Teresina, Piauí, Brasil,
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Cristino Cortes*
Ao meu colega brasileiro, por sinal homónimo
Quase do meu próprio pai que já lá está __ e a estas
Coisas jamais terá sonhado - eu lhe devo festas
E vénias pela ideia que roubo por sinónimo.
Não o disse, não teria de o dizer - mas eu sei
Que essa tal moça mal sentada usava saias;
E bem curtas, pouco mais, sim, que um tem-te e não caias
Abaixo do umbigo, se de frente eu a verei.
De supor o resto da indumentária seria
A condizer o permanente Verão do Brasil;
E eu ainda juntaria, errando um em mil
Que a dita moça menos dava que prometia…
Mas sou da Europa, velha e sabida, ao que ele
Diz mal digo eu bem - e o sorriso nos une a pele.
DA MOÇA « BEM » SENTADA (2)
Creio, aliás, que nem ele poeta nem eu, muito mais
Poderíamos avançar ou em frente prosseguir.
De comum encolheríamos os ombros, a sorrir
Assobiávamos como em antigas crónicas e anais…
Ainda bem que da moça assim sentada a vista
Ninguém no-la tira, nem ela no-la recusa.
Não é para velhadas como nós que ela a usa
E aquilo faz sem intenção… Não há quem lhe resista.
É próprio da idade, não está perdido o mundo.
Mais vale um suave sugerir, uma vaga promessa
Do que áspera frontalidade sem delicadeza…
Isso se não ensina, vem dos genes, vem do fundo.
Está pois sentada, se bem se mal não vou julgar.
Gosto de ver - disso não temos que nos desculpar.
DA MOÇA « BEM » SENTADA (3)
Deste velho país eu lhe direi, alguém que envia
Carta singela e clara: mensagem não se perdeu.
O tema é comum, e é bom sabê-lo. Um ar lhe deu
A essa moça que o poeta viu… Também eu a via.
Imagino-a numa esplanada perto duma praia
Mas não sentada em muro que delimitasse a areia.
O poeta que esclareça, mas na minha ideia
Não daria muito jeito, quase imaginando a saia
Traçar a perna, quem sabe se fumar um cigarro
Ou fazer o gesto __ para o pessoal impressionar
Armar aos cágados, dar-se ares de quem sabe ganhar…
Oh quem me dera esse tempo que não mais agarro!
Sente-se pois a moça - ou levante-se para se voltar
A sentar… A poesia nos há-de acompanhar.
*Cristino Cortes, poeta português, mora em Lisboa, Portugal, onde tem publicado vários livros, o último de nome “Música de Viagem”, com uma dicção toda especial, que merece destaque entre os literatos lusitanos contemporâneos.

(Manuscrito aposto no verso de uma xerox de “Apontamentos V”, “Das Artes das Letras”, nº 92, Agosto de 1999 – Porto/Portugal, ensaio de Montezuma).
Ao receber em 24 de Dezº de 1999 as boas festas de Natal enfiadas num poema do amigo brasileiro Francisco Miguel de Moura, filho residente da linda cidade de Teresina, Estado do Piauí, lembrei-me de toda a história humana e da razão por que os cristãos festejam Jesus esta noite e sempre.
É que nesse poema sem título, o primeiro verso dói como uma pedrada. Este verso shakespeariano (à portuguesa diz-se anteriano) abre o poema de 13 linhas:
“Quem saberá que um dia fomos”?”
Os demais versos seguintes transportam esta carga interrogativa sem resposta. O último verso fecha o cárcere do círculo e repete:
“Quem saberá se um dia fomos?”
Transforma o que inicial num balbuciante se... Esta a mudança sem alteridade.
E surgiu-me um pensamento por via desta perturbação: - As religiões todas nascem para dar resposta a esta interrogação, queremos ser recordados, queremos recordar para além das forças da vida comum e terrenal. Não agüentamos a decapitação total. Assim, inventou-se Deus, o ser sem nome que abrange todos os nomes decapitados e onde, ao menos, algum pedacito restará para consolar que valeu a pena viver, que Deus nos preserva, que Deus nos dá – para o aqui – essa consolação. Só que Moisés “interrogou” Deus e este disse-lhe quem era, respondendo: “Eu sou o que sou”, não lhe dizendo quem era e que nome tinha. Deste modo, até o Deus das várias religiões nem sequer satisfaz o verso capital do amigo de Teresina. Tudo fica na mesma! Sabedoria? Piedade divina? Sofisma?
Talvez que as religiões se não pensem e sejam aconteceres só para se sentirem.
Hoje é noite de Natal. Bastará sentir e nada de pensar. Sobretudo, nada de interrogar! (Para o amigo Francisco Miguel de Moura, este apontamento que reproduzirei em “Apontamentos”, já em XCVI).
Do J. Montezuma
Natal 1999.


ega), Amarante, Portugal) fora de sua iniciativa.
.)
Em consonância com o Poeta brasileiro
Francisco Miguel de Moura, irmão de armas.
Tendes razão, Poeta: ninguém lê
presentemente em língua portuguesa
boa literatura por mercê
de várias fontes de outra natureza!
Prefere-se a notícia ouvida à pressa
por intermédio da televisão;
quase ninguém já
senão nas aulas por obrigação.
O que se passa aí, no Piauí
ou qualquer outro sítio brasileiro,
é a mesma coisa que sucede aqui.
Nada há, porém, mais certo ou verdadeiro
que se um dia termina a Poesia
em seu lugar se implanta a tirania!
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*Poeta português contemporâneo. Enviou-me este seu soneto, gentilmente,
por e-mail.