam numa disparada, parece que o mundo vai acabar-se. Ou são eles que vão morrer?

Pedestres? Entre eles pode haver ladrões, assaltantes disfarçados de pedintes, esmoleres, pessoas que pedem informação de ruas, hospitais etc., mas o que querem mesmo é nossa bolsa, nossos documentos, nosso celular, hem? Ninguém, em Teresina, respeita as leis do trânsito. De mil tem um que anda com luz acesa, que faz o sinal na lanterninha mostrando para onde vai, que pára dando lugar a outro passar, mesmo que seja sua vez, por gentileza. Não falei nem vou falar nos terríveis carros de som que infernizam os nossos ouvidos durante a noite e vão até de manhã. Há mais rapazes (e até moças) da alta burguesia que dormem o dia todo, de noite vão pra festa e se embriagam e saem por aí fazendo “cavalos de pau”, para morrer ou matar, morrer e matar. Os jovens de hoje não têm sonho. Morrem logo. De desastre de carro, de bebida e outras drogas, de nada – simplesmente se suicidam. A desumanidade ocorre não apenas no trânsito: jogam lixo, pedras, paus, galhos de árvores, tudo no passeio e no leito das ruas. Eles não sabem que o passeio (calçada), é do pedestre. Como é que pode? Plantam plantas onde não devem e deixam morrer de sede as que dão sombra.

Na volta, quando chegamos à pracinha que há no cruzamento das Avenidas Homero Castelo Branco e Dom Severino, vimos uma mulherzinha bem magra, distante, do outro lado da praça. Pareceu-me que estava doente ou com forme. E um homem, parado do lado de cá, brigava com ela, querendo que fosse, rapidamente, sentar-se num banco perto dele. Ela foi apressando… Não digo chorando porque não lhe vi as lágrimas, era distante. Fiquei parado, observando.

Afinal de contas, quem são? O que ele quer dela? O homem a maltrata. A moça, de tão magra, caminha devagarinho.
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Francisco Miguel de Moura, escritor piauiense, da APL e de outras instituições culturais, e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

domingo, 1 de janeiro de 2017

ANO NOVO? TEMPO E ETERNIDADE

Francisco Miguel de Moura* 


Entramos no ano 2017, da era Cristã. Ano Novo? Ou ilusão?

Do tempo julgamos saber muito, pelo menos do tempo em que vivemos entre o nascimento e a morte. E o antes? E o depois? Do passado, somente através da história. E do futuro pelas premonições, profecias, etc. Aliás tem um ditado que proclama que “o futuro a Deus pertence”. Eu digo, sem nenhuma intenção de fazer trocadilho: “Se soubéssemos do nosso futuro, então o futuro não teria futuro nenhum”.

Do tempo em que vivemos é que deveríamos saber mais. Mas como, se a maioria da população, do mundo não sabe nada, ou quase nada? Quando você nasceu? Meus pais me disseram e me registraram como sendo em tal data, mês e ano. E eis que chega alguém e pergunta, de chofre, a você: quantos são hoje, qual o mês, qual o ano? Normalmente olha-se no calendário, para ter certeza. E quem fez o relógio? E o calendário? Por que foi feito? Para que o homem não se perdesse no tempo, que para a vida de cada um é limitado, e assim pudesse realizar alguma coisa. Observando o sol, a lua, as estrelas, daí nasceram todas as marcações do tempo que julgamos conhecer, pois há o tempo psicológico, o tempo interno da alma humano, do ego – este muito mais difícil de medir (impossível até), de perceber, de dominar.

Na minha filosofia de poeta, o homem (e a mulher também, é claro) é aquilo que faz. Se nada faz não é nada, se não faz nada não tem nada, não tem história pra contar, perde-se no tempo. É isto ou estou falando besteira?

Neste caso, os maiores homens seriam os poetas porque “poesia”, na sua origem grega, significa fazimento, ação criação. Ou seja, o homem primeiro fez sua casa, sua poesia, seja a caverna de ontem, seja o palácio de hoje. Nós humanos fizemos, no tempo, a língua, as línguas. O poeta usa a língua para fazer poesia. Os homens, em geral, usam a língua para se comunicarem e, assim, vencer a solidão e agarrar o seu tempo, entretendo-se, trabalhando ou pensando. O pensamento sem a palavra física (ouvida, falada, escrita) certamente fica limitado, por mais que os outros órgãos do sentido ajudem.

Entretanto, o homem ganhou consciência do tempo, após o fim do crescimento do cérebro e, através da linguagem e vivência, aprendeu que seu tempo é limitado. Vem a morte, é preciso fazer alguma coisa e deixar aos outros sua memória. Toda a civilização cresceu assim, fez-se dessa forma, em atos comezinhos para nós, hoje.

A marcação do que foi feito sobre o movimento dos astros é prática necessária. Resta saber do tempo da terra, dos planetas, do universo. Lá pelos confins o tempo se acaba, os planetas morrem e começa a eternidade. Como, sem o tempo?

A eternidade é o tempo sem fim. Será mais do que isto?

Aí vem as religiões. E proclamam que há eternidade, quando o homem falece. Mas, se os planetas, as estrelas, o universo se consomem e quando se consomem, para onde vamos nós? Ou a lei de Lavoisier está correta: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. O universo é só natureza ou é mais do que isto?
Se tudo se transforma, então o tempo se transforma, porque ele nada mais é do que a relação entre a matéria e o movimento. Então, a realidade existente se encerra em duas coisas: matéria e movimento. O tempo comum é ficção do cérebro humano, os cientistas sabem disto. Aliás, numa frase irônica, o sábio Albert Einstein, cientista que descobriu a lei da relatividade, encarregou-se de matar a eternidade. A frase é a seguinte:

“Somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto à primeira”.

Bem, creio nem devíamos mais seguir buscando o que é a eternidade, de Einstein. Mas, como sou estúpido, penso que a eternidade se resumo no tempo que gastamos, que também é velocidade, também é nossa relação com nosso corpo e todo o universo, que por sua vez não é eterno. Socialmente, o tempo são as nossas relações com os outros, todos diferentes de nós. Fazemos rotação em torno deles, mas não os invadimos – e quando invadimos é pecado, é crime.

Agora, meu leitor me acorda e cita Dostoiévski: “Deus existe, porque, se ele não existisse tudo seria permitido”.

A eternidade está em Deus, aquele Deus que não conhecemos porque “somos uma parte infinitamente pequena dele, e a parte jamais conhecerá o todo”. Aqui tento concordar com outro filósofo: Spinoza, - se não me engano, pelo pensamento central de sua obra filosófica.

De forma que o saber vem a ser a acumulação dos conhecimentos da história, do passado no presente, e a eternidade – se é que ela existe mesmo – está onde não estamos e nem sabemos onde ela fica. Se é noutro universo, precisamos descobrir. A ciência não cessa de procurar, mas essa descoberta não vai ser para a gente saber tão cedo, nesta vida.

E há outras vidas? Ou apenas esta? Se somos carne (matéria) e (espírito), para onde vai este último, depois da morte que, como acreditamos, é a separação dos dois?

Não acredito que meus leitores tenham ficado satisfeitos com minha peroração filosófica. Mas, afinal, foi o que pude trazer. Espero continuar estudando o assunto, conhecendo mais, acreditando um pouco e duvidando outro tanto. Também receber as sugestões.

Será que os termos de que tratamos aqui são todos ficção e somente a vida é o que existe? A vida animal? A vida vegetal? E a vida mineral?


E a vida espiritual?   

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* Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

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