quinta-feira, 29 de outubro de 2020

 


A METÁFORA DE CADA DIA

 

         Maria Helena Ventura*

         

A poesia está na entranha

entre prisões de pedras

duras magras frágeis

como um veio d´água

sem margens

            

          Francisco Miguel

 

Assim começa o grande poeta piauiense Francisco Miguel de Moura a sua Antologia, Edições Cirandinha, Piauí, 2006, setenta composições por ele escolhidas para celebrar quarenta anos de actividade poética.

          Celebração plena só com os leitores, com quem estabeleceu uma identidade sólida dentro e fora de fronteiras. Essa empatia resulta da qualidade da obra feita, da autenticidade que dela se desprende e com a qual o autor pondera a razão das componentes essenciais da sua vivência: “mordo a metáfora de cada dia”.

          Tudo o que transborda do íntimo cativa o outro, o próximo, ansioso por se irmanar na mesma “busca em palavra” (Minha busca). Sem constrangimentos ou falsos pudores, sem comprometimento com esquemas métricos como ele mesmo diz (Como Fazer) sem preocupações ainda com consensos da crítica, o poeta descodifica com desembaraço uma cartografia de sentimentos, itinerários íntimos, únicos, e ainda assim intemporais e tão familiares a toda a gente.

Fá-lo como se levitasse sobre as coisas, sobre os outros, alcançada uma paz dentro da inquietação que mais não é que distanciamento calculado, sabedoria temperada com os condimentos do percurso social e o aroma da aventura literária. O ritmo nem sempre é o mesmo: ou verso livre, de medida curta e longa, ou soneto finamente elaborado. Igual é a sonoridade expressiva, a riqueza lexical. É o jogo obsessivo das palavras sob o constante bailado das ideias.

Original, às vezes irreverente, Francisco Miguel de Moura oferece aos leitores, nesta sua selecção de poemas, as palavras que o confortam. Não para desvendar urdiduras ficcionais, mas para partilhar o indizível das lembranças e “deslembranças” que permanecem. Que outra dádiva poderia ser maior do que desnudar a alma sem artifícios, mostrando como é seguir o caminho igual a ninguém, a não ser a si mesmo, trabalhando a palavra, o pensamento, a vida?        Trabalhei, trabalhei:/Há outra forma de amar? (A Casa).

Francisco Miguel de Moura revela-se um poeta extremamente moderno na alternância das conjugações estróficas, por onde espraia uma consciência crítica de ser social inteiramente livre (Que País é Este; Contrastes). Livre mas não apartado. Inequívoca é a sua determinação em auscultar as contraditórias pulsações do Tempo, uma entidade recorrente ou omnipresente no seu trabalho poético. Porque a verdade é que há, como ele diz,

 um tempo acumulado em tempo-sim

  e um tempo esvaziado em tempo-não”

                                                          (O Tempo Existe).

E porque o Tempo existe vestindo diferentes máscaras e esmaga a lúcida tarefa de as enfrentar a cada passo, o poeta reconhece o dispêndio de energias para tão efémera viagem. Daí que reitere a vontade de experimentar todas as emoções de ser vivente,

“ganhar as estradas incultas

 e abraçar novos sentidos”

            (Era o Tempo de Pintar)

com a consciência de que “um dia a mais é sempre um dia a menos” (A Bela e a Fera).

No entanto, para melhor aproveitar os fluidos luminosos do presente efémero, ou aumentar a vantagem redentora do tempo-sim, Francisco Miguel de Moura expressa, no final da Antologia, a única forma de poupar a si mesmo algumas parcelas de sofrimento, escapando ao remoinho do tempo esvaziado:

“Quero viver do ideal concreto

quero arrancar de mim o coração

incapaz de conter todas as dores”

                              (Querenças)

          Foi com a cúmplice emoção de quem desfralda velas em palavras que recebi a minha quota-parte do abraço de Chico Miguel na sua Antologia, o abraço longo e comovido de um poeta maior aos seus fiéis leitores.

 

_______________

Maria Helena Ventura, poeta e romancista, vive no Concelho de Cascais, Portugal. É membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade de Geografia de Lisboa e da IWA - International Writers and Artists Association (EUA)

 

sábado, 3 de outubro de 2020

COMO FAZER UM POEMA

 

                   Francisco Miguel de Moura*

 

 

Um poema não se faz com água,

nem sal nem sabão:

Vida, mar-a-mar e salmão,

Qualquer peixe no anzol.

 

Um poema se faz com palavras

Da vida, do amor e do sonho.

 

Um poema não se faz do nada,

Nem de tudo se faz um poema.

 

É preciso ter raça e graça

É preciso ser homem.

 

E viver tantos sóis quanto o sol.

 

_______________

 

*Francisco Miguel de Moura é o poeta que mais escreveu poemas desde que nasceu, isto é o que se chama poeta nato. Embora este poema tenha sido feito e refeito e publicado noutro lugar da internet, este fica como a semente do outro, para que a história e os estudiosos registrem isto no futuro.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

VISITANDO MEUS MORTOS - SINHÕ DO DIOGO


                                  Fotos de Sinhô do Diogo e Rosa - Miguel e Josefa

                                                                                              

                                          Francisco Miguel de Moura*


        Há dias que não escrevo em prosa, dedicando-me apenas à poesia e a diversas leituras, inclusive da Bíblia. Hoje, porém, tive que suspender tais afazeres para escrever esta pequena crônica de saudade e de dor, sobre muitas coisas que me martelavam aqui dentro.

        Em primeiro lugar, por ter recebido a notícia da morte de Tio Toinho de Sinhô do Diogo, residente em Francisco Santos-PI.    Deixando estas notícias dolorosa por mais um pouco de tempo, veio em mente nosso saudoso e conhecido Jenipapeiro, onde o velho Sinhô do Diogo, meu avô, estabeleceu-se. Sua prole foi de 11 filhos, sendo 4 (quatro) homens e 7 (sete) mulheres, cujos nomes estão em meu livro “Miguel Guarani, Mestre e Violeiro", totalmente esgotado, do qual fiz lançamento em Francisco Santos, Santo Antônio de Lisboa e  Picos.

        Sinhô do Diogo veio de onde e por quê?  Já saberá quem me venha a ler minuciosamente. 

    Feliciano Borges de Moura, seu nome completo, nasceu e criou-se na localidade Cabeças, do município de Picos. Já homem feito, partiu de lá não se sabe por quais aventuras e chegou em Jenipapeiro, fixando-se no lugar que depois se chamaria Diogo, acrescido da palavra Sinhô. No Diogo, casou-se com Rosa Maria da Conceição, na verdade Maria da Conceição Rodrigues, filha de Quincas Rodrigues (ou Chaves), descendente do tranco das duas primeiras famílias de Jenipapeiro (Rodrigues, Sousa, Chaves e Silva).

        Acrescente-se que a localidade Diogo situava-se do lado direito do rio Riachão. Também, mais ou menos na mesma época, um moço, de nome Simplício Pereira dos Santos, nascido em Picos,  da mesma forma que Sinhô do Diogo, se aventurado para as bandas do Vale do Riachão e estabeleceu-se á margem esquerda do rio Riachão – naquele tempo tudo município de Picos. Aquele local onde morava e viviam os filhos de Simplício Pereira era conhecido na época pelo apelido de "Pereiras", ou seja, o "Diogo dos Pereiras", que, com muito tempo passou a ser chamado de Diogo II. Ele casou-se, em primeiras núpcias, com uma moça que era filha dos descendestes de Mãe Ana, ramo dos Sousa, minha bisavó materna, de cujo consórcio nasceram muitos filhos, entre os quais o que viria a ser o Coronel Chico Santos (Francisco de Sousa Santos, casado com Balbina de Moura Santos), que dominou Picos, por muitos anos, por sua riqueza  e habilidade nos negócios e nas amizades. E, em segundas núpcias, Simplício Pereira dos Santos casou-se com uma parenta, também das famílias primitivas de Jenipapeiro, era o Zuca Chaves (ou Sousa). Isto está na história do “Município de  Jenipapeiro”, escrita pelo Pe. Mariano da Silva Neto, um primo em segundo grau,  de minha mãe, da família dos Silva, que também faziam parte daqueles dois casais de baianos que colonizaram a terra, sendo que muitos descendentes deles seguiram desbravando rio abaixo e rio arriba, pelos lugares denominados de “Riachão” e “Rodeador”, respectivamente hoje ditos “Mons. Hipólito” e “Santo Antônio de Lisboa”, municípios independentes do meu Piauí.

        Agora, sim, vem a explicação de como Feliciano Borges de Moura tornou-se Sinhô do Diogo. Chagando ali, fez roças para a lavoura e criou animais (jumentos, burros e cavalos, tão necessários para transporte e viagens, naqueles tempos, ao lado de gado vacum, ovinos e caprinos, sem dispensar os suínos e galináceos. Na sua casa não faltava nada. Nos natais e fins-de-ano havia sempre festas com matanças de animais (bois e porcos sevados para este fim), quando convidava seus amigos de perto e de longe. Lembro-me de uma coisa bonia: músicas (harmônica) e danças dos casais ali reunidos. Não esqueci jamais da iguaria chamada chouriço que era servida para todos. E nós, crianças, seus netos, comíamos até ficar de bucho inchado.

        Quando chovia, todos os filhos e filhas iam para a roça, semear, limpar e colher. Todos pegavam no cabo da enxada, como se dizia. Assim, na plantação e na colheita. Mas não era só isto. Meu avô foi um grande trabalhador, no verão, fazendo as vazantes:  Era o cultivo do alho e da cebola no leito do rio. E antes, na época das chuvas, fazendo roças num lugar bem distante, batizado de “Caldeirões”.  desbravando aqueles sertões de Piauí até encontrar-se com as divisas do Ceará, cultivando e colhendo imensas safras de farinha de mandioca e feijão. E se mais não fez, foi por falta de tecnologia que naquele tempo ainda não existia, para perfurar poços. Ao chegar no sítio “Caldeirões”, ele encontrou uma espécie de terra com algumas rochas, onde construiu os caldeirões que guardavam água das chuvas alguns meses. E ali se estabeleceu, ficando até terminar as desmanchas (farinhadas), para vir para a beira do rio onde plantava suas vazantes.

        Lembro-me bem: Quando ainda menino estive nas desmanchas (hoje chamadas da farinhadas), tempo muito animado. Eu outro primo, o Chico de Sinhô, neto que ele criava, da minha idade, percorríamos as roças,  indo  até longe, com o perigo de nos perdermos, na chapada. E assim, mais distante daria para avistar o que chamávamos de morros. E sonhávamos para que meu avô chegasse até lá, para subir e aumentar a paisagem à nossa vista.

        Outra coisa que me marcou mito foi aquela de quando eu ficava com meu avô:  Durante as férias, meu pai voltava para Aroeiras do Itaim, onde era professor. Eu, que já sabia ler, encontrei nas suas malas e baús de meu avô, alguns livros de Castro Alves e Casimiro de Abreu, e também um “Manual de 100 Cartas de Amor”. Então me abeberava em leituras que não a da escola, o que muito me aprazia. De passagem, diga-se que o velho Sinhô do Digo era apenas alfabetizado. Ensinou a Miguel (meu pai), as primeiras letras e lhe deu o encargo de passar essas mesmas primeiras letras aos demais irmãos e irmãs. Sinhô do Diogo, escrevia muito pouco, e ainda com muitos erros de ortografia. Percebi, ao ler algumas cartar que me escaparam do envelope: Seriam cartas e respostas que ele recebia e fazia a outros amores que não ao de minha avó Rosa. E, já no final da vida, de uma dessas suas paixões, nasceu a última filha fora do casal, mas sempre por ele considerada como filha legítima, embora nem toda a família aceitasse tal coisa. Mas ele era o Sinhô do Diogo, isto é, quem mandava nos filhos e filhas, assim como nos genros e nas noras, com muito amor à sua maneira.

        Outra lembrança forte é que ele gostava muito de caçar e era sempre bem sucedido, sempre voltava com alguma caça. Eram tantos os animais que caçava, de tatu a tamanduá, de veado a onça pintada, que chegando em casa e tratando-as com carinho enchiam uma corda grande ao sol, cuja carne servia para muitos almoços. Outra característica é que quando saía para caçar levando, espingarda, chumbo e todo adereços necessários, levava sempre a cabaça de água para matar a sede. E se espraiava pela mata e só voltava quando tivesse o resultado da caçada. Deixava a cabaça de água debaixo de uma árvore frondosa, aventurava-se por todos os lados, bem distante, e nunca perdia a noção de onde deixara a água e alguma comida na mochila. Só voltava para casa de manhã, trazendo caças miúdas e até veados e onças, que ainda existiam naquele tempo. Mais eu teria a dizer, para contar tudo, mas preciso escrever um livro,  que não tenho mais tempo nem forças para fazê-lo.

______________________

       *Francisco Miguel de Moura, autor desta crônica, é poeta, contista, cronista, romancista e crîÍico de literatura.
  Mora em Teresina, PI, Brasil.

sábado, 29 de agosto de 2020

 


TERESINHA DE JESUS MOURA ALMEIDA

      (Informações colhidos por Francisco Miguel de Moura)

DADOS PESSOAIS:

NOME: Teresinha de Jesus Moura (em casa, seu nome era abreviado para Teresa)

NOME DOS PAIS: Miguel Borges de Moura e Josefa Maria de Sousa

DATA  DE NASCIMENTO: 04-11-1934, Jenipapeiro-Picos-PI

DATA DE FALECIMENTO: 02-12-1969, em Picos -PI, vítima de uma intervenção cirúrgica para retirar pedras na vesícula, operação feita pelo médico Dr. Warton Francisco Neiva de Moura Santos, no Hospital de Picos, aos 34 anos de idade. Foi sepultada no Cemitério de Jenipapeiro, Picos-PI.

NOME DE CASADA: Teresinha de Jesus Moura Almeida era casada com Mariano Rodrigues de Almeida, seu primo.

FILHOS: Francisco de Moura Almeida,

- Maria Wilma de Sousa Almeida,

- Wirlândia Maria de Moura Almeida,

- Wanda Maria de Moura Almeida,

- Mariano Rodrigues de Almeida Filho e

- João Eliézio de Moura Almeida

PROFISSÃO: – Durante toda sua vida ativa, foi professora: primeiramente em Rodeador (hoje Santo Antônio de Lisboa-PI) e, depois de casada, em Jenipapeiro (hoje Francisco Santos-PI).

OBSERVAÇÃO:

          - Estes dados foram colhidos por Francisco Miguel de Moura e sua irmã Helena Josefa de Sousa, além de uma certidão de óbito datada de  25-02-1970, firmada por Alzira da Rocha Sales - Escrivã do Registo Civil, com base em declaração de seu marido: Mariano Rodrigues de Almeida.


 [MM1]

sábado, 15 de agosto de 2020

CHEIROS DE TERESINA (1852-2015)

CHEIROS DE TERESINA (1852-2015)

 

                                                                                    Francisco Miguel de Moura*

 

           O perfume desperta a mente para o amor, para os amores. Seja de rosa, cravo, jasmim ou de manjericão, seja de mato agreste, seja de planta plantada nos jardins e ruas da cidade.   Mesmo os piores cheiros nos levam a pensar em algo que conhecemos, em acontecimentos que nos passaram, em músicas que foram ouvidas, em lugares que foram gravados na memória.

Sinto os cheiros de minha cidade: mato verde na época chuvosa e até na primavera quando os pau-d’arcos floram em roxo e amarelo. Não há visão melhor do que essa, nem cheiro mais agradável do que o cheiro dos ventos gerais de junho e julho, estendendo-se até agosto, especialmente quando se sobe o Parnaíba de canoa ou o atravessa para Timon. Mas também quando deitamos na varanda de nossas casas, diante dos quintais e jardins. Ainda existem jardins e quintais verdes nesta Cidade Verde. É o milagre do amor de seus filhos.

Como nos tempos das rodas da Praça Pedro II, com saudade sinto o cheiro das meninas, moçoilas, das moças, enfim das mulheres passeando no Teresina Shopping e no River Side, com os mais variados risos. E me abebero da poesia do hoje, esqueço as tristezas e contrariedades do ontem, e começo a sentir-me feliz por viver. Porque perfumes de mulher, seja namorada ou amiga, conhecida ou desconhecida, se confundem com os de Teresina. Teresina foi menina, hoje mulher. E como passaram os anos, sua feição como cidade transforma-se em metrópole, com suas virtudes e seus defeitos. Restam ainda uns restos do centro, da Frei Serafim e de uns poucos bairros como a Piçarra e a Vermelha.

Mesmo assim desfigurada, gosto de você, onde tenho morada desde 1964. Mas, conhecia de antes. Do tempo do seu centenário, quando cantei em versos. E de antes ainda, de passeio e de viagens a serviço. Ai, Teresina, do tempo em que se podia sentar na calçada até meia-noite, jogar conversa fora com os vizinhos e visitas, pegando os ventinhos das 9 horas da noite, que correm da serra e do mar distante!  Ventos que Fontes Ibiapina apelidava de o “parnaibano”. Como era bom, até bem pouco tempo, tomar sorvete na Avenida ou na Praça Pedro II, depois de assistir ao filme do Cine Royal ou uma peça no Teatro 4 de Setembro. Gosto de Teresina como quem gosta de sorvete de goiaba, abóbora, bacuri, caju e manga, de todas as frutas que nos enfeitam, nutrem e engordam, enfim. Gosto da cajuína, hoje registrada como bebida genuinamente do Piauí. Gosto de Caetano Veloso porque fez aquela canção que ficou famosa no mundo inteiro, oferecida a Torquato Neto, o poeta desta cidade, pois nasceu e viveu aqui menino e parte da juventude, por isto cantou-a, cantou-a e se encantou.

São tantos os cheiros que trescalam e nos enchem as narinas e os ouvidos que ficamos tontos.  Assim, podemos beijar e abraçar, os nossos e os que chegam. Aqui não há ninguém de fora, todos os que ficam são nossos. Vejam o poeta Hardi Filho, que veio do Ceará, hoje um dos piauienses mais legítimos; o cronista Deusdeth Nunes (Garrincha), cearense que certo dia teve a tentação de voltar para Fortaleza: arrependeu-se; logo estava de volta pra nossa santa Teresina.  São os feitiços que somente as mulheres têm. Toda mulher tem seus feitiços. Teresina tem seus mistérios, seus encantos. Quem a conhece bem? Não posso dizer que a conheço, posso afirmar, sim, que me perdi um dia no Parque Piauí e, para me localizar e encontrar o que estava procurando, tive que me valer do celular e pedir a minha secretária o endereço e o telefone da pessoa.

Teresina é grande demais para mim. É certo que aqui faz calor, especialmente nos b-r-o = bró. Mas, quando alguém se queixa do clima, costumo dizer:

– Vocês já imaginaram como seria Teresina menos quente? Estaria cheia de paulistas e cariocas, amazonenses e goianos, mineiros e gaúchos, trazendo outros cheiros.

Mas eu prefiro mil vezes os perfumes já conhecidos: não terei o trabalho de ficar procurando que tipo e que flor. Vem de onde? Não vem, é daqui mesmo.

       

                                        ***

*Francisco Miguel de Moura, poeta, cronista, contista, romancista crítico de literatura e artes, mora em Teresina, PI, de 1964. Está crônica é inédita, faz parte do seu livro inédito, de crônicas, denominado “Conversas Silenciosas”, e prefaciado pela escritora portuguesa Maria Helena Veutura. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

 SONETOS  SER MÃE e SER PAI - Coelho Neto/FRANCISCO MIGUELDE MOURA


          Somente nesta manhã tive a folga necessária e a lembrança mais ainda de enviar-lhe a paródia "Ser Pai", depois de um belo dia dos pais, junto com os filhos e netos, uns em presença online, outros apenas por telefone, e por ultimo, a que mora comigo, a qual tratamos por Mecinha. Não citei minha mulher, D. Mécia, em primeiro lugar, que sempre me acompanha nos dias felizes quantos nas horas de tristeza ou doença.
Mas, como disse Jesus, os   últimos serão os primeiros., aqui também nesta citação.  

 Mas, como disse Jesus, os que os  últimos serão os primeiros.      

Primeiro, vai o soneto “Mãe”, do fecundo poeta Coelho Neto, que ao falecer já havia publicado 100 obras. Maior do que ele, na literatura brasileira, em fecundidade, somente o nosso querido Assis Brasil que já anda perto das 200 obras publicadas em diversos gêneros, exceto em poesia.

          A particularidade de Coelho Neto é que ele só publicou, ou deixou publicar, um poemas, que o inolvidável soneto “SER MÃE”. Outra particularidade: É que ele, quando esteve no Piauí, fez uma palestra no Teatro 4 de Setembro, e ao fim da palestra denominou nossa Capital, Teresina, de “Cidade Verde”.  

 

 SER MÃE

Coelho Neto(1864 – 1934)*


Ser mãe é desdobrar fibra por fibra

O coração, ser mãe é ter no alheio

Lábio que suga, o pedestal do seio,

Onde a vida, onde o amor, cantando vibra.

 

Ser mãe é ser um anjo que se libra

Sobre um berço dormindo, é ser anseio,

É ser temeridade, é ser receio,

É ser força que os lares equilibra.

 

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,

Espelho em que se mira afortunada,

Luz que lhe põe nos olhos novo brilho.

 

Ser mãe é andar chorando num sorriso,

Ser mãe é ter um mundo e não ter nada,

Ser mãe é padecer num paraíso!

 

_________________

*Coelho Neto, nome literário de  Henrique Maximiano Coelho Neto, nascido em Caxias-MA e faleceu no Rio de Janeiro. Filho de índia e português, escritor prolífico (cronista, contista, romancista, folclorista, crítico de teatro). Orador e político, ocupou vários cargos de importância na República, pois era abolicionista. Agitador nos meios universitários (São Paulo, Recife, Rio). Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Num discurso inflamado no Teatro 4 de Setembro, em Teresina, chamou nossa Capital de “Cidade Verde”. Poeta de um só soneto, mas admirável e popularíssimo.  


SER PAI  (Paródia)

          Francisco Miguel de Moura

SER PAI

 (Paródia ao soneto “Ser mãe”, de Coelho Neto)

 

Ser pai é ganhar mais, libra por libra,

Para que o filho não se torne alheio,

Nem precise ir embora do seu meio,

Da família, onde a infância se equilibra.

 

Ser pai é sofrer só... Filho nem liga

De pai ficar em casa a noite inteira,

Se tem mãe que lhe vele à cabeceira,

Por isso o pai, coitado já nem briga.

 

E assim desce ao boteco e perde o brilho,

Embora lhe acompanhe um amor capaz

De voltar logo e aconchegar o filho.

 

Ser pai é se zangar quando está liso,

Ser pai é sofrer muito e ser capaz

De sorrir, padecendo o prejuízo.

 

                           Francisco Miguel de Moura

                                    

                                      Teresina, 25/02/2012

 

OBSERVAÇÕES:
            Sem o belo soneto de Coelho Neto, o meu SER PAI” não existiria, por que é uma paródia. Significa que sem a mãe, não haveria o pai. Ambos são constantes da “Antologia: Poemas e Poetas Mais Amados”, de minha organização, já editada pela Academia Piauiense de Letras, e ainda não publicada, onde o conterrâneo está presente com dois poemas, que, embora curtos, são bem expressivos de sua boa poesia em todos os seus livros.

 

 

domingo, 26 de julho de 2020

CARRO DE BOI - Soneto



          Carro de boi que não geme não é bom,
              carro de boi   bom é gemedor”.  
                                   (Do Cancioneiro Popular)

Eu bem me lembro... Era o carreiro indo
sobre o carro de boi, a carga imensa,
pela estrada do engenho perseguindo,
chicoteando os bois... E a dor intensa...     

De “Maiado” e Gamela... Era o destino.
Enquanto os bois gemiam de cansados,
ele, o carreiro, assobiava um hino
para que os bois sentissem seus agrados.

Mas só sentiam dor, os bois amados,
na estrada da fazenda, chicoteados,
sem ninguém que tivesse compaixão,

Assim, eles ouviam o triste canto
do carro que puxavam por enquanto:
- O mais triste gemido do sertão.
__________________
*Francisco Miguel de Moura poeta e prosador
brasileiro, mais de 40 obras publicadas.                 

sábado, 25 de julho de 2020

EM PRETO E BRANCO


      Francisco Miguel de Moura*


A mulher é a mais linda criatura
 da mão de Deus... E é toda coração.
O que lhe falta, às vezes, na postura,
sobressalta no amor, sua razão.

Não tendo onde pegar-se, fala mais
e menos volta ao pensamento seu.
Que de tudo e por tudo ela é capaz,
de dar-te o inferno quando quer o céu.

Mulher, todo contraste está em ti,
desde a beleza ao simples seguimento,
que sobe em nuvem e desce quando quer.

Dançar, cantar... Tão leve, eu nunca vi...
E é seu mister e seu contentamento
ser mãe e enamorada, e ser mulher.
___________________
                       Teresina, 02 de julho de 2020
*Francisco Miguel de Moura, poeta e trovador.
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