domingo, 12 de agosto de 2018

Entrevista de Diego Mendes Sousa para José Nunes de Cerqueira Neto



*Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Acordo com um sonoro ‘eu te amo’ dito sussurrado e longo por minha linda musa e mulher Altair, que tem nome de estrela e de ninfa indígena, ou seja, símbolo de encantaria. Levanto e sei que o dia será outra alegria por estar vivo. Tenho metas e sonhos, busco-os um a um. Guardo a noite anterior, porque também acredito no eterno. Apesar de ser escritor desde menino, não cumpro o ritual da escrita. Deixo-me levar pela fluidez das palavras. Sou chamado, não procuro. Não racionalizo. Meu diálogo com o texto literário sempre foi isento de trabalho, de exaustão e de procura pela fibra lírica exata. Tenho o ritmo da profecia. Sou da linguagem e filho de uma língua maternal.
*Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Tem algum ritual de preparação para a escrita?
O instante é o meu melhor conselheiro literário. Minha poesia nasce do inesperado. Geralmente, o período noturno é-me mais fértil. É quando descanso o pensamento e sinto Deus. Vejo como é magnífica a criação! Pontuo os meus demônios e solto os meus fantasmas como pássaros – no horizonte – libertos. Escrever é como ter ouro em barra, pesando quilhas sobre as mãos. Reservo minha caneta e lanço as dores do mundo na página sem ambição. Daí a claridade, a explosão de universos represados. Minha poesia vai brotando como xanana em bruto chão.
*Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Tem uma meta de escrita diária?
Passo por silêncios assustadores. Sou poeta, não sou escritor. Creio que nunca serei um escritor em plenitude, pois sou indisciplinado e não sou afeito a rotinas.  Minha vida é cigana, vivo sempre no círculo da mudança. Renovo a minha alma e já estou – de novo – almejando céus distantes. 
*Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
Privilegiado com todas as aves poéticas deste mundo. Concentro leituras, ouço música erudita e popular, aprecio pinturas e esculturas, amo cinema e viajo bastante. São elementos que me constituem.  Leio muito, sobretudo, Poesia. Sem nenhuma modéstia, creio que tive contato primeiro e me fazem sonhar. Aliás, o sonho é o meu melhor professor. Vejo imagens inteiras durante o sono e consigo – na íntegra – transcrever o metafísico.
*Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Preservo os meus poemas por algumas horas, antes de propagá-los a outrem. Meus poemas vêm prontos. Quase nada de carpintaria. Ou nada mesmo. Tenho o domínio pleno da minha Língua Portuguesa e aprendi bem cedo a escrever de forma bela e ousada. Afinal, fui reprovado na alfabetização. Alerta de infância que me fez leitor assíduo de gramáticas e dicionários. Altair é a minha primeira leitora. Minha afiada revisora
*Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Tudo o que faço é para ontem. Não pratico a procrastinação em minha vida, menos ainda em meus projetos literários. Tenho sim, uma visão arrojada sobre literatura e jamais escrevi ou escreverei pensando sobre o que sicrano ou beltrano achou ou irá achar dos meus versos adjetivados. Sou um poeta adjetivo. O que para muitos é um defeito, para mim é motivo de singularidade e de evocação. Outro ponto, é a fragmentação das palavras sem sentido aparente, mas que guardam a música necessária ao encantamento. O divino preza pela qualidade. O dom também o nomeia.
*De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
A criatividade provém do olhar. Tento captar os instantes que me assaltam. Ler é um exercício de domínio. Mantenho o hábito de colher as palavras em estado inaugural. Busco a sonoridade de cada uma, tentando unir o lirismo à beleza.
 *Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Pretendo ser o instrumento de uma nova poética universal. Algo como fundar uma linguagem única, que identifique uma unidade sacramental e litúrgica sobre o humano e o enigma da sua existência. Gostaria de ler um tratado sobre as estrelas. Astros de luz. Cintilações, vidências noturnas. Anunciações nos tempos.
 *O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos?
Tudo. No começo, meus poemas eram plásticos, sem sentimento. Depois, encontrei o mistério e parti com força para o transcendental. Passei também pelo amor genuíno à terra natal. Hoje, estou matizando a magia de revelar o eternizável. Maduro à Olavo Bilac, vejo que fiz da poesia uma profissão de fé. Meu rito, meu sacerdócio.
 *Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Sou adepto ao papel. Escrevo à mão. É algo orgânico. Deixo a resma sobre a mesa preparada para a consumação do ato atávico. Exumo imaginações e leituras, que ficaram calhadas em mim. Mais tarde, passo para o notebook o sumo dessas revelações.

___________________

*Diego Mendes Sousa é poeta essencialmente. Autor de “Metafísica do Encanto”, “Fogo de Alabastro”, “Candelabro de Álamo”, dentre outras.  Postagem por Francisco Miguel de Moura


terça-feira, 17 de julho de 2018

SENSUAL ALICE e RESPOSTA DE ALICE


1.
 Francisco Miguel de Moura*

Foi na queda da minha meninice,
desaguando na minha juventude,
que me veio à cabeça esta virtude
de te gravar no coração, Alice.

Tu brincavas na praia, ondas salgadas
vinham quebrar-se nos teus pés, sem pejo.
Aproveitar meu prematuro ensejo
seria um céu. Perdi nossas pegadas.

Sonho as curvas da praia, as curvas tuas,
como o seio nascente que guardavas.
De tanta coisa, desejei só duas.

Na noite, as mãos levíssimas de sondas...
E entre séria e risonha te afastavas,
levada docemente pelas ondas.                  
                             The /Dez. 1966




2.
  Francisco Miguel de Moura*

Altas ondas do mar... Tu me encantaste
Mirando o verde-azul dos sonhos teus.
E eu que pensei ser ordem de meu Deus,
Me deixei ser a flor presa a tua haste.

Mas foi triste a ilusão! Eu, noutro plano,
Jamais despertaria os sonhos teus.
Se nos amamos tanto em tal engano,
Continuaste, enfim, sem meu adeus.

E assim, no longe e perto, e separados,
Não sou flor, nem o fruto que sonhamos:
Sou a linda sereia destas águas.

Nossos rastos são rastos apagados
Pelo tempo e a forma do que amamos:
Nossas saudades não se tornem mágoas.

                                    The/Jun./2018
______________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina< PI,
publicou em 1966, o soneto inicial, sua estreia com o livro "Areias" e recentemente resolver fazer a "Resposta de Alice", para completar o quadro poético. Se gostarem, por favor, escrevam para o meu e-mail:
franciscomigueldemoura@gmail.com


segunda-feira, 16 de julho de 2018

BRINCANDO DE COMETA

Francisco Miguel de Moura*


Um poema sem meta
Para quem não me quis,
Mesmo que esse alguém
Que a gente quis e não nos quis
Seja apenas um malmequer
Em forma de mulher
Que a gente desfolha
(Ou descarta?)
Pelo prazer do jogo
Com quem às vezes se tem
E mil vezes passa e não vem.

É que só assim desfolhando,
Deflorando
Devorando
Sua alma sem palma como veio
Talvez se pudesse extrair
Uma luz da escuridão-cometa
E veria como se ama até uma coisa torta,
Suja e morta, em pedaços:
Uma folha de papel em pedra
que aparece apenas uma só vez.

_____________________________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina, Piauí, seu e-mail:franciscomigueldemoura@gmail.com

sexta-feira, 13 de julho de 2018

NÓS - SONETO CÉLEBRE DE GUILHERME DE ALMEIDA


NÓS

           Guilherme de Almeida (1890 - 1969)*              

Fico – deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- “Que é feito dela?” – indagarão - coitados?
E os amigos dirão: - “Que é feito dela?”

Parte! E se olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!
______________
*Guilherme de Almeida  é o 4º Príncipe dos Poetas Brasileiros, eleito em 1959, de pois de Aldemar Tavares. Grande lírico paulista. Membro da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 1 de julho de 2018

RESPOSTA DE ALICE


Francisco Miguel de Moura*

Altas ondas do mar... Tu me encantaste
Mirando o verde-azul dos sonhos teus.
E eu que pensei ser ordem de meu Deus,
Me deixei ser a flor presa a tua haste.

Mas foi triste a ilusão! Eu, noutro plano,
Jamais despertaria os sonhos teus.
Se nos amamos tanto em tal engano,
Continuaste, enfim, sem meu adeus.

E assim, no longe e perto, e separados,
Não sou flor, nem o fruto que sonhamos:
Sou a linda sereia destas águas.

Nossos rastos são rastos apagados
Pelo tempo e a forma do que amamos:
Nossas saudades não se tornem mágoas.
_____________         
*Francisco Miguel de Moura é um poeta e prosador brasileiro, mora em Teresina (PI), demais textos seus podem ser encontrados em: franciscomigueldemoura.blogspot.com / revistacirandinha.blogspot.com
e abodegadocamelo.blogspot.com Meu e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com
                                                                              

sexta-feira, 29 de junho de 2018

A CASA E O POETA + 9 OUTROS

A CASA E O POETA
                     Francisco Miguel de Moura*


A casa do poeta  tem por via
a fala dos irmãos com outro irmão;
de uma vida coberta de  paixão,
as confissões: tristeza ou alegria.


É um menino pequeno (como não?)
no que quis e jamais pôde alcançar,
que  sofre  tantas vezes  por amar,
quantas vezes num choro sem razão.


De medo, treme à vista do vizinho,
pois no quintal dos fundos grita e freme
um diabo nu, barrando o seu caminho.


Diante de Deus e de Nossa Senhora,
pede conformação para quem geme...
E não terá sua casa onde não mora.


AMOR, SEMPRE AMOR (1)
              
                         Para Maria Mécia Morais Moura


Eras tu a mais linda da cidade.
E eu cheguei, um matuto impertinente,
apelidado até de inteligente
por colegas, amigos na verdade.


Teus sorrisos me enchiam de vaidade
e àqueles que te tinham de inocente,
e a mim me enfeitiçaram de repente,
como ninguém calcula. Ninguém há de


saber o que lutei para ganhar-te,
para querer-me ali, e em qualquer parte,
e, enfim, nos enlaçarmos com ardor.


Fogo em que conservamos, te asseguro,
a minha felicidade e o teu futuro
para viver tão puro e santo amor.


AMOR, SEMPRE AMOR (2)


                         Para Maria Mécia Morais Moura


Mudam-se tempos, vidas e pesares,
mas, como outrora, a amar continuaremos.
Amo-te mais, não queiras nem saber,
amas-me mais agora e como sempre.


Se outrora caminhamos de mãos dadas,
era o medo do mundo e suas garras.
Já hoje nos soltamos pra andar juntos,
pra mais amar, que o nossa amor se aclara.


Teu corpo de menina e de mulher
Que tanto outrora já me deu ciúmes,
Hoje é prazer e graça como nunca.


Sendo eu feio, invulgar, e tu, tão bela
formamos lindo par por toda a vida
e abraçaremos outras se inda houver.


DEUSA


Era uma deusa humanamente bela,
de olhos molhados a deitarem luz,
sobre perdidos corações sem cores.
Desprendia paixões nos seus encantos.


Da carne, o cheiro, a tepidez, o orvalho
eram pingos da tarde... E a noite vinha.
Mas o brilho dos olhos tão intenso
iluminava  todos os caminhos.


E eu disse  - “tolo”! -  à blusa desdobrada
à brisa, que assanhava as mentes frias,
cheia da graça dos recantos da alma.


De repente,  nas asas dos seus braços
levado vi-me e, pelos céus abertos,
caírem penas pelos meus pecados.


   DESCIDA


Quantos anos que gente sobe a vida
pensando que subiu, cresceu, mudou,
a enganar-se na festa e na bebida,
pra ignorar o mundo – este robô!


Vive-se o tempo.  E as horas consumidas
em vãos gozos e gulas, sem fronteiras,
desconhecem as dores pressentidas,
e o fumo das batalhas derradeiras.


Ninguém espreita a onda dos mistérios,
da velhice, da doença e o conteúdo
de mascarados e sutis impérios.
A lei da morte apaga amor, carinhos,
porque o tempo de Deus ficou desnudo
na cruel desesperança dos caminhos.


A DEUSA NUA


Vi uma deusa solitária e nua,
a correr pelas praias. Seu segredo
era o silêncio. Eu quase senti medo
daquela cor de prata, cor de lua.


Corri para apanhá-la, ainda era cedo!
Com vergonha de mim, vindo da rua
tão faminto e cansado. E ela recua...
“Se deusa for”, gritei, “vou ficar quedo”.


E ela correu de novo... E, atrás, perdido,
desesperado, eu, louco e comovido,
queria o mel dos lábios cor de beijos.


Cego e surdo, ante aquela formosura,
seio pulsante, o’ estranha criatura!...  
Caí morrendo a morte dos desejos.


A PARTIDA


Na partida os adeuses, gume e corte
dos prazeres do  amor, quanto tormento!
Cada qual que demonstre quanto é forte,
lábios secos mordendo o sentimento.


Do ser brotam soluços a toda hora,
as faces no calor do perdimento,
olhos no chão, no ar, por dentro e fora,
pedem aos céus a força e o alimento.


Ninguém vai, ninguém fica... E se reparte
no transporte que  liga e que desliga!
Confusão de saber quem fica ou parte.
Não se explica tamanha intensidade
Amarga, e doce, e errante, que interliga
os corações perdidos de saudade.


EX-ANIMAL


Impossível falar à alma  de um
dos viventes de Deus sobre esta lida,
sobretudo o que vai na alma ferida,
ou na lembrança que não é comum.


Somos ilhas cercadas por nenhum
outro ser dito irmão.  Nada o convida
a um mínimo de esforço que dê vida
ou assunção de problemas, seja algum


conselho, bate-papo ou sofrimento
sobre ações, pensamentos e palavras,
salvo se se tratar  do testamento.


O desumano egoísmo é sem limite,
do prazer de si só faz suas lavras,
e o mundo inteiro que se dinamite.


AS COISAS QUE...


Passo a limpo os guardados, vejo a capa
de um livro de poemas que me  roeu
por ter nele o meu rosto!... Olho-o, à socapa,
tentando deslembrar quem era eu.


O mundo é diferente em cada etapa,
e a gente nem percebe que sofreu.
Já não quero  sequer buscar, no mapa,
a alma, o sonho onde ela se perdeu.


Como senti-me mal  naquele dia!
Mas me guardei daquela coisa fria
pra me esquecer, enfim, que fui um jovem.


Por que perder meu tempo em desmazelo?
Se o passado morreu já não é belo,
quero o presente e as coisas que nos movem.


CAMINHANTE


No início, para trás eram meus passos,
mesmo assim alcancei quem se atrasou
mais do que eu, quem nada me escutou.
Meus pés doíam presos a alguns laços...


De rosto, a olhar em volta do ocidente,
jamais ouvi um som de voz alheia,
sem ver minhas pegadas pela areia,
a curtir um passado inconseqüente.  


Fiz pecados tão poucos, rezei tudo.
Cansado de falar me tornei mudo,
de tanto acreditar fiquei descrente.


Atrasei-me de amor pelo vizinho,
mas descobri, agora, que sozinho
ainda posso dar passos para frente.


____________________________________________________________
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA*
    Poeta e prosador
Nora em Teresina - PI - Brasil.






















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