quinta-feira, 22 de setembro de 2016

UMA GUERRA QUE NÃO ACABA NUNCA

Francisco Miguel de Moura
Membro da Academia Piauiense de Letras.

            A luta do povo brasileiro não acabou porque acima dele (ou abaixo?) há o poder político, o poder do conchavo, os poderes criminosos que jamais acreditamos que haja. Mistérios da sociedade, mistérios da política!O título acima, eu tomei, em parte, emprestado de um livro de contos, de minha autoria, denominado “A rebelião das almas”. Foi uma obra de muito sucesso de venda e crítica, prefaciado pelo meu parente distante, escritor Moura Lima, que mora no Estado do Tocantins.
Vamos desenvolvê-lo com muita cautela, pois se trata de matéria já editada em “O Dia”, de 17 de setembro de 2016, isto é, na semana passada.
Estou triste porque, pela primeira vez, ouço falar que se trata do desdobramento da profunda crise que abateu o Brasil, nestas duas décadas de governo do PT, sendo Lula e Dilma os protagonistas principais da catástrofe política, econômica, financeira, ética e moral da História do Brasil. Nunca, antes, ninguém conseguiu o que eles conseguiram: tornar um país democrático, que ia bem, ficar tão pobre! Em poucos meses foram impedidos de seus postos de primeira grandeza na direção do país, ou seja, Dilma Roussef e Eduardo Cunha – os dois agora proibidos politicamente de exercer qualquer poder, descidos de suas máscaras para as de processados e julgados politicamente incapazes por improbidade.
A crise é enorme. Pergunto, eu, em que mais ela se desdobrará?
Quem dá uma opinião é o articulista do jornal acima mencionado, jornalista Inocêncio Nóbrega:
“Tal desdobramento pode seguir com a solicitação do “impeachment” (impedimento), em virtude do processo contra o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Ferreira Mendes. Para alguns críticos, tal pedido de impedimento, protocolado pelo PSDB-MT, no dia 13 de setembro, no Senado Federal, ao qual cabe, privativamente, conforme a Carta Magna do país, julgá-lo. A denúncia de 61 páginas, formulada por um grupo de eméritos conhecedores do Direito Constitucional, será acompanhado pelo advogado Marcelo Lavanere, Ex-presidente da OAB”.
Não vou citar os motivos elencados pelo jornalista, justo por ser do conhecimento de todos pela imprensa falada, escrita, televisada e pelas redes de whatsapp, facebook e outras, via celular.
Para mim, e acredito que para a maioria dos brasileiros, só o fato de haver o pedido de processo contra um membro da mais alta Corte de Justiça, estamos no cume de uma montanha onde um vulcão está prestes a explodir. É uma desconexão política terrível: duma só vez completa a desorganização do círculo dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Os motivos do processo são muitos, o jornalista os enumera e descreve seis, entre as acusações das mais graves de desrespeito à Constituição do Brasil, como se não bastassem tantos e semelhantes cometimentos produzidos por muitas autoridades neste período escuro, embriagado de corrupção que, infelizmente, o povo brasileiro está atravessando e sofrerá ainda por muito tempo.
Esta crise está sendo minorada graças à honrosa diligência com que está trabalhando o Presidente atual Michel Temer e o fará durante o pouco tempo de término de seu mandato de substituto, afirmando sempre que não pretende candidatar-se às próximas eleições. A “presidenta” afastada por crime de responsabilidade (ou seja, pra ser claro, por sua irresponsabilidade em dirigir o nosso querido Brasil), segundo noticiado, não perdeu os demais direitos políticos, em virtude da violação da Constituição, no próprio processo de impedimento, dizem que num acordo espúrio entre os Senadores e o Presidente da sessão. Mas esbarará na lei que ampara apenas os candidatos de Ficha Limpa.
Seria menos mal se assim fosse. Mas, um político (do PT), da área de maior influência do sttaf da ex-“presidenta” Dilma, declarou, alto e bom som, à imprensa, que “no Brasil, em política, tudo é possível”.
Pode ter sido até agora, tomara que não seja de agora em diante. Se a classe política não mudar esses maus costumes, o futuro do Brasil ficará para o próximo milênio, e olhe lá: faltam educação, saúde e segurança, a droga campeia nas favelas e desce para a cidade e para as praias. Já chegou a quase todas as cidades do interior do Brasil, dentro de pouco tempo – estes tempos do petismo e sua ânsia de mandar sempre, construindo uma nova classe como na Rússia da era Stalin. Cada criança sem escola, filha de pais sem trabalho, arranja logo: um pacote de droga pesado, armas e muita disposição para roubar na rua, invadir casas, sítios, fazer prisioneiros e principalmente matar, assassinar e estuprar desde crianças a mães gestantes, velhinhos de bengala, aleijados, etc. Para isto, os garotos têm a proteção da lei do menor, a proteção de outras, que são feitas no sentido da segurança deles e das autoridades que as protegem. Espalhou-se o medo no país. Como é que agora, em dois anos, um Presidente substituto, por melhor que seja, vai consertar tudo isto?  Em política tudo é possível mesmo, desde que não se tenha caráter, ética, moral, berço, sangue e sobretudo amor à pátria. Aquele amor à pátria que se ensinava nas escolas – meu pai era professor, por isto digo de cátedra. Esse amor ao Brasil sobrou apenas no Exército, nas Forças Amadas, não sei como, por milagre. Em dizendo isto, ninguém me venha acusar de ter sido favorável à ditadura militar. Não, ao contrário. E comunista é que não fui nem sou. Consegui milagrosamente livrar-me dela (a ditadura) e dele (o comunismo). Depois eu conto.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

RÁPIDA DICÇÃO - Poesia


Francisco Miguel de Moura*


A poesia é mel,
a poesia é fel!

A poesia tem gosto do inferno,
enquanto não subir ao céu
nas asas de uma abelha.

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*Francisco Miguel de Moura, poeta, poema escrito no dia 1º de maio de 2016.

sábado, 10 de setembro de 2016

CHAGAS VAL - UM VALIOSO POETA QUE SE VAI

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Chagas Val (Francisco das Chagas Val), nasceu em 23 de julho de 1943, em Buriti do Lopes (PI), e tornou-se, por conta própria, cidadão maranhense, pois há muito tempo morava em São Luiz - MA, onde publicou sua obra poética e participou da famosa antologia organizada por Assis Brasil, com o título de “Poetas maranhenses do século XX, uma coedição da Editora Imago, Rio, 1944, com a Fundação Cultural do Maranhão”. Chagas escreveu muitos livros de poetas e está citado em várias Histórias da Literatura do Piauí e do Maranhão, além de ser verbete dos mais diversos dicionários do ramo. Escreveu muitos livros de poesia e os publicou sempre com a ajuda do poder público, pois era um humilde funcionário do Estado. De suas obras, me vem á memória, no momento, o que tem um título altamente poético: “Anatomia do Escasso Cotidiano”, 1999, São Luís-MA, prefaciado por Nauro Machado. 

Era um dos meus amigos correspondentes, suas cartas eram verdadeiras crônicas poéticas e me animavam a escrever mais. Registravam sua alma solidária com os poetas e a poesia. Mas era um solitário diante do estranhamento do mundo, da agonia da natureza e dos homens, numa sociedade que despreza o bom e o do belo pela ferocidade dos conflitos e guerras. Solitário, taciturno, mas cheio de vida. Solidário com os poetas, bebia luz, lirismo e amor a cada manhã. Sua poesia é um canto à natureza e às belezas divinas. Sobre ele, escrevi um longo artigo – que considero crônica – estampado no “Diário do Povo”, em 02/05/1999, de Teresina, além de outras que ficaram espalhados por outros jornais piauienses. 

Por informação do poeta Diego Mendes Sousa, soube que Chagas Val faleceu recentemente, em 21 de julho de 2016. Sua morte me deixa desolado. Por duas vezes nos encontramos pessoalmente: a primeira, quando fui a São Luís, acompanhado de meu filho Franklin, nem me lembro quando, e lá me foi ele apresentado pelo romancista e poeta Alberico Carneiro.  Foi um encontro rápido. Chagas Val trabalhava para a Fundação Cultural (ou era Secretaria de Cultura?) de São Luís e estava envolto com problemas a resolver. Na conversa, falamos de poesia, claro, e dos assuntos ligados às letras. Lembramos de nossa correspondência, pois mesmo sem o contato pessoal, ele me procurara por carta enviada à A. Tito Filho, pois ainda não tinha meu endereço. E a partir dali começava a nossa conversa silenciosa: era carta pra cá, resposta pra lá, acompanhadas ou não de livros. Estes, livros e cartas, falavam do que estávamos lendo. No início, se dizia impressionado com o filósofo Friedrich Nietzsche. Não me recordo se me citou algumas frases, mas o sumo do pensamento do alemão, como  estava entendendo, Chagas Val repassava. Talvez uma frase como esta, simples, mas profunda: “Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida”. Na verdade, os filósofos impressionam os poetas. O exemplo prova que Chagas Val era um grande leitor dos clássicos, tanto poetas quanto filósofos. Numa carta, depois se transformada em capítulo de um livro meu, adverti-o da grandeza e profundidade do filósofo  alemão, mas sua a interpretação era bastante perigosa, tendo em vista que Nietzsche afastava o homem de Deus, do absoluto.  Eram assim os nossos “papos”: simples e elevados ao mesmo tempo. A partir daí notei que o poeta se abriu mais, abraçou realmente a natureza e o homem a ela integrado. 

Por outras palavras, transcrevo parte do artigo-crônica a que me referi: “A poesia de Chagas Val é íntegra: mais doce de que o mel e o cheiro das folhas e flores – as folhas que com ele levou de Buriti dos Lopes, a brancura dos riachos e a serenidade do canto dos pássaros, sem hermetismo, sem subterfúgios, dentro dos critérios do que se chamou e se reconhece como arte. Nela não há, nem por longe, a marca de outro poeta (os chamados poetas maiores)”. 

Segundo o experiente escritor Alberico Carneiro, “Chagas Val é um poeta de dicção personalíssima, no Maranhão e quiçá no Brasil, garimpando os verdes campos da memória onde pastam os cavalos alados do sonho”.

Ele se foi do mundo dos “poetas mortos” (que é este mundo onde vivemos nós, almas penadas) para o mundo dos “poetas vivos”, lá nas alturas, onde a água é branca, o ar é puro e o céu é azul, depois de ter sofrido terráqueo exílio. Infelizmente, a gente – porque somos irmãos, mais irmãos do que poetas – tem que se separar e ficar aqui, criando as nossas silenciosas conversas e solilóquios, ou mais do que isto: orações. Para o espírito não há barreiras. 

Não referi o segundo e o mais recente encontro nosso, há cerca de 5 anos, mais ou menos. Voltei a São Luís - MA, desta feita numa espécie de turismo de fim de semana, com a mulher. E fizemos, já na saída, um “tour” pela cidade, guiados por um amigo de lá, meu colega de profissão. Quando lhe falei no poeta Chagas Val, ele quis conhecê-lo e, então, resolvemos passar pela casa do poeta, num bairro distante do centro da cidade. Encontrei-o na sua simpatia, mas diferente: um pouco gordo. Pela cor de sua pele, pelas feições e fala, senti que não estava muito b
em de saúde. Há tempos já não nos carteávamos. Aproveitei para deixar-lhe a minha “Fortuna Crítica”, da qual  não falou depois: deixara de escrever suas constantes cartas, longas, linda, amáveis. Daí, não tive mais notícia, não nos encontramos mais, quer por carta, livro, quer pessoalmente.

A notícia de sua morte foi uma triste surpresa. Que Deus o tenha na eternidade como um valioso troféu.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

DESCAMINHANDO - Poema

Francisco Miguel de Moura*

Caminho tortuoso e sem volta
é condenação ao desespero.

Melhor fingir no amor
ou jogar-se todo ao mar,
num rabo de baleia;
ou sob a proteção de mãe d’água
milagrosamente ressurgir
e ganhar a terra novamente,
embora em cores derruídas.

Caminho sem volta é eternidade
sem bilhete.
Caminhante, alguém o aguardará
no beiço das veredas, se voltares.

 Ir ou  voltar sempre, não descaminhar.
          
Os caminhos apagam os rastos arrependidos.

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*FRANCISCO MIGUEL DE MOURA, poeta brasileiro, mora em Teresina - PI, vários livros publicados, completa agora 50 anos de poesia - "Areias", 1966, foi sua primeira obra pbulicada. Está reeditando sua obra num volume chamado de  "Poesia in Completa", a sair ainda em 2016, pela Academia Piauiense de Letras, entidade da qual é membro permanente, cadeira nº 8.

sábado, 3 de setembro de 2016

CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA -EXISTÊNCIA E RESISTÊNCIA

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da A.P.L.
franciscomigueldemoura@gmail.com
 
            Membro do Conselho Estadual de Cultura há alguns anos, dele me despedi, em virtude de minha idade. Daquele tempo tenho lembranças muito boas: das reuniões, das palestras, lançamentos de livros, comemorações e intercâmbios, além da amizade que unia todos os membros e suplentes em torno das promoções culturais apresentadas pela presidência. Assim, não posso considerar-me suspeito de falar sobre tão nobre e gloriosa instituição, criada antes do próprio Conselho Nacional de Política Cultural (1966), extinto no Governo de Collor.  Nem posso deixar de referir à alma, à vida do Conselho Estadual de Cultura, desde o começo e por muito tempo, que recai sobre a pessoa do Prof. Manoel Paulo Nunes. Não foi o fundador, mas na maior parte da existência dessa entidade cultural preciosa, fez tudo. E o que realizou foi por causa do seu amor às artes e à cultura.  Neste passo, cito meu filósofo preferido, porque estudioso profundo dos sentimentos humanos, Arthur Schopenhauer. Diz ele: “Tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneira parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas foram produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores”.
           Como vimos e vemos, na mão do Prof. Paulo Nunes, a cultura piauiense tem resistido a duras penas. Quando busca instrumentos oficiais para colaborar com a sociedade, normalmente recebe velado desinteresse, Mas logo esquece, pois as artes, a música, o teatro, a literatura, a história, o folclore, os costumes e tradições sobrevivem melhor quando recebem atenção e amor. É uma luta continuada. Objetivamente, o Conselho Estadual de Cultura do Piauí foi criado por Decreto nº. 631, de 12-10-1965. Completou, em 2015, seu cinquentenário sem barulho. Quando assumi o Conselho, a convite do Prof. Paulo Nunes, Secretário de Cultura (interino), fui recebido pelo Prof. Benjamin do Rego Monteiro Neto.  Foi ele quem conseguiu o desligamento da revista Presença, da Secretaria da Cultura, entidade que a editava. O Conselho evocou para si um direito que já constava na própria lei que o criou. Dali em diante passava a ter a responsabilidade de organizar e editar a revista.  O Prof. Paulo Nunes conseguiu um local fixo para as reuniões e expediente do Conselho, cedido pelo Arquivo Público. Finalmente, na luta em busca de sede própria, contando com a colaboração e amizade do Secretário de Educação e Cultura, Prof. Antônio José Medeiros, conseguiu passar da sala do Arquivo para um Colégio desativado no bairro Vermelha, transformando-o no Centro Cultural “Prof. Manoel Paulo Nunes”.  
Enfim, por tudo e por mais que não foi mencionado aqui, está mais do que claro que a vida, a alma e a imagem do Conselho Estadual de Cultura se encarnam na pessoa do Prof. Paulo Nunes, conseguindo com simpatia e coragem romper todos os obstáculos. Editor da Revista Presença, publicação que ora completa 50 (cinqüenta) edições, ele faz dela uma espécie de “menina dos olhos”. Não existe, no Brasil, nenhuma publicação que se iguale à Presença, tanto em altitude intelectual quanto em apresentação física: os bons artistas da pena, os pintores, os artistas gráficos que a levam quase à perfeição. Quanto a mim, embora tenha colaborado na revista desde o primeiro número, humildemente, reconheço que estou longe de um grandioso Celso Barros, um profundo Assis Brasil, um maravilhoso Prof. Paulo Nunes, respectivamente na filosofia, na ficção e na crítica literária.  Mas tantos outros nomes na nossa cultura foram procurados pelo CEC: professores universitários, doutores e doutorandos, poetas e intelectuais, não somente para escrever, mas também para fazer palestras sobre assuntos específicos da cultura e ampliação do saber dos convidados e dos próprios membros, como foi o caso da conferência do poeta Alberto da Costa e Silva.
Na prática, relevantes são os deslocamentos do Prof. Paulo Nunes, a suas expensas, para representar o Conselho, nos conclaves nacionais. E ninguém esquece um José Elias de Area Leão a visitar, por sua própria iniciativa, as Casas de Cultura do interior, para verificar a situação de quase abandono pelas autoridades municipais. Lembremos os cuidados do CEC com a Capital e as cidades do interior, para os tombamentos necessários. Já o Prof. Raimundo Nonato Monteiro de Santana, em visitas ao prédio da Biblioteca do Estado (antiga Faculdade de Direito do Piauí), em péssimo estado de conservação, advertia ao Governo e a sociedade para a reparação dos danos que poderiam sofrer as obras do acervo.   São algumas das ações de colaboração efetiva com o Estado, pois as atribuições legais do CEC não chegam a tanto. Conforme publicado no D. O. de 12-7-2012, “O Conselho Estadual de Cultura tem a incumbência de planejar e orientar as atividades culturais de Estado, promovendo: a) o estudo e proposição de programas culturais; b) a defesa do patrimônio cultural do Estado; c) a difusão da cultura”.
    A composição do Conselho Estadual de Cultura, como todos os colegiados normativos e consultivos de caráter permanente que participem das decisões do Poder Público Estadual sobre cultura, terá seus membros indicados da seguinte forma (Art. 230), da Constituição Estadual de 2008: 3(três) nomes indicados pelo Poder Executivo; 3(três) indicados pelo Poder Legislativo; e 3(três) outros pelas entidades representativas dos produtores culturais como teatro, música, artes plásticas, literatura, folclore etc. Existem críticas sobre a distribuição dos membros do Conselho (recentemente renovado). Por mim, pude verificar - se estou enganado, me perdoem - que não consta nenhum músico ou pessoa ligada a entidades musicais, portanto estaria carecendo de uma melhor distribuição. Mas, hoje, quem preside o Conselho é o Prof. Cineas Santos, empresário da cultura (Oficina da Palavra), poeta, contista, cronista, dinâmico e sério. Portanto, é certo que o Conselho de Cultura do Piauí seguirá seu destino nas ações culturais do dinâmico presente, sem esquecer o passado e com os olhos abertos ao futuro.

          

terça-feira, 30 de agosto de 2016

ANATOMIA DO ESCASSO COTIDIANO


                                
Francisco Miguel de Moura
membro da Academia Piauiense de Letras.
                                                                                                            .
          A última mensagem poética me chegou anexa a uma carta-crônica datada de 13 de fevereiro de 1999, enviamento do poeta piauiense/maranhense Chagas Val, que habita as plagas de São Luís do Maranhão.  Era um livro de poemas. Que beleza! Fiquei alegre, não foi pra menos. Muito bonita a capa, a impressão também recomendável, a orelha de Nauro Machado está excelente, creio que diz tudo da poesia de Chagas Val hoje. Que é que posso acrescentar como crítico?  Muito pouco.
          Agora, releio «Anatomia do Escasso Cotidiano», o nome do livro de Chagas Val, e dá vontade de recitar uns versos: «Brancura de água mal se nota que existe / que branco é o espaço escrito em nuvens / ou uma garça pintando imóvel a paisagem. // Um peixe em movimento é branco e limpo / e ele se banha ao luar de suas escamas / quando nada na brancura de uma lâmina / ou de uma fina linha em branco silêncio.»
          Depois vou pensando em bosquejar umas idéias e observações. É um livro leve como um pássaro, não porque seja fino. E é tão fino (nos dois sentidos) que o volume não chega a cem páginas e se lê como o vento sopra, como a água flui nos rios da planície de Buriti dos Lopes, sem pressa,  enxugando a alma ao invés de molhar, profundo sentir ver/ouvir/meditar. Branco como uma oração na sua pureza. Cheio de símbolos simples e por isto mesmo difíceis de interpretação. Não é necessário. Fruí-los já basta, é assim qual nublado silêncio, no aconchego e paz de voz amiga.
          Que sua poesia já não traz cheiro de outro poeta, de nenhum corifeu, de nenhum mestre, é seguro. E me tranqüiliza.  A poesia de Chagas Val é. Neste «Anatomia do Escasso Cotidiano» ele se faz originalíssimo. É difícil segurar essa barra, acho até que  exagerou. Não deve tentar escrever (e publicar) um livro a cada ano, nem de dois em dois anos, mas dar espaço de pelo menos quatro, para não esgotar-se ou repetir-se. 
          As obras anteriores sempre vinham polvilhadas de águas, rios, luas e ventos. Mas na nova messe os elementos se depuram. A casa e o rio, as árvores e as folhas são tratadas como personagens vivos e interferentes. Nauro Machado registrou isto, se não me engano, na apresentação. Os campos da alma... A alma desvairada dos homens deste fim de século, incluso o poeta, está perdida, solitária,  no «escasso quotidiano». Melhor que escasso seria escuro. Ou não?  Mas como, se a poesia de Chagas Val é inteira claridade?
          Ecológico, o poeta? Sim, mas não só de uma ecologia interna, depurada.  E ontológico também.  E escatológico sem dogma. E antológico sem dogma. E antológico, sim.
          Há como que uma aura protegendo a imagística do poema. Mudança de estilo? Nem tanto. Aprimoramento, trabalho.  E premonições do que acontecerá, fatalmente, nas artes do próximo milênio. Não que haja racionalismo, ou irracionalismo, como no tempo do neoclássico. Ao ler poemas como «Rosa  Contemplada» ou «As Sanguíneas Flores», lembrei-me de Alvarenga Peixoto em «Ensanguentados rios, quantas vezes / vistes os férteis vales / semeados de lanças e arneses?»  Não que haja musas e entidades campestres guiando o poeta e presidindo a poesia. Muito menos intenções de agradar os poderosos do momento, com baladas e poemas. Os poderosos de hoje não dão bolas pra isto, não se sensibilizam.  Nem pensar na ressurreição de um mundo pastoral. Eles querem um mundo virtual. Que não seja poético. Há o «novo» e há novidade em sua poesia, é preciso descobrir logo. Sobretudo, há sumo de cores e vozes, enquanto o bom leitor vai se enleando na enchente de imagens e símbolos claros mas impenetráveis à primeira análise.
          Sei que o poeta vive recluso, isolado da sociedade dos mortos, pois só os poetas são vivos espiritualmente. Mas, para sua integridade é perigoso produzir o novo sempre e sempre, porque os anseios de libertação nunca chegam ao fim, vão num crescendo, crescendo, e confrontam-se com as contradições vitais da natureza e da cultura humanas. Brigam com a sociedade. Os prazeres verdadeiros são escassos, no mundo pós-moderno, porque repetitivos. Haja sexo virtual, sem amor e sem liberdade, sem frutos. É o Deus artificial dos cultos televisados. Festas são drogas.  Mas o homem não vive sem prazer. Pense-se no hoje. Que prazer haverá em passear num Shopping Center, olhando coisas, coisas de plástico e papel que se trocam por papel-dinheiro podre, às vezes sem necessidade, pois quase tudo é descartável? Depois se joga fora. E tudo é frio, é máquina, é computador, é calculismo daqueles que manobram as massas em forma «artística» de propaganda, ou estatística do «economês». Frio é o ardor do sol, com tanto ar (condicionado) nos escritórios, nos hotéis, nas partes turísticas.
          É esse «escasso quotidiano» que Chagas Val abomina e por isto se revolta e se refugia no poema, na dor da poesia. Em lindos poemas como «Os Arvoredos», «As Folhas», «Sutilezas»  e  «Pássaros em Extinção», pra não falar no soneto «Alegria». Ótimo livro, não adiantaria citar os melhores poemas, teria que referir todos. Nem há espaço para mostrá-los.
          Então terminemos com dois  versos que me ficaram na memória, pois me agradaram sobremaneira:  «Uma rosa com suas pétalas de luz e sangue / abre-se silenciosa na claríssima paisagem.» É a poesia de Chagas Val, vista nas duas primeiras leituras de um amante da poesia. Uma das belas coisas da vida.    




sexta-feira, 26 de agosto de 2016

PIAUÍ, TERRA QUERIDA, FILHA DO SOL...


Francisco Miguel de Moura*
Escritor, 
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Piauí, terra filha do sol do Equador. Somos uma “terra filha” e não enteada, como a Globo, em seu silêncio, nos trata. Piauienses, somos filhos deste território imenso que é o Brasil. Que isso não seja razão para que façam vista grossa à nossa geografia, por aí afora. É preciso que os brasileiros e suas empresas (a TV Globo, por exemplo) saibam que o Piauí é um Estado da Federação Brasileira, que o Piauí existe realmente. Teresina é sua Capital (a cidade que o grande escritor Coelho Neto apelidou de “Cidade Verde”). E a “Serra da Capivara” é o berço do mais antigo homem que aqui aportou e viveu, desbancando a teoria dos Estados Unidos. Segundo eles, os primeiros habitantes do Velho Continente teriam passado pelo Alasca até chegarem à América do Norte. Mentira! Eles querem ter tudo, ser os maiorais.
Tudo isto e muito mais, que não vou falar aqui, é nosso valoroso Piauí.  Para a Independência do Brasil, demos o primeiro grito e fizemos a primeira batalha “A Guerra do Jenipapo”.
É necessário que esses homens e mulheres que fazem a mídia no resto do Brasil sejam alfabetizados geograficamente. Não saber onde fica a Serra da Capivara é demais! Nas Olimpíadas falaram: “É no Brasil”, mas silenciaram o Estado, pra não falar no Piauí, talvez por preconceito de pobreza.  Falo nos jornalistas, radialistas e nos da televisão.  
Todos nós assistimos aos jogos olímpicos e às transmissões excelentes da Rede Globo. Mas ela pecou por omissão, por ignorância ou por maldade, não citar o nome do Piauí, quando falou na “Serra da Capivara”. É imperdoável, repito.
Aliás, o Piauí só é citado na Globo, na parte do “Jornal Nacional”, quando, por obrigação, tem que mostrar todo o mapa meteorológico. E se apontam e destacam o Piauí, é pelo nosso bendito calor, como se não houvesse outro lugar mais quente. Há, entretanto, dias e estações em que o Tocantins aparece como mais quente do que nós.
Na transmissão das Olimpíadas, outro pecado imperdoável foi o de abreviar o Hino Nacional. Os símbolos de uma nação, aqui ou além, não podem ser adulterados, sob nenhum pretexto. São sagrados. Representam a Nação.
Senti tristeza, tanto quanto do insucesso da nossa Sarah Menezes, nascida em Timon - MA. Entretanto todos nós a consideramos piauiense, por sua vida, estudos e preparação técnica, tudo feito aqui. Sentimos a perda de sua medalha nessas Olimpíadas. Considero que foi falta de sorte, não posso acreditar em erro no julgamento dos pontos para chegar à batalha final.
Aliás, também já houve uma tentativa infrutífera de reduzir o nosso hino, o hino do Piauí, cuja letra é de um dos maiores poetas brasileiros, Da Costa e Silva. Porque nasceu aqui, seu nome permanece um pouco desconhecido dos fazedores de antologias e livros escolares, com sede no Sul e Sudeste, mas principalmente no Sul – São Paulo.  Este e outros males, agravados com advento do ENEM, fazem que as escolas de todo Brasil adotem uma linha predefinida e quase única de obras produzidas na Região Sul, por ordem não sei de quem, enviadas para todas as escolas do Brasil, para a rede de livrarias. Assim, como ficariam a regionalidade de nossa Educação, os problemas e singularidades regionais? As regiões, coitadas, como ficam? Que vão fazer, agora, seus literatos, geógrafos, historiadores, sociólogos e matemáticos? Será que não podemos contribuir com nada? Toda a ciência inteligente fica mesmo em São Paulo/Rio?  Toda a política cultural deve vir de lá, oficialmente de Brasília, que não sabe de nada, somente de corrupção? Mas só falam nisto quando alguns gatos pingados são presos pelo Dr. Sérgio Moro.
Quando o PT começou a mandar no Brasil, a partir de São Paulo, com o Lula e depois com a Dilma Roussef e sua “trupe”, foi que houve reviravoltas no país. Está na constituição. Os jovens não querem mais ser brasileiros, querem declarar-se de cor e assim conquistar, mesmo sem mérito, a vaga na Universidade. Para tanto basta declarar-se: – “eu sou afrodescendente”.  Todo o ensino oficial corrompeu-se: a língua e a maneira de ensinar-se (ou de emburrecer-se). Outrora, no meu tempo ainda, o Hino Brasileiro era cantado na Escola, todo dia, não apenas em dias de festa. Hoje ninguém mais sabe o seu hino. Sabe o hino do Rio de Janeiro, o hino do Flamengo, e por aí vai.
Lembro-me de uma frase bastante divulgada na imprensa do Sul, assim mais ou menos expressa: - “Vá ao Piauí, antes que ele se acabe! Era o tempo da Ditadura de 1964, mas o Piauí tinha um ilustre homem, aliás, dois, nos altos escalões: Petrônio Portela e Reis Veloso, no tempo do Geisel e sua abertura “lenta e gradual”. Então, Alberto Silva era nosso Governador. Foi quando ele, com sua equipe “karnaquiana” de jornalistas cunharam a seguinte frase que veio a apagar definitivamente aquela: - Venha ao Piauí, antes que você se acabe!
Nunca mais tivemos governador como o Alberto Silva, que amava o Piauí e tinha coragem de dizer aos quatro ventos, não importando de onde viessem os maus ou os bons sopros.  Quando teremos outro Governador assim, que cuide de divulgar, da melhor maneira possível, o nosso Piauí? Louvo pessoas como ele, o Alberto Silva; louvo pessoas como Niéde Guidon, que deu sua vida e sua alma pelos sítios encantados e as riquezas arqueológicas da “Serra da Capivara”, muitas vezes precisando brigar com as autoridades. Louvo os citados Petrônio Portela e Reis Veloso, que merecem nossas maiores homenagens pelo que fizeram pela nossa terra.


domingo, 21 de agosto de 2016

A FILOSOFIA ONTEM E HOJE - MEMÓRIAS


Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da APL-PI


Pra começo de conversa, tudo muda, “o tempo é senhor de tudo”, minha mãe recitava em um dos seus velhos poemas. Dizia, como segurança, que era criação de um dos seus tios. Mas nunca se referiu ao nome do poeta. Desconfio que já fosse uma coisa caída na vala do popular, já não tinha dono.

Mas a vida, se bem observada, é um constante fluir. Não sei em que setor isso é mais notado. Aprendi o que é filosofia pelas doutrinas da Igreja Católica, a filosofia tomista. Eis a definição encontrada em Teobaldo Miranda Santos, em seu “Manual de Filosofia”: “É o conhecimento cientifico que, pela luz natural da razão, considera as causas primeiras ou as razões mais elevadas de todas as coisas”

Não sei se entendia ou não, mas ficava sempre em busca de mais.

Outros conceitos me vieram mais tarde, especialmente os provindos do existencialismo de Sartre e Camus, muitas vezes misturados com os do marxismo. Por falta de espaço, talvez nem todos possamos analisar aqui.

Fui aluno da Faculdade Católica de Filosofia, Curso de Língua e Literaturas Portuguesa e Brasileira. No primeiro ano, geral para as turmas dos demais cursos, estudava-se filosofia. E eu demonstrei não ser um bom aluno de filosofia, o professor era o Pe. Raimundo José Ayremorais Soares. Uma de minhas piores notas foi a de Introdução à Filosofia, talvez porque eu me recusasse a aprender qualquer filosofia que não se estribasse no marxismo da época.

Mas os tempos se foram, o marxismo também, especialmente em filosofia. Nas ciências sociais ele deixou marcas. Mas, em filosofia, quase nada. Por quê?

Porque uma filosofia baseada na dialética materialista fora codificada e se petrificara. Não tinha como sair dali. Era um túnel onde não se via sequer uma luzinha dentro. Não havia lugar para o pensamento movimentar-se. A filosofia, no sistema marxista, fora engessada.

No ocidente, entretanto, com suas altas e baixas, ela ia flutuando entre escolhos, trombando aqui, afogando-se acolá, pedindo socorro mais à frente...  Mas a ciência é quem progredia. Com o marxismo ou sem ele. As religiões perdiam poder. Os dogmas totalitários – comunismo, nazismo, fascismo – caíram, por insustentáveis.

O que restou no final do século XX? Um sistema formal de democracia combinado com o princípio da liberdade de mercado.

E a ciência continua a sua progressão para tudo abarcar. E a humanidade, aos trancos e barrancos, foi saindo dos regimes tirânicos e adaptando-se aos princípios da liberdade de mercado, de ir e vir, de crescer e distribuir, de viver. Ao contrário, o comunismo só “pensava” em distribuir, mas na prática, não. A burocracia do partido único deu no que deu. Ninguém mais acredita em política marxista. Todos nós somos iguais porque somos seres humanos, mas somos todos desiguais também por isto mesmo, e só assim poderemos ter a escolha de ser humanos.

A ciência progride ininterruptamente. Quem não acredita na ciência, hoje? Nem as religiões mais “caretas”, salvo aqueles credos desumanos que colocam seus rapazinhos já com armas na mão, ensinando que quanto mais matarem, mais terão virgens a seu dispor, no céu: OS TERRORISTAS.
E a filosofia? Não há mais filosofia?

É dentro da ciência que se acolhe a filosofia, hoje.  Não há mais filosofia sem ciência. Por isto é que um dos maiores estudiosos do nosso tempo, Edgar Morin, diz:

“A ciência impõe, cada vez mais, os métodos de verificação empírica e lógica. São as novas luzes da Razão. E parece que as luzes da Razão rejeitam, nos autos do espírito, mitos e trevas”.

Assim, quais são os grandes filósofos de hoje?

Pergunta difícil de responder. Pode-se pensar, inclusive, que os chamados filósofos da atualidade se escondem sob a capa de economistas, historiadores, sociólogos, etc. E isto é um perigo. O último grande filósofo, que também era romancista, foi Jean-Paul Sartre, pregando o existencialismo. Mas antes dele, já os romancistas russos Dostoiévski e Tolstói já haviam descoberto o pensamento filosófico que deságua no existencialismo sartreano e camusiano.

A filosofia virou poesia, virou romance, virou literatura, virou humanismo. Lendo os grandes poetas como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade, neles encontramos poesia. Até em algumas (poucas) musicas letradas de um Caetano, de um Vinicius de Morais – surpreendentemente.

Mas, se queremos realmente uma definição, temos que voltar a um pensador como M. Garcia Morente:  “Não se pode definir filosofia antes de fazê-la. (...) Só se sabe o que é filosofia quando se é realmente filosofo”.

Tudo o que se disse é pouco. Então, voltamos ao início: Filosofia significa a própria sabedoria (Sócrates, Platão, Heródoto, Tucídides e outros filósofos gregos), e não apenas o amor à sabedoria.

E como é que fica a religião, a Teologia? Outrora todos os conhecimentos do homem se resumiam na Teologia. Depois, esta ficou tripartida como hoje, assim: - a Ciência – Trata da natureza do homem e de todas as coisas; a Filosofia – trata da alma, do espírito, da sabedoria; a Religião - trata da transcendência, logo, de Deus. O perigo das religiões são os dogmatismos e as idolatrias.
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