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terça-feira, 10 de abril de 2012

DOIS POEMAS - DOIS POETAS (BRASIL/PORTUGAL)


IMPROVISO
Eugênio de Andrade (80 anos)

Uma rosa depois da neve.
Não sei que fazer
de uma rosa no inverno.
Se não for para arder,
ser rosa no inverno de que serve?

            Foz do Douro, Portugal,
                                 5/10/99




UMA ROSA
Francisco Miguel de Moura
(Um quase improviso para Eugênio de Andrade)

A rosa é simples.
A beleza é simples
num poeta forte.
O inverno é mais.
Uma rosa no inverno,
desolada,
em companhia de quem
não escreve,
serve?

Vai morrer de mágoa!
                  

Teresina, Piauí, Brasil,
                          19/6/2000

*******************
Mini-Biografias: 
Eugênio de Andrade, poeta português, morava em Portugal, onde faleceu em    Publicou cerca de 30 livros só de poemas e era considerado pela crítica e pelos leitores um dos maiores poetas até então vivos, de Portugal.

Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, nasceu no Piauí e mora em Teresina, naquele Estado, onde produz poesia, contos, crônicas, romances e crítica literária.Nesses gêneros já publicou até agora 32 livros. Membro da IWA-Iternational Writers anda Artists Association, com sede em Toledo,Ohio,Estados Unidos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

NÓS, OS NEANDERTAIS E AGORA TAMBÉM A MULHER-X

 Tukakubana*

Era uma mulher. Viveu entre há 30 a 50 mil anos. E, sem que o suspeitássemos até agora, pertencia a um grupo de humanos diferente de nós, mas que se reproduziu com a nossa espécie. Eis a Mulher-X, o primeiro indivíduo identificado desse grupo

Este novo capítulo na história complexa da nossa espécie, os humanos modernos ou Homo sapiens sapiens, é contado amanhã na revista Nature, pela equipa de Svante Pääbo, guru mundial da paleoantropologia genética do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha.     Em 2008, encontrava-se a ponta do dedo de um humano na Sibéria, na gruta Denisova. Pensando estar perante a falange de um humano moderno, talvez de um Neandertal com sorte, a equipa de Pääbo sequenciou o ADN* extraído desse pedaço de osso — não o ADN* do núcleo das células, mas o que está nas mitocôndrias, as baterias das células e que é herdado só pela parte da mãe.   

Quando viram os resultados, os cientistas não queriam acreditar: tinham em mãos ADN* de um humano antigo desconhecido, pertencente a uma linhagem diferente das duas que até aqui se sabia terem habitado a Europa e a Ásia nessa altura — os humanos modernos, que saíram de África há cerca de 60 mil anos, e os Neandertais, que surgiram na Europa e Médio Oriente há 300 mil anos e extinguiram há cerca de 30 mil. Em Março último, a equipa revelou esses resultados, também na Nature, e espantou toda a gente.

Era também a primeira vez que um novo grupo de humanos era descrito não a partir da morfologia dos seus ossos fossilizados, mas da sua sequência de ADN*.

Só pelo ADN* das mitocôndrias, que está fora do núcleo das células, os cientistas não podiam saber se aquela falange, de um indivíduo com cinco a sete anos de idade, era de homem ou mulher. Mas deram-lhe a alcunha de Mulher-X, porque o ADN* mitocondrial é matrilinear e porque gostavam de imaginar que era de uma mulher.

Depois, partiram para a sequenciação do ADN* contido no núcleo celular e é a análise desses resultados que agora publicam. Além de confirmarem que a falange é mesmo feminina, os cientistas dizem que este novo grupo de humanos partilha um antepassado comum com os Neandertais, mas cada um seguiu uma história evolutiva diferente. Portanto, há 50 mil anos, além de nós e dos Neandertais, havia um terceiro grupo de humanos. Chamaram-lhe denisovanos.

Também sequenciaram agora o ADN* mitocondrial retirado de um dente molar de outro indivíduo, um jovem adulto, descoberto na mesma gruta. Tanto o ADN* como a morfologia do dente corroboram que se trata de um humano distinto dos Neandertais e da nossa espécie.

Durante décadas, discutiu-se se os Neandertais se teriam reproduzido ou não com a nossa espécie e se, apesar de extintos, haveria um bocadinho deles dentro de nós. Em Maio, o mesmo Pääbo pôs um ponto final na polémica, com a sequenciação do genoma dos Neandertais, dizendo que sim, que nos actuais euroasiáticos há um pouco de Neandertal. E agora a sua equipa diz que nos humanos modernos há igualmente um pouco dos Denisovanos.
Mas, ao contrário dos Neandertais, os denisovanos não contribuíram geneticamente para os euroasiáticos actuais. As comparações genéticas entre os denisovanos e humanos modernos da Euroásia, África e Melanésia mostraram que são estes últimos que herdaram os seus genes.

De facto, a equipa descobriu que os naturais da Papuásia-Nova Guiné e das Ilhas Salomão partilham um número elevado de traços genéticos com os denisovanos, o que sugere que houve reprodução entre estes humanos até há poucos meses desconhecidos e os antepassados dos melanésios.
Sozinhos há pouco tempo

“Em conjunto com a sequenciação do genoma dos Neandertais, o genoma dos denisovanos sugere uma imagem complexa das interacções genéticas entre os nossos antepassados e diferentes grupos antigos de hominíneos”, comenta Pääbo, citado num comunicado de imprensa do seu instituto.
“O facto de os denisovanos terem sido descobertos no Sul da Sibéria, mas terem contribuído para o material genético de populações de humanos modernos da Papuásia-Nova Guiné sugere que os denisovanos podem ter-se espalhado pela Ásia”, diz.

*Obs: -  ADN de Portugal  é DNA no Brasil.
 _________________
*Tukakubana (certamente é um pseudônio), não encontrei outros detalhes sobre a autora, Ilha da Madeira.  A matéria acima foi copiada do blog http://tukakubana.blogspot.com 

terça-feira, 5 de agosto de 2008

DA MOÇA « BEM » SENTADA (1, 2 e 3)

POEMA SOBRE POEMA


Cristino Cortes*

Ao meu colega brasileiro, por sinal homónimo
Quase do meu próprio pai que já lá está __ e a estas
Coisas jamais terá sonhado - eu lhe devo festas
E vénias pela ideia que roubo por sinónimo.

Não o disse, não teria de o dizer - mas eu sei
Que essa tal moça mal sentada usava saias;
E bem curtas, pouco mais, sim, que um tem-te e não caias
Abaixo do umbigo, se de frente eu a verei.

De supor o resto da indumentária seria
A condizer o permanente Verão do Brasil;
E eu ainda juntaria, errando um em mil
Que a dita moça menos dava que prometia…

Mas sou da Europa, velha e sabida, ao que ele
Diz mal digo eu bem - e o sorriso nos une a pele.

DA MOÇA « BEM » SENTADA (2)



Creio, aliás, que nem ele poeta nem eu, muito mais
Poderíamos avançar ou em frente prosseguir.
De comum encolheríamos os ombros, a sorrir
Assobiávamos como em antigas crónicas e anais…

Ainda bem que da moça assim sentada a vista
Ninguém no-la tira, nem ela no-la recusa.
Não é para velhadas como nós que ela a usa
E aquilo faz sem intenção… Não há quem lhe resista.

É próprio da idade, não está perdido o mundo.
Mais vale um suave sugerir, uma vaga promessa
Do que áspera frontalidade sem delicadeza…
Isso se não ensina, vem dos genes, vem do fundo.

Está pois sentada, se bem se mal não vou julgar.
Gosto de ver - disso não temos que nos desculpar.



DA MOÇA « BEM » SENTADA (3)



Deste velho país eu lhe direi, alguém que envia
Carta singela e clara: mensagem não se perdeu.
O tema é comum, e é bom sabê-lo. Um ar lhe deu
A essa moça que o poeta viu… Também eu a via.

Imagino-a numa esplanada perto duma praia
Mas não sentada em muro que delimitasse a areia.
O poeta que esclareça, mas na minha ideia
Não daria muito jeito, quase imaginando a saia

Traçar a perna, quem sabe se fumar um cigarro
Ou fazer o gesto __ para o pessoal impressionar
Armar aos cágados, dar-se ares de quem sabe ganhar…
Oh quem me dera esse tempo que não mais agarro!

Sente-se pois a moça - ou levante-se para se voltar
A sentar… A poesia nos há-de acompanhar.

­­­­­­­­­­­­­­­___________________
*Cristino Cortes, poeta português, mora em Lisboa, Portugal, onde tem publicado vários livros, o último de nome “Música de Viagem”, com uma dicção toda especial, que merece destaque entre os literatos lusitanos contemporâneos.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

ESCRITO DE JOAQUIM DE MONTEZUMA DE CARVALHO


(Manuscrito aposto no verso de uma xerox de “Apontamentos V”, “Das Artes das Letras”, nº 92, Agosto de 1999 – Porto/Portugal, ensaio de Montezuma).






Ao receber em 24 de Dezº de 1999 as boas festas de Natal enfiadas num poema do amigo brasileiro Francisco Miguel de Moura, filho residente da linda cidade de Teresina, Estado do Piauí, lembrei-me de toda a história humana e da razão por que os cristãos festejam Jesus esta noite e sempre.


É que nesse poema sem título, o primeiro verso dói como uma pedrada. Este verso shakespeariano (à portuguesa diz-se anteriano) abre o poema de 13 linhas:


“Quem saberá que um dia fomos”?”


Os demais versos seguintes transportam esta carga interrogativa sem resposta. O último verso fecha o cárcere do círculo e repete:


“Quem saberá se um dia fomos?”


Transforma o que inicial num balbuciante se... Esta a mudança sem alteridade.


E surgiu-me um pensamento por via desta perturbação: - As religiões todas nascem para dar resposta a esta interrogação, queremos ser recordados, queremos recordar para além das forças da vida comum e terrenal. Não agüentamos a decapitação total. Assim, inventou-se Deus, o ser sem nome que abrange todos os nomes decapitados e onde, ao menos, algum pedacito restará para consolar que valeu a pena viver, que Deus nos preserva, que Deus nos dá – para o aqui – essa consolação. Só que Moisés “interrogou” Deus e este disse-lhe quem era, respondendo: “Eu sou o que sou”, não lhe dizendo quem era e que nome tinha. Deste modo, até o Deus das várias religiões nem sequer satisfaz o verso capital do amigo de Teresina. Tudo fica na mesma! Sabedoria? Piedade divina? Sofisma?


Talvez que as religiões se não pensem e sejam aconteceres só para se sentirem.


Hoje é noite de Natal. Bastará sentir e nada de pensar. Sobretudo, nada de interrogar! (Para o amigo Francisco Miguel de Moura, este apontamento que reproduzirei em “Apontamentos”, já em XCVI).


Do J. Montezuma


Natal 1999.


domingo, 4 de maio de 2008

BIOGRAFIA - MONTEZUMA DE CARVALHO










Francisco Miguel de Moura*


JOAQUIM DE MONTEZUMA DE CARVALHO nasceu em 21 de novembro de 1928, na Freguesia de Almedina, em Coimbra, Portugal, em cuja Faculdade Direito se licenciou. Logo após, expatriou-se para Angola e Moçambique onde exerceu funções nos registros e na magistratura (Nova Lisboa, Inhambane e Lourenço Marques) até 6 de abril de 1976. Retornado a Portugal, exerce a advocacia em Lisboa.
Em 1951, sendo estudante, tomou a iniciativa da homenagem a Teixeira de Pascoaes, publicando o livro coletivo A Teixeira de Pascoaes. Em 1953, traduz e prolonga Teixeira de Pascoaes, do italiano Guido Battelli. Em 1957, lançou em Angola o Epistolário Ibérico Cartas de Pascoaes e Unamuno. Em 1958, ano da morte de Joaquim de Carvalho, organizou os livros Joaquim de Carvalho no Brasil e Miscelânea de Estudos a Joaquim de Carvalho. Fundou, ainda, na Figueira da Foz, a Biblioteca-Museu Joaquim de Carvalho e a Sala Joaquim de Carvalho, esta última ligada à Biblioteca Municipal. De 1958 a 1965, financiado pelo município de Nova Lisboa, Angola, organizou e publicou os quatro tomos do Panorama das Literaturas das Américas, de 1900 à Actualidade, obra até hoje sem equivalente na sua dimensão global e qualidade de colaboradores directos. Em 1965 apresentou os escritores luso-brasileiros nascidos neste século (XX) na obra francesa Ecrivains Contemporaine (Ed. Mazenod, Paris). Em 1963 fez parte do júri internacional que atribuiu ao mexicano Octavio Paz o Grande Prix de Poésie, prêmio belga.
Os seus escritos versando literatura, filosofia e história figuram principalmente no estrangeiro. No Brasil, nos diários “O Estado de São Paulo” e “Tribuna de Santos”, na revistas “Expoente”, “Comentário”, “Kriterion”, “Minas Gerais”,” Jornal de Letras”, Ita-Humanidades”, “Letras de Limeira”, “Revista Brasileira de Filosofia” e “Revista de Letras”; na revista “Relligione Oggi” (Roma); na “Revista Interamericana de Bibliografia” (Washington); nas revistas do México “Norte”, “Vida Universitária”, “Sembradores de Amistad”, “Comunidad”, “Nível” e “Humanitas”, no diário “El Universal” (Equadror); na revista “Humboldt” (Alemanha) e “Repertório Latinoamericano” (Buenos Aires-Argentina).
Pelo timbre destas colaborações, alheias a qualquer paternalismo oficial, mereceu algumas distinções estrangeiras. Assim, é membro de The Hispanic Society of América (New York); da Academia Carioca de Letras e da Academia Santista de Letras; do Grupo América (Uruguai); convidado do Instituto Internacional de Literatura Ibero-americana (Universidade de Pittsburg, USA) e do Primeiro Congresso de Literatura Ibero-americana da Bienal de São Paulo (Brasil, 1970). Em 1971 foi-lhe outorgado prêmio mexicano José Vasconcelos, que tem distinguido personalidades como León Felipe, Salvador de Madariaga, Félix Martí Ibañez, Luiz Alberto Sanches, Jorge Luiz Borges, Gilberto Freyre, Diego Abad de Santilián, Ubaldo di Benedetto, etc.
Figuras como Miguel Angel Astúrias, César Tiempo, Demetrio Aguilera Malta, etc. comentaram o seu labor cultural e internacionalista.
Este curriculum figura na capa do livro António Sérgio, a Obra e o Homem (Ed. Arcádia, Lisboa, 1979). Depois desta obra, publicou ainda: Crónica de uma viagem à Costa da Nina, no ano de 1480, de Eustache de La Fosse (Ed. Vegga, Lisboa, 1992); Destino e Obra de Camões, de Jorge Luís Borges (Edições do Tâmega, Amarante, 1993) Da alma portuguesa/da alma galega, por Joaquim de Carvalho/Camilo José Cela (Ed. do Tâmega, Amarante, l995); e Sor Juana Inés de la Cruz e o Padre Antônio Vieira ou a disputa sobre as finezas de Jesús Cristo (Ed. Frente de Afirmación Hispanista, A. C., Ciudad de México, 1998; Um abraço de Espanha a Garett: Juan Valera, Marcelino Menéndez y Pelayo e Ramón Menéndez Pidal”, 1999, obra esta publicada pela Direção Regional de Cultura, Angra do Heroísmo, Açores; em junho de 1999 foi designado membro da International Parliament for Safety and Peace/Intergovernmtal Organization for the States, ONU. em New York. Em 1999 foi eleito membro da Academia Norteamericana de la Lengua Española (correspondente de la Real Academia Española de Madrid), academia esta galardoada em setembro de 2000 com o Prémio Príncipe das Astúrias, de Espanha.
Em 1999, foi designado Cavaleiro da Ordem de St. Eugène de Trebizonde, de Espanha, presidida pelo Príncipe Juan Arcádio Láscaris Comneno, seu Grão Mestre.
Na atualidade colabora, activamente, no Caderno Literário do diário “O Primeiro de Janeiro”, de Porto/Portugal; e no “Diário dos Açores”, de Ponta Delgada, Açores, Portugal. Em 2001 fez reeditar a obra Amarante, de Joaquim de Vasconcelos (1849-1936), com introdução sua (Edições do Tâmega, Amarante); a obra Vida de Bento de Espinosa, por João Colerus (1647-1707), com introdução de seu pai Joaquim de Carvalho (1892-1958) e tradução de J. Lúcio de Azevedo directamente do holandês; e viu reeditar-se em Buenos Aires, em versão bilíngüe, Destino e Obra de Camões, por Jorge Luís Borges, com introdução do Dr. José Augusto Seabra, Embaixador de Portugal na Argentina, em 2001, e de Miguel de Torre Borges (sobrinho de Borges), sendo, no castelhano, traduzido por Rodolfo Alonso e Miguel Vigueira, cuja edição original (Ed. do Tâmega), Amarante, Portugal) fora de sua iniciativa.
Esses dados me foram enviados pelo próprio Joaquim de Montezuma de Carvalho, parte digitados, parte escritos a mão por sua própria caligrafia, esquecendo-se de colocar a data de quando o fez, entretanto, tudo indicando que foi após a entrada do século. Depois é que publicaria Cervantes em Portugal (Edições Nova Veja, Lisboa, 2005), uma obra bastante original onde desvenda as viagens de Cervantes e mostra que Portugal era muito mais o centro do mundo, naquele tempo, do que Espanha e quejandos. Joaquim de Montezuma de Carvalho, que de forma natural é um escritor barroco, como a maioria dos historiadores que conheço, aqui se abranda em frases límpidas, lógicas, para melhor esclarecer a verdade verdadeira tão importante quanto a que tomou a ombros sobre o inventor do romance ocidental. Dizendo assim, friso que, dentro do estilo mencionado, o barroco, o escritor consegue ser muito poético, e Montezuma de Carvalho o é. Assim é que sempre teve propensão pela poesia e pelos poetas, preferência talvez maior do que pelos filósofos, ao contrário de Joaquim de Carvalho, seu pai, que preferiu os filósofos e as filosofias. Não obstante, Montezuma também gostava destes, especialmente de Espinosa, sua especial paixão.
Mais alguns elementos de sua biografia estão no e-mail de 7 de março de 2008, que me foi enviado pelo Sr.Mário Jorge Ferreira, da cidade de Guimarães, Portugal. Transcrevo-o, então, integralmente:
“Um mensageiro da universalidade (in O Primeiro de Janeiro, 7-3-2008), Joaquim de Montezuma de Carvalho faleceu ontem, às 6 h 40 m, no Hospital S. José, em Lisboa, vítima de doença prolongada. O corpo estará hoje em câmara ardente a partir das 16 horas na Capela Nossa Senhora dos Remédios, em Alfama, donde sairá, amanhã, às 9h30 para o Cemitério do Alto de São João, onde se realiza o funeral pelas 10 horas. Ana Sofia Rosa, o filho Joaquim Montezuma de Carvalho, também advogado, falou ao “Janeiro” do legado do seu pai – ‘uma homem das letras, um filósofo que abominava a política’. (...)
No final dos anos 50, o jovem advogado partiu para Angola. Começou por ajudante de conservador do Registro Civil e Comercial de Lourenço Marques, onde casou com Maria Júlia Neto da Silva, acumulando funções na magistratura. O filho único recorda, desde tenra idade, o gosto do pai pela escrita, pelos escritores e pela literatura, que considerava universal e uma. ‘Não era pessoa de perder tempo a ver televisão ou a ir ao cinema. Os seus temas de conversa à hora da refeição eram um regresso aos escritores. ’ – recorda.
Amigo do poeta Jorge Luís Borges, que conheceu na Argentina, do escritor colombiano Gabriel García Márquez e do autor mexicano Octávio Paz, ambos prêmios Nobel de Literatura, e de Aquilino Ribeiro, o pensador Joaquim de Montezuma de Carvalho gostava de se isolar no meio dos livros, queria ter o essencial e era um homem de gostos muito simples: ‘O meu pai não se interessava pelas questões monetárias, apesar de ser advogado como eu. ’ O filho adianta: ‘Quando ele era novo teve autismo e fechava-se na biblioteca do meu avô, o filósofo e historiador figueirense Joaquim de Carvalho. ’
De regresso a Portugal, em 1976, exerce a advocacia em Lisboa e dá início a uma carreira de escritor e de divulgador da cultura portuguesa. Os seus escritos, que versam sobre literatura, filosofia e história figuram principalmente no estrangeiro. Colaborador, com aprofundados ensaios, do das Artes das Letras de O Primeiro de Janeiro, desde 1999. ‘todas as segundas-feiras, pedia-me para tirá-lo da internet’– recorda.
Joaquim de Montezuma de Carvalho despertou o interesse do filho por diversos autores. ‘Eu gostava muito de Júlio Verne, de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queirós e ele apresentava-me os grandes autores mundiais. ’, partilha, lembrando que trocavam frequentemente impressões sobre o que estava a escrever. Autor de vasta obra no campo do ensaio, Joaquim de Montezuma de Carvalho foi distinguido com a Medalha José Vasconcelos, no México, atribuída pela Frente de Afirmación Hispanista, com sede em Nova Iorque, pelo volume O Panorama das Literaturas das Américas. Por ser autor de uma vasta bibliografia consagrada às cultura portuguesa e hispânica, foi designado, em 1999, Cavaleiro da Ordem de Santo Eugênio de Trebizonde, da Espanha.”
_________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, já publicou cerca de 30 livros, muitos trabalhos seus foram divulgados no exterior: Portugal, Espanha, França, Cuba, Itália, Estados Unidos. Mora no Piauí. E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

quinta-feira, 13 de março de 2008

“LITERATURA, O QUE É ISTO?”


SONETO

Em consonância com o Poeta brasileiro
Francisco Miguel de Moura, irmão de armas.


Tendes razão, Poeta: ninguém lê
presentemente em língua portuguesa
boa literatura por mercê
de várias fontes de outra natureza!


Prefere-se a notícia ouvida à pressa
por intermédio da televisão;
quase ninguém já lê Pessoa ou Eça
senão nas aulas por obrigação.


O que se passa aí, no Piauí
ou qualquer outro sítio brasileiro,
é a mesma coisa que sucede aqui.


Nada há, porém, mais certo ou verdadeiro
que se um dia termina a Poesia
em seu lugar se implanta a tirania!


João de Castro Nunes*

________________
*Poeta português contemporâneo. Enviou-me este seu soneto, gentilmente,
por e-mail.

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