quarta-feira, 26 de abril de 2017

DAS COISAS TERNAS E OUTRAS NEM TANTO


Francisco Miguel de Moura*
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras


Lendo, tudo se aprende. Não sei que motivos encontram os que sabem ler e não lêem, por preguiça, desinteresse ou porque acham que já aprenderam tudo. É dos grandes mistérios do meu bestunto, quando começo a pensar.

Hoje, lendo o poeta Manoel Bandeira, uma das glória da poesia brasileira moderna, o poeta mais terno e amoroso de sua geração, eis que, lendo-o, encontro justo seu poema “Noite Morta”, que parece, pelo título, tratar-se coisas lúgubres. Mas os poetas fazem milagres, o que era ou seria ruim, torna-se agradável ao leitor. É a magia da poesia. Recito o referido poema, que é curto e certo, terno e filosófico, dentro das possibilidades da poesia (que são grandes):

“Noite morta. / Junto ao poste de iluminação / os sapos engolem mosquitos. // Ninguém passa na estrada. / Nem um bêbado. // No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras. /Sombras de todos os que passaram. / Os que ainda vivem e os que já morreram. // O córrego chora. / A voz da noite… // (Não desta noite, mas de outra maior.) . Petrópolis, 1921, em “Estrela da vida inteira”, 1976, uma joia da saudosa da Livraria José Olympio Editora S. A. - Rio de Janeiro.

Esta citação de Manoel Bandeira me veio pela informação que tive de diversos filósofos e psicólogos brasileiros que atestam ser a poesia uma leitura muito mais agradável e útil àqueles que vivem agarradas em informações e técnicas de grande maioria dos livros chamados de “autoajuda”. Eles afirmam que a poesia ajuda muito mais, muito mais mesmo. Não importa de onde tirei este conselho e informação, mais vale dizer que li em alguma fonte de informação e me emocionei com imagens tão bonitas.
Há muitas outras ternuras a serem referidas, lembradas, traçadas, mas tenho uma notícia muito boa para colocar neste artigo. Trata-se do desempenho formidável da PREVI, o Fundo de Aposentadoria dos Funcionários do Branco do Brasil, no ano de 2016, segundo a revista/jornal “Ação”, publicação da ANABB (Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, data de março/abril de 2017, em Brasília:

“A Previ encerrou o ano de 2016 com superávit em seus Planos de Previdência. O Plano 1 apresentou saldo positivo de 2,19 bilhões no exercício (…)” 

 Feitas as contas entre os déficits acumulados em anos anteriores, o patrimônio do maior e mais antigo plano de benefícios do Brasil, quiçá do mundo, terminou o ano com 160,6 bilhões (para os diversos planos em que se divide, conforme a classificação de entrada-início de pagamento.
Particularizando, o total de participantes do Plano-1 são 114.943, dos quais 82.369 são aposentados (entre eles estou eu); 20.712 são pensionistas e 11.862 são funcionários ainda da ativa. Isto significa que a PREVI não foi tanto assim abalada pela situação econômico-financeira do País e que os aposentados do BB podem ficar tranquilos quanto à liquidez de suas aposentadorias. Uf! Isto eu precisava saber: receberei meus vencimentos em dia, como sempre vem acontecendo.

Queremos que a PREVI seja sempre forte como exemplo de planificação de funcionários aposentados. Eles pagaram para o seu direito durante toda sua vida útil de empregados do Banco do Brasil, esta casa que já foi bem melhor e mais séria, mas graças a Deus e seus competentes dirigentes, vem acompanhando o desenvolvimento do país sem muitos transtornos, em tempos bons e em tempos maus, sem quedas impressionantes.
Esta é a noticia em que me situo. Vivemos num mundo em completa ebulição. a era industrial passou e já faz alguns anos. Entramos na da informática ou cibernética – boa para os novos, que nasceram nela, não muito agradável para velhos que têm de adaptar-se aos tempos novos, ao “tudo pelo computador”. Destaco o caso do celular e da notícia que fazem o mundo interligado diretamente sem interrupção de mais de um segundo, enquanto a corrente elétrica lê ZERO e HUM (ou de outra forma +1 e -1): a linguagem do computador.

De algumas coisas já me sirvo. Tenho divulgado minha obra pela internet com mais facilidade. Assim são centenas e centenas de poemas, livros e livros que estão no “ar”, para quem quiser acessá-los. Ultimamente estou pagando minhas contas pelo celular, através de uma aplicativo do meu banco. Liberta-nos de muitas idas a uma agência bancária e, por outro lado, se corre menos perigo contra os ladrões que farejam cada tostão, cada cartão de crédito, cada instrumento que possam servir para os seus serviços mal intencionados, onde a Polícia não chega, enquanto ela não chega, etc.

Também li na revista “Cidade Verdade” a notícia de que a sujeira que o celular esconde pode ser transmissora de doenças por intermédio de bactérias e fungos. Porém, onde, como e com que materiais poderemos fazer a limpeza do nosso “sexto” sentido? Pareça brincadeira ou não, outrora eu aprendi na escola que o corpo humano é composto de 3 partes: cabeça, tronco e membros. Não sei como os professores e alunos estão estudando ciência, hoje, mas o fato é que o celular, de tão necessário e tão usado, tornou-se o nosso quarto membro do corpo e o nosso sexto sentido. Quem não concordar comigo, peço que me faça a nota informado melhor definição para o celular. Era moderna. Nós, velhos, temos de ser um pouquinho jovens à força das circunstâncias. É difícil. Mas não é impossível. Talvez o esforço nos livre de muitos males, inclusive aquele do alemão (o mal de Alzheim).

 Será que podemos considerar o uso do celular e sua prestimosidade como a ternura do nosso dia a dia e especialmente para os dias solitários? Pois com ele – o aparelhinho – nunca ficamos só: telefona-se, reza-se, lê-se obras, conversa, ouve-se música, e quanto mais se quiser e procurar? Além de exercitarmos a escrita. Que beleza!
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*Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

terça-feira, 11 de abril de 2017

SAINDO DA POLÍTICA, ENTRANDO NA LITERATURA…

Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras.



Saindo da política e entrando na literatura, entramos na semana da Páscoa. Não existe a literatura do Natal? E a do Carnaval também? Porque não a da Semana Santa, a da Páscoa. Ora, ora! Falo aqui de literatura como assunto. Pois nosso assunto hoje é a Páscoa. Páscoa, o tempo em que comemoramos a paixão e morte de Jesus Cristo. Deixemos a política de lado. “Dai a César o que é de César...”
Nesta semana em que se comemora as datas da morte e ressurreição de Jesus Cristo, porque Jesus é o mestre dos mestres, o maior sábio do mundo, segundo o médico e filósofo Augusto Cury, confirmamos e acrescentamos: Ele é o maior Sábio e o mais Santo dos homens.
No livro “Treinando a emoção para ser feliz”, Cap. V, pg. 111, Augusto Cury escreveu: “Muitos homens brilharam ao longo da história na arte de pensar. Sócrates foi um questionador do mundo. Platão foi um pesquisador das relações sociopolíticas. Hipócrates, pai da medicina, foi um investigador do corpo humano. Confúcio foi um filósofo da brandura. Sidarta Gautama, o fundador do budismo, foi um pensador da harmonia interior. Moisés foi o grande mediador do processo de libertação do povo de Israel, dirigindo-o em busca da terra de Canaã. Maomé, em sua peregrinação profética, unificou um povo dividido e sem identidade, o povo árabe”. E não esquece Augusto Cury de apontar mais outras personalidades que exploraram e expandiram o mundo das idéias no campo espiritual, filosófico, sociológico, psicológico, físico, como Tomás de Aquino, Sto. Agostinho, Hume, Bacon, Spinoza, Kant, Descartes, Galileu, Voltaire, Rousseau, Shakespeare, Hegel, Marx, Newton, Max Well, Gandhi, Freud, Einstein, Viktor Frankl etc. Essas celebridades horaram seu trabalho e sua sua inteligência. Augusto Cury, mesmo não sendo um religioso de qualquer credo, ele acrescenta e muitas vezes repete sob outra forma e noutros contextos, a importância insuperável de Jesus:
“Houve um homem cujas idéias não apenas influenciaram gerações, mas causaram a maior revolução da história. O seu nascimento dividiu a História. Ele é o mais lido do mundo, embora não tenha escrito nenhuma palavra. Ele é o mais estudado da atualidade, embora seja o mais cercado de mistérios e o menos conhecido. Inúmeras pessoas em todo o planeta se dividiram em milhares de religiões em torno do seu nome, mas às portas da morte ele rogava aos seus íntimos amigos que amassem uns aos outros em detrimento de suas diferenças”.
Na Semana de 10 a 16 de abril, quando há dois feriados memorativos da vida, paixão e morte de Cristo, segundo a doutrina católica, aquele filho de Deus que se fez carne, habitou entre nós e morreu para nos salvar - homens, pecadores desde o pecado original dos nossos primeiros pais – é lógico e necessário que não apenas se vá à praia para desfrutar os referidos feridos: quinta e sexta-feira, que emendam no fim de semana. Mesmo que o leitor não seja um católico, pense nisto, faça um esforço a mais e vá à missa ou a outro culto correspondente, dentro do seu próprio credo. Segundo os Evangelhos, escritos pelos discípulos de Jesus, depois da morte, para que o povo o conhecesse e amasse, foi ele, Jesus Cristo, quem nos trouxe um mandamento novo, tão suave quando o nome: o mandamento do Amor. Amor a si mesmo, amor ao próximo, amor a Deus. Porque era isto que estava faltando. Na lei de Moisés e de Hamurábi, entre tantas outros leis e costumes, o que existia era o “olho por olho, dente por dente”.
A história de Jesus influenciou o mundo inteiro, o mundo novo, diferente do mundo antiga que acreditava em deuses diversos, sem história tão comovente, verdadeira e vital quanto a de Jesus. O acontecimento influenciou a arte: a pintura, a música, a escultura, o teatro, a literatura, e portanto os poetas. Alguns destes, como José Maria du Bocage, que tanto invectivou contra Deus e o Cristianismo, na hora da morte escreveu um soneto com a chave de ouro assim:
“RASGA OS MEUS VERSOS, CRÊ NA ETERNIDADE”, a eternidade de outra vida que tanto Jesus pregou, o Reino de Deus de que tanto fala a Bíblia.
As dores da Paixão de Cristo influenciaram os poetas, mais do que vinham influeciando antes, as dores humanas. Agora se tratava de um Deus vivo. As mitologias dos gregos eram deuses mortos. Outras e outras adorações foram sepultadas no breu dos tempos. O Cristianismo floresceu. A Bíblia, que conta a história e a vida do povo de Deus, antes de Cristo, é um documento escrito dos mais antigos. A Bíblia é uma obra composta de 72 livros,que formam o monumental documento. Não se sabe em quantas línguas e dialetos foram escritos e transplantados, mas como se trata da história do povo de Deus, que é guardada pelos judeus, deve ter sido nas línguas que esse povo falava ou falaram, portanto também os escrivães, pessoas boas e competentes, escolhidos e aprovados por Deus para a finalidade. No aramaico, a língua em que Jesus falava, com certeza foram escritos os 4 Evangelhos.
A Bíblia se divide em 2 partes: o Velho e o Novo testamento. É poesia. É escrita em versículos, com cadência, medida e estilo, que muito pouco se percebe hoje, por causa das inúmeras traduções por que passou até chegar a nós. É também música, os salmos são exemplo disto.
A diferença maior entre as religiões que acreditam num Deus único é que elas observam a Bíblia em seus detalhes, cada uma interpretando-a a seu modo. São três: Cristianismo, Maometismo e Judaísmo. São as mais universais no sentido em que abrangem as virtudes do homem e, modernamente, acreditam em Deus, bem como interpretam que o Demônio é o pecado, o não cumprimento da lei, dos mandamentos. E não um ente temeroso, de rabo e chifres, como se fosse uma nova mitologia. Jesus Cristo, no Cristianismo, é um homem, o filho de Deus vivo, que veio para salvar o mundo. As demais existentes no mundo podem ser consideradas no mesmo nível das antigas mitologias.
A literatura sobre Jesus, além da que está na Bíblia, é enorme. O próprio Augusto Cury escreveu um romance da vida de Jesus, chamado “O Homem mais Inteligente da História”. Entre os escritores clássicos, consta “A Vida de Jesus”, de Ernest Renan, muito comentada; Plínio Salgado, político, escritor e romancista brasileiro, também escreveu “A Vida de Jesus”; e Maria Helena Ventura, publicou recentemente “Um Homem Só”, provando que Jesus sempre existiu. Mas, há muito, muito mais, basta pesquisar. São essas as leituras recomendadas para a Páscoa. 

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Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras.


quinta-feira, 30 de março de 2017

“CONTOS DA MINHA TERRA” – RIBAMAR GARCIA

Francisco Miguel de Moura*


É muito gratificante ler um livro como esse que o título indica, de autoria do escritor José Ribamar Garcia, homem que muito cedo saiu da nossa terra, o Piauí, mas levou-a no coração, tanto a terra quanto as gentes, os costumes, as lendas e os falares, enfim toda a sabedoria do nosso povo. Trata-se de um livro de contos. E é muito difícil fazer-se a análise de um livro da espécie, pois cada conto é um conto e cada contista aumenta seu ponto. Certo?

Pois então, com este direcionamento, vamos lá, meus leitores e leitores do senhor escritor José Ribamar Garcia. Ele começa com um ótimo conto e termina por outro também do mesmo valor, um maior e o outro menor em extensão: “Pote de ouro” e “Almoço de domingo”. Por estes podemos tirar o miolo, os demais, sem querer sugerir que em lendo esses dois contos, o livro está lido. E pronto. Eu li todinho. Aliás, não costumo fazer comentários ou crítica de livros que não leio. Jamais. Nem ninguém deve ter este desplante de mentir, julgar, medir sem ter uma medida, um parâmetro, um conhecimento completo.

Li todo o livro e gostei de todas as peças. Muitas coisas que têm a ver com a gente do Piauí, até comigo, por virtude de minha linguagem ser das bandas dos Picos, da região centro-leste do Piauí, onde se tem uma influência muito forte do Ceará. E menos de cá, da margem do Parnaíba, nosso grande rio, que é nosso mar, se quisermos fazer uma razoável comparação. Um estilo seguro, claro, rico e às vezes até lírico, poético. É próprio do escritor Ribamar Garcia. Estilo e vivência que nos levam à região ribeirinha do Parnaíba, absorvendo também vivências do povo do outro lado, o Maranhão. Ribamar Garcia nasceu em Teresina e mora no Rio de Janeiro. Fez os estudos primários no Grupo Escolar “Engenheiro Sampaio”, o primeiro ano ginasial no Liceu Piauiense e, aos 13 anos, deixou nossa terra. Com grande dificuldade, rompeu todas as barreiras em sua frente, fixando-se no Rio, onde concluiu o ginasial, cursou o clássico e diplomou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Niterói – Universidade Federal Fluminense. Casou e constituiu família, tem quatro filhos. Passou a fazer uma bela carreira de advogado, na grande Cidade Maravilhosa.

Tinha toda razão para esquecer seu passado de criança e adotar os costumes do Rio. Mas não é um desmemoriado, um descoroçoado. Adaptou-se ao que passou a conhecer. Mas, certamente, levou consigo um bom conhecimento da nossa gente: os barqueiros do rio, os pescadores e roceiros de um e do outro lado do “Velho Monge”. Guardou reminiscências da gente de seu pai, de seu avô, de seus tios e tias, onde o menino ficava nas férias ou mesmo ia passear de vez em quando. Guardou parte das histórias que os velhos contavam. E essas observações perpetuaram-se na memória.

Como ia dizendo, o Maranhão possui outros rios grandes – não do tamanho do Parnaíba, nem dos maiores afluentes do Paranaíba, do lado Piauí. O Maranhão possui muitas praias. Numa delas os franceses aportaram em navios inda no início do Brasil Colônia, desembarcaram e iniciaram a povoação que seria São Luís, em 1612, a única capital de estado brasileiro que não foi obra dos portugueses. Nessa situação, a linguagem do povo da margem esquerda do Parnaíba difere um pouco, nem tanto, da nossa, da margem direita, onde fica Teresina, cuja fundação pelo Conselheiro Saraiva, aconteceu só em 1852, hoje empório comercial das margens do Parnaíba. Nossa capital era Oeiras, no centro do estado. Mas até pelo locais citados no texto, Mercado Velho, Chapada do Corisco, Morrinhos, Parque da Bandeira, nota-se que estamos em Teresina “cagada e cuspida”. Todos os afluentes do Piauí correm para o Parnaíba. Assim, pode-se dizer que o rio-mar Parnaíba é muito mais do Piauí do que do Maranhão.

Depois desta digressão, creio que necessária, para mostrar que Ribamar Garcia é escritor nacional – lembro-me de seu livro “Para onde vão os ciganos?”, de contos, que mostra um modelo de escrever muito carioca quando economiza certas palavras que, com quanto não sejam desnecessárias, se retiradas do texto não lhe tira nem adultera o sentido. E isto ele leva para quase todos os seus títulos publicados. Sem levar em conta as pequenas diferenças apontadas, afirmo que o nosso enfocado escritor tem um estilo inconfundível, forte, rico, suculento, além fina observação e grande imaginário.

Eis aí o escritor José Ribamar Garcia. Levou tudo consigo (inclusive o Piauí) para o Rio de Janeiro onde o mesclou como sua vida. Lá publica contos, romances e memórias. Lá tornou-se um excelente advogado, onde trabalha - cidade sua amada há muitos anos. Sua escrita é ele mesmo, tem o sabor da vivência de sua infância, tem o sumo da terra e do povo maravilhoso das margens do Parnaíba, como já disse. Além do mais, em tudo que toca, Ribamar imprime o carisma da grande pessoa que é, pelo labor, pelo amor, pela amizade, pela saudade que lhe ficou impressa no corpo e na alma, espelhada, como ele mesmo diz, no seu querido pai e nos demais membros da família.

Para não ficar apenas no que e como de sua forma de escrever, informamos que “Contos da minha terra” compõe-se de 32 contos, um número cabalístico para o Nordeste: Olhem a seca de 32, em que se firma a ficção de Fontes Ibiapina. Algumas narrativas eu consideraria crônicas, mas não entremos nesta polêmica perdida, porque, hoje a maioria dos teóricos da literatura aceitam que “uma crônica bem feita vale mais do que um conto sem os limites traçados para essa forma artística”. Para mim conto e crônica são ouro da mesma lavra. Ambos são literatura, são arte. Adivinhando que nem todos os meus leitores vão ler o livro de Garcia, pela quase nula distribuição dos autores brasileiros, citemos aqui um trecho da última narrativa de “Contos da minha terra”, de José Ribamar Garcia, titulada de “Almoço de domingo”:“Andava faltando carne na cidade. Até de bode, que sempre houve em abundância e era vendida às segundas-feiras, no Mercado Velho. Que disparate! O estado, que já teve o maior rebanho bovino do país, tido como referência nacional - ‘O meu boi morreu / Que será de mim? / Manda buscar outro / Lá no Piauí’ - de repente sem carne. Açougues vazios, magarefes entregues às moscas – literalmente. A solução foi trazer galinhas do interior, precisamente de Morrinhos, que chegavam aos domingos em caminhões, amontoadas em caixotes de madeira. Venda racionada. No máximo duas para cada pessoa”. E fiquemos por aqui, a história é meio humorística e só daria para terminar com mais uma folha de papel. É uma pena!

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 *Francisco Miguel de Moura, poeta e escritor brasileiro, mora no Piauí. E-       mail:franciscomigueldemoura@gmail.com

domingo, 26 de março de 2017

NORDESTE: A TERRA, A POBREZA E A CULTURA

Francisco Miguel de Moura, escritor, 
Membro da Academia Piauiense de Letras.

Sabe-se que o Nordeste é discriminado no Sul e consequentemente os nordestinos, especialmente os que para lá se mudam em busca de trabalho. Embora tenha sido o Nordestino quem construiu São Paulo. Depois do fim da escravidão, nossa emigração começou e foi aumentando. Chegou um tempo, ainda recente, em que os estados do Sul e Sudeste, segundo consta pela imprensa, pensaram e falaram em separar-se do Nordeste. O Nordeste fez um balanço do que eles de lá perdiam e o que, em vista disto, ganhávamos. As cabeças pensantes chegaram à conclusão de que os ganhos e perdas se compensavam e o melhor mesmo seria todos se conservarem sendo o Brasil, este gigante da América Latina. Neste bolo, é claro, entrava o Piauí, considerado o estado mais pobre da dita federação brasileira. Não sei se nosso Piauí é o mais pobre dos irmãos. Sei das riquezas do Piauí (ou pelo menos adivinho). Começamos como grandes criadores de gado, exportadores, industriais, etc. O início foi na Bahia. No livro “Roteiro do Piauí”, de Carlos Eugênio Porto, encontro o assunto assim resumido: 

“A criação de gado começou no Brasil, no governo de Tomé de Sousa, revelando-se de grande importância para a Colônia recém-descoberta. Importado da ilha de Cabo Verde, os navios que chegavam ao Brasil traziam novas cabeças que eram distribuídas entre os habitantes, estabelecendo-se o curioso sistema de pagamento às custas do rendimento de seu trabalho”.

Embora o Piauí não tenha nada, talvez somente a origem, com o modo que Portugal colonizou o Brasil, a “Terra de Santa Cruz”, pois os primeiros homens eram os bandeirantes e procuravam ouro e madeira para exportação imediata, abrindo caminhos pelos quais quase nunca mais voltariam. Não, o Piauí foi descoberto muito tarde e demorou muito a ser povoado. Era e continuou sendo uma terra de passagem entre Maranhão e Ceará. O ano 1514 é uma data simbólica. Só quando a cana-de-açúcar com seus engenhos já eram assentados em Pernambuco, o Piauí começou ser falado por causa de alguns dos seus acidentes – o rio Parnaíba, por exemplo. Assim, o apossamento das terras se deu lentamente. A indústria açucareira tinha necessidade de bois para mover as moendas; nas selvas, onde quer que houvesse uma fazenda, a necessidade de bois, também era muita, para puxar os carros e transportar o que precisassem os colonos. No Piauí – entre as serras já conhecidas e exploradas por causa da guerra contra o gentio e o grande rio Parnaíba - descobriram-se imensos campos cobertos de capim silvestre. E ali estabeleceram-se os primeiros currais, fazendas de gado que foram crescendo em número e quantidade de cabeças. Esse gado era exportado para as indústrias de Pernambuco e para a zona de mineração em Minas e Goiás, e daí sendo levado também para o Sul.

Passamos a ser muito falados, embora que não conhecido. A cantiga “O meu boi morreu / Que será de mim? / Manda buscar outro, Maninha, / Lá no Piauí”, tinha sentido: a realidade gritante. Quantos boiadeiros fizeram a vida levando boiadas para mais perto e mais longe deste Brasil?!
O Nordeste e o Piauí foram ricos. Muita gente o procurava para estabelecer-se como fazendeiro, pois a atividade era bastante rentável, embora que perigosa por causa do ataque dos índios e também dos malfeitores que infestavam a região, onde se apossavam da terra e escondiam-se da justiça.
Não se sabe nem quando foi que os fazendeiros começaram a ferrar seus rebanhos com um ferro em brasa – a marca da sua fazenda e do seu proprietário. No caso de haver um roubo, seria mais fácil encontrar o objeto e castigar o ladrão.

Com esses cuidados, os currais se multiplicavam sob a fiscalização dos vaqueiros. Continuava sendo fácil possuir um grande rebanho, pois pasto não faltava, salvo nas grandes estiagens, a partir de 1711, quando os fazendeiros tinham que procurar aonde levar o rebanho ou parte - sítios melhores e aguadas - enquanto vinham as chuvas para soltá-los novamente nos campos. Assim, os currais de criação multiplicaram-se rapidamente. O padre Cardim, em “Tratado da gente e terra do Brasil” registra “a posse, de um só homem, de 500 ou 1.000 cabeças , no seu tempo”.
Foi o engenheiro Gustavo Dodt quem escreveu, em algum lugar de sua obra, que as terras do Piauí não se prestavam muito para a lavoura. Talvez por isto, por intuição ou sapiência, quem veio colonizar o Piauí investiu no gado, inclusive por ser uma mercadoria que por si só se transportava. O historiador Carlos Eugênio Porto, registra que João de Amorim Pereira respondeu ao ministro da Coroa, em 08-04-1798, quando o rei se manifestava a favor da produção de alimentos para a subsistência da cidade: 

“A situação desta capitania é diametralmente oposta não só ao seu aditamento, mas ainda mesmo a sua conservação; as experiências têm mostrado e as razões seguintes o manifestam; em primeiro lugar, o terreno da capitania (Piauí) é incapaz da produção necessária para a sustentação dos seus habitantes, pois todos os gêneros que se consomem nesta cidade (Oeiras) vêm daqui a 10, 15, 20 léguas, em cavalos que apenas carregam 5 arrobas e fazem por dia 5 a 6 léguas de caminho, o que faz com que sejam mais caros do que em Portugal, sendo por mar conduzidos aos portos deste continente.”

Viu-se, naquele tempo, que ele tinha razão: as terras do Piauí não se prestavam à agricultura. Mas a verdade é outra: hoje está sendo provada. As terras são boas. Claro que não produzem como as do Sul. Não podem fazer concorrência a elas. Mas, para melhorar os efeitos das secas, existem as águas subterrâneas: o Piauí tem um dos maiores lençóis de água no subsolo. Só precisa que haja governos de vergonha, de caráter, de ousadia, juntamente com os trabalhos que estão sendo feitos na transposição do São Francisco, e o Nordeste chegará a ser um novo celeiro para o Brasil. A pobreza material que existe no Nordeste provém das suas políticas voltadas apenas para minoras. Só combatem os efeitos das secas e não suas causas. Políticos para adquirir votos com bolsas-famílias e outros refrigérios que fazem a pobreza dos mais pobres e a riqueza deles, os ricos. Outrora se chama isto de “indústria das secas”. Hoje está claro que é a corrupção da política geral do Brasil, tornando, enfim, o Nordeste como um todo, o filho enjeitado na Nação. Em compensação, o Nordeste é rico de tradições, artes e artistas, tanto que influenciam e fazem o Sul importar. E os sulistas se encarregam de deturpá-las. A cultura é um bem que se deve cultivar (é preciso o pleonasmo) e preservar. Porque é um bem e faz o homem mais feliz nas sociedades civilizadas.   
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Francisco Miguel de Moura, o autor, é escritor brasileiro, mora no Piauí, Teresina (Capital). Email: franciscomigueldemoura@gmail.com

segunda-feira, 20 de março de 2017

A POESIA NÃO TEM DIA NEM HORA, MAS HOJE…

Francisco Miguel de Moura*.

Viva a poesia. Vivam os poetas. Hoje é 14 de março. Comemoramos a poesia nacional, mas pode ser internacional também. Que bom seria se ainda se lesse poesia como antigamente! Eu digo e provo: a não ser os poetas, os que são meus amigos, poucos lêem meus poemas colocados nas chamadas redes de comunicação da internet. E é onde se lê, e pouco, é na internet mesmo. Voltamos no tempo, voltamos à cultura visual – aquela que sempre existiu desde o homem da caverna. Temos um cérebro muito cheio de porcarias que a televisão e todos os meios de comunicação, inclusive jornais e revistas, nos metem pela garganta.

Os poetas lêem os poetas, e pronto.

Cadê Castro Alves, quase adorado pela mocidade escolar, com seus versos candentes, cheios de amor e de paixão, cheios de esperança e de crítica, cheios de natureza e de humanidade? Quem não sabia ao menos uma estrofe do “Navio Negreiro”? Ou de “O Livro e a América”? Ou uma quadrinha de “O Gondoleiro do Amor”? - Recitando as duas primeiras: “Teus olhos são negros, negros, / Como as noites sem luar… / São ardentes, são profundos, / Como o negrume do mar; // Sobre o barco dos amores, / Da vida boiando à flor, / Douram teus olhos a fronte /Do Gondoleiro do amor.”

Se fôssemos transcrever os versos mais lindos, mais fortes, mais inspirados de Castro Alves passaríamos aqui o dia, a crônica inteira, o dia e a noite. Lembremos, pois muitos não sabem, que a data que comemoramos em 14 de março é justamente a data natalícia de Castro Alves, que veio ao mundo no ano de 1847, na fazenda Cabaceiras, freguesia de Muritiba e comarca de Cachoeira, na Bahia. Para mim e para muitos é ele um dos maiores poetas brasileiros, senão o maior. Sua poesia enche de vida e sentimento a alma dos que o tocam (lêem). Pela leitura é que o homem consegue alcançar a maior sabedoria, pois poesia é intuição, luz e palavra (banhada de luz). “A sensibilidade do imaginativo desse gênero (poesia) é principalmente estimulada pela vista, pelo movimento e pelo tato”, escreve Eugênio Gomes, numa introdução à “Obra Completa”, de Castro Alves, Ed. Aguilar,1966, Rio de Janeiro-RJ. Este pensamento indica que a riqueza do poema é englobar todas as artes e ainda mais a filosofia e a ciência. Poesia, arte por excelência. Quem não lê poesia, enferruja-se, encaracola-se, cega, morre.

Ora, ora, perguntarão:

- E o que é poesia?

E eu lhes respondo:

- Poesia é vida, poesia é música, dança, teatro. Poesia é amor e também natureza. Poesia é de Deus e é Deus.

Lembro-me de quando eu estava ainda na meninice, mal tinha aprendido a ler e, nas férias frequentava a casa de meu avô paterno, Sinhô do Diogo. Ele lia, tinha um monte de livros, para a época. Contos, histórias de cavaleiros da Idade Média, poesias e até um livro de cem cartas de amor, que eu adorei, juntamente com os de poesia. Castro Alves, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Fagundes Varela e outros. Os românticos em especial. E eu comecei a aprender bem por lá. A leitura é uma das maneiras mais inteligentes de aprender-se a sentir e a pensar, amar e querer bem, a meditar, a ser gentil e humano. Sinceramente, não sei por que a cultura chamada pós-moderna, ou “pós-nada”, cancelamos o caminho da leitura. Nas escolas, nos hospitais, nas creches, no ônibus, no consultório médico, em casa sempre, sem desprezar a privada, onde temos todo o tempo e toda a liberdade de fazer e acontecer. São todos lugares de se ler e aprender.

Voltando a minhas leituras: Castro Alves era uma das minhas maravilhas. Depois conheci outros poetas: Raimundo Correia, Olavo Bilac e Camões; muitos outros portugueses, chegando a Fernando Pessoa. Dos brasileiros, degustei Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, meus mestres. Mas há tantos outros poetas bons, impossível citar todos. A poesia não tem dia nem hora. Poesia é todo dia, toda hora. Para os que não participam do maior instrumento de civilização – a leitura. Sem ela, babau! Teremos apenas analfabetizados, aqueles que conseguiram frequentar a escola e depois esqueceram-se dela, do melhor da escola: o conhecimento pela linguagem, pela luz da consciência de saber-se uma criatura pensante.

- Você está lendo o quê?

Não caia na besteira de perguntar isto a mais de duas ou três pessoas na rua. Você se decepcionará:

- Nenhum, eu nunca li um livro, me dá um sono!... E sendo de poesia aí é que não leio, pois não entendo nada da matéria.

Não entende nem vai entender. Isto e muitas outras coisas do mundo que está acontecendo a seu lado. Não direi à sua vista, pois quem não lê é cego. Você pode saber muito de estatística, de dinheiro, de bolsa, de jogar na loteria, de entender e torcer por um time de futebol, de carnaval, de pular junto com alguns “macacos” que pulam no palco, mas não tem voz, não cantam, não dizem, não sabem música. Quando muito, sabem bater tambor e outros instrumentos “modernos” mais sofisticados para fazer barulho. E nada mais. Depois de tudo, o sono (ou o pesadelo?) a troco de bebida, droga ou de algum sonífero menos maléfico. E vai gastando a saúde, vai andando para baixo. Que sonhos você terá? Nenhum.

Ah, se o mundo voltasse para a educação sem dogmatismo! Não essa que está aí, a que ensina que ninguém nasce macho ou fêmea, o mundo é que o faz. E como faz loucamente muitos outros sexos… Calemos. Eu prefiro o amor à moda antiga, a educação à moda antiga, a cultura que não esquece suas raízes, as leis que não sejam casuísticas, a democracia ao comunismo e suas variações, o casamento aos acasalamentos sem responsabilidade para com os frutos desse amor sem raízes, amor sem amor, simplesmente sexo, sexo... E dor, depois. Porque esses preparam a solidão a sós, desculpem o pleonasmo, a doença abandonada, os crimes contra a família - a célula máter da sociedade civilizada. Não, eu prefiro a poesia, o amor, a amizade, a luz do sol, o mundo verde, a doçura de um livro à cabeceira. Não digo que não uso o celular. Mas, coitado, ele foi desfigurado. E virou pura tolice. Enfim, estamos numa selva. Nus e com fome. Como nos primeiros tempos, atrás da caça que não alcançamos. Porque já a perdemos há muito tempo, sem dó nem piedade.

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*Francisco Miguel de Moura, poeta, membro da Academia Piauiense de Letras.

terça-feira, 14 de março de 2017

RELIGIÕES E CREDOS, O QUE SÃO?

Francisco Miguel de Moura*
       Escritor

Assuntos difíceis de dissertar-se, ou para escrever uma crônica, são: religião, futebol e política, desculpem a mistura. Cada qual tem sua ideia irremovível. Só ele está certo, ou outro não tem razão. Mas acrescento ao título de religião a palavra “credo”, e a abordagem melhora. A gente pode muito bem, crer, acreditar em algo sem que a crença seja um religião formal. Em Deus, por exemplo. As religiões cristãs todas têm uma fonte, uma origem, é a Bíblia, um conjunto de livros dos mais antigos que se conhece, inspirados por Deus e escrito pelos homens escolhidos por Ele.

Já disse algumas vezes que não conheço o assunto profundamente. Em matéria de religião, o que sei vem do catolicismo. Mas não entro aqui no mérito das religiões. Nem do catolicismo nem das religiões evangélicas, muitas vezes chamadas de credos. “Não julgueis e não sereis julgados”, como está na Bíblia.

O homem é um animal simbólico, pois a realidade não seria compreendida sem os símbolos que criamos pelo pensamento e pelos sentidos primariamente, tudo desembocando na linguagem, nas linguagens. Creio que o filósofo Arthur Schopenhauer já disse isto. Se não disse, eu digo. E mais: Arte é vida, ou melhor, recriação da vida. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus” (Evangelho segundo João, Cap. I, versículos 1 e 2).

Baseado nos princípios acima, arriscaria a dizer que o catolicismo interpreta a vida e a religião pelos sentimentos, sua simbologia é rica e emociona, sem deixar de ser racionalmente concebida, menos em alguns dogmas cuja aceitação acontece mais pela fé, o grande sentimento do homem. Em contraposição, os credos evangélicos são altamente racionais e ligados à letra da lei que está na Bíblia. Quem seria melhor? Ambos são bons credos, boas religiões. A fé em Deus os iguala. E pronto.

Estou convencido, depois de ler muito sobre filosofia e religião, de que o livre arbítrio é invenção dos homens, porque Deus está sabendo de tudo o que acontece, pois foi Ele quem criou tudo. Mas não gosto de dizer que tudo estava determinado. Ele cria e determina o essencial. Nesse ponto, Ele é tudo e nós somos um pequeno grão de poeira da sua obra magnífica. Mesmo assim nós recriamos. Foi por isto que apareceram, pelo pensamento dos filósofos, os princípios do livre arbítrio e do determinismo.

Não discuto religião simplesmente porque não sei. Quem saberá muito sobre a divindade, sobre o eterno, sobre a alma e o espírito? De modo especial, sei apenas de língua portuguesa e poesia (literatura). Creio em Deus e sei que tudo me virá por acréscimo. Se algo eu disse, em meus versos, que possa parecer contra Deus, peço perdão, e quando o fiz foi para testar minha liberdade de dizer o que quero perante os homens, não perante Deus. Ele me perdoará, pois é todo amor e misericórdia, como disse o Papa Francisco I: “A misericórdia é a carteira de identidade do nosso Deus”, numa excelente metáfora, visto que Deus é. Ele mesmo é fiel, é bondade. No livro “O nome de Deus é misericórdia” - uma longa entrevista que o Papa Francisco deu à jornalista Andrea Tornielli - entre outras coisas, o nosso Papa conta uma historinha engraçada. Perguntado sobre seus confessores, o Francisco lembrou de um grande confessor: 

(...) Mais novo do que eu, um padre capuchinho, que exercia seu ministério em Buenos Aires. Uma vez ele me procurou para conversar. E ele mesmo me disse: - Queria te pedir ajuda; tenho sempre tantas pessoas na fila do confessionário, pessoas de todos os tipos, humildes e menos humildes, mas também muitos padres… Eu perdoo muito e às vezes sinto o escrúpulo de ter perdoado demais. Conversamos sobre a misericórdia, e eu lhe perguntei o que fazia quando sentia aquele escrúpulo. E ele respondeu assim:- Vou até a nossa capelinha, diante do sacrário, e digo a Jesus: - Senhor, perdoa-me porque perdoei demais. Mas foi o Senhor que me deu o mau exemplo”.


Deus só não perdoa ao pecador que continua praticando más ações e não vai a Ele e diz (ou pensa): Eu creio no Senhor, vou voltar para o caminho do bem, cumprir seus mandamentos. Esse orgulho contra Deus é o que outrora a Igreja Católica chamava de pecado contra o Espírito Santo, e eu, ainda menino, como catequista, afirmava a outros meninos, aqueles que ainda não sabiam ler. Só esse pecador não tem perdão, visto que se trata de uma alma que não quer ser perdoada. Se não quer ser perdoada, como vai obter o perdão? Mas todas as pessoas são criaturas de Deus, logo a bondade do Senhor está sempre de prontidão para perdoá-las.

A proposta inicial deste artigo é responder a uma pergunta sobre religião e credo. Não vou deixar de responder, embora tenha ficado para o fim.

Bem, religião é um substantivo formado do verbo religar, ligar o que estava desligado. Se estava desligado, já esteve ligado. Segundo os melhores dicionários, religião é um conjunto de práticas e princípios que regem as relações entre o homem e a divindade. Já credo é substantivo que vem do verbo crer, abreviação de criar. Crer é ter fé e é confiança em alguém, em alguma cousa. Só se acredita em quem conhece. Todos as criaturas conhecem Deus, porque ele está escrito na consciência de cada. E quem diz que não crê, o ateu, está negando Deus. Logo, ele sabe que Deus existe, tanto sabe que o nega. Ser ateu é uma contradição. Seguir ou não uma religião não leva ninguém à salvação. Crer é que nos levará a quem a gente confia: a Deus, à fé e às boas ações.


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*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da APL e de outras instituições no Brasil com a UBE-SP, além de várias entidades de cultura, arte e literatura, inclusive no exterior.

quinta-feira, 2 de março de 2017

“NÓS, POETAS DE 33” – JOANYR DE OLIVEIRA

Francisco Miguel de Moura
Escritor


A novidade do nosso artigo acontece no planeta Brasília. E não é de política que tratamos. Lá também tem literatura, escritores, antologias de poemas, e tudo muito bom, do mais alto nível. Recentemente me chegou às mãos “Nós, poetas de 33”, Ed. Thesaurus, 2015, Brasília – DF, uma coletânea de treze poetas, nem todos residentes em Brasília, mas todos nascidos no ano de 1933. É uma novidade, uma publicação interessantíssima. Reúne os poetas Fernando Mendes Viana, Francisco Miguel de Moura, Heitor Martins, Hugo Mund Júnior, Joanyr de Oliveira (organizador), José Jerônymo Rivera, Lupe Contrim Garaude, Maria José Giglio, Miguel Jorge, Murilo Moreira Veras, Octávio Mora, Olga Savary e Walmir Ayala. A maioria deles passaram por Brasília, na vida, viveram em Brasília por algum tempo, ou moram em Brasília, como é o caso de Anderson Braga Horta – que eu considero um dos três ou quatro maiores poetas vivos do Brasil. E ele faz a biografia crítica de Fernando Mendes Viana, o poeta que abre a antologia. Que belo ensaio! A nota introdutória é do organizador, Joanyr de Oliveira, falecido em 05.12.2009, sem ver publicada a coletânea de poetas em que tanto se esmerou, encarregando-se de tudo. É ainda de Anderson Braga Horta, um apêndice em que retrata o amigo, o poeta e seu trabalho. E é graças a Anderson que a obra foi editada, isto mostra a generosidade dos dois amigos e poetas: Joanyr de Oliveira – Anderson Braga Horta.

Claro que não vamos poder trazer a bio-bibliografia completa de cada um, muito menos de todos, mas são nomes conhecidos em todo o país desde a década de 60, século XX é claro, e até hoje continuam sendo editados, reeditados, falados, amados e antologiados. Eu diria que esta é a terceira antologia dos poetas da Geração 1960, de que fala a escritora Lygia Fagundes Teles (USP) e quem primeiro escreveu sobre a geração. Depois é que veio Pedro Lyra, com “A poesia da geração 60”, obra datada de 1995.

As orelhas da antologia “Nós, poetas de 33” são de responsabilidade de Kori Bolívia, Presidente da ANE (Associação Nacional de Escritores). E ela registra: 

“Neste momento, completando cinco anos do falecimento de Joanyr, a Associação Nacional de Escritores, da qual ele foi sócio, fundador e presidente, sente-se orgulhosa por poder compartilhar seu respeito e seu amor pela poesia. Ao lado da Editora Thesaurus, a ANE faz questão de homenagear o poeta mineiro, o professor, o advogado, o funcionário público, o pastor, o membro da Academia de Letras do Brasil, da Academia Evangélica de Letras (RJ), da Writers International Association (EUA), da Academia de Letras de Brasília, da Academia de Letras de Taguatinga e do Instituto Histórico e Geográfico do DF”.

Anderson Horta escreveu, na última capa, que Joanyr de Oliveira foi um grande trabalhador literário. Além de sua consagração como poeta, publicou contos e um romance, escreveu crônicas que foram lidas na imprensa radiofônica, manteve colunas literárias na imprensa, dirigiu revistas, ajudou a criar academias. Pode-se dizer que alcançou também posição ímpar como antologista de poesia.

Não o tendo conhecido em pessoa, lembro que mantivemos correspondência e troca de livros durante anos. Tomei conhecimento dele através da ANE, depois recebi convite para participar desta Antologia. Não me lembro bem como se deu a seleção de meus poemas. Mas lhe credito o mérito da escolha entre os livros que eu publicara e foram enviados a ele. Gostei imensamente da seleção e recomendo-a para outras publicações. As seleções dos poemas dos demais participantes também são boas. Pelo que sei, não houve preferência entre os poetas que reuniu, visto que o comparecimento à antologia obedece rigorosamente à ordem alfabética. Fiquei em segundo lugar, mas acho mesmo que Fernando Mendes Viana era o poeta do momento em Brasília, talvez no Brasil. Pelo critério adotado, ganhou a abertura do livro. É um grande poeta. Dele, disse Anderson Braga Horta: “A poesia de Fernando Mendes Viana nasceu sob o signo da liberdade e sob esse mesmo signo floriu e frutificou. (…) Poesia de instrumentação forte e voz veementemente humana, transfunde-se no corpo verbal adequado a seu profundamente atual – porque eterno - pensar e sentir os problemas do homem, enquanto ser único e enquanto célula social, mas recusa-se a quaisquer semostrações pseudo-vanguardistas (…) Isto leva Mendes Viana, desde o primeiro livro, a discernir no poeta um ser prometeico, luciferino: um demiurgo, sim, mas um rebelado, orgulhoso em sua titânica solidão (ver, a propósito, os poemas ‘Lúcifer – a Grande Lua’ e ‘Auto-Epitáfio do Senhor da Noite’)” - eis aqui um trecho da apreciação de Anderson Braga Horta.

O planeta Brasília, com a ANE – Associação Nacional de Escritores – congregando poetas do nível dos antologiados por Joanyr de Oliveira - pode equiparar-se aos grandes centros do Sul-Sudeste, em cultura e compreensão da vida, do amor, da arte, de tudo quanto completa o ser humano na sua luta incessante para a grande aventura de afirmação.

Por fim, o livro nos contempla com uma relação dos poetas brasileiros nascidos em 1933. Pelo enorme espaço que ocupa, tomando duas páginas, citarei apenas alguns dos mais conhecidos: Nelson Saldanha (Recife-PE), Carlos Cunha (São Luís-MA), Mário Chamie (São Paulo-SP), Silveira de Sousa (Florianópolis-SC), Armindo Trevisan (Santa Maria – RS), Álvaro Pacheco (Jaicós – PI) e Nogueira Moutinho (São Paulo - SP).

Depois de o mestre Wilson Martins confirmar a falta do nascimento de novas Escolas Literárias e estabelecer a divisão, de agora em diante, por Gerações, a História da Literatura Brasileira vai no rumo certo. E a “Geração 60” contém todos os defeitos e qualidades de uma geração das mudanças que ocorrerram na vida social, continuamente e tão diversas. Mas é uma geração na qual permanecem os princípios da arte: a forma e o conteúdo como instrumentos para mostrar uma realidade tão conflitante e tão mutável, num conjunto de poetas e poemáticas que conservam o grande sentido da arte: reinventar a vida, a realidade. Ou seja: renovar sem esquecer o passado.

Toda essa direção está nas antologias que conheço e, como tal, em “Nós, poetas de 33”, de Joanyr de Oliveira. Que outras antologias surjam da nossa geração, para perpetuá-la ainda mais. Brasília já deu seu recado.
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Francisco Miguel de Moura é escritor e membro da Academia Piauiense de Letras.E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A HISTÓRIA DO HOMEM E A PROPRIEDADE PRIVADA

Francisco Miguel de Moura
          (Autor)

Quando a história da humanidade começou? Fala-se da civilização egípcia, também da Suméria, da Babilônia e de outras mais. Citamos o historiador Geoffrey Blainey, em “Uma Breve História do Mundo”:  

“Há 2 milhões de anos, eles viviam na África e eram poucos. Eram seres quase humanos, embora tendessem a ser menores que seus descendentes que hoje povoam o Planeta. Andavam eretos e subiam montanhas com enorme habilidade. Alimentavam-se principalmente de frutas, nozes, sementes e outras plantas comestíveis, mas começavam a consumir carne. Seus implementos eram primitivos. Se eram bem-sucedidos em dar forma a uma pedra, não iam muito longe com a modelagem. (…) Não há dúvida de que alguns moravam em cavernas – quando - quando podiam ser encontradas. (…) Esses seres humanos, conhecidos como hominídeos, viviam principalmente nas regiões dos atuais Quênia, Tanzânia e Etiópia”. 


Segundo estimativas arqueológicas, os dinossauros foram extintos há quase 64 milhões de anos. Mas as pegadas da raça definitivamente humana (dois adultos e uma criança, encontradas nas cinzas de uma erupção vulcânica recente) têm, pelo menos 3,6 milhões de anos. Se havia crianças, havia um casal, os dois adultos seriam o casal.


Até então estamos vendo os passos dados pelos hominídeos transformados em homem: desciam das árvores, começavam a caçar. E a sociedade humana teria sido começada imediatamente? Ao que parece, marcaria longo tempo até a chegada dessas criaturas humanas ao Egito e à Babilônia. Quanto lutaram e sofreram para chegar à civilização! E nós ainda nos queixamos do mundo de hoje.

Assim, não há registros confiáveis de datas, mesmo porque até a marcação do tempo pelo sol, pela lua e pelas estrelas é bem recente na história das civilização. O que nós temos (ou acreditamos) de certo mesmo está na Bíblia – conjunto de escritos inspirados pelo Deus único, segundo os hebreus. O primeiro, denominado “Gênesis”, narra a criação do mundo e o nascimento do primeiro casal humano – Adão e Eva – no Éden – um paraíso. Jardim imenso, propriedade privada deles, que perderam com o cometimento do primeiro pecado. E foi do pecado que surgiu a humanidade, a civilização, a cultura e a propriedade privada – que eles perderam para seus filhos e os filhos dos homens, o que concluímos ter sido por herança. Perdendo o paraíso, os homens ficaram obrigados a ganhar a vida com o seu trabalho, com o suor de seu rosto. Esta história mostra o começo da propriedade privada: a terra era de todos, mas precisava ser repartida. Cada um que trabalhasse para ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto. Falando em datas, a mais antiga de mais ou menos 1.850 A. C. Era na Caldeia, com o rei Hamurábi ou Hamurabi. Ele editou um código de leis, o mais antigo que se conhece. E nele, segundo já foi divulgado, havia castigos ao desrespeito da propriedade alheia, tais como: roubo, trabalho mal feito em propriedade de outrem, entre outros. Castigo maior do que o delito. Era a lei de Talião, que os hebreus modificaram para o “dente por dente, olho por olho”.

Na evolução humana, ora domina o estado sobre tudo (ele é incólume), ora domina a propriedade privada, passando o estado a ser apenas coadjuvante do poder.

Quem conhece a história, chegará aos gregos e romanos, e depois à Idade Média, com o sistema feudal. E sempre existiu a classe dos escravos, mas não como preconceito. Mais como castigo às presas de guerras. Mais como apropriação de todas as terras: regime feudal. Na História do Brasil, coisa recentíssima na história do mundo, chegaremos à escravidão especialmente dos negros e dos índios, os menos cultos e desarmados. O sistema feudal nosso funcionava com os fazendeiros e proprietários de sesmarias e gado, sem falar nos famosos engenhos de cana-de-açúcar, tudo para exportação, quando pagavam pesados impostos ao poder público em Portugal. O gado era criado solto, sistema que deu resultado nos primórdios, mas depois foi caindo ou somando-se aos donos das minas, outra forma de produzir riquezas. As minas eram de quem tinha a propriedade privada das sesmarias ou fazendas. E assim se fez a história da civilização, com base na posse de terras, na economia, no pagamento de impostos ao estado, etc. Pensando nisto é que me vem à memória do que eu via, quando menino: o gado ferrado com o ferro do dono da fazenda. Era um meio para que o ladrão fosse apanhado com mais facilidade.

Demorou muito para que o povo se tornasse político e quisesse participar da força do estado. Sem educação e sem cultura, quase sem tempo para o conhecimento do que era a vida que viviam, pois apenas trabalhavam e vegetavam, o vulgo demorou muito a tornar-se um ser político. Mas bem que queria. Dizemos assim, baseados na lição de Aristóteles, que escreveu: “o homem é, naturalmente, um animal político”. A política crescia com os meios de economizar e fazer girar essa riqueza. Daí nasceu a ciência da economia e os seus principais pensadores: Marx, Keynes, Adam Smith, entre outros.
Segundo Maquiavel, “a realidade é como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse”. Esse pensamento faz lembrar que o socialismo é uma forma de dogma político muito recente, e não deu certo em nenhum país. Do combate a seus princípios, o estado capitalista, à sua maneira, adaptou o que havia de melhor: direitos trabalhistas, planos de benefícios sociais e de aposentadoria.

Conclui-se que a propriedade privada só fez crescer desde o início da civilização. Não quero dizer que seja o melhor sistema econômico, mas é o que mais prosperou e fez o avanço em busca do homem moderno, com incentivos à educação, cultura e ciências, e ocasião para o implante das democracias. Desse estudo, além das marcas de ferro no gado de criadores do Brasil, mutatatis mutandis, ficou-me ainda a palavra “privada”, um espaço onde a tranquilidade do indivíduo reina. O leitor pode imaginar se todas as privadas fossem públicas? Seria uma vergonha e muita sujeira. Nos tempos de economia em baixa, o capitalismo pode e deve ter o bom senso de usar sanitários mistos, em parte para uso privado e parte para uso público, mas é somente nos momentos de crise. A privada pública, além de ser contrassenso, é sujeira só, onde a população tem direitos, mas não têm direito a nada. Nem ao seu momento de privação, descontração e asseio. Na mesma linha de raciocínio, dizemos que o Mercado asseia o capitalismo, enquanto o socialismo emporcalha o Estado.

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Artigo que será publicado no Jornal "O Dia", 24 de fevereiro de 2017, de autoria de Francisco Miguel de Moura

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