domingo, 26 de março de 2017

NORDESTE: A TERRA, A POBREZA E A CULTURA

Francisco Miguel de Moura, escritor, 
Membro da Academia Piauiense de Letras.

Sabe-se que o Nordeste é discriminado no Sul e consequentemente os nordestinos, especialmente os que para lá se mudam em busca de trabalho. Embora tenha sido o Nordestino quem construiu São Paulo. Depois do fim da escravidão, nossa emigração começou e foi aumentando. Chegou um tempo, ainda recente, em que os estados do Sul e Sudeste, segundo consta pela imprensa, pensaram e falaram em separar-se do Nordeste. O Nordeste fez um balanço do que eles de lá perdiam e o que, em vista disto, ganhávamos. As cabeças pensantes chegaram à conclusão de que os ganhos e perdas se compensavam e o melhor mesmo seria todos se conservarem sendo o Brasil, este gigante da América Latina. Neste bolo, é claro, entrava o Piauí, considerado o estado mais pobre da dita federação brasileira. Não sei se nosso Piauí é o mais pobre dos irmãos. Sei das riquezas do Piauí (ou pelo menos adivinho). Começamos como grandes criadores de gado, exportadores, industriais, etc. O início foi na Bahia. No livro “Roteiro do Piauí”, de Carlos Eugênio Porto, encontro o assunto assim resumido: 

“A criação de gado começou no Brasil, no governo de Tomé de Sousa, revelando-se de grande importância para a Colônia recém-descoberta. Importado da ilha de Cabo Verde, os navios que chegavam ao Brasil traziam novas cabeças que eram distribuídas entre os habitantes, estabelecendo-se o curioso sistema de pagamento às custas do rendimento de seu trabalho”.

Embora o Piauí não tenha nada, talvez somente a origem, com o modo que Portugal colonizou o Brasil, a “Terra de Santa Cruz”, pois os primeiros homens eram os bandeirantes e procuravam ouro e madeira para exportação imediata, abrindo caminhos pelos quais quase nunca mais voltariam. Não, o Piauí foi descoberto muito tarde e demorou muito a ser povoado. Era e continuou sendo uma terra de passagem entre Maranhão e Ceará. O ano 1514 é uma data simbólica. Só quando a cana-de-açúcar com seus engenhos já eram assentados em Pernambuco, o Piauí começou ser falado por causa de alguns dos seus acidentes – o rio Parnaíba, por exemplo. Assim, o apossamento das terras se deu lentamente. A indústria açucareira tinha necessidade de bois para mover as moendas; nas selvas, onde quer que houvesse uma fazenda, a necessidade de bois, também era muita, para puxar os carros e transportar o que precisassem os colonos. No Piauí – entre as serras já conhecidas e exploradas por causa da guerra contra o gentio e o grande rio Parnaíba - descobriram-se imensos campos cobertos de capim silvestre. E ali estabeleceram-se os primeiros currais, fazendas de gado que foram crescendo em número e quantidade de cabeças. Esse gado era exportado para as indústrias de Pernambuco e para a zona de mineração em Minas e Goiás, e daí sendo levado também para o Sul.

Passamos a ser muito falados, embora que não conhecido. A cantiga “O meu boi morreu / Que será de mim? / Manda buscar outro, Maninha, / Lá no Piauí”, tinha sentido: a realidade gritante. Quantos boiadeiros fizeram a vida levando boiadas para mais perto e mais longe deste Brasil?!
O Nordeste e o Piauí foram ricos. Muita gente o procurava para estabelecer-se como fazendeiro, pois a atividade era bastante rentável, embora que perigosa por causa do ataque dos índios e também dos malfeitores que infestavam a região, onde se apossavam da terra e escondiam-se da justiça.
Não se sabe nem quando foi que os fazendeiros começaram a ferrar seus rebanhos com um ferro em brasa – a marca da sua fazenda e do seu proprietário. No caso de haver um roubo, seria mais fácil encontrar o objeto e castigar o ladrão.

Com esses cuidados, os currais se multiplicavam sob a fiscalização dos vaqueiros. Continuava sendo fácil possuir um grande rebanho, pois pasto não faltava, salvo nas grandes estiagens, a partir de 1711, quando os fazendeiros tinham que procurar aonde levar o rebanho ou parte - sítios melhores e aguadas - enquanto vinham as chuvas para soltá-los novamente nos campos. Assim, os currais de criação multiplicaram-se rapidamente. O padre Cardim, em “Tratado da gente e terra do Brasil” registra “a posse, de um só homem, de 500 ou 1.000 cabeças , no seu tempo”.
Foi o engenheiro Gustavo Dodt quem escreveu, em algum lugar de sua obra, que as terras do Piauí não se prestavam muito para a lavoura. Talvez por isto, por intuição ou sapiência, quem veio colonizar o Piauí investiu no gado, inclusive por ser uma mercadoria que por si só se transportava. O historiador Carlos Eugênio Porto, registra que João de Amorim Pereira respondeu ao ministro da Coroa, em 08-04-1798, quando o rei se manifestava a favor da produção de alimentos para a subsistência da cidade: 

“A situação desta capitania é diametralmente oposta não só ao seu aditamento, mas ainda mesmo a sua conservação; as experiências têm mostrado e as razões seguintes o manifestam; em primeiro lugar, o terreno da capitania (Piauí) é incapaz da produção necessária para a sustentação dos seus habitantes, pois todos os gêneros que se consomem nesta cidade (Oeiras) vêm daqui a 10, 15, 20 léguas, em cavalos que apenas carregam 5 arrobas e fazem por dia 5 a 6 léguas de caminho, o que faz com que sejam mais caros do que em Portugal, sendo por mar conduzidos aos portos deste continente.”

Viu-se, naquele tempo, que ele tinha razão: as terras do Piauí não se prestavam à agricultura. Mas a verdade é outra: hoje está sendo provada. As terras são boas. Claro que não produzem como as do Sul. Não podem fazer concorrência a elas. Mas, para melhorar os efeitos das secas, existem as águas subterrâneas: o Piauí tem um dos maiores lençóis de água no subsolo. Só precisa que haja governos de vergonha, de caráter, de ousadia, juntamente com os trabalhos que estão sendo feitos na transposição do São Francisco, e o Nordeste chegará a ser um novo celeiro para o Brasil. A pobreza material que existe no Nordeste provém das suas políticas voltadas apenas para minoras. Só combatem os efeitos das secas e não suas causas. Políticos para adquirir votos com bolsas-famílias e outros refrigérios que fazem a pobreza dos mais pobres e a riqueza deles, os ricos. Outrora se chama isto de “indústria das secas”. Hoje está claro que é a corrupção da política geral do Brasil, tornando, enfim, o Nordeste como um todo, o filho enjeitado na Nação. Em compensação, o Nordeste é rico de tradições, artes e artistas, tanto que influenciam e fazem o Sul importar. E os sulistas se encarregam de deturpá-las. A cultura é um bem que se deve cultivar (é preciso o pleonasmo) e preservar. Porque é um bem e faz o homem mais feliz nas sociedades civilizadas.   
______________________
Francisco Miguel de Moura, o autor, é escritor brasileiro, mora no Piauí, Teresina (Capital). Email: franciscomigueldemoura@gmail.com

segunda-feira, 20 de março de 2017

A POESIA NÃO TEM DIA NEM HORA, MAS HOJE…

Francisco Miguel de Moura*.

Viva a poesia. Vivam os poetas. Hoje é 14 de março. Comemoramos a poesia nacional, mas pode ser internacional também. Que bom seria se ainda se lesse poesia como antigamente! Eu digo e provo: a não ser os poetas, os que são meus amigos, poucos lêem meus poemas colocados nas chamadas redes de comunicação da internet. E é onde se lê, e pouco, é na internet mesmo. Voltamos no tempo, voltamos à cultura visual – aquela que sempre existiu desde o homem da caverna. Temos um cérebro muito cheio de porcarias que a televisão e todos os meios de comunicação, inclusive jornais e revistas, nos metem pela garganta.

Os poetas lêem os poetas, e pronto.

Cadê Castro Alves, quase adorado pela mocidade escolar, com seus versos candentes, cheios de amor e de paixão, cheios de esperança e de crítica, cheios de natureza e de humanidade? Quem não sabia ao menos uma estrofe do “Navio Negreiro”? Ou de “O Livro e a América”? Ou uma quadrinha de “O Gondoleiro do Amor”? - Recitando as duas primeiras: “Teus olhos são negros, negros, / Como as noites sem luar… / São ardentes, são profundos, / Como o negrume do mar; // Sobre o barco dos amores, / Da vida boiando à flor, / Douram teus olhos a fronte /Do Gondoleiro do amor.”

Se fôssemos transcrever os versos mais lindos, mais fortes, mais inspirados de Castro Alves passaríamos aqui o dia, a crônica inteira, o dia e a noite. Lembremos, pois muitos não sabem, que a data que comemoramos em 14 de março é justamente a data natalícia de Castro Alves, que veio ao mundo no ano de 1847, na fazenda Cabaceiras, freguesia de Muritiba e comarca de Cachoeira, na Bahia. Para mim e para muitos é ele um dos maiores poetas brasileiros, senão o maior. Sua poesia enche de vida e sentimento a alma dos que o tocam (lêem). Pela leitura é que o homem consegue alcançar a maior sabedoria, pois poesia é intuição, luz e palavra (banhada de luz). “A sensibilidade do imaginativo desse gênero (poesia) é principalmente estimulada pela vista, pelo movimento e pelo tato”, escreve Eugênio Gomes, numa introdução à “Obra Completa”, de Castro Alves, Ed. Aguilar,1966, Rio de Janeiro-RJ. Este pensamento indica que a riqueza do poema é englobar todas as artes e ainda mais a filosofia e a ciência. Poesia, arte por excelência. Quem não lê poesia, enferruja-se, encaracola-se, cega, morre.

Ora, ora, perguntarão:

- E o que é poesia?

E eu lhes respondo:

- Poesia é vida, poesia é música, dança, teatro. Poesia é amor e também natureza. Poesia é de Deus e é Deus.

Lembro-me de quando eu estava ainda na meninice, mal tinha aprendido a ler e, nas férias frequentava a casa de meu avô paterno, Sinhô do Diogo. Ele lia, tinha um monte de livros, para a época. Contos, histórias de cavaleiros da Idade Média, poesias e até um livro de cem cartas de amor, que eu adorei, juntamente com os de poesia. Castro Alves, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Fagundes Varela e outros. Os românticos em especial. E eu comecei a aprender bem por lá. A leitura é uma das maneiras mais inteligentes de aprender-se a sentir e a pensar, amar e querer bem, a meditar, a ser gentil e humano. Sinceramente, não sei por que a cultura chamada pós-moderna, ou “pós-nada”, cancelamos o caminho da leitura. Nas escolas, nos hospitais, nas creches, no ônibus, no consultório médico, em casa sempre, sem desprezar a privada, onde temos todo o tempo e toda a liberdade de fazer e acontecer. São todos lugares de se ler e aprender.

Voltando a minhas leituras: Castro Alves era uma das minhas maravilhas. Depois conheci outros poetas: Raimundo Correia, Olavo Bilac e Camões; muitos outros portugueses, chegando a Fernando Pessoa. Dos brasileiros, degustei Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, meus mestres. Mas há tantos outros poetas bons, impossível citar todos. A poesia não tem dia nem hora. Poesia é todo dia, toda hora. Para os que não participam do maior instrumento de civilização – a leitura. Sem ela, babau! Teremos apenas analfabetizados, aqueles que conseguiram frequentar a escola e depois esqueceram-se dela, do melhor da escola: o conhecimento pela linguagem, pela luz da consciência de saber-se uma criatura pensante.

- Você está lendo o quê?

Não caia na besteira de perguntar isto a mais de duas ou três pessoas na rua. Você se decepcionará:

- Nenhum, eu nunca li um livro, me dá um sono!... E sendo de poesia aí é que não leio, pois não entendo nada da matéria.

Não entende nem vai entender. Isto e muitas outras coisas do mundo que está acontecendo a seu lado. Não direi à sua vista, pois quem não lê é cego. Você pode saber muito de estatística, de dinheiro, de bolsa, de jogar na loteria, de entender e torcer por um time de futebol, de carnaval, de pular junto com alguns “macacos” que pulam no palco, mas não tem voz, não cantam, não dizem, não sabem música. Quando muito, sabem bater tambor e outros instrumentos “modernos” mais sofisticados para fazer barulho. E nada mais. Depois de tudo, o sono (ou o pesadelo?) a troco de bebida, droga ou de algum sonífero menos maléfico. E vai gastando a saúde, vai andando para baixo. Que sonhos você terá? Nenhum.

Ah, se o mundo voltasse para a educação sem dogmatismo! Não essa que está aí, a que ensina que ninguém nasce macho ou fêmea, o mundo é que o faz. E como faz loucamente muitos outros sexos… Calemos. Eu prefiro o amor à moda antiga, a educação à moda antiga, a cultura que não esquece suas raízes, as leis que não sejam casuísticas, a democracia ao comunismo e suas variações, o casamento aos acasalamentos sem responsabilidade para com os frutos desse amor sem raízes, amor sem amor, simplesmente sexo, sexo... E dor, depois. Porque esses preparam a solidão a sós, desculpem o pleonasmo, a doença abandonada, os crimes contra a família - a célula máter da sociedade civilizada. Não, eu prefiro a poesia, o amor, a amizade, a luz do sol, o mundo verde, a doçura de um livro à cabeceira. Não digo que não uso o celular. Mas, coitado, ele foi desfigurado. E virou pura tolice. Enfim, estamos numa selva. Nus e com fome. Como nos primeiros tempos, atrás da caça que não alcançamos. Porque já a perdemos há muito tempo, sem dó nem piedade.

__________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta, membro da Academia Piauiense de Letras.

terça-feira, 14 de março de 2017

RELIGIÕES E CREDOS, O QUE SÃO?

Francisco Miguel de Moura*
       Escritor

Assuntos difíceis de dissertar-se, ou para escrever uma crônica, são: religião, futebol e política, desculpem a mistura. Cada qual tem sua ideia irremovível. Só ele está certo, ou outro não tem razão. Mas acrescento ao título de religião a palavra “credo”, e a abordagem melhora. A gente pode muito bem, crer, acreditar em algo sem que a crença seja um religião formal. Em Deus, por exemplo. As religiões cristãs todas têm uma fonte, uma origem, é a Bíblia, um conjunto de livros dos mais antigos que se conhece, inspirados por Deus e escrito pelos homens escolhidos por Ele.

Já disse algumas vezes que não conheço o assunto profundamente. Em matéria de religião, o que sei vem do catolicismo. Mas não entro aqui no mérito das religiões. Nem do catolicismo nem das religiões evangélicas, muitas vezes chamadas de credos. “Não julgueis e não sereis julgados”, como está na Bíblia.

O homem é um animal simbólico, pois a realidade não seria compreendida sem os símbolos que criamos pelo pensamento e pelos sentidos primariamente, tudo desembocando na linguagem, nas linguagens. Creio que o filósofo Arthur Schopenhauer já disse isto. Se não disse, eu digo. E mais: Arte é vida, ou melhor, recriação da vida. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus” (Evangelho segundo João, Cap. I, versículos 1 e 2).

Baseado nos princípios acima, arriscaria a dizer que o catolicismo interpreta a vida e a religião pelos sentimentos, sua simbologia é rica e emociona, sem deixar de ser racionalmente concebida, menos em alguns dogmas cuja aceitação acontece mais pela fé, o grande sentimento do homem. Em contraposição, os credos evangélicos são altamente racionais e ligados à letra da lei que está na Bíblia. Quem seria melhor? Ambos são bons credos, boas religiões. A fé em Deus os iguala. E pronto.

Estou convencido, depois de ler muito sobre filosofia e religião, de que o livre arbítrio é invenção dos homens, porque Deus está sabendo de tudo o que acontece, pois foi Ele quem criou tudo. Mas não gosto de dizer que tudo estava determinado. Ele cria e determina o essencial. Nesse ponto, Ele é tudo e nós somos um pequeno grão de poeira da sua obra magnífica. Mesmo assim nós recriamos. Foi por isto que apareceram, pelo pensamento dos filósofos, os princípios do livre arbítrio e do determinismo.

Não discuto religião simplesmente porque não sei. Quem saberá muito sobre a divindade, sobre o eterno, sobre a alma e o espírito? De modo especial, sei apenas de língua portuguesa e poesia (literatura). Creio em Deus e sei que tudo me virá por acréscimo. Se algo eu disse, em meus versos, que possa parecer contra Deus, peço perdão, e quando o fiz foi para testar minha liberdade de dizer o que quero perante os homens, não perante Deus. Ele me perdoará, pois é todo amor e misericórdia, como disse o Papa Francisco I: “A misericórdia é a carteira de identidade do nosso Deus”, numa excelente metáfora, visto que Deus é. Ele mesmo é fiel, é bondade. No livro “O nome de Deus é misericórdia” - uma longa entrevista que o Papa Francisco deu à jornalista Andrea Tornielli - entre outras coisas, o nosso Papa conta uma historinha engraçada. Perguntado sobre seus confessores, o Francisco lembrou de um grande confessor: 

(...) Mais novo do que eu, um padre capuchinho, que exercia seu ministério em Buenos Aires. Uma vez ele me procurou para conversar. E ele mesmo me disse: - Queria te pedir ajuda; tenho sempre tantas pessoas na fila do confessionário, pessoas de todos os tipos, humildes e menos humildes, mas também muitos padres… Eu perdoo muito e às vezes sinto o escrúpulo de ter perdoado demais. Conversamos sobre a misericórdia, e eu lhe perguntei o que fazia quando sentia aquele escrúpulo. E ele respondeu assim:- Vou até a nossa capelinha, diante do sacrário, e digo a Jesus: - Senhor, perdoa-me porque perdoei demais. Mas foi o Senhor que me deu o mau exemplo”.


Deus só não perdoa ao pecador que continua praticando más ações e não vai a Ele e diz (ou pensa): Eu creio no Senhor, vou voltar para o caminho do bem, cumprir seus mandamentos. Esse orgulho contra Deus é o que outrora a Igreja Católica chamava de pecado contra o Espírito Santo, e eu, ainda menino, como catequista, afirmava a outros meninos, aqueles que ainda não sabiam ler. Só esse pecador não tem perdão, visto que se trata de uma alma que não quer ser perdoada. Se não quer ser perdoada, como vai obter o perdão? Mas todas as pessoas são criaturas de Deus, logo a bondade do Senhor está sempre de prontidão para perdoá-las.

A proposta inicial deste artigo é responder a uma pergunta sobre religião e credo. Não vou deixar de responder, embora tenha ficado para o fim.

Bem, religião é um substantivo formado do verbo religar, ligar o que estava desligado. Se estava desligado, já esteve ligado. Segundo os melhores dicionários, religião é um conjunto de práticas e princípios que regem as relações entre o homem e a divindade. Já credo é substantivo que vem do verbo crer, abreviação de criar. Crer é ter fé e é confiança em alguém, em alguma cousa. Só se acredita em quem conhece. Todos as criaturas conhecem Deus, porque ele está escrito na consciência de cada. E quem diz que não crê, o ateu, está negando Deus. Logo, ele sabe que Deus existe, tanto sabe que o nega. Ser ateu é uma contradição. Seguir ou não uma religião não leva ninguém à salvação. Crer é que nos levará a quem a gente confia: a Deus, à fé e às boas ações.


________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da APL e de outras instituições no Brasil com a UBE-SP, além de várias entidades de cultura, arte e literatura, inclusive no exterior.

quinta-feira, 2 de março de 2017

“NÓS, POETAS DE 33” – JOANYR DE OLIVEIRA

Francisco Miguel de Moura
Escritor


A novidade do nosso artigo acontece no planeta Brasília. E não é de política que tratamos. Lá também tem literatura, escritores, antologias de poemas, e tudo muito bom, do mais alto nível. Recentemente me chegou às mãos “Nós, poetas de 33”, Ed. Thesaurus, 2015, Brasília – DF, uma coletânea de treze poetas, nem todos residentes em Brasília, mas todos nascidos no ano de 1933. É uma novidade, uma publicação interessantíssima. Reúne os poetas Fernando Mendes Viana, Francisco Miguel de Moura, Heitor Martins, Hugo Mund Júnior, Joanyr de Oliveira (organizador), José Jerônymo Rivera, Lupe Contrim Garaude, Maria José Giglio, Miguel Jorge, Murilo Moreira Veras, Octávio Mora, Olga Savary e Walmir Ayala. A maioria deles passaram por Brasília, na vida, viveram em Brasília por algum tempo, ou moram em Brasília, como é o caso de Anderson Braga Horta – que eu considero um dos três ou quatro maiores poetas vivos do Brasil. E ele faz a biografia crítica de Fernando Mendes Viana, o poeta que abre a antologia. Que belo ensaio! A nota introdutória é do organizador, Joanyr de Oliveira, falecido em 05.12.2009, sem ver publicada a coletânea de poetas em que tanto se esmerou, encarregando-se de tudo. É ainda de Anderson Braga Horta, um apêndice em que retrata o amigo, o poeta e seu trabalho. E é graças a Anderson que a obra foi editada, isto mostra a generosidade dos dois amigos e poetas: Joanyr de Oliveira – Anderson Braga Horta.

Claro que não vamos poder trazer a bio-bibliografia completa de cada um, muito menos de todos, mas são nomes conhecidos em todo o país desde a década de 60, século XX é claro, e até hoje continuam sendo editados, reeditados, falados, amados e antologiados. Eu diria que esta é a terceira antologia dos poetas da Geração 1960, de que fala a escritora Lygia Fagundes Teles (USP) e quem primeiro escreveu sobre a geração. Depois é que veio Pedro Lyra, com “A poesia da geração 60”, obra datada de 1995.

As orelhas da antologia “Nós, poetas de 33” são de responsabilidade de Kori Bolívia, Presidente da ANE (Associação Nacional de Escritores). E ela registra: 

“Neste momento, completando cinco anos do falecimento de Joanyr, a Associação Nacional de Escritores, da qual ele foi sócio, fundador e presidente, sente-se orgulhosa por poder compartilhar seu respeito e seu amor pela poesia. Ao lado da Editora Thesaurus, a ANE faz questão de homenagear o poeta mineiro, o professor, o advogado, o funcionário público, o pastor, o membro da Academia de Letras do Brasil, da Academia Evangélica de Letras (RJ), da Writers International Association (EUA), da Academia de Letras de Brasília, da Academia de Letras de Taguatinga e do Instituto Histórico e Geográfico do DF”.

Anderson Horta escreveu, na última capa, que Joanyr de Oliveira foi um grande trabalhador literário. Além de sua consagração como poeta, publicou contos e um romance, escreveu crônicas que foram lidas na imprensa radiofônica, manteve colunas literárias na imprensa, dirigiu revistas, ajudou a criar academias. Pode-se dizer que alcançou também posição ímpar como antologista de poesia.

Não o tendo conhecido em pessoa, lembro que mantivemos correspondência e troca de livros durante anos. Tomei conhecimento dele através da ANE, depois recebi convite para participar desta Antologia. Não me lembro bem como se deu a seleção de meus poemas. Mas lhe credito o mérito da escolha entre os livros que eu publicara e foram enviados a ele. Gostei imensamente da seleção e recomendo-a para outras publicações. As seleções dos poemas dos demais participantes também são boas. Pelo que sei, não houve preferência entre os poetas que reuniu, visto que o comparecimento à antologia obedece rigorosamente à ordem alfabética. Fiquei em segundo lugar, mas acho mesmo que Fernando Mendes Viana era o poeta do momento em Brasília, talvez no Brasil. Pelo critério adotado, ganhou a abertura do livro. É um grande poeta. Dele, disse Anderson Braga Horta: “A poesia de Fernando Mendes Viana nasceu sob o signo da liberdade e sob esse mesmo signo floriu e frutificou. (…) Poesia de instrumentação forte e voz veementemente humana, transfunde-se no corpo verbal adequado a seu profundamente atual – porque eterno - pensar e sentir os problemas do homem, enquanto ser único e enquanto célula social, mas recusa-se a quaisquer semostrações pseudo-vanguardistas (…) Isto leva Mendes Viana, desde o primeiro livro, a discernir no poeta um ser prometeico, luciferino: um demiurgo, sim, mas um rebelado, orgulhoso em sua titânica solidão (ver, a propósito, os poemas ‘Lúcifer – a Grande Lua’ e ‘Auto-Epitáfio do Senhor da Noite’)” - eis aqui um trecho da apreciação de Anderson Braga Horta.

O planeta Brasília, com a ANE – Associação Nacional de Escritores – congregando poetas do nível dos antologiados por Joanyr de Oliveira - pode equiparar-se aos grandes centros do Sul-Sudeste, em cultura e compreensão da vida, do amor, da arte, de tudo quanto completa o ser humano na sua luta incessante para a grande aventura de afirmação.

Por fim, o livro nos contempla com uma relação dos poetas brasileiros nascidos em 1933. Pelo enorme espaço que ocupa, tomando duas páginas, citarei apenas alguns dos mais conhecidos: Nelson Saldanha (Recife-PE), Carlos Cunha (São Luís-MA), Mário Chamie (São Paulo-SP), Silveira de Sousa (Florianópolis-SC), Armindo Trevisan (Santa Maria – RS), Álvaro Pacheco (Jaicós – PI) e Nogueira Moutinho (São Paulo - SP).

Depois de o mestre Wilson Martins confirmar a falta do nascimento de novas Escolas Literárias e estabelecer a divisão, de agora em diante, por Gerações, a História da Literatura Brasileira vai no rumo certo. E a “Geração 60” contém todos os defeitos e qualidades de uma geração das mudanças que ocorrerram na vida social, continuamente e tão diversas. Mas é uma geração na qual permanecem os princípios da arte: a forma e o conteúdo como instrumentos para mostrar uma realidade tão conflitante e tão mutável, num conjunto de poetas e poemáticas que conservam o grande sentido da arte: reinventar a vida, a realidade. Ou seja: renovar sem esquecer o passado.

Toda essa direção está nas antologias que conheço e, como tal, em “Nós, poetas de 33”, de Joanyr de Oliveira. Que outras antologias surjam da nossa geração, para perpetuá-la ainda mais. Brasília já deu seu recado.
____________________
Francisco Miguel de Moura é escritor e membro da Academia Piauiense de Letras.E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A HISTÓRIA DO HOMEM E A PROPRIEDADE PRIVADA

Francisco Miguel de Moura
          (Autor)

Quando a história da humanidade começou? Fala-se da civilização egípcia, também da Suméria, da Babilônia e de outras mais. Citamos o historiador Geoffrey Blainey, em “Uma Breve História do Mundo”:  

“Há 2 milhões de anos, eles viviam na África e eram poucos. Eram seres quase humanos, embora tendessem a ser menores que seus descendentes que hoje povoam o Planeta. Andavam eretos e subiam montanhas com enorme habilidade. Alimentavam-se principalmente de frutas, nozes, sementes e outras plantas comestíveis, mas começavam a consumir carne. Seus implementos eram primitivos. Se eram bem-sucedidos em dar forma a uma pedra, não iam muito longe com a modelagem. (…) Não há dúvida de que alguns moravam em cavernas – quando - quando podiam ser encontradas. (…) Esses seres humanos, conhecidos como hominídeos, viviam principalmente nas regiões dos atuais Quênia, Tanzânia e Etiópia”. 


Segundo estimativas arqueológicas, os dinossauros foram extintos há quase 64 milhões de anos. Mas as pegadas da raça definitivamente humana (dois adultos e uma criança, encontradas nas cinzas de uma erupção vulcânica recente) têm, pelo menos 3,6 milhões de anos. Se havia crianças, havia um casal, os dois adultos seriam o casal.


Até então estamos vendo os passos dados pelos hominídeos transformados em homem: desciam das árvores, começavam a caçar. E a sociedade humana teria sido começada imediatamente? Ao que parece, marcaria longo tempo até a chegada dessas criaturas humanas ao Egito e à Babilônia. Quanto lutaram e sofreram para chegar à civilização! E nós ainda nos queixamos do mundo de hoje.

Assim, não há registros confiáveis de datas, mesmo porque até a marcação do tempo pelo sol, pela lua e pelas estrelas é bem recente na história das civilização. O que nós temos (ou acreditamos) de certo mesmo está na Bíblia – conjunto de escritos inspirados pelo Deus único, segundo os hebreus. O primeiro, denominado “Gênesis”, narra a criação do mundo e o nascimento do primeiro casal humano – Adão e Eva – no Éden – um paraíso. Jardim imenso, propriedade privada deles, que perderam com o cometimento do primeiro pecado. E foi do pecado que surgiu a humanidade, a civilização, a cultura e a propriedade privada – que eles perderam para seus filhos e os filhos dos homens, o que concluímos ter sido por herança. Perdendo o paraíso, os homens ficaram obrigados a ganhar a vida com o seu trabalho, com o suor de seu rosto. Esta história mostra o começo da propriedade privada: a terra era de todos, mas precisava ser repartida. Cada um que trabalhasse para ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto. Falando em datas, a mais antiga de mais ou menos 1.850 A. C. Era na Caldeia, com o rei Hamurábi ou Hamurabi. Ele editou um código de leis, o mais antigo que se conhece. E nele, segundo já foi divulgado, havia castigos ao desrespeito da propriedade alheia, tais como: roubo, trabalho mal feito em propriedade de outrem, entre outros. Castigo maior do que o delito. Era a lei de Talião, que os hebreus modificaram para o “dente por dente, olho por olho”.

Na evolução humana, ora domina o estado sobre tudo (ele é incólume), ora domina a propriedade privada, passando o estado a ser apenas coadjuvante do poder.

Quem conhece a história, chegará aos gregos e romanos, e depois à Idade Média, com o sistema feudal. E sempre existiu a classe dos escravos, mas não como preconceito. Mais como castigo às presas de guerras. Mais como apropriação de todas as terras: regime feudal. Na História do Brasil, coisa recentíssima na história do mundo, chegaremos à escravidão especialmente dos negros e dos índios, os menos cultos e desarmados. O sistema feudal nosso funcionava com os fazendeiros e proprietários de sesmarias e gado, sem falar nos famosos engenhos de cana-de-açúcar, tudo para exportação, quando pagavam pesados impostos ao poder público em Portugal. O gado era criado solto, sistema que deu resultado nos primórdios, mas depois foi caindo ou somando-se aos donos das minas, outra forma de produzir riquezas. As minas eram de quem tinha a propriedade privada das sesmarias ou fazendas. E assim se fez a história da civilização, com base na posse de terras, na economia, no pagamento de impostos ao estado, etc. Pensando nisto é que me vem à memória do que eu via, quando menino: o gado ferrado com o ferro do dono da fazenda. Era um meio para que o ladrão fosse apanhado com mais facilidade.

Demorou muito para que o povo se tornasse político e quisesse participar da força do estado. Sem educação e sem cultura, quase sem tempo para o conhecimento do que era a vida que viviam, pois apenas trabalhavam e vegetavam, o vulgo demorou muito a tornar-se um ser político. Mas bem que queria. Dizemos assim, baseados na lição de Aristóteles, que escreveu: “o homem é, naturalmente, um animal político”. A política crescia com os meios de economizar e fazer girar essa riqueza. Daí nasceu a ciência da economia e os seus principais pensadores: Marx, Keynes, Adam Smith, entre outros.
Segundo Maquiavel, “a realidade é como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse”. Esse pensamento faz lembrar que o socialismo é uma forma de dogma político muito recente, e não deu certo em nenhum país. Do combate a seus princípios, o estado capitalista, à sua maneira, adaptou o que havia de melhor: direitos trabalhistas, planos de benefícios sociais e de aposentadoria.

Conclui-se que a propriedade privada só fez crescer desde o início da civilização. Não quero dizer que seja o melhor sistema econômico, mas é o que mais prosperou e fez o avanço em busca do homem moderno, com incentivos à educação, cultura e ciências, e ocasião para o implante das democracias. Desse estudo, além das marcas de ferro no gado de criadores do Brasil, mutatatis mutandis, ficou-me ainda a palavra “privada”, um espaço onde a tranquilidade do indivíduo reina. O leitor pode imaginar se todas as privadas fossem públicas? Seria uma vergonha e muita sujeira. Nos tempos de economia em baixa, o capitalismo pode e deve ter o bom senso de usar sanitários mistos, em parte para uso privado e parte para uso público, mas é somente nos momentos de crise. A privada pública, além de ser contrassenso, é sujeira só, onde a população tem direitos, mas não têm direito a nada. Nem ao seu momento de privação, descontração e asseio. Na mesma linha de raciocínio, dizemos que o Mercado asseia o capitalismo, enquanto o socialismo emporcalha o Estado.

____________________

Artigo que será publicado no Jornal "O Dia", 24 de fevereiro de 2017, de autoria de Francisco Miguel de Moura

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PRISIONEIROS NO PRÓPRIO LAR

Francisco Miguel de Moura
        Autor

Neste momento cruciante da nossa vida civil e política, econômica e patriótica, somos submetidos às penas de prisão domiciliar, sem ter cometido nenhum crime, como vimos recentemente no Espírito Santo. E a população que se arriscava a sair à rua pra comprar alimentos ou remédios, entre outras coisas urgentes  - como enterrar seus mortos – foi duramente, covardemente atacada por centenas  de terroristas, por causa da greve dos militares que resolveram, em conluio com as mulheres respectivas, não saírem dos quartéis e, a mando dos superiores, cruzarem os braços. Todos nós vimos, horrorizados, pela internet, redes sociais e tevês, o flagelo da capital e de outras cidades serem ao mesmo tempo atacadas por desordeiros – por ordem de quem? - assaltando, fechando lojas e fábricas e matando os cidadãos que tiveram a desventura de serem mortos ou baleados e sem hospitais nem equipes de socorro que os atendessem. Justamente porque todos estavam no mesmo barco: sem terem a quem apelar, salvo a Deus.

Se uma classe se volta contra a sociedade, isto se chama rebelião, não importa que declare ser para reivindicar direitos seus. Conforme está escrito na Constituição, os militares não podem fazer greve, muito menos se voltarem contra a sociedade. Pior é que colocaram suas famílias como escudo, entre os quartéis e a população. Situação bastante aflitiva para o Brasil. Todos nós sofremos e lamentamos a morte de cerca de 140 pessoas, no mês, em poucos dias.  Ainda se fala, de certa forma, com grande pena, dos massacres nos presídios brasileiros - o mais recente acontecido no Rio Grande do Norte. Por conta da droga, do crime organizado, das brigas entre facções  adotadas pelos próprios residentes dos presídios. Se comparada uma situação com a outra, é mais grave o que aconteceu no Espírito Santo. 

Chegamos à anarquia, ao começo da guerra civil de que tenho falado nos últimos artigos. Caminhamos pra ela. Vinha sendo sutilmente encenada pelos terroristas do MST, com apoio do governo que caiu e do líder maior do partido do poder, tudo em consonância com os barões da droga, PCC e outros partidos de tiranos e carniceiros que têm por lema, descaradamente:  “TÁ TUDO DOMINADO”.

Nós, cidadãos, defensores dos direitos humanos no seu verdadeiro sentido, somos os prisioneiros do nosso lar. Sem direito à defesa própria por uma arma. E, pior, sem a proteção  das forças policiais que deveriam cumprir seu dever de guardar a sociedade contra os malfeitores.  A gente não pode, como cristão, querer vingança contra eles, a menos que seja rigorosamente dentro da lei, da Constituição, que eles mesmo violaram de propósito, arrimados nas armas e na força que têm – que é  outorgada por nós – e em ideologias alienígenas que trabalham contra tudo o que aprenderam no quartel: Amar o Brasil. Como se uma classe fosse o Brasil, um sindicato fosse o Brasil. Como as questões salariais pudessem ser resolvidas a ferro e fogo. Queremos o rigoroso cumprimento da lei diante de todos os implicados, inclusive as mulheres que lhes serviram de escudo.  É preciso que os nossos governos mostrem quem são criminosos e merecem cumprir penas, tornando-se inimigos da sociedade. De acordo com o crime de cada um, a justiça deve legalmente puni-los.     Não deixar brecha para que outras rebeliões aconteçam. Se assim não for,chegaremos ao fim da picada: seremos mortos, prisioneiros deles ou fugiremos como emigrantes, expatriados, etc. 

Diante dessa situação, já exposta em toda a imprensa brasileira, me vem à lembrança uma frase infeliz, não me lembro de qual autor, para dizer que ele foi muito infeliz colocando-a na testada de uma obra:“O melhor do Brasil é o brasileiro”. Se tivesse pensado mais teria dito como eu digo agora: “O MELHOR DO BRASIL É O BRASILEIRO QUE FOI EMBORA”. Sou crítico na prosa e na poesia. Assim, transcrevo um poema que fiz com o título SER BRASILEIRO:

  - “Quero ser brasileiro / me procuro no campo / de futebol e na pista de automóvel, / estou aqui, ali, acolá, além de lá, / mas não sou Deus nem diabo, / como o pão que ele amassou. / Sou vadio, não faço nada, / só samba e carnaval. / Samba, ora samba? / Carnaval, ora carnaval? / Eu queria encontrar-me brasileiro / na cor, no amor, na paixão. / No trabalho, neste não. / Brasileiro em todo lugar, / de todas as formas, / sem caráter nenhum.
// Corri mundo e não encontro: / Europa, Oceania e África, / Ilhas do Pacífico e Ásia, fui até o Himalaia / e não encontrei Brasil nem brasileiro. 
// Disseram que ele se chama Washington, / foi pra América falar, inglês / e nunca voltará. //  Como é difícil ser brasileiro!”

Sou de uma época em que o nacionalismo predominava. A gente lia “Porque me ufano do meu país”, do Visconde de Ouro Preto. A gente se postava na frente do Colégio todos os dias de aula e cantava, com reverência,  o Hino Nacional do Brasil. A gente lia a “História do Brasil”, de Rocha Pomba, onde, entre datas e textos dos acontecimentos mais importantes, via as figuras dos que fizeram o Brasil. Hoje voga o internacionalismo da moeda, dos bancos, do movimento financeiro, comércio e indústria mundiais, importando com tudo isto suas modas, seus cantores e ritmos, seu filmes dos bons aos mais estapafúrdios. Que fazer?

Pegando uma carona em “O livro dos valores”, do Des. Francisco Meton, pg.113, o que lemos e aprovamos, por ser também o nosso pensamento: “Aqui (no Brasil) a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora. Não há um fundo moral comum. Posso acrescentar mesmo que não há dois brasileiros iguais. Sobre cada um de nós seria fútil erguer o quadro de virtudes e defeitos da comunhão. Onde está, mudando de ponto de vista, a nossa virtude social? Nem mesmo a bravura, que é a mais rudimentar e instintiva, nós a temos com equilíbrio e constância, e de um modo superior. A valentia aqui é um impulso nervoso. Veja as nossas guerras, de quanta cobardia nos enchem a lembrança!… Houve um tempo em que se proclamava a nossa piedade, a nossa bondade. Coletivamente, como nação,  somos tão maus, tão histericamente, inutilmente maus!...”  Embora seja uma citação retirada do livro “Canaã”, de Graça Aranha (diálogo entre Maciel e Milkau, personagens do livro), para o escritor Francisco Meton é aceitável a análise sobre o povo brasileiro. Assim, para nosso exame, são dois autores com a mesma interpretação. Um povo prisioneiro dos maus é um povo fraco, sem iniciativa, de débil caráter, sem patriotismo, sem futuro. O BRASIL NÃO É UM PAÍS DO FUTURO! 
________________
(Publicado no jornal "O Dia", Teresina, PI, de 18/19 de fevereiro de 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ESCRITORES, EMPRESÁRIOS E A CULTURA

Francisco Miguel de Moura
               Autor


Na atualidade brasileira, os escritores e os artistas, de modo geral, sentem a cruel omissão ou inexistência do financiamento da cultura. Na maioria dos casos os escritores nascem como empresários de seu próprio idealismo de participar do seleto grupo dos que pensam e escrevem, pensam e pintam, pensam e fazem teatro, música, ou outras artes. Esta situação é bem retratada já no cartel de todo o arsenal que levam os estudantes (nossos melhores leitores) a obrigarem-se às normas do ENEM e de outros instrumentos (siglas) que refletem a incompreensão dos educadores e gestores governamentais do mais importante setor da cultura. Geram, antes de tudo, a concentração das edições em duas ou três editoras do Sul, ficando o resto do Brasil a ver navios, ou melhor, cegos.
Franklin Jorge, grande escritor do Rio Grande do Norte, habitante de Natal, onde desenvolve intensa atividade jornalística e de escritor, me escreveu uma mensagem em 26/03/2016, contando as atribulações que está sofrendo para publicar sua imensa “Fortuna Crítica”. No documento me pede seu apoio. Dentro de minhas atividades de escritor e as fraquezas da idade, resolvi, antes lhe comunicando, tornar o que era CONFIDENCIAL em  INCONFIDENCIAL. Transcrevo-o:

“Meu caro poeta Francisco Miguel de Moura: Tomo a liberdade de solicitar  seu apoio para a publicação de meus inéditos, além de pedir sua permissão para publicar em minha “Fortuna Crítica” o belo artigo que escreveu sobre “O Livro dos Afiguraves”. Gostaria que lesse e, se achar que vale a pena opinar a respeito, escrevesse algumas linhas sobre a contribuição de minha obra à Cultura potiguar. Queria que João Claudino pudesse tomar conhecimento disto, ele que tem me apoiado, primeiro, publicando o livro citado; segundo, comprometendo-se a publicar-me outros títulos. Só que fico acanhado: são tantos, mais de 50 prontos para publicação, com exceção dos trabalhos de revisão, diagramação e elaboração de capas, investimento para o qual não disponho de recursos nem vejo possibilidade, mesmo a longo prazo, de vir a ter algum dia, considerando-se a situação do País e a minha própria, que consiste em uma única fonte de renda que posso perder a qualquer momento ou ao fim do mandato do atual Prefeito de Natal, que assessoro através da Sala Natal, departamento da Secretaria Municipal de Cultura. Sequer tenho uma casa para morar...

Escrevo-lhe em estado de grande angustia e humilhação, mas sobretudo por sabê-lo um dos homens bons do Piauí e um intelectual solidário e desprovido de vaidades. Se me permitir, mandarei dois originais. Um deles, “Gente de Ouro”, que lhe dará uma visão resumida da posição que o Rio Grande do Norte ocupa nos meus escritos. Trata-se de uma seleção extraída de cinco volumes inéditos, cuja elaboração teve início quando, aos 18 anos, minha avó materna proporcionou-me uma viagem de seis meses por nossa terra, sob a justificativa de que, pretendendo ser um escritor, devia começar por conhecer terra e povo do RN. Comecei, então, ainda sem experiência, a ouvir e a registrar minhas conversas com todos os estamentos sociais, sobretudo aqueles que, por sua condição de pobreza, não tinham e continuam não tendo voz. Não imaginava então que podia  chegar aonde cheguei, sobrecarregado de manuscritos e sob o peso de tamanha responsabilidade - a preservação de costumes e tradições que se disseminam em milhares de páginas que eu não imaginava que podia, como um amanuense de vidas, escrever. O outro, em organização, de minha “Fortuna Critica”, para que possa fazer um julgamento criterioso sobre o que tantos escreveram sobre meu trabalho. Caso considere abusivo ou impertinente o que proponho, saiba que entenderei perfeitamente suas razões. Sem mais, receba os cumprimentos do admirador potiguar. Franklin Jorge”.

A seguir gostaria de transcrever parte de um artigo que me mandou Franklin Jorge, da escritora e psicanalista Cristina Hahn, cujo pensamento reflete um pouco do que ele sente e gostaria que o mundo seguisse:  “Quero de volta a crença na filosofia da identidade, na filosofia das luzes, na filosofia da natureza, na filosofia da existência, pela verdadeira filosofia da vida… Odeio saber que o maior aprendizado, ainda que por osmose, tenha sido o da filosofia do cinismo, onde não importa o que se faça, é preciso seguir em frente, sem tato, sem sutileza, sem pena, sem dó. O degrau do sucesso pode ser o próximo quando o próximo passa a vencer”.

Seu João Claudino é um homem de sucesso, sem que haja saído da ética e normas morais que presidem a sociedade, diferente dos muitos que hoje aparecem como corruptos da operação “Lava-Jato”, da Polícia Federal. Foi por seu esforço e sabedoria sem aspas, no verdadeiro sentido da palavra, que seu João Claudino alcançou a vitória de ser, hoje, talvez, o maior império empresarial do Piauí e que se estende a outros estados  (Pará, Maranhão, Ceará, Goiás, Paraíba, Rio Grande de Norte, além de São Paulo). Ele tem capacidade de atender a uma boa parte das solicitações culturais do Piauí e pode muito bem receber, de bom grado, o pedido do conterrâneo Franklin Jorge, e atendê-lo. É também com este sentido que quebro a CONFIDENCIALIDADE que me fez como amigo de longa data. Porque reconheço no empresário João Claudino (Armazém Paraíba), as qualidades de cidadão consciente, lúcido e capaz de compreender a situação dos artistas, tanto que muito fez por esta terra, o Piauí.
O empresariado do Brasil um dia compreenderá que, sem educação e sem cultura, não há condição de fazer crescer o país, nosso Brasil querido. E entre a classe dos artistas, o escritor tem sido sempre o mais desprestigiado. Logo aquela parte que pensa, que fala através dos jornais, revistas e livros, que não se dobra ao domínio das religiões e dogmas alienígenas, que defende com unhas e dentes o direito de dizer a verdade. Aliás, defende todos os direitos humanos, numa relação de cabeça para cima, encabeçando a lista – o direito à vida, à palavra, à propriedade e ao ir e vir de cada cidadão. A verdadeira cultura que entendo é esta, não a que está aí em busca de populismos e pauperização através do estelionato, do assalto à mão armada e da corrupção: uma parte por conta própria (imoralmente) para o enriquecimento rápido, contando ainda com os altos barões do tráfico, ligando-os com políticos e partidos.  Contrafação total: a política – que devia ser uma bela arte de dar exemplo de moral e ética ao povo, concorre para a deseducação e o empobrecimento da nossa gente. Nosso povo ainda se veste, come e fala pelos modos de Macunaíma. Mário de Andrade estava inspiradíssimo quando concebeu o livro do povo brasileiro.  Não há outro igual.
_______________________
Publicado no jornal "O Dia,Teresina", 11 de fevereiro de 2017

domingo, 5 de fevereiro de 2017

PRISIONEIROS E PRESIDIÁRIOS, O QUE SÃO E O QUE SERIAM?

Francisco Miguel de Moura
              Autor

O que é um presidiário, um presídio, um prisioneiro? O que é uma pessoa livre? O que é uma família encurralada pelos malfeitores? Como transformar presídios em escolas, igrejas, oficinas de trabalho? Por que continuar deixando que sejam depósitos de todo tipo de armas, depósito de celulares?

Pensemos numa sociedade livre, de homens livres, porém moralmente aceitáveis, eticamente controlados por boas leis, educados e instruídos, pensemos nisto e como transformar a nossa num jardim de crianças, mulheres e homens para o gozo de todos os bens deste século, muitos proporcionados pela ciência. Não seria melhor?

O espírito deste século  XXI  está voltados para o bem-estar físico, em virtude da mídia e da indústria, a internacionalização do capital e das comunicações, mas impedidos de conseguir. Isto gera grande conflito entre aqueles poucos que têm capacidade de gozar os prazeres da sociedade hedonista atual e dos marginalizados por motivos diversos. Esses motivos é que são difíceis de distinguir-se e textualizá-los, principalmente no Brasil, embora nos demais países ditos civilizados ocorram os mesmos problemas em maior ou menor proporção. Isto não confere o direito de ninguém mais pensar em “castigar os maus costumes”, como disseram os romanos.

- “Não adianta, não há jeito” - assim pensam os espíritos derrotistas.

Pensar assim é ser menos livre. Alguém sempre tem poder de modificação do contexto: - os nossos comentários sobre as prisões, a justiça, os presídios e os presidiários, os cidadãos livres e os que, por questões culturais ou inculturais, são mais livres. Em suma, sobre a insegurança por causa da sociedade de violência, sem respeito à vida, à propriedade, ao ir e vir das pessoas.

Nos Estados Unidos, o país mais poderoso da terra, a Constituição  permite o uso livre de armas porque todo cidadão tem necessidade de defender-se.  No Brasil, ao contrário, é proibido o uso de armas de fogo, por lei definida depois de um plebiscito. Assim, sendo nosso cidadão é impedido de agir em legítima defesa, embora o Código Penal registre esse direito. Mas, no frigir dos ovos, ninguém sabe quem fica pior: quem tem  o direito de usar armas para defesa própria, ou aqueles que não têm esse direito. Nem polícia, justiça, governo decente que os amparem.
Vemos é que, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, as crianças (especialmente aquelas que fazem o tráfico de droga para os “barões”) são armadas contra as pessoas comuns, os cidadãos, cidadãs e outras crianças. Enfim, contra todo mundo. São agressões nas ruas, nas casas por aqueles que fogem das instituições responsáveis pela reeducação de menores, etc., pelos assassinos, latrocidas e outras com não sei quantas passagem pela polícia e pela prisão têm, de onde fogem, e quando não fogem ficam comandando de lá mil e um crimes cá fora. A justiça faz corpo mole diante dos advogados de porta de cadeia e dispensam de renovar a prisão, por motivos diversos, senão banais. Desculpa maior: não há mais lugar na prisão para esses desocupados e malfazejos. Resultado: criminosos soltos, matando, destruindo prédios públicos, incendiando ônibus e passageiros, e mais se passam por homens de bem. Se um dia caem presos novamente, chega a hora do balanço da gangorra que se repete.

Não vou convencer nenhum juiz para que seja mais rigoroso com este ou aquele crime. Mas cadeias são feitas para quem precisa delas. Se há falta, quem responde pela  segurança da sociedade deve mandar construir outras e mais seguras, enquanto não se convencer de que foi a omissão da criação de escolas, amparo e melhora da educação que nos conduziu a este caos. Nenhum cidadão de juízo concorda em ficar sem segurança e, o pior, sem armas; que os ladrões e assassinos possam usá-las e atacar especialmente a família, a mulher e crianças  (filhos e filhas), a todo momento e em qualquer lugar. Devemos, ao contrário, deplorar a crueldade. Daí as prisões, devendo oferecer condições humanos. Mas quando algum dos agentes penitenciários for atacado, o responsável deve ser rigorosamente punido. É assim que se sustentará a manutenção de um presídio. Mas nem sempre isto acontece.

Ou então para que leis, para que cadeias, para que armas, para que tanta propaganda nos jornais, na tevê, nos filmes e nas redes sociais, se somos vítimas da prisão por conta própria em sua casa, para salvar a pele? Para que cadeias se cada   sentenciado, quando lhe vem a morte, por qualquer motivo, recebe recompensa, pensão – naturalmente em favor a família, ou quem se apresentar como tal. Tudo isto para quem tomou a vida e a propriedade dos outros, além da liberdade de ir e vir. Por outro lado, se em luta para aplicar a lei a Polícia, o policial é atacado, é este quem vai  punido. E mais: as famílias dos cidadãos/cidadãs que os criminosos assassinaram nada recebem. Evidentemente que há uma completa inversão de valores, a sociedade está de cabeça para baixo. Essa é uma maneira resumida de mostrar. Há milhares de escritores, jornalistas e outros homens da segurança, da justiça e ministério público, do  magistério, e também pessoas comuns que, como eu, dão sua opinião.
A sociedade tomou o bonde errado: é prisioneira dos prisioneiros, em sua própria casa. Aonde vai dar isto? Em guerras civis como a da Síria. Nessas guerras já estão envolvidos quase todos os países daqui e dalém mar. E em hecatombes. E qual o remédio para o mundo sair desta? Criar religiões ortodoxas, dogmáticas, que rezem, orem, façam procissão, visitem alguns necessitados e doentes nas ruas, nos hospitais, etc. Ou governos que criem esmolas oficiais com qualquer nome? Bolsas! Arg!

Urgente é dar educação ao povo. Como? Com as famílias se esfacelando e caindo na vaidade da grande ciranda em que vivemos? Este é o melhor mundo que tivemos até então, o passado era uma coisa terrível! - dirão os acomodados. Sem eletricidade, sem trens, carros, aviões, estradas asfaltadas, etc.  Hoje temos tudo, ou quase. Mas nós devemos responder, em consciência, que quem fez tudo isto foi a educação. Precisamos de novas gerações de homens e governos decididos a virar a direção social para o verdadeiro progresso, sem tantos males  físicos, mentais e espirituais quanto os que sofremos. Ou os governos do mundo inteiro e as famílias  se inteiram dessa verdade ou chegaremos breve ao apocalipse. Seria um mutirão de várias gerações com direito efetivo a escolas, professores, casas de saúde mental e físicas, tudo num conjunto harmonioso para fazer tal virada de direção.

Quem se habilita, em primeiro lugar? Os Estados Unidos com Trump?
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...