sábado, 3 de dezembro de 2016

POESIA (IN)COMPLETA DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Celso Barros Coelho
Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:


Sou poeta. (Cecília Meireles).

A Academia Piauiense de Letras, em sessão solene no dia 12 de Novembro de 2016, lançou mais um livro da Coleção Centenário, livro que merece uma atenção especial, dado o valor que encerra e pela projeção de um poeta que consagrou sua vida às letras em suas várias modalidades. Trata-se de Francisco Miguel de Moura e de Poesia (IN)Completa. Uma observação preliminar: Os que leem o jornal O Dia, encontrarão, em cada sábado, um artigo de sua autoria. Aí revela-se um consagrado cronista.
Quem abrir as páginas da história da literatura piauiense, à qual tem dado excelente contribuição, nelas encontrará o historiador fiel à sua vocação. Quem vai às fontes de sua produção poética colhe o que de melhor foi produzido nessa área. O romance também é um campo de sua predileção, onde descobre a riqueza do diálogo de suas personagens e a espontaneidade de suas ações. Toda essa variada produção nos leva a dizer dele a frase de Assis Brasil: “Está pronto para a posteridade”. Podemos completar: a posteridade já o acolheu.
No conjunto de sua obra, mostra-se dono de um estilo muito pessoal, indicador do equilíbrio com que manifesta e expõe suas ideias. Tem o domínio da palavra, do verbo, com os quais aquece a inspiração e renova o pensamento. Vê as coisas na sua múltipla dimensão, pois só com essa visão é possível exercer o poder criador.
Voltando ao livro inicialmente referido, defrontamo-nos com a essência de sua poesia, ao mesmo tempo fluente e sedutora. Ao lado dos livros, lendo os poetas e entrando na segura companhia dos grandes mestres do pensamento, está preparado para o seu oficio. Tem a preocupação de variar os temas e aperfeiçoar, em cada verso, a técnica da composição.
Olhando o mundo sob o prisma da confiança e da simplicidade, não se perturba com as suas incertezas e muito menos com a sua transitoriedade.
A interioridade do homem, as suas esperanças, a sua crença no invisível, o despertar de suas energias vitais explicam a harmonia que embala os voos de sua poesia, para torná-la presente na riqueza do seu simbolismo. O poeta de que tratamos não é uma figura esquecida ou posta à margem do seu tempo. Basta ler o que vem escrito por dezenas de admiradores, num livro editado no ano de 2008. Quero referir-me à Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura. São depoimentos, opiniões, reflexões e louvação em torno de sua pessoa e de sua obra. Aí se realça a figura do homem de letras, do escritor, do poeta, do cronista, do crítico literário, do romancista, do historiador, enfim, do homem que traz no coração o belo sentimento da vida, do sonho e do amor.
A sua narrativa e composição se desdobram em calculada combinação de cores e de ritmos. Todas essas manifestações estão desenhadas nas várias opiniões que, em livros, em jornais e em revistas são publicadas.
Expresso, aqui, o desejo de figurar entre aqueles que reconhecem e proclamam o valor de sua produção literária, e se sentem enriquecidos com a sua leitura.
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Celso Barros Coelho – é acadêmico da Academia Piauiense de Letras, do Instituto dos advogados brasileiros e professor universitário. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A TERNURA DE PAI


Francisco Miguel de Moura
Escritor, 
membro da Academia Piauiense de Letras

Os gestos, não porque também são imagens, falam mais que as palavras. Mas como escrever com gestos para provar este verdade? Preciso de palavras simples e boas, sem afetação, que corram como correm as águas dos rios ou como o perfume das flores: invisível, flagrante e fragrante. Palavras assim, saídas dos lábios da mulher-mãe, da criatura que nos deu a vida com dores e o berço com alegria, daquela para quem o mundo se resume no filho e é o seu mundo imenso, pois de outro não precisa... Palavras maternais são a ternura em flor, em luz, em amor que alivia todas as dores, deste o berço ao leito de morte.
Mas eu preciso de outras palavras, ou das mesmas vozes e dos mesmos gestos vindos do pai. Os nossos pais têm sido duros até aqui. O machismo tinha feito deles um monstro sem piedade, sem amor, só poder. Poder e glória. O amor não podia mostrar-se. Chorar, nem em pensamento. Fazer carinho, afagar a cabecinha do filho, dar-lhe um beijo? Como? O mundo cairia sobre sua cabeça, o engenho, a propriedade, a família. Deus bondade era coisa de mulheres.
Mas os tempos mudaram, a economia, a sociedade, o país, a política, as leis e a igreja. Mesmo sabendo de tudo isto, certos hábitos não muito usuais nos surpreendem. Foi o que me aconteceu. Ia na pachorra do meu carrinho pela avenida Miguel Rosa, parado fiquei esperando que o sinal luminoso do cruzamento com a avenida Frei Serafim abrisse – as duas mais significativas da Capital, uma porque divide em Norte e Sul, a outra porque circunda todo o centro. Antes que isto acontecesse, atravessa um senhor magro e meio moreno, com seu filhinho de mais ou menos um ano de idade. Para, olha, escuta, estreita-o contra o peito e tenta atravessar a via antes do fechamento do sinal. Era uma hora bastante movimentada. Até aqui, tudo bem, o máximo de foi o gesto de segura-lo com garra, apertando contra seu peito, sinal de posse mas também de segurança, amor, sinceridade, cuidado e quantas outras virtudes se possam juntar. Mas o que me surpreendeu, sem dúvida, foi o olhar tão luminoso e tão terno para sua criancinha. Atravessados, já do outro lado, ainda tive tempo de ver que os dois riam: o pequeno menino e o grande. Aquilo, sim, é que era comunicação. O amor paternal em toda a sua glória moderna.
Fiquei certo da sinceridade de ambos. E de que o amor não é apenas para a mulher, a mãe. Os pais se encheram de humanidade. Alguns ainda, o que é uma pena.
Este foi um exemplo positivo, mas tenho outro nem tanto.
Certo dia, quando estava de passeio por Francisco Santos e visitava os pais de um colega de meus filhos – ele e meus filhos, estudantes em Salvador, ouvi uma conversa da qual duvidei. Nunca quis acreditar na dureza que os homens apresentam em público. O velho dono da casa já era avô e se pavoneava de nunca ter pegado uma criança no colo. Seu neto, o primeiro, tinha nascido há poucos meses. E eu o contestei:
- Isto é uma bobagem, o homem não deixa de ser homem porque pega seu filho ou seu neto, faz carinho e outros gestos de amor.
- Não, não, eu não pego menino pequeno.
Enquanto isto, eu o tomava em meus braços a criancinha e, no meu jeito que também não é de muito carinho, eu sei, comecei a embala-lo nos meus braços. E em um passo me levantei e, aproveitando uma pequena distração do meu opositor,coloquei seu neto em seus braços. Queria ver sua dureza e deixa-lo cair ou passaria rapidamente para os braços de alguém. Apostei e ganhei. Ficou por algum tempo com ele no colo e a platéia composta de jovens e velhos aplaudiu-me. E o aplaudiu também. Creio que, depois desta, o preconceito de pai e avô durão foi para as cucuias. Depois, eu soube, tornar-se-ia, em pouco tempo um amoroso pai, o que já era.
Só faltam os gestos.
A linguagem dos gestos conjugada com a das palavras pode vencer todas as durezas, todos os preconceitos, todos os falsos pudores sociais e morais. Ainda bem.
Resta dizer apenas que este gesto do pai durão é bem anterior, em minha experiência, do que aquele observado na avenida, e pelo qual tive uma enorme alegria, vendo que os meus gestos anteriores foram acompanhados por outros homens. E a moda pegou. Hoje a maioria dos pais são tão carinhosos com os filhos que, em circunstâncias diversas, às vezes os filhos preferem ficar com o pai, especialmente em separações conjugais.



domingo, 20 de novembro de 2016

COISAS INTERESSANTES QUE ME PERGUNTAM


Francisco Miguel de Moura
Escritor e

Membro da Academia Piauiense de Letras


Um amigo das redes sociais me solicita, pela internete, que eu indique os melhores livros para sua leitura. Uma indicação comum, mas ao mesmo tempo embaraçosa, difícil. Pra responder sem ser pessoalmente, conversando vis-a-vis, eu diria que são clássicos. Mas há clássicos e clássicos. São milhares, de diversas culturas.
Lembrei-me logo da Bíblia, mas é um livro muito grande, não conheço alguém que tenha lido a Bíblia de cabo a rabo. Além do mais, é um livro sagrado, onde se lê e reza, ou ora, ao mesmo tempo. Por ser um dos mais antigos documentos que conhecemos, na nossa cultura cristã ocidental, indiquei-a, porém fazendo as assertivas mencionadas.
É claro que sou escritor e leio muito, no início lia até demais, comia livros. Hoje, quando quero ler, leio algo que, além de agradar-me, me ensine também. Aponto, em primeiro lugar, o médico, psicólogo, psiquiatra Augusto Cury. Ele diz que não encaminhou nenhum dos seus filhos para uma religião específica, visto que não elegeu para si um credo dos estabelecidos na socidade. O que tem de muito significativo na sua vida, em relação ao que prega e professa, é a ciência, uma ciência prática e necessária a todos nós que vivemos neste mundo conturbado. Seus livros, são adotados em escolas superiores (universidades) e lidos por professores e pessoas dedicadas ao magistério, tanto no curso fundamental, quanto no segundo grau.
Mas não é só isto. Dr. Cury estudou a vida e a obra de Cristo. Por isto proclama que Jesus foi o homem mais sábio que o mundo já conheceu. Não posso indicar aos não crentes a leitura de Augusto Cury, pois, se a fizerem, terminarão acreditando piamente na pregação de Jesus, praticando as virtudes que ele nos mandou praticar para que tenhamos uma boa vida. Não sou padre nem pastor, cada pessoa tem a liberdade de escolher sua religião ou não ter nenhuma. Agusto Cury diz que o ser uma humano veio a mundo para viver. E para viver bem deve crer, pensar e fazer obras boas, ou seja, imitar Jesus Cristo.
Bom, mas são livros didáticos, alguns leitores dirão. Outros dizem que são livros de “auto-ajuda”. Mas, muitos dos seus fãs – eu sou um deles – acreditam que ele alia a ciência da natureza à ciência da vida e nos ensina, sem solicitar que a decoremos. São didáticos os seus livros, mas até certo ponto. De certo ponto em diante são científicos. E mais à frente são livros de leitura gostosa e fácil. Taí um escritor que eu indico. Se houvesse espaço e tempo, neste artigo, faria uma relação de toda a sua obra. Mas, se o fizer, estarei fazendo propaganda comercial dos seus livros, sem ter sido pago ou esperar pagamento por isto. Pelo simples fato de ter lido e gostado, cito três de suas obras: “Treinando a emoção para ser feliz”, “Ansiedade” e “A fascinante construção do Eu”. Uma passagem deste último:
“Se uma pessoa tiver um Eu saudável e inteligente, com as funções vitais bem formadas, desenvolvidas, terá substancial consciência de si e da complexidade do psiquismo humano e, portanto, jamais se inferiorizará ou se colocará acima dos outros. Poderá estar em frente do presidente ou do rei de qualquer nação que não se sentirá diminuído, nem lhe virão impulsos de supervalorizá-lo. Poderá valorizá-lo e respeitá-lo, mas não com deslumbramento. A maioria dos jovens que se encantam diante de uma personalidade Hollywood ou de um cantor não têm o Eu maduro, autoconsciente, autocrítico”. 
 
Seguindo mais à frente, ele mostra que o ser humano deve conhecer e saber que todas as outras criaturas são desiguais, apenas parecerão iguais na sociedade. Diante do seu pensamento não há como ter preconceito nem imaginar que alguns são maiores do que outros, só porque trabalham na tevê ou porque cantam, porque são negros ou brancos, por isto ou por aquilo, que é apenas forma.
Observo que hoje temos uma mocidade embrigada pela mídia, elegendo para seu espelho um cabeludo/barbudo qualquer ou uma mocinha que se veste exageradamente, ou não se veste, sobe no palco, mostra o que não precisa ser mostrada com cantora, canta mal e diz tolices como se fosse alta filosofia. O’ jovens, o lugar de vocês para a vida é estudar o mundo físico e psicológico, ou seja, estudarem-se a si mesmos para que tenham uma vida consciente e melhor.
Por que no mundo político, todos se consideram diferentes e maiores do que o cidadão do povo, os governados por eles, o que lhes põem lá com impostos e tudo mais, inclusive o voto? Só porque são homens de Estado? E os levam suas nações às guerras e à miséria.
A socidade letrada seria muito melhor se, em vez de passar o dia e a noite, “dedografando” palavras tolas e pensamentos disparatados entre seus “amigos” nas redes sociais, lessem Augusto Cury. Às vezes até “deduram” seus amigos, ou a sociedade que não vai com ele para as noites de danças, bebedeiras e vícios sem nome. Nos últimos vinte anos, nossa pátria tem decaído muito, há um deterioração na família tradicional, para tornar-se moderna, que é impossível medir, visto que o mundo cresceu desesperadamente. Todos os países estão mudando rapidamente. Aqui dizem os adeptos: eu cresci neste mundo, posso dever e não pagar, descumprir a lei e não ir para a cadeia, posso desconsiderar a propriedade privada e não dar valor à vida dos outros. “Tudo é meu!” Ou todos viraram ladrões? Pergunto. Neste período da politica e sociedade brasileira, uma pergunta que salta aos nossos ouvidos é a seguinte: Por que o Lula ainda não foi preso? Todas as autoridades estão mancomunadas com ele, exceto o Sérgio Moro. Ou eu me engano?
Outra pergunta impossível de resolver-se, ter a solução, dar uma resposta mais ou menos razoável é: “Depois de Michell Temmer, quem governará o Brasil”? E outra: Depois da operação “Lava Jato”, comandada por Sérgio Moro, quem fiscalizará o país?
Depois do terceiro sexo, qual e como será o próximo?
Quando, enfim, não existirá um terceiro nem um segundo mundos? Que todos sejam do primeiro mundo, se os países que o compõe caminharem pela democracia, nunca pela esquerda nem pela direita, mas pelo povo – que são todos os filhos daquela nação, todos são irmãos e todos diferentes. É preciso respeitar as diferenças individuais, não somente as de grupo.
Como serão os Estados Unidos depois do Obama? Melhor ou pior do que é hoje? Ou se entregarão a guerras e mais guerras como em tempos anteriores. Ou se fecharão como se vivessem num paraíso perdido?
Estou bem distante do início deste artigo, para responder quais são as melhores leituras. Não tenho a conclusão de tal pergunta, mas, para mim, no momento o melhor livro de leitura que existe no mercado, chama-se “Eu sou Malala”. Ali se aprende como era o Paquistão há bem pouco tempo, quando o Brasil era desgovernado por Lula/Dilma. Há situações no livro em que se parecem muito com o que estamos ainda sofrendo no Brasil. Lá eram os talibãs, descidos do Afganistão e ali aboletados, para tomarem a direção em meio a um governo fraco e corrupto e um exército embrenhado numa guerra que não tinha força para resolvê-la, por causa da mistura de seitas do moametismo. Aqui, a seita era petistas e seus asseclas, de mistura com uma classe rica e corrupta que transformou todos os políticos em ladrãos e vice-versa. Do “Mensalão” ao “Petrolão”.
Portanto, não há escolha: O melhor livro de leitura do momento é “Eu sou Malala”, uma paquistanesinha que mostrou ao mundo quanto se pode fazer pela democracia, mesmo num país confuso como o seu. Corajosa, inteligente, viva, teve a educação e o caráter que seu pai lhe ensinou e mostrou ter sempre. E se tornou, aos 16 anos de idade a moir lutadora pela escola, pela liberdade da mulher, pela paz mundial, a partir daquele recanto da Ásia. Foi eleita, com justa razão, a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz, em 2014, depois de ter escapado da morte, por milagre, quando atingida pelo disparo de um talibã no seu rosto, na sua cabeça.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A VIDA COMEÇA NUM BURACO - Crônica




Francisco Miguel de Moura
Escritor, da APL



Meus tios Joaquim e Otaviano, que eram os mais novos, cavaram um buraco na terra molhada, em frente à casa de meu avô materno, àquele tempo já falecido. Não os vi cavando. Quando saí para o terreiro, o buraco estava à minha espera.
Minha idade, não sei. Calculo em 4 ou 5 anos, que é de quando a gente começa a gravar o que se passa de importante em redor de si.
Nossa memória é seletiva, grava momentos ou fatos pela emoção, pelo sentimento que desperta, por outras razões desconhecidas que até hoje procuro descobrir.
Aquele buraco de minha meninice é um marco importante na minha vida. Sempre que ponho os olhos para trás, ele me persegue. É como se alguém sempre me estivesse advertindo:
- Olhe o buraco, Chico! Cuidado!
Os dois me pegaram pelo sovaco, um de um lado, outro do outro, e me colocaram dentro.
- Agora, saia daí, seu danadinho!
Qual a fundura, não sei. Do alto dos meus 64 quatro anos, ou seja, 60 anos depois, a perspectiva que tenho é de que o chão, fora do buraco, ficava acima de minha cabeça qualquer coisa como um palmo. Quando a gente é criança os objetos, as pessoas, as paisagens nos parecem deslumbrantes, assombradoras, grandes demais para o nosso alcance. É assim que vou dar um desconto e dizer que o buraco era menor que o meu medo. Medo de não sair de dentro. Senti que não tinha condição de sair, por mim mesmo, daquele fosso. Na verdade, os buracos da vida são assim: não temos condição de sair deles sem ajuda. O homem é um animal muito fraco. Começa com o nascimento. Vem a parteira ajudar a mãe e o filho. Daí, até a gente poder andar por suas próprias pernas, temos os nossos pais, nossos irmãos mais velhos, primos, tios, vizinhos, amigos a nos socorrerem.
Acredito que meus tios quiseram me pôr à prova.
- «Este menino malino agora vai ver...» - devem ter pensado.
Eles riam a valer. Será que eu tinha feito algo errado para que me castigassem daquele jeito? Se era brincadeira, nunca vira brincadeira tão besta.
Chorei, gritei por mamãe. Ela não me acudiu, devia estar distante.
Tiraram-me. Não me lembro bem como nem quando me tiraram de lá. Só vejo o buraco e o sufoco de como me levaram pra dentro, sem explicação.
Naquele tempo, contavam-se muitas histórias de tesouros encantados. Assim. Os ricos guardavam seu dinheiro debaixo do chão, para não serem roubados. Mas o pecado de sua avareza era castigado. Quando procuravam de novo, necas, as patacas de ouro e prata haviam desaparecido. Só quando morriam, suas almas penantes falavam aos bons cristãos, através de sonhos, e pediam que fossem desenterrar o tesouro. Ensinavam como devia ser: de noite, sozinho, rezando, sem maldade, senão o demônio vinha atrapalhar, e o dinheiro transformar-se-ia em abelhas ou formigas.
Então, esse buraco de minha primeira infância, bem que meus tios podem tê-lo encontrado pronto, de manhã, e, com medo, não o entupiram logo. Seria de alguém que recebeu recado de uma alma e ali encontrara o tesouro - dinheiro enterrado. É que aqueles buracos, segundo a tradição, não deveriam ser entupidos pela pessoa que desenterrava a fortuna.
Como estava bem de frente com a «latada» da casa de meu avô, quase no meio da estrada, talvez fosse vestígio do seu pecado. Ele, então, acabava de ser salvo. Por respeito...
Não. Não teria sido de meu avô materno, nem de minha avó, que eram pobres. Não tinham dinheiro suficiente para enterrar. Isto minha mãe me contou depois.
Tudo o que alcanço hoje, com a memória, é que meus tios riam e eu chorava dentro do buraco, sem entender nada. Como ainda hoje não entendo.
Como ninguém me falou deste buraco, fica-me, assim, como uma representação do mundo original: um buraco!
A vida começa num buraco e termina noutro, depois de tantos anos - reflito.
Mas ela é tão gostosa que vivemos procurando entupir esse buraco.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

POESIA E POETA: CHICO MIGUEL DE MOURA

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da APL



Começo com uma definição: “A poesia é a palavra que se faz pássaro para voar e cantar”. A frase é de um grande poeta brasileiro, Anderson Braga Horta.

Mas a definição só se tornará visível, humanamente, se se disser, como ele disse, no seu recente livro “Do que é feito o poeta”, que acabo de ler. Ele mora em Brasília. 

O poeta, hoje e aqui, nesta solenindade sou eu, Francisco Miguel de Moura, um menino que nasceu nas catingas do Jenipapeiro e depois de andar, por vários lugares acompanhando seu pai e a família, paira novamente no Jenipapeiro. E ali se torna balcanista de uma loja de tecidos e faz muitos poemas românticos – como era de esperar-se de um quase menino, embora leitor apaixonado de Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, entre outros. Um dia ele escreve um poeminha no papel de embrulho de tecidos da loja, ali no balcão, conversando com os amigos. Depois, mostrou a seu amigo maior, Sebastião Nobre Guimarães. 
Este poema o salvou das selvas do Jenipapeiro e da monótona vida de caixeiro da loja do interior. Nobre leu o poema e imediatamente me pediu. Não tive nem preocupação de tirar uma cópia. Parece que estava dentro de mim.
O amigo, por suas atividades, ia toda semana a Picos. E lá o poema voou para Picos, onde foi publicado no jornal “Flâmula”, criado pelos estudantes do Ginásio Estadual de Picos. Começo dos anos de 1950.
Com o poema vai Chico Miguel. Não durou muito e o menino, já rapaz, passa no exame de Admissão ao Ginásio, entra nos estudos de humanidades, lê mais e muito mais, desde Humberto de Campos, Euclides da Cunha e Machado de Assis até alguns clássicos franceses. E nunca mais é o menino de Jenipapeiro, de um só poema romântico. Lê mais, muito: Érico Veríssimo e o poeta J. G. de Araújo Jorge, as revistas Cruzeiro e Alterosa, outros jornais que lhe chegavam por meios que nem sabe. Mas a vida tem vários caminhos, como aponto em minha poesia, neste livro. Chico Miguel apaixona-se por uma mocinha de nome Mécia e passam a namorar, e se casam. Logo após o casamento, Chico rasga todos os seus poemas. Vai cuidar dos seus amores: esposa, filhos que iam nascendo, e o trabalho no Banco do Brasil. Continua lendo muito, sem escrever. Por causa do emprego de bancário, viaja pelo mundo, indo parar em Itambé-BA – onde nasceu meu apresentador, nesta solenidade – Miguel de Moura Jr. Dois anos depois estava de volta para o Piauí. E pronto. Fixa residência em Teresina. Logo que chega conhece Hardi Filho, Herculano Morais e Tarciso Prado, depois O. G. Rego de Carvalho, Fontes Ibiapina, Assis Brasil... Chico Miguel e os três primeiros citados fundam o CLIP, que por sinal, fará 50 anos juntamente com os 100 anos desta Academia. Era poeta inveterado, já em Itambé-BA, voltara a fazer poesia. Chega em Teresina, continua. Dentro de um ano consegue juntar e selecionar seus poemas para publicação, saindo “Areias”. Era início de 1966. Chico queria coisa melhor. Ainda assim, achava que seu primeiro livro tinha valor, valor alcançado pelo censo crítico de Fontes Ibiapina, que fez o prefácio. Depois, outros leitores e críticos o apreciaram e escreveram artigos.
Estava se fazendo um poeta, o poeta que criou asas, voou, voou, e hoje estamos com este volumoso livro “Poesia in Completa”, 2a. edição comemorativa do cinquentenário de poeta e de sua poesia. Muitos vôos, muitos pousos e pausas, muito sofrimento e também muita alegria – como esta que estou me dando agora, extensiva à minha família, aqui reunida, a meus parentes, a meus amigos, a meus confrades desta Academia. Um agradecimento especial vai para o Presidente, Dr. Nelson Nery, que me tornou possível a empresa. Outro, é para a Fundação Mons. Chaves e seus gestores, por que fez gratuitamente a primeira edição do livro “Poesia in completa” , em 1997, a qual está toda aqui, neste volume, ao qual juntei os poemas inéditos, além de uma seleção dos livros publicados depois da 1a. edição.
Uma das orelhas é um artigo que escreveu o escritor Roosevelt Silveira, tão simples quanto ele, que escreve pouco mas lê muito, uma pessoa boníssima como não conheço igual, residente no interior do Espírito Santo, Guaçuí, uma linda cidade onde eu gostaria de morar, se ainda me fosse possível mudar de residência, nessa idade. Obrigado, Rosevelt, meu colega de banco e Acadêmico das Academias de lá do Espírito Santo, que não sei nem quantas são. Em Guaçuí, na companhia da família Roosevel Silveira, eu e Mécia passamos uma das semanas mais agradáveis de nossa vida. Brevemente voltaremos lá, com esta obra que ele colocará em sua biblioteca, onde guarda todos os meus livros com muito carinho, e livros do Brasil inteiro. Bendito bibliófilo! 
Mais histórias minhas, só se eu fosse entrar para a autocrítica, já feita tantas vezes. Não vale a pena, o que está feito não está por fazer. Com minha idade, 83 anos, certamente não verei, se acontecer, a aprovação e de minha obra, com o relevo dos grandes que quero ser. O que me importa é estar com vocês, “caminhando e cantndo, e seguindo a cação”, canção que é a vida. Segundo o filósofo Augusto Cury, “fomos feitos para viver”. Por que não procurar viver bem, sem preconceitos, sem dogmatismos? Fazemos parte da humanidade. E esta, desde o começo, ouviu, produziu e cantou poesia. Poesia e música são enfeites que fazemos para viver melhor, são formas de comunicação para uma vida saudável.
Gostaria de poder dizer o quanto trabalhei para reunir estes poemas que foram feitos durante toda a minha vida até agora, porque acho que o poeta já nasce poeta, só precisar aperfeiçoar-se. Não consegui aprender música, para juntar às letras de meus poemas. Mas tive a sorte de conviver com amigos e apreciadores dos meus poemas, entre quais cito Rosângela Santos, Odorico Carvalho, Franci Monte e Dionísia Neri, que musicaram alguns dos meus poemas. A eles, meus agradecimentos. Infelizmente, não tive tempo nem condição financeira de juntar essas músicas num “cedê”, para ofertar-lhes. Poesia e música ainda estão na moda. O Prêmio Nobel deste ano, Bob Dylan, é cantor e poeta. Acredito até, aqui para nós, que lhe foi conferido o Prêmio Nobel de Literatura por causa de suas letras (seus poemas). A revista “Veja” mostrou alguns versos seus, os mais destacados foram: “Não entre sem resistência pela noite da boa morte / A velhice tem de arder e imprecar quando o fim estiver próximo / Fúria, fúria contra a luz que se apaga”. Lindo, lindo, não coloquei em inglês por que não sei pronunciá-lo bem, nem teria muita vantagem. O inglês não é uma língua mais poética do que a nossa.
Lutei com o Presidente Nelson Nery, e finalmente consegui que, fugindo um pouco o padrão, aceitasse meus desejos, inclusive o retrato da capa pintado por Marcus Carocas, um dos mais esforçados artistas plásticos do nosso Piauí.
 
Na primeira orelha está minha biobibliografia resumidíssima, como se faz comercialmente, embora poesia não seja um produto que se bote na prateleira e venda. Considero a poesia a forma artística mais apurada, mais importante, no sentido da luta com a palavra, como escreveu o maravilhoso Drummond. Pois não é aquilo que os escritores fazem todos os dias?
E se fiz tudo isto em literatura, poesia principalmente, e romances e contos e crônicas, é porque tive a colaboração de minha mulher, D. Mécia, na sua paciência e prática sabedoria. Teve sobretudo a paciência, a compreensão do tempo que lhe roubei nos sábados, domingos, feriados, dias santos e nas férias, todo esse tempo junto para entregar-me a esta outra consorte – a poesia. 
Não esqueçam, meus amigos e amigas, confrades e confreiras, o prefácio de “Poesia in Completa”, de Rosidelma Fraga: - É uma jóia da arquitetura crítica de uma professora e poeta jovem, porém de muita força e fôlego na construção de seus poemas. Matogrossense, Rosidelma Fraga, lecionou na Universidade de Goiânia e depois foi transferida para Boa Vista, em Roraima, estuda também os costumes e línguas indígenas, de quem se diz descendente. Que belas páginas me escreveste, amiga Rosidelma Fraga!
Se não disse tudo a vocês, vai aqui o principal. O tempo passa e todos nós temos um tempo para os passeios, um tempo para o descanso, um outro para orar e agradecer a Deus. Peço que despensemos também um tempinho à poesia, que não faz mal a ninguém. Ela é sempre um recado, uma carta de amor, romântica, amarga ou simples, por mais complexo que seja o poeta. Toda obra de arte é amor, e o amor é quem move o mundo. 
Salve, pois, a poesia. Obrigado por esta convivência tão simples, espontânea como a verdade, para quem se dispõe a conhecê-la. 

                                                                 ***

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(Discurso pronunciado por Francisco Miguel de Moura, no Auditório da Academia Piauiense de Letras, no lançamento do livro "Poesia in Completa", no dia 12 de novembro de 2016).
 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

MEMÓRIA INSURGENTE

Francisco Miguel de Moura 
Escritor, 
membro da APLetras

    Há livros que passam muito tempo, em nossa estante, sem que tenhamos vontade de lê-los. Mas há outros que, insistentemente, nos chamam para abri-los e começar a ler e saber do que se trata, se o estilo é bom, se nos interesssa pelo assunto. Entre esses últimos, caiu-me na mão, por presente de minha confrade da APL, professora Maria do Socoro Magalhães, um de nome “Memória Insurgente”. Para ter certeza do que seria a palavra “insurgente”, fui ao dicionário: “revoltado, rebelde, insubordinado”.
    Pelo conjunto de histórias e anedotas contadas, vejo que é um grande título, de mestre.
    O autor do livro, até agora não mencionado, Joaquim Ribeiro Magalhães, não é ninguém desconhecido da maioria de meus leitores e dos leitores deste jornal. Ele nasceu em Piracuruca, PI, no dia 13 de novembro de 1927, filho  de José Firmino Magalhães e Maria Ribeiro Magalhães. É formado pela Faculdade Católica de Filosofia do Piauí, em três licenciaturas: História, Geografia e Estudos Sociais. Teve várias profissões, mas destacou-se mesmo foi como professor de História em vários colégios desta Teresina, até na Escola Técnica Federal do Piauí (hoje IEPI-Instituto Federal do Piauí).
             Quem melhor traça um perfil da personalidade do velho Joaquim Ribeiro Magalhães é sua filha Reia Silva Rios Magalhães. Assim resume, entrando logo por sua arte de contar e de escrever histórias curtas e engraçadas: “Seus contos, suas crônicas e poemas retratam sentimentos, revelam experiências, anseios, devaneios e desejos guardados nas suas lembranças, que dizem do presente teimando em virar passado. O futuro, porém, que é agora, que é meu pai, homem de alma sensível, coração aberto e comportamente irreverente. Admirado pelos familiares e amigos pela forma inteligente e criativa de saber fazer e refazer histórias. Histórias que deixam marcas, que dão exemplos, que nos mostram o caminho e nos revelam a grandeza da existência e a importância do amor”.
    Que belo, comovente e verdadeiro depoimento!
    Pelo pouco que conheço, confirmo. E o que conheço é o que a maioria dos piauienses e especialmente teresinenses conhecem, nos encontros de praças e ruas, especialmente nas rodas do “Teresina Shopping”, num cantinho mais conhecido como “Senadinho”, focado por ele em algumas historinhas e anedotas, visto que outras vêm de Piracuruca, na sua lembrança de menino e nas histórias contadas pelos piracuruquenses – por alguns maldosos ditos de mentirosos –  engraçados, irreverentes e de fina inteligência. Eu, pessoalmente, e também por notícias, livros e informações,
não conheço nenhum “Magalhães” que não tenha  a maioria das qualidades apontadas por sua filha, sobressaindo-se, em primeiro lugar, a vivacidade na palavra e a rapidez nos atos, todos dentro de bons costumes, civilidade e de honradez.
    Não posso deixar de citar o escritor – também de contos –  o Des. José Magalhães da Costa, meu grande amigo desde que cheguei a Teresina.  Grande amigo e grande escritor. Seus contos mais trabalhados, de profissional, fazem parte da nossa literaatura e se iguala aos que praticam o gênero no Brasil.
    Pelo que conheço pessoalmente e de ouvir dizer, Joaquim Ribeiro Magalhães não tem a vaidade de ser um grande escritor. O que ele quis mesmo foi deixar registrado em livro suas memórias irreverentes, tanto de Piracuruca quanto da época de Teresina, para rir e “gozar” os casos engraçados, que muitas vezes parecem ridículos, provocando verdadeiras risadas. Não se trata de um livro didático, nem teve pretensão para isto. Mas mesmo um leitor comum, que o leia, pode abeberar-se de algumas verdades históricas daqui e dalém. Portanto, apontando para minha lembrança, dos contos que li me ficaram aqueles de “A Casa Lima” (pg.115), “Gregório, o Mártir “ (pg. 134) e “O Plano B” (pg.136). Cito-os só por citar, mas o livro é leve, uno e, dentro do seu propósito e da sua linguagem desabrida, gostoso.
    Parabéns ao escritor Joaquim Ribeiro Magalhães, na sua humildade de contador de histórias, só para consumo e diversão dos amigos e conhecidos, parentes e aderentes.  Sua leitura valeu a pena.
 ___________________                                
*Francisco Miguel de Moura, brasileiro, piauiense, escritor, endereço atual: franciscomigueldemoura@gmail.com

domingo, 9 de outubro de 2016

A NECESSIDADE DO SILÊNCIO NA ORAÇÃO

*Francisco Miguel de Moura

Membro da Academia Piauiense de Letras.

Há algum tempo, eu escrevi que Deus é silencioso. Eis aqui minha crônica sobre o silêncio, sua falta ou seu excesso na sociedade, tem sentido. Em boa parte do dia e na maior parte da noite, que ele venha: desejamos, pedimos, amamos. Se todos falassem de uma só vez, já imaginaram, quem ouviria?

Ninguém me venha tirar ilações maliciosas dessa ideia inicial. Deus é silêncio, mas no Universo não há silêncio, pois está sempre em movimento, é a lei da vida. Mesmo quando estamos dormindo, nosso universo (nosso cérebro) passeia.

Calculo eu, com muita simplesa e humildade, que os movimentos e a rolagem dos planetas, cometas, estrelas, constelações e suas órbitas, tudo isto e tudo quando existe obedece a uma entidade superior que jamais a entenderemos. Essa rolagem do Universo é feita em música, se o nosso pequeno ouvido prestar bem atenção. O meu, de poeta, consola-se com essa santa música universal. Não será de lá que tiramos nossas canções, nossas alegrias, nossas danças e nosso amor? O cérebro humano é uma célula infinitesimal do grande Universo. E jamais vamos conhecer o grande Universo. Jamais! Aliás, quem disse que nos conhecemos a nós mesmos pelo menos?  E nossa mente, nosso espírito, nossa alma?

Depois deste introito, podemos sair da parte subjetiva da crônica e entrar no fato, um caso que observei hoje, pela manhã.

Uma senhora sem atavios – pareceu-me de classe média - entra na igreja de sua paróquia. Vinha muito aflita. Pela expressão do olhar, pelo apressado passo, levando um rosário na mão. Como de comum, ao entrar fez uma genuflexão e o “pelo sinal”. A igreja vazia. Mas preferiu não ficar no corpo geral e procurou a sala do Santíssimo, reservada para guardar as hóstias consagradas que sobraram da missa.  Escolhia um lugar bem à frente. Ajoelha-se e começa a rezar.

De repente entra um cachorro
.
“Ora, ora, eu não tenho cachorro”!

Olhou um pouco para trás e lá estava sentada uma jovem, de boa aparência... “O animal deve ser dela”, pensa. Mas nada perguntou. Os movimentos do cachorro atrapalhavam sua reza, de forma que demorou o dobro de tempo que tinha pra rezar todo o seu terço, pedir graças a Deus e a sua mãe, a Virgem Maria. Pedir-lhes perdão de suas culpas e solicitar uma grande graça, e paz.

- Mas, e aquele cachorro, meu Deus!

Ao fim das orações, a mulher levanta-se, já se persignando, olha e vê o sacerdote que entrava. Este falou com ela, deu-lhe as boas vindas, desejando que voltasse sempre. A senhora teve vontade, durante toda a reza, de levantar-se e falar com a moça, Mas... A timidez, a dúvida... Deveria ou não?... Agora a vontade era de falar com o padre sobre aquele animal tão buliçoso.
Olhando e apontando o cachorro, o padre pergunta à senhora:

- É seu!

- Não, senhor!

O padre é daqueles que não têm “papa” na língua. Voltou-se para a moça, apontou o bicho e perguntou:

- É seu?

- É – respondeu secamente.

- Mas, diga-me uma coisa, menina, cachorro reza?

- Não. Por quê?

- Se ele não reza, por que o trouxe para a igreja, uma casa de oração?

- Seu padre, ele é tão meu amigo que não me larga, a gente dorme junto, come junto e anda junto...

- Sim, ele, ele é seu amigo. Mas será também amigo daquela senhora que se distraiu com seus movimentos e quase não se concentrou na reza?

- Não sei.

Então, leve o seu cachorro pra casa e nunca mais deixe que ele entre aqui. Até ele aprender a rezar com você, pois, pelo que eu vi, você não rezou nada, apenas atrapalhou. Aqui não é lugar de cachorro, tá, minha filha.

- Tá, seu padre! – E saiu resmungando que ele era muito chato.

A mulher, assistindo tudo aquilo, tentou não se intrometer e dizia consigo mesmo que, se não fosse o bom padre que ele é, eu nunca mais voltaria a esta igreja. Não existe só uma paróquia, nesta cidade
- Hei de encontrar outra.

E ela tinha razão.

A dificuldade de sua concentração foi aguçada pelo saracoteado do animal, juntamente com uns poucos latidinhos desagradáveis.

Neste final, aproveito e aviso aos navegantes: Minha crônica não tem nada de antiecológica. Os animais são nossos irmãos, precisam ser tratados como são: criaturas de Deus, mas diferente do ser humana. Animal doméstico fica em casa. Ou pode acompanhar o dono pelas ruas. Mas isto não chega a ser aconselhável. Cachorros costumam ir, por onde vão, deixando sujeiras como defecando no passeio – caminho dos cidadãos – e mijando nos postes, e até nas pernas de cavalheiros. Atesto que isto eu já vi. Se for pecado, que Deus me perdoe e que os cachorros também me perdoem, mas eu não gosto deles.

Cachorros! “Considerados os melhores amigos do homem”, sabemos que eles não amam a liberdade, são uns incondicionais aduladores nossos.  E só este defeito já é bastante para produzirem minha ojeriza.

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*Francisco Miguel de Moura, responsável pela postagem. Email - fanciscomigueldemoura@gmail.com

sábado, 1 de outubro de 2016

ESCRITORES, CARTAS E MENSAGENS

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Leras.

Depois do “smartfone” ou simplesmente do celular, ninguém conversa mais com ninguém. 

Já vai o tempo em que as conversas de calçada, à noitinha, quer em casas de vizinhos, de parentes ou não, as pessoas davam continuidade ao jornal da vida, aos mexericos, aos disse-que-disse. Além de serem uma espécie de jornal do povoado ou da cidade, serviam como divertimento das mulheres, coitadas, que passavam o dia no fogão.

Sim, é verdade que essas conversas de calçadas não tinham dono nem assinatura. Que interessante! No dia seguinte, o dito era desmentido e o conversador nem sempre era desmascarado. Ficava “no quem disse foi fulano”. O vento levava. Era divertimento, uma necessidade para todos: mulheres, homens e crianças.

Os meios de comunicação acabaram com a fala das pessoas. Não sei como ficará a voz humana no final deste século.

Acabaram-se também as cartas feitas à mão – quando as mãos trabalhavam, o cérebro se esforçando e fazendo o movimento junto com os olhos – fosse curta, fosse longa, chegava pelo Correio. E sempre emoções por cima de emoções: de quem era a carta? Olhava-se o nome do remetente. O que diria essa carta? As mãos continuavam trabalhando, abrindo o envelope, e o cérebro e o coração se aceleravam. Demorava um pouco mais do que os “emeiles” de hoje, do que as mensagens “esmartifônicas” de hoje, mas era surpresa por cima de surpresa, além da visão de uma boa letra que a gente elogiava, e da letra garranchuda que a gente lia por desempenho do ofício ou da curiosidade. Mas, de acordo com o agrado, tudo ficava num arquivo de família, e depois se tornariam provas históricas, documentos valiosos para pesquisadores nos museus.

Em se tratando de cartas, refiro-me especialmente a duas: uma da Profª. Teresinka Pereira (USA), que, ultimamente, está muito amarga e revoltada com o mundo e, agora, até com Deus. Sua carta sem datada, recebida em 05/09/2016, começa com esta frase: ”Deus fez um erro quando criou o homem primeiro”. Erro é seu pensamento, Teresinka, porque Deus não erra, segundo minha religião (católica) e muitas outras. Quem erra é o homem, somos nós, mulher e homem. Somos todos da mesma cepa, portanto não interessa saber quem foi feito primeiro. Somos todos iguais, em carne, alma e espírito. As diferenças são marcadas pela personalidade de cada um dentro da sociedade, esta sim, por nós criada. E sendo assim, quem erra é o homem (homens e mulheres), nós somos o verdadeiro caos da vida no planeta. Do restante da carta de Teresinka, talvez valha a pena citar um trecho que ela transcreve do seu guru, Frei Beto:

 “A idade adulta da democracia tem nome: socialismo. Mas de tal maneira o inimigo esconjura tal nome, que temos medo de pronunciá-lo. Ainda não nos recuperamos da queda do “Muro de Berlim”. Coramos de vergonha frente ao capitalismo de Estado adotado pela China e o hermetismo idólatra da Coreia do Norte”.

Diante desse pensamento, ainda eivado de marxismo, estou achando que, com mais velhice, Frei Beto, um dia, vai chegar à razão, reconhecendo que o único regime, que existe desde os gregos (e eles sabiam mais do que nós), criado pelo homem é a democracia. Temos que aperfeiçoá-la, sem excessos de socialismo, mas com o retempero do homem no rumo de Deus da verdade, em pensamento, palavra e ações. Portanto: ditadura, nunca mais; comunismo, nunca mais. Quanto ao socialismo, quem lê a Bíblia há de ver como eram nossas primeiras comunidades cristãs: antes que socialistas, eram irmãs.

Eu gostaria de deter-me ainda, em outra carta. É escrita pelo meu amigo Roosevelt Silveira. Uma carta que veio por “emeile” enviado e recebido em 22-7-2016. Ele mora em Guaçuí - ES, uma linda cidade do interior do Brasil, onde montou uma biblioteca exclusiva para meus livros, ao lado de outra com obras de outros autores. Roosevelt é um discreto escritor, pouco se divulga e pouco é divulgado. Mas gosta de divulgar os outros. Meu colega (aposentado) do Banco do Brasil, pessoa de fino trato, amigo dos amigos, amigo dos livros (sobretudo dos meus), mas recebe cartas e obras de escritores famosos do Brasil inteiro. Eu não posso deixar de citar, nesta conversa silenciosa, uma parte dela que muito me sensibilizou: 

“Quanto a seus contos, cheguei a lhe perguntar por que foram classificados como inovadores. Pela resposta, na época, vi que você não teve essa intenção. Como você me disse que sua característica seria, em virtude dessa classificação, melhor como contista do que como romancista, aqui vai a minha fraca opinião, mas sincera opinião, pois não sou crítico nem experto no assunto. Embora pareça que você se sente mais poeta que prosador, para mim sua grande força é como romancista. Você é um poeta em essência, mas eu o vejo como uma espécie de filósofo quando verseja; em vista disso, seus poemas talvez não sejam todos acessíveis ao povão, ao simples leitor. Os seus contos também costumam não ser tão fáceis de serem interpretados. Já no romance você se faz entender por todo o mundo. Seu “Dom Xicote”, um grande romance, é exemplo do que digo. “Laços de Poder”, que li há muito tempo e não me recordo muito do enredo, também me impressionou, principalmente pelo final.”.

           Elas, as cartas, estão quase se acabando. Que pena! Elas podem dedicar-se aos recados, ao amor, à amizade, ao coleguismo, à crítica impressionista. Pecados da carta: a descortesias, os desentendimentos, pois ela deve ser sempre polida, atenciosa, cordial e decente. 
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