sexta-feira, 8 de setembro de 2017

PREFÁCIO AO NOVO LIVRO DE JOSÉ SOLON DE SOUSA

Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, membro da ALERP e da APL

     O novo livro do poeta Solon de Sousa tem nome esquisito: “Carissimidades/ Poesia Cem”. Somente os poetas entendem os poetas e, como prefaciador, não devo explicar nada à maioria dos leitores. Prefaciador não devo explicar nada a ninguém, nem mesmo ao autor. O que o poeta diz ou escreve tem sua linguagem cifrada em poesia e poesia não se explica. Lemos, interpretamos como queremos ou podemos. Assim, ninguém perguntaria ao poeta: - O que é que você quer com isto? Essa pergunta seria uma ofensa a qualquer autor. E o prefácio significa uma apresentação do livro, do seu autor, e tal como o prefaciador entendeu ser necessário e bom para os leitores. Numa apresentação não se faz críticas. Tece-se elogio ou não se faz. Como poderia recursar uma apreciação à poesia de Solon, se já fiz o mesmo no primeiro livro, que achei muito bom como estreia?
Feito este exórdio, passemos ao que interessa. Já li o amigo José Solon de Sousa em seu primeiro livro como disse. Depois li outro livro de sua autoria, em prosa, denominado “Você é meu orgulho”. É um cidadão de caráter, probo e competente médico, natural de Jaicós-PI. Mas hoje tem também endereço em Picos. Excelente amigo, não tem apego a dinheiro, gosta muito de música e compõe composições populares, estilo atualmente em vigor na mídia brasileira. Como médico, conhece profundamente sua profissão. Na literatura, o que ele deseja expressar é sua alma, por dispor de tempo e por motivos vários de sua vida, o que não fez antes por falta de espaço e tempo somente ocupados nos estudos e no trabalho. Literatura serve também para isto. E isto ele o faz muito bem. Seus ritmos são singulares, letras com rimas comuns, mas algumas vezes aparecem metáforas não usuais. Assim, não somente o nome do livro é esquisito: assim parece o autor e sua poesia. E qual o poeta que não é esquisito?

        É necessário que o leiamos com cuidado, carinho e amor. O poeta merece.

       Entretanto, eu recomendaria aos leitores sobretudo os poemas curtos sobre problemas humanos e científicas que, muitas vezes parecem descritivos, mas se assim o são é por necessidade de um vocabulário que nem todo leitor comum tem. Nem mesmo os poetas como este prefaciador, que nada sabe de ciências. Outro tipo de poemas que vejo com muito bons olhos são aqueles que tratam do campo, da roça, das árvores, das lagoas e riachos e dos passarinhos, quando, com alegria, o rancho de sua propriedade animam. Citarei o título de alguns: “Histórias Viva”, “Andropausa”, “Amor amor”, “Ainda bem”, “Voltarás” e “Viveiro,” entre outros. Uns biográficos, outros científicos (misturados com poesia em contradições e metáforas) e os políticos. Não gosto de política em poesia, porque a política da poesia é a forma, o ritmo, linguagem figurada (que fica bem distante da linguagem comum). Mas daí vem a contradição ao poeta: Como ser popular, sem o vocabulário do povo?

           Por que falar tanto no livro e no poeta e não mostrá-lo?
Eis aqui um dos seus poemas que apresenta a maior originalidade, um modo comum de os poetas começarem suas obras, dizendo a que vêm e como são:
“Quem vai querer? / Uma casa onde tem poesia /tem luxo. / Não que seja uma casa cara / É uma casa caríssima. //Caríssimos poetas / Caríssima é a poesia! / Carríssimas virtudes / Caríssimos colegas.// Uma casa onde impera outras casas caras /Não tem luxo / Tem ostentação. / É uma casa cara. //Sem carissimidades…/ / Poesia Cem É a minha cara! / Quem vai querer? // Sem forma / Sem estrutura / Sem endereço // Sem id /Ou revide.// Sem pé/ Nem cabeça. /Sem Nada. // Contudo // Isso // Ilhéu imaginário. //Em número // Ilhéu imaginário // Em número de cem // Original / Estilo: // Solon Reis Jacob”.

É seu estilo no livro todo, o qual explica sua poética, seu modo de fazer. Observemos que já o grande poeta Fernando Pessoa inventou vários poetas (heterônimos famosos) em si mesmo para poder expressar bem o que era e o que podia não ser. O grande dramaturgo inglês Shakespeare escreveu: “Eu não sou quem eu pareço ser”. Por essas palavras, sabe-se que a vida só não basta, precisa-se da literatura, do teatro ou de outra arte que nos expresse. Quem seriamos nós sem a palavra? Nos dias de hoje, nós, poetas, nos sentimos frustrados porque não somos considerados gente, porém animais estranhos do tempo dos dinossauros, que foram resistindo, com resiliência, alguns escapando pelo fio da música ou do teatro. Mas nos conformamos em saber que a poesia vem primeiro, vem sempre e chega sempre.

        Voltando um pouco à poética de Solon de Sousa, ninguém se espante porque ele repete as palavras, brinca com elas. A repetição é um bom recurso da poesia. Veja a música, repete-se e desrepete-se. O mesmo truque da rima vem junto, completa. Não importa o descritivo para a música ou para a poesia: o importante é que contenha mistério (ou mistérios), pois somente nas almas eles são captáveis. Poesia é alma, é espírito feito carne em palavras. Digo sem querer repetir algo da Bíblia, todos somos a semelhança do espírito de Deus. Solon, poeta, Deus o abençoe. Os poetas são deuses.
Parabéns, Solon! Parabéns, Jaicós! Parabéns, Picos!
                                                                                 ______
                                                                                           Teresina, Piauí, 8 set. 2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

“TUDO ESTÁ DOMINADO”, ENFIM ELES ESTÃO CERTOS

Francisco Miguel de Moura* 

Tem horas em que a gente sente um desânimo, sentimento provindo da consciência de que nada que se faça terá valor. Nós, escritores, jornalistas, pensadores, poetas e críticos de arte e da sociedade, ficamos como animal no campo para não se esconder no mato: peados. Nada, enfim, que se faça poderá nos libertar do padrão de conhecimento de tudo que se passa às nossas ventas. A falta de disposição em aproximar-se da situação é tanta! Ficamos só a imaginar o que é, o que foi e como será o nosso futuro Brasil, especialmente se relacionarmos com os grandes e mais civilizados países do mundo.
O grande modelo dos políticos que aí estão - e eles impõem pelos meios que têm, e são muitos, especialmente pela educação cheia de teorias estranhas a tudo que temos, que fomos, que somos e ao que poderíamos chegar. Os alunos são desinteressados, os professores incompetentes, uns por sua condição de subdesenvolvidos a partir da família e outros, pelo mincho salário, pouca preparação que tiveram e, finalmente, pela falta de estrutura das escolas – física e intelectual – que entregam para guiar os que a procuram, escondendo dos pais a filosofia do ensino a que se apegam. E muitos desses alunos, muitas vezes entram apenas para comer a merenda escolar e outros até e apenas para passar o tempo.
Nessas condições, que povo nós esperaríamos ter para construir e reconstruir esta nação? Que homens, que cidadãos, mal alimentados, mal instruídos, mas acomodados, muitas vezes morando em choças que mais parecem casas de bichos, casas de ratos, quando não debaixo das pontes! E são eles que vão fazer e estão fazendo (ou desfazendo) o país dos Andradas, o país de Tiradentes, o país… (Hoje ninguém mais quer saber da história da pátria, hoje ninguém tem pátria, poucos têm caráter, e o resto, nenhum.
E se pensarmos na frase “Grande povo, grande povo!”, da avaliação de D. Pedro II, ao lado de “O melhor que o Brasil possui é o seu povo”, de um escritor contemporâneo, cujo nome não me vem à lembrança – cujo esquecimento me faz muito bem, para evitar o nojo que tenho dele e de sua frase. Ou num povo que se vende por um pequeno favor ou mesmo pela esmola de um benefício chamado “bolsa-família”? Ou por dinheiro vivo (muitas vezes tirado dos cofres nação, por meio da corrupção, maior durante as campanhas eleitorais até o dia da eleição? Sinto que não tenho verbo suficiente para convencer ninguém, a respeito disto, falando ou escrevendo, como disse no início. Mas convido meus quatro ou cinco leitores a lermos algumas frases que encontrei no livro do filósofo brasileiro, contemporâneo, Olavo de Carvalho, conforme está na obra muito bem denominada de “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”:
“Se me perguntarem quais são os problemas essenciais do Brasil, responderei sem a menor dificuldade:
1) A matança de brasileiros, entre 40 a 50 mil por ano (estimativa por baixo,se pensamos nos 100 policiais mortos, somente este ano, no desmantelamento das favelas e ninhos das drogas, e essa matança está disseminada em todo o Brasil).
2) O consumo de drogas, que aumenta mais do que em qualquer país vizinho, e que alguns celerados pretendem aumentar ainda mais mediante a liberação do narcotráfico .
3) A absoluta ausência de educação num país cujos estudantes tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais, concorrendo com crianças de nações bem mais pobres, num país, mais ainda, onde se aceita como Ministro da Educação um sujeito que não aprendeu a soletrar a palavra ‘CABEÇALHO’ porque jamais teve cabeça, e onde se entende que a maior urgência do sistema é ensinar ás crianças as delícias da ‘SODOMIA’ - sem dúvida uma solução prática para estudantes e professores, já que o exercício dessa atividade não requer conhecimentos de português, de matemática, ou de coisa nenhuma exceto a localização aproximada das partes anatômicas envolvidas”. São oito pontos que Olavo de Carvalho alinha nesse capítulo denominado UMA GERAÇÃO DE PREDADORES, extraído de seu artigo publicado em 3-6-2011, no Diário do Comércio. Não sei se teria condições nem tempo de copiá-los todos.

           Então, daqui para frente, vou apenas tentar fazer o resumo dos restantes, em poucas linhas: a) A falta cada vez maior de mão de obra qualificada,nível superior, cuja mão de obra tem vindo de outras país para suprir a nossa falta. b) A dívida monstruosa acumulada por um governo criminoso que, assim, estrangula de vez as gerações vindouras e o futuro do seu país. c) A completa impossibilidade da existir a concorrência democrática, com eleições limpas e dentro dos princípios constitucionais, pois que com a cumplicidade dos ricos, cuja fortuna não se sabe onde começa nem onde acaba. Certamente na corrupção do poder público, em todos os níveis: federal, estadual, municipal, abraçando o executivo, o legislativo e o judiciário. d) A debilitação alarmante da soberania nacional, por um bom tempo condenada a morte pela burocracia internacional e pelo cerco continental do Foro de São Paulo, até algum tempo desconhecido da maioria dos brasileiros – este uma força dos partidos populistas chamados de sociais como o PT, o PC cubano e o do ditador e tirano da Venezuela. e) A destruição completa da alta cultura, num estado debilitado, quase catastrófico, de favelização intelectual, parte saindo da universidade, onde qualquer pessoa, a qualquer título, faz sua tese sem nenhum valor em essência, simplesmente porque os seus mestres também receberam esta herança de cerca de anos e foram rolando, rolando, até qualquer “tesesinha” parecer alta sabedoria quando não passa de enrolação para obter um título. Parte dessa destruição cabe aos donos e diretores de emissoras de tevê e cadeias de jornais, onde seus donos se vendem para dizer o que aqueles políticos populistas, petistas ou não, mundos e fundos do que pensam da “burguesia”, quando não sabem o que é burguesia e muito menos idiotas - estes da classificação do nosso sábio Olavo de Carvalho. Parece-me que é o único, o qual não suportando o vácuo de cultura deste nosso país mudou-se para os Estados Unidos. A frase inicial “Tá tudo dominado”, cunhada pelos barões da droga nacional e internacional parece já seja uma verdade.


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*Escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras, mora no PI-BR

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

LYGIA FAGUNDES TELLES – CONTISTA E ROMANCISTA NOTÁVEL

*Francisco Miguel de Moura - Autor

Há muito tempo li o romance “Ciranda de Pedra”. Antes já havia lido, “Antes do Baile Verde”, 1970, uma coleção e também seleção de contos que muito me impressionou, pela simplicidade, ternura e exposição do momentos da vida atual, da humanidade e da profusão de sentidos e sensações. Acabei escrevendo uma análise e uma confirmação do que já vinha sendo a sua fama como contista, atestada pela crítica brasileira e, certamente também de alguns outros países. É possível que sim, visto que foi a nossa primeira escritora (mulher) indicada para o Prêmio Nobel, quando a escritora e maior contista brasileira completava 92 anos, isto é, em 2016.
“Ciranda de Pedra”, como livro, foi editado em 1938. Creio que, por causa do grande reconhecimento pelo público e divulgação da obra, tanto o nome de Lygia Fagundes Telles quanto o de “Ciranda de Pedra” levaram (ambos) à aceitação e divulgação pela mídia.
A principal personagem é Virgínia. Com ela começa o romance assim, num diálogo com a empregada:
-“Virgínia subiu precipitadamente a escada e trancou-se no quarto.
- Abre, menina, ordenou Luciana do lado de fora.
Virgínia encostou-se à parede e põe-se a roer as unhas, seguindo com o olhar uma formiguinha que subia pelo batente da porta. ‘Se entrar aí nessa fresta, você morre!’ Eu te salvo bobinha, não tenha medo’, disse em voz alta. E afastou-a com o indicador. Nesse instante, fixou o olhar na unha roída até a carne. Pensou nas unhas de Otávia. Esmagou a formiga.
- Virgínia, eu não estou brincando, menina. Abre logo, anda!
- Agora não posso.
- Não pode, por quê?
- Estou fazendo uma coisa… respondeu evasivamente. Pensava em Conrado a lhe explicar que os bichos são como gente, têm alma de gente e que matar um bichinho era o mesmo que matar uma pessoa. ‘Se você for má e começar a matar só por gosto, na outra vida você será também um bicho, mas um desses bichos horríveis, cobra, rato, aranha...’ Deitou-se no assoalho e começou a se espojar angustiosamente, avançando de rastros até o meio do quarto.
- Ou você abre, ou conto pra seu tio. É isto que você quer, é isto?”
Mas não é possível explicar um romance pela primeira página, embora seja importante (ou pela última), ambas significativas, no conjunto ou separadamente. É um pedaço da história de “Ciranda de Pedra”, cuja simbologia só saberá quem o ler todo. A história e os personagens são importantes. Entretanto é preciso que se veja e analise o estilo, a estrutura, o tempo, o espaço. Importantes são as relações entre os personagens fortes como Virgínia – Luciana e as irmãs de Virgínia (Otávia e Bruna). Elas influenciam a menina – criada sem mãe, não porque fosse órfã… Na verdade, o romance fala pouco na mãe das três irmãs. Sabe-se que Laura, a mãe, esteve no Sanatório e não reconheceu a menina Virgínia. O resto, que é a maior parte, ou seja tudo, quem quer saber tem que ler o romance, mesmo que tenha assistido à novela do mesmo nome, produzida pela Rede Globo e exibida no horário das 18 horas, de 18 de maio a 14 de novembro de 1981, cujo cenário é São Paulo, capital. Tempo: 1940.
Lygia Fagundes Telles nasceu em 1923, no dia 19 de abril. Filha de Durval de Azevedo Fagundes e Maria do Rosário Silva Jardim Moura, ele era advogado e sua mãe pianista. A família viveu anos pelo interior do Estado, mas Lygia já nasceu na capital, por isto é que seu estilo se caracteriza por representar o universo urbano e a forma intimista da mulher, ou seja, a psicologia feminina. Embora formada em Direito e Educação Física, seu interesse maior foi pela literatura. Já aos 15 anos publicava o seu primeiro livro, que quase não chegou a ser conhecido fora de São Paulo, denominado “Praia Viva”, sua estreia na arte de escrever.
Lygia Fagundes Telles, reconhecida como uma das mais belas mulheres da sua época, foi casada com o jurista Goffredo Teles Júnior, com quem teve um filho. Divorciada, casou-se com o ensaísta e crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes. Em 1982 foi eleita para a Academia Paulista de Letras e em 1985, tornou-se a terceira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras e, em 1987, para a Academia das Ciências de Lisboa. Entre muitos prêmios dos que recebeu, destaque-se o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, em 1949. Outros prêmios recebidos: do Instituto Nacional do Livro, em 1958; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, pela sua obra “Verão no Aquário” , em 1965. Outros que lhe mereceram prêmios: “A Meninas” e “Invenção e Memória”. Por fim, em 13 de outubro de 2005, o grande Prêmio Camões, em Portugal.
Seria tedioso citar todas as obras de Lygia Fagundes Telles? São muitas. Talvez sim, talvez não. De modo geral, quem lê,quer saber de tudo. De uma escritora, o que ela escreveu. Então, inclusive para satisfazer aos que fazem pesquisas biobibliográficas, eis a relação que encontrei na internet: “Porão e Sobrado”, contos, 1938; “Praia Viva”, contos, 1944; “O Cacto Vermelho”, contos, 1949; “Ciranda de Pedra”, romance, 1954; “Histórias do Desencontro”, contos, 1958; “Verão no Aquário”, romance, 1964; “O Jardim Selvagem”, contos, 1965; “Antes do Baile Verde”, contos, 1970; “”As Meninas”, romance,1973; “Seminário dos Ratos”, contos, 1977; “Filhos Prodígios”, contos, 1978; “A Disciplina do Amor”, contos, 1980; “Mistérios”, contos, 1981; “Venha Ver o Pôr do Sol”, contos, 1987; “As Horas Nuas”, romance, 1989: “A Noite Escura Mais Eu”, contos, 1995; “Biruta”, contos, 2004; “Histórias de Mistérios”, contos, 2004; “Conspiração de Nuvens”, contos, 2007; e “Passaporte para a China”, contos, 2011.


Contei acima um pedaço da história, mas não é a história que me fascina, na ficção de L.F. Telles. Como na maioria dos ficcionistas, que olhemos atentamente, o modo de dizer, o suporte psicológico dos personagens e outras tantas qualidades, as quais estão presentes nessa forte e finíssima escritora brasileira. Pareceu-me um romance sombrio, de solidão, de questionamentos familiares que só se alcançam na ficção. Leiam-na e certifiquem-se, meus leitores, por favor.

        (Publicado no jornal "O DIA", de Teresina, Pi, nº. de 26/27 de agosto de 2017)
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* Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras e de outras entidades literárias e artísticas, do Brasil e do Exterior.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

HOMERO: IMAGEM DO SOL POENTE

       Francisco Miguel de Moura*  

N                         Não vou escrever aqui uma crítica ao livro “Imagem do Sol Poente”, de Homero Castelo Branco, nem uma biografia do autor. Conheço Homero desde o tempo em que eu e o O. G. Rego de Carvalho morávamos na Rua 13 de Maio, no quarteirão correspondente ao Colégio Estadual do Piauí (mais conhecido por Liceu Piauiense), enquanto ele frequentava a casa de seu tio Geraldo Castelo Branco, conhecido por Geraldão, o dono da Loteria Estadual, cuja residência era vizinha à minha. Aliás, o próprio Homero escreveu que chegou em Teresina, em janeiro de 1968.
Depois no período de 1975 a 1979, elegeu-se Deputado Federal. Do fim do séc. XX ao começo do novo século – 1996 a 2007 novamente voltar a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa. Teve uma atuação política tranquila, de acordo com a sua personalidade de homem que sempre positivamente vê a vida, os parentes, amigos e conhecidos. De família tradicional, muitos já ocuparam uma cadeira na Academia de Letras, ele ia devagar e sempre escrevendo seus artigos e publicando livro sobre a história da vida e das pessoas de Amarante, PI, onde nasceu aos 3 de abril de 1944. Estudou e formou-se em Economia pela Universidade Federal do Ceará. Escreveu outros livros, entre os quais “O Escritor”, uma espécie de romance bem diferente, mas no mesmo estilo memorialístico
Mas Homero Castelo Branco nunca quis fazer praça de escritor, o que fez são memórias ou quase memórias, como este que estamos registrando, muito gostoso de ler. Dizer gostoso é pouco: muito bem escrito e apoiado na memória de sua vida – a maior parte nesta “Cidade Verde”, que acaba de completar 165 anos. Ele, o acadêmico e escritor, preparou o livro, entre outras coisas importantes como a festa para reunir a família, os parentes e os amigos, em chegando os 72 anos, uma idade ainda viva para escrever e oferecer tão bem. É preciso que se veja a forma e o conteúdo, donde se tira a sinceridade, de como ele oferece o livro, avaliando pelo exemplar que me enviou em nome dele e de sua mulher, Dona Hilma Castelo Branco: “Amigos Mécia e Chico Miguel, com carinho e admiração” - oferta escrita à mão, ao alto de uma declaração que é um exemplo de cortesia e bondade e finesse: Há pessoa que coleciona carro antigo, livro, caneta, relógio, vinho, obra de arte… Eu coleciono amigo e quero que você faça parte desta minha seleta coleção. Afetuoso abraço – Homero Castelo Branco. Out. 2016”.
Dá gosto ler “Imagem do sol poente”. Notei que a leitura desse livro é um exercício muito bom para o coração, para a saúde tanto de quem escreveu quanto dos seus leitores. Não serão muitos, por enquanto, pois como ele confessa não é escritor profissional e o fez foi para oferecer aos amigos, que por serem tantos, torna-se muito difícil distribuí-lo sem uma ajuda da mídia – coisa que ele não fez e tudo indica que não vai fazer.
No livro não há página melhor, todos os capítulos são ótimos, cheios de ensinamentos filosóficos sobre a vida humana especialmente da fase da madureza para a velhice. Ensinamentos sobre a vida de quem está vivendo, de quem viveu e de quem espera viver muito mais, pois é uma obra positiva, quer no conjunto, quer nas partes, quer no conteúdo quer no estilo. É realmente a maturidade do intelectual Homero Ferreira Castelo Branco Neto, que não é só autor de bons livros, mas também de dono de conversa agradável, cheia de casos e pessoas diferentes e por isto interessantes. Homero nunca está triste, pelo menos nunca o vi assim.
Aqui, de raspão, só para não ficar nas minhas palavras, depois de dizer que eu chamo de imagens, logo no plural, que é mais do está no título, porque eu senti uma cachoeira despencando-se aos meus olhos, enquanto lia, e meu pensamento de vez quando parava e imaginava como pôde em apenas 298 páginas colocar tanto, de forma tão clara e tão suave para ler-se, embora nem sempre trate de suavidades. Trata da vida, positivamente, como já disse. E assim cada dia é um novo dia a ser explorado e recriado pelas almas em conflito, mas confiantes no bem, no amor e no próximo.
Algumas frases dele que sublinhei e trago para meus leitores:
“Não quero mais convencer ninguém a nada. Quero aprender, cada vez mais, a escutar melhor as pessoas e ter tempo para cantar a família, os amigos, ficar em casa lendo e anotando. Está aí o prêmio que me dou por não jogar fora bem tão precioso: o tempo...
“Pelo amor viveremos, mesmo depois de morto... Cada texto literário é um pedido de hipoteca de um pedaço do tempo e do amor de seus possíveis leitores… Até parece que em minha juventude as árvores e as flores tinham mais perfume do que hoje… É incrível, precisa -se ficar idoso e cansado para obter esse privilégio… A idade traz benefício e liberdade. Às vezes tocamos o contrário. Descobrimos que absolutamente nada é definitivo, inclusive a vida. Compreendemos a inutilidade do orgulho, a tolice da disputa, a estupidez da ganância e a inconveniência de tolas mágoas.”
Mas nem só de frases e pensamentos é feito o “IMAGEM DO SOL POENTE”, de Homero Castelo Branco Neto. O livro pede que seja lido integralmente. E até relido, com prazer e alegria. Não é só romance, não são só crônicas nem memórias: E tudo isto e mais: é a vida.
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*Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O MENINO QUASE PERDIDO, DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Rosidelma Fraga e José Fortes 
Poetas, críticos literários e blogueiros brasileiros

O menino quase perdido (2009), trigésima obra de Francisco Miguel de Moura, divide-se em trinta e cinco narrativas que podem ser lidas separadamente como é o caso de Vidas secas, de Graciliano Ramos, cujos contos foram escritos fora de ordem para depois juntar o embrião com o corpo maior que é o romance. O narrador de Miguel de Moura, em terceira pessoa, vale-se de estratégias de concatenação de memórias de um sujeito que se vê como duplo na busca interior e na procura do outro. A esse respeito asseverou sua leitora assídua Teresinha de Queiroz (2009, p. 11): ?retomar o tempo é igualmente buscar as memórias e as lembranças dos outros, no desejo e no desespero de dar significado e carnação aos sonhos fugidios que ameaçam sempre nos escapar nessa busca que é a procura de si?. A sensação que o leitor tem é a de que a narrativa onisciente pareça ter sido realizada em primeira pessoa, causando uma quebra de conceitos da própria narratologia nas mãos de um narrador idôneo que conhece bem o caminho para construir o inverso sem usar necessariamente a primeira pessoa. Trata-se de uma história introspectiva, não obstante escrita na terceira pessoa do singular. E essa marca é uma das possibilidades para que O menino quase perdido seja ímpar, pois há uma busca de si no outro e vice-versa.
O menino da narrativa de Moura parece mergulhar nesta busca de si e não se perde nas analepses, no sentido genettiano do termo, uma vez que há um projeto de texto baseado nas elucidações de Paul Ricouer (2007) no que tange à ars memoriae (memorial ou arte da memória). A narrativa de O menino quase perdido está centrada no método seletivo como bem degustamos em Ricouer, ao defender que toda narrativa é seletiva e não existe memória sem história e esquecimento.
As primeiras páginas da obra passam pelo crivo existencialista do ponto de vista da história construída por um sujeito humano. O leitor pode encontrar, em muitas partes das ?crônicas?, alguns subsídios que permitem categorizar a escritura como uma autobiografia que não quer perder a feição memorialística da infância. Uma delas é a narrativa de ?As marcas da areia? que oscila entre a memória, a história e o esquecimento:
?Quem não tem história, não tem vida feliz, plena, no sentido humano. A história completa o espírito de cada homem, esse animal social, político e, dizem, religioso. O menino quase perdido, como não tem história, continua a fazer pegadas na areia...? (MOURA, 2009, p.25).
A partir deste instante, o leitor começa a indagar: Quem é o menino quase perdido na fala do narrador? As duas possibilidades de leituras são textuais e intratextuais. A história construída pelo autor e não pelo narrador permite discordar do próprio narrador. O menino sem história revive, em seu memorial, as pegadas de areia não unicamente daquele instante sui generis da infância, como também da própria história do autor. Essa leitura pode ser feita se o leitor associar o paratexto ?As marcas da areia? com o título de Areias (1966), o primeiro livro de poesias, de Francisco Miguel de Moura. Perseguimos tal leitura, defendendo que o menino quase perdido (personagem) se assemelha igualmente ao autor empírico. A escritura da obra existe para comprovação. E como as narrativas não são interdependentes, elegemos algumas partes para que a leitura seja tão real quanto à ?narrativa autobiográfica?. Quando afirmamos que as histórias são interdependentes, queremos chegar, por exemplo, ao memorial ?A fábula do preguiçoso?, configurando-se como um dos textos que pode ser lido separadamente sem perder o ritmo e o sentido.
Da mesma forma é a história ?Saudade e dor?. Nela encontramos algumas pegadas de Areias no reviver da infância. Os últimos versos daquela primeira obra casam-se perfeitamente com o poemeto do menino Xico, nas páginas de O menino quase perdido. Colocamos os dois excertos lado a lado: Não deixes que a areia/branca da infância /enferruge e coma/ tua coragem./Como a aranha tece,/ tece a tua teia” (MIGUEL DE MOURA, 1966, grifos nossos)O menino quase perdido”, como não tem história, continua a fazer pegadas na areia. (MOURA, 2009, p.25 (grifos nossos).
Tecer a teia pode ter a mesma equivalência de tecer memórias para guardar a lembrança viva da infância e não ?enferrujar o tempo?, ainda que o passado pareça perdido nos momentos de dor e melancolia ou ?medo e esperança?, título da vigésima nona narrativa.
O leitor também parece ser o seu objeto nas voltas e cortes reflexivos da vida e da infância, em virtude da fruição e identificação com o texto, quando lê os trechos do poemeto da vida do menino Xico e sente-se tomado pela nostalgia que parece divergir do sentimento da saudade, pois aquela parece ser mais eterna, contida e retida no desejo da memória /Ah se eu pudesse guardar /sem virar/ sem pensar,/ as cinzas da infância”.(MOURA, 2009, p.89 (grifos nossos).
Recordar é guardar e reter o tempo com a sensibilidade da alma para que o passado se torne um agora na memória eterna, quase lírica, rompendo-se com o esquecimento. E o menino da história consegue resgatar a volta ao tempo [quase] perdido nos achados de sua memória, porque ele soube preservar a ?sensibilidade em toda a parte, nos interstícios do corpo e da alma, na profundidade do seu estar-no-mundo?. (MOURA, 2009, p.93).
Junto ao estar no mundo desse menino, não faltaram as lembranças da passagem da infância/adolescência para a fase adulta. Em ?O fim da infância?, podemos dizer que os traços desses momentos são aflorados na vida do menino Xico no povoado de Picos, sertão piauiense, onde se comprova a linha memorialística de arquétipo autobiográfico. O menino revive os momentos prazerosos da adolescência frente ao pedido de namoro de uma mulher e as despedidas em lágrimas numa manhã. No entanto, o leitor percebe que essa imagem de amores mistura-se à metáfora implícita do vínculo amoroso do autor com sua terra quando lemos o fragmento, a saber:
Eu me vou... Mas prometo que quando tiver lua nova venho cá, beijar este chão e visitar a casinha onde dormimos a noite. Mesmo que você não esteja mais neste lugar? (MOURA, 2009, 171 (grifos nossos).
As memórias são alicerçadas na lembrança que oscila entre a paixão adolescente e a paixão pelo lugar paradisíaco na mente do narrador que fala de Xico. A presença da casa em Picos sugere que o lugar seja tão importante para o personagem quanto à figura da mulher que, por um instante, amou. E mesmo que ela não esteja mais na "terrinha prometida", é para lá que o menino Xico sempre voltará. Neste emaranhado de recordações, temos um narrador consciente e onisciente para assegurar ao leitor que somente ele pode ser, concomitantemente, uma testemunha, uma vez que presenciou cada instante narrado:
“Ali terminava um namoro de dois meses, tão sofridos quanto gozados, porque se despedia da infância agora perdida; ficava-lhe apenas aquela lembrança, sua memória. De concreto, somente o último beijo e o único adeus... Sem testemunhas?” (MOURA, 2009, 171, grifos nossos).
De “o fim da infância” “ao momento de”… “Naquela tarde de abril”, o leitor pode visualizar uma longa passagem do tempo, já que o narrador não estará a contar sobre o menino e suas infâncias, mas sobre um menino-velho tentando recuperar os laços ou os fios do tempo, a fim de narrar a paixão platônica por Ruth. Talvez esta última memória seja a mais esperada pelo leitor como se a recordação amorosa transformasse em pegadas de areia, cujas águas do tempo não conseguiram apagar. Neste final, o narrador utiliza-se de recursos imagéticos próximos a Homero para vir à tona a memória que reterá o esquecimento, uma vez que a mesma sensação de reconhecimento da cicatriz de Ulisses, de Odisséia, está presente em Miguel de Moura. Tal exegese é válida se observarmos o momento em que o menino-velho revê a paixão da adolescência, num tempo transcorrido extensamente como a colcha de Penélope, e chega ao reconhecimento da ferida, nas marcas do tempo presente. Segue o trecho:
“Aos olhos do menino, era linda, da cor do leite das vacas de seu pai. Da primeira vez que a viu, tinha uma pequena ferida na perna que era um charme!” (MOURA, 2009, p.173 (grifos nossos).
Posto isto, o narrador mostra-nos que o tempo e a distância entre uma recordação e outra faz do instante perdido o momento recuperado no memorial existencialista. Em toda e qualquer mente humana é presumível que pelo menos duas lembranças permaneçam inabaláveis: a infância e a adolescência, sobretudo quando chegamos ao momento da mais alta experiência humana:
O mundo dá muitas voltas e é preciso que a gente não reaja contra os ventos da sorte [...]. Embebidos um no olhar do outro, procurando captar, no que ainda restara: - a face do que foram e já se havia esfarinhado no tempo. Tantos anos!” (MOURA, 2009, p.173-175, grifos nossos).
O sentimento dessas memórias não pôde ser fotografado pelo narrador, todavia a mão que narrou soube reter a imagem fotográfica de cada instante passado, trazendo à baila um memorial da escrita de si e das escritas do outro que há em nós. Para ultimar essas fotografias do passado, o narrador assegurou que a palavra não dá conta de expressar a emoção, mormente num gênero que não seja lírico. Entretanto, leitor, Francisco Miguel de Moura, não mais o narrador, com a sua sensibilidade de poeta, pintou o som das reminiscências com as mais belas imagens, eternizando-se como uma música de Mozart? ou um quadro feito por Leonardo da Vinci? (MOURA, 2009, p.175) na vida de “O menino quase perdido”. 

                                                                 *******
Referências bibliográficas:MOURA, Francisco Miguel de. O menino quase perdido. Ilustração de Franklin Moura. Teresina, 2009, 182 p.; QUEIROZ, Teresinha. A vida começa num sonho. Prefácio. In: MOURA, Francisco Miguel de; O menino quase perdido. Ilustração de Franklin Moura. Teresina, 2009, p.11-15.; RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.




sexta-feira, 21 de julho de 2017

ESCOLAS DE HOJE – ESCOLAS DE ONTEM

Francisco Miguel de Moura
Escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras


O sistema escolar de hoje, pelo menos o que foi instalado na última década e na que transcorre, só tem uma semelhança histórica com a Torre de Babel. O povo (ou eram só os chefes do povo?) revoltado com o que havia antes passou construir um torre para ir ao céu, contra Deus e contra todos, era um desafio contra o paraíso terreno que tinham: queriam outro maior. Esse povo, segundo a Bíblia, foi castigado, a torre em construção caiu e eles se confundiram todos, cuja confusão transformou-se em várias línguas e pensamentos vários.

O sistema escolar de hoje cresce apenas no sentido de espalhar uma tal de educação dos gêneros, entre outras idéias e ideologias. E a família, que era o núcleo educacional, esfarinha-se… São preocupações que nada têm a ver com o aprendizado do que é importante para a vida e o progresso da civilização.

Outro dia, ouvi uma senhora mãe de família falando, alto e bom som, em um vídeo de Rede Social (não memorizei o nome do vídeo nem o da Rede Social, infelizmente). Dizia que não tinha filhos para serem educados como estão: em ideologias estranhas como a dos gêneros. Irritada, declara: “Mando meus filhos para a escola, para aprenderem a ler e escrever, para aprenderem a língua e a matemática, as ciências provadas e sérias e a história, a geografia do nosso planeta naufragado em poluição e ignorada da população. Dou a educação de meus filhos em casa, no recesso doméstico, não preciso que vão lhes dizer que devem ter outros gêneros e mais gêneros, nem como fazer sexo na escola, à vista de todos os seus colegas. A educação de meus filhos, digo, é para que respeitem o preto, o branco, o amarelo, o índio, os pobres e os ricos, os feios e os belos, pois todos são iguais e merecem respeito, e para terem tal respeito é preciso que respeitem a todos”.

As palavras acima não são copiadas ipsis-literis, mas juro que são o sumo do que ele falava, gritava, vociferava em seu vídeo. E ela tem razão. Por que ocupar o tempo precioso da criança com bobagens de ideologias de sexo, socialistas, comunistas e outras? Até contra as religiões? Por quê?
Há um propósito por trás de tudo isto. A família é a primeira e grande célula da sociedade. Se ela é destruída, estará destruído o edifício social. E a primeira coisa que pode gerar é o anarquismo. Infelizmente, até uma organização outrora tão respeitável, a ONU (Organização das Nações Unidas), está comprometida com a espalhafatosa teoria dos gêneros. Daí há uma geração de internacionalistas, entre os quais aqueles que também desejam desconstruir ou acabar com as nações, o sentimento patriótico outrora tão valioso para o soerguimento dos países em desenvolvimento.

Criança hoje não tem pátria. Não se sabe mais quais são os símbolos da sua terra, do berço onde nasceu, onde se fazem as lei e onde se lhe vão cobrar os impostos, sempre, sempre. É difícil compreender tudo isto. Meu pai era professor e, a bem dizer, eu nasci numa escola. Quando os alunos chegavam em frente do prédio escolar, o professor os esperava, mandava se formarem com reverência, respeito e cantar o Hino Nacional. Nalgumas datas diferentes, por exemplo em novembro, aproximando-se o dia da Proclamação da República, cantava-se também o Hino à Bandeira. A cerimônia vocal, era feito diante da bandeira brasileira hasteada ao alto da porta de entrada do colégio.

Naquela tempo o professor era uma figura respeitada na escola e na sociedade. Ganhava pouco, mas nisto não houve nenhuma melhora até chegarmos à escola de hoje. Naquele tempo havia uma figura importante que, de vez em quando, aparecia quase que como de repente (só o professor sabia que ele vinha em tal dia). O mestre – o professor era assim chamado – avisava à turma: Hoje o inspetor vem visitar nossa escola, recebam com o maior respeito. Quando ele chegar, entrar, todos se levantem e esperem que ele acene para todos voltarem a sentar. Assim também quando um pai de família visitava a escola, naturalmente já era um senhor de idade, todos os alunos tinham que receber com o mesmo respeito. E nesses dias de visitas todos deveria estar bem vestidos(fardas limpas, cabelos e unhas cortadas, etc.)

Hoje, as escolas são os piores prédios da cidade, sem pintura, as portas muitas vezes não trancam, os muros derrubados e pintados com riscos horrorosos feitos pelos moleques noites a dentro, inclusive com palavras indecentes e críticas infundadas e terríveis. Esse trabalho dos pichadores mostra a ignorância daquela molecada que devia estar na escola aprendendo a escrever, ler e contar. Na verdade, hoje poucas pessoas em idade madura lêem normalmente.

Diga-se que aqueles meninos de rua, se praticam algum crime, não são tratadas como criminosos nem levados para uma escola, nem para uma obra, nada vão aprender da vida senão os vícios, as maldades, os crimes. Que história de lei é esta de que criança não deve trabalhar? Eu sempre trabalhei desde pequeno e apendi muito mais, não adoeci por isto e aqui estou sem outra marca que não as da vida produtiva. Viver sem fazer, produzir, aprender o bem, é vida inútil. Que leis são estas que acabam com a autoridade da família? Lei de proibição de chinelinhas ou palmadinhas na criança desobediente, ai Deus! O mundo está revirado, a sociedade brasileira está sendo destruída. Assim não há esperanças de que o homem se torne mais homem ( a palavra homem aqui significa espécia e não gênero), a desumanidade rola em catadupa.

Para voltar um pouco mais à escola, à educação, cito um trecho importante de Olavo de Carvalho, a cabeça pensante mais vigorosa deste século até agora: “A absoluta ausência de educação num país cujos estudantes tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais, concorrendo com crianças de países bem mais pobres; num país onde se aceita como Ministro da Educação um sujeito que não aprendeu a soletrar a palavra cabeçalho, porque jamais teve cabeça, e onde se entende que a maior urgência do sistema escolar é ensinar às crianças as delícias da sodomia – sem dúvida uma solução prática para estudantes e professores, já que o exercício dessa atividade não requer conhecimentos de português, de matemática ou de coisa nenhuma exceto a localização aproximada das partes anatômicas envolvidas…”

O autor cita mais, numa série, oito outras aberrações como estas, para concluir assim: “Enquanto o povo não perder o respeito por essa gente, nada de sério se poderá discutir no Brasil”.


sábado, 15 de julho de 2017

DIFERENÇAS NA VIDA SOCIAL: A BONDADE E A MALDADE

  
Francisco Miguel de Moura*

As diferenças na vida social, em qualquer país ou região, são grandes. Isso, falando-se a respeito da condição econômica e de projeção na sociedade. Não vamos dissecar sobre elas, nem condições temos, numa artigo como este, entre a bondade e a maldade.

A bondade dos bons, como eu dissera certa vez, não teria limites. É necessário uma explicação, visto que a situação era outra. Não sei se consigo fazê-la. Por isto recorro ao hoje Papa Francisco (Jorge Bergoglio) justamente quando explanou sobre o céu e a terra, juntamente com o Rabino Abraham Skorka, numa espécie de entrevista ou conversa a dois, em livro que o editor deu o nome de Sobre o céu e a terra”, publicado em espanhol e depois traduzido para a língua portuguesa por Sandra Martha Dolisnsky, para a Editora Schwarck, 20117 – São Paulo.

A primeira autoridade religiosa acima mencionada diz:
- “O desprestígio do trabalho político precisa ser revertido, porque a política é a forma mais elevada de caridade social. O amor social se expressa no trabalho político para o bem comum”, frases que estão contidas num longo artigo do livro.

Parecem ter sido dito no Brasil dos dias de hoje(vide Lula e Dilma, Michel Temer nem tanto). Mas vêm de um tempo parecido. Tempo de Perón, quando o atual Papa já era grande – ele nasceu na época Perón, na Argentina, e a família de Bergoglio era muito radical, sofria, é claro, naquela imensa ditadura, cujas mazelas não adianta repetir nem um pouco em palavras.
Mas vamos adiante. A segunda autoridade religiosa citada, o Rabino Skorka, acrescentou sobre o assunto:

- “Há um jogo duplo entre os políticos, que, por um lado pedem que a religião não dê opinião, mas na campanha querem a bênção dos ministros religiosos”.

Mas, ser bom não é apoiar ou desapoiar políticas e políticos, isto tanto nas religiões quanto na vida civil. Ser bom é fazer o bem, sempre e em qualquer lugar. Ser bom é ter caráter. E caráter não se pode dar, vender, oferecer, nem há escolas do mundo que ensinem a pessoa a ter caráter: ela já nasce com tendência e essa tendência será acentuada através várias circunstâncias. Quem é bom faz sempre o bem, não é preciso ser um santo – Deus é misericordioso e perdoa os pecados que não foram praticados, como mamãe dizia, “de caso pensado”, propositalmente.

Os maus têm mau caráter. Não adianta fazer uma coisa boa para “aparecer”, por vaidade, como alguns políticos (ou vários) e continuar seguindo afogado na corrupção. Corrupção é um dos pecados maiores que existem na vida pública. O corrupto concorre para a pobreza, sujeição e humilhação dos pobres, embora pareça que está fazendo o bem. A corrupção pode acabar com um país, uma nação. Corrupção é tão pecado como os que matam na guerra, na guerrilha, no terrorismo.
Agora tenho que recorrer ao escritor e filósofo Olavo de Carvalho, que não suportando mais a sujeira das pessoas e instituições do seu país, nosso Brasil, e quase sem condição de aqui trabalhar, foi embora para os Estados Unidos da América. Tenho que recorrer a ele, com suas próprias palavras escritas no livro mais importante editado no Brasil, no gênero de divulgação da filosofia social de hoje, baseado em grandes leituras e estudos. Ou, para não cansar, interpretando as sua lições do livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, Editora Record, Rio/São Paulo, 2016 (refiro-me à 20a. Edição).  “ E o pecado (…) , em todos os casos possíveis e imagináveis, só pode ser reprimido, punido ou combatido na pessoa do pecador, não em si mesmo, abstratamente. Discursar genericamente contra o pecado, sem nada fazer com o agente que o pratica, é transformar a moral numa questão de mera teoria, sem alcance prático”.

Olavo de Carvalho critica com base em dados científicos os que o criticam por combater os gayzistas, abortistas e feministas e outras deturpações sociais que se tornam cada vez mais em políticas ou rebanhos e pretendem transformar o homem naquilo que eles próprios dizem e proclamam que são. O escritor declara a falta de caráter deles e dos religiosos de diversos credos que os apoiam, qualificando-os de maus leitores da Bíblia. “É possível reprimir o pecado sem magoar o pecador”? Deus é misericordioso, diz o Papa Francisco, mas também é justo: quem faz paga. Por outro lado, finalmente, o escritor Olavo de Carvalho explica: “Homossexualismo é uma coisa, movimento gay é outra. O primeiro é um pecado da carne, o segundo é o acinte organizado, politicamente armado, feroz e sistemático, à dignidade da Igreja e do próprio Deus”.

Sim, ia esquecendo: - Foi o próprio Papa Francisco, perguntado se condenava “os gays” e ele respondeu que não era Deus, não foi ele quem os fez assim. Nem os outros pecados: adultério, mentiras, roubos, assassinatos etc. Sim, condena o próprio pecado, mas não o pecador. Todos os pecados para a Igreja são perdoáveis, desde que o pecador reconheça e confesse à sua própria consciência e, moto contínuo, a Deus.

Logo, nem a bondade dos bons é infinita, nem a maldade dos maus também o é. Os maus podem arrepender-se, reeducar-se. Pena de morte, Deus nos livre. O que importa é o caráter, a consciência e o encontro com o infinito, que é Deus. O resto é balela.

Quanto aos movimentos sociais que impliquem, com violência, num querer transformar quem é de esquerda ou de direita, naquilo que esses movimentos querem, eu digo: Ninguém obriga ninguém a nada. A disposição da criatura de manter incólume tanto o seu corpo quanto a sua alma é quase infinita. Para os santos e anjos, é, sim, infinita.
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Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras -APL

sábado, 8 de julho de 2017

CADA QUAL COM SEU IGUAL

 Francisco Miguel de Moura
Escritor 

Seria um bom título popular para uma crônica, se não fosse uma mentira, se avaliado cientificamente. Não confiemos muito nos ditos populares, eles precisam de interpretação e, às vezes, têm vários sentidos.

Um dia, faz algum tempo, conversando com meu amigo Deusdeth Nunes (Garrincha), quando falei que “todos são iguais perante a lei”, segundo nossa Constituição vigente, ele logo replicou, contrapondo:

- Aí é onde começa a desigualdade.

Os humoristas tiram lições da coisas verdadeiras, para fazer gracinha e trocadilhos, mas eles têm uma sabedoria filosófica que nem imaginamos.
Acontece o seguinte, não há nenhuma pessoa humana igual. Assim Deus nos criou, assim são as coisas que fazemos. Peço para prestarmos bem atenção ao modo como uma pessoa em casa arruma as coisas e vem outra da mesma família e muda, pode ser um filha ou marido. A empregada quando arruma tudo do mesmo jeito que a patroa manda, é por falta de liberdade, mesmo assim de vez em quando falha.
Dessas pequenas coisas nascem as grandes.

Mas mudando um pouco ou mesmo sem mudar, nunca deixo de exemplificar os regimes sociais de governo e produção: comunismo, capitalismo, socialismo. Há outros? Há as nações governadas pelas infames formas de opressão: as ditaduras.

Diga-se de passagem que o comunismo aboliu todos os partidos e criou o Partido Comunista, que manda no governo e no povo, na produção e falta de produção. No regime comunista todos são funcionários do mesmo patrão, o governo, que representa o Partido. E ai! de quem desobedece o Partido e as ordens dos maiorais do Partido. Isto é DITADURA ou não é? Vai terminar nos calabouços, escondidos, onde os jornalista e a imprensa de modo geral não tem permissão para entrar. Mas dizem e contradizem: É uma UMA DITADURA DO POVO. Que povo?

E voltamos à questão inicial: nos regimes comunistas todos são iguais perante a Ditadura. E cada um com sua liberdade de viver, criar, trabalha ou simplesmente ser malandro, onde fica? O povo traduz-se, em qualquer parte do mundo, pelo diversificação das pessoas, nunca pelo seu simples ajuntamento.
Diz sabiamente o filósofo Olavo de Carvalho que “o comunismo é apenas uma construção hipotética destituída de materialidade, um nome sem coisa nenhuma dentro, um formalismo universal abstrato que não escapa ileso à navalha de Ockham, frade cientista inglês William Ockham (1288-1347). Não existiu nem existirá jamais uma economia comunista, é apenas uma economia capitalista camuflada ou pervertida, boa somente para sustentar uma gangue de sanguessugas politicamente lindinhos”.

Se pensarmos nos regimes da China e da Rússia, o que são: simplesmente tem governos de Partido único, mas com a economia é capitalista. No frigir do ovos são ditaduras. Deixemos os nanicos Cuba e Coreia do Norte, porque, além de não possuírem a densidade de grandes economias, estão patinando na mentira dos que criam a doutrina materialmente falsa, embora que idealmente (se pudesse existir). Seria como se transportassem o céu para a terra.

Quanto ao socialismo é o mesmo, o filósofo Osvaldo de Carvalho disse que é um nome falso do comunismo para encobrir ditaduras nos países pobres e enganar o povo.
O único regime político que existe, e é “do povo, pelo povo e para o povo”, chama-se democracia. Ela resiste desde os gregos e, em alguns países, tem se aperfeiçoado, criando a fórmula parlamentarista. Neste particular, cite-se a Inglaterra, a França e a Alemanha como os primeiros e mais aperfeiçoados. Nesses países há liberdades especificadas em leis, assim como a fiscalização do cumprimento de tais leis. E essas leis são feitas para o povo, em sua liberdade de ir e vir, falar e calar, onde a defesa da vida e da economia são tratadas com cuidado e ciência. Nesses países há povo, aqui (Brasil) somos um arremedo disto. Errou D. Pedro II, quando disse: “Grande povo, grande povo!”

Voltando ao social não político, é costume dizer-se hoje que os namorados, os casais que mais se parecem física e psicologicamente se dão bem no casamento. Não há nenhuma estatística nem comprovação disto. Da mesmo forma eu poderia dizer que os que menos são iguais têm maior possibilidade de um casamento duradouro. Mas nada disto está provado. Provado está que não ninguém é igual, justamente por isto é que somos chamados de indivíduos e depois de educados, pessoas. As pessoas aprendem a conviver em sociedade, os indivíduos são sempre desajustados e se dão ao crime e a outras coisas não aceitas pela maioria.

“Cada qual com seu igual” é coisa para as espécies. A espécie homem com a espécie homem; a espécie lobo com a espécie lobo. E mesmo assim conta-se como verdade a história das crianças criadas por lobas e, assim, andavam de quatro e não sabiam falar.
Cada qual com seu igual é uma das frases que não levarão a erros, quando tomadas como verdade absoluta.

E por falar em “absoluta”: Será que existem verdades absolutas?

Para o poeta Manuel Bandeira, que escreveu: “A vida é um milagre / Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”, então seria a morte a verdade absoluta. Bem, os poetas dizem coisas que até Deus duvida. Mas eu, que também sou poeta, e hoje não estou poetando, acredito que Deus é o absoluto. Porém, querido leitor, esta seria matéria para outro e outros artigos, que não sei se vou ter condições de desenvolver. Mas o assunto e o problema estão postos para a capacidade dos filósofos. Aguardemos. Talvez o Papa Francisco já tenha versado sobre isto, que infelizmente não ouvi nem li. Li muitas outras coisas importantíssimas de suas pregações. Minha dica é que nele vamos encontrar a solução do assunto proposto, pois melhor sábio não há na terra, nos dias de hoje.
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Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina - PI ( "A Cidade Verde" - apelidada pelo escritor Coelho Neto, quando nos visitou.
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