quinta-feira, 5 de novembro de 2026


 

LANÇAMENTO DE “LAÇOS DE PODER”, DE CHICO MIGUEL

                                                    Por  Jailson Klain – Escritor e editor*

Antes de me sentar para escrever este discurso em razão do lançamento da 2ª edição de Laços de Poder, de Francisco Miguel de Moura, fiquei em dúvida. Não sabia sobre qual ponto de vista deveria me investir para relatar algumas impressões sobre o autor, a obra e a importância deste evento literário que ora realizamos. E por que a dúvida? Isso se deve ao imenso privilégio que tive de escolher entre alguns lugares da fala: Como sobrinho do autor, como escritor e como editor desta 2ª edição. Decidi-me por usar e abusar dessas três honras.

Além do ponto de vista, quero abordar um outro tipo de relação que se estabelece em quase todos os processos de criação literária: a relação entre memória e literatura.

“O passado nunca está morto. Nem sequer é passado.”, disse o escritor  americano William Faulkner.

A partir dos meus oito anos de idade, comecei a passar alguns dias de férias na casa do meu tio Chico Miguel, em Teresina — “muitos dias”, corrigiria minha tia Mécia, se lhe fosse dada a palavra. Cultivei esses passeios por parte da minha infância e adolescência. Dessa época, lembro-me bem da casa, de todos seus cômodos, dos meus primos, dos passeios ao centro da cidade, da AABB aos domingos e da enorme biblioteca que havia no quarto do meu tio. Tudo ali era mágico para mim. Com os livros, eu não tinha tanta aproximação; minha paixão ainda eram os gibis e a televisão. Mas lembro do meu deslumbramento por aquelas altas estantes de incontáveis prateleiras repletas de poesia e histórias fantásticas. E aquele menino pensava: “Ah, um dia também terei minhas estantes de gibis, talvez até de livros, se forem de aventura”.

Muitas vezes, enquanto assistíamos à TV na sala, outra maravilha da casa, meu tio recebia visitas de amigos, escritores como ele, talvez. De um deles me recordo bem: Ozildo Batista de Barros. Acredito que essa lembrança seja da época do lançamento do livro Etc & Tal, de Ozildo... Bem, pelo menos me lembro da visita do autor das Abóboras, em que trataram dessa obra. Mas Ozildo é um amigo de longa data de meu tio, e foram muitas as suas visitas ao poeta do Jenipapeiro, agora com raízes fincadas nas terras nobres da capital.

Todas as lembranças que guardei de meu tio, sejam da infância, sejam da vida, são lembranças boas. É inegável, por qualquer um que o conheça, o seu caráter benevolente, sua personalidade pacata, seu enorme coração e um dom que poucos possuem para escrever literatura. Eis o homem; eis o tio.

Desde a época dos meus passeios a Teresina, TiChico, como sempre o chamei, também visitava vez ou outra o Rodeador, terra que acolheu sua família durante alguns anos de sua juventude. O objetivo dessas viagens, além de visitar uma irmã residente aqui e outra no Jenipapeiro, quase sempre era para lançar um novo livro. Pelejar com o prefeito da vez para que comprasse alguns volumes da obra. Eram tempos em que todas as etapas de publicação eram uma verdadeira odisseia. O árduo trabalho começava com a escritura; passava pela publicação; o parto que era vender os livros e, por fim, possivelmente a mais cruel das lutas, conseguir que alguns mirrados, resistentes leitores em potencial.

Na casa da minha mãe, havia exemplares dos livros do irmão, acervo este que hoje se encontra na minha biblioteca particular, a Biblioteca Miguel Guarani. Miguel Guarani, pai de Chico Miguel, foi um grande mestre-escola da região, um engenhoso poeta popular e um talentoso tocador de viola. Muito se fala por estas bandas – sem querer fobar – da inteligência do professor Miguel. Não sei se para o filho Chico isso foi uma pressão ou uma dádiva. Muitos filhos de pais ou mães célebres em seus ofícios passam a vida tentando escapar da sombra de seus genitores. Não sei se foi o caso de Francisco Miguel de Moura, se o nome do pai lhe pesou na passagem para a vida adulta, mas, de qualquer modo, a verdade é que ele conseguiu irradiar sua própria luz.

Para ficarmos apenas no campo literário, quando nos atemos ao fato de que Chico Miguel lançou seu primeiro livro em 1966, é que temos a real noção da grandeza desse feito. Um pobre menino, perdido pelos caminhos poeirentos entre Aroeira do Itaim e o Diogo Velho, escrever e lançar um livro de poesia em tão remota época é, no mínimo, algo para se reverenciar. Somente pela coragem e tamanho do empreendimento, sem entrar no mérito da qualidade literária, porque, considerando este aspecto, a admiração tende a crescer.

A 1ª edição de “Areias” foi impressa numa pequena gráfica de Timon, à margem dos grandes centros editoriais do país. A capa do livro foi desenhada pelo amigo e grande escritor piauiense Hardi Filho, que o incentivou e contribuiu de diversas formas para que a obra pudesse ganhar vida. A partir desse primeiro passo e, após uma longa caminhada de 60 anos e uma prateleira repleta de títulos publicados, chegamos ao lançamento desta obra, neste evento marcante e memorável que realizamos hoje. Se Hardi Filho pudesse presenciar este evento, seis décadas depois do pontapé inicial, do qual teve tanta participação, seria um tributo perfeito para o poeta Francisco Miguel de Moura, para todos os envolvidos com prosa e poesia, como leitores, escritores ou outros profissionais das letras, nesta noite de celebração não somente da Literatura, mas da memória, desta luta que travamos a cada página escrita para não sermos esquecidos.

Foi na vida adulta que comecei a tomar ciência da importância e talento de Chico Miguel como escritor. E, de vez em quando, lia algum dos seus livros, mais os de prosa, é verdade, pois sempre tive mais afinidade com esse gênero. Li romances, crônicas, contos, artigos... Pode ser que o fato de ter um tio escritor, reconhecido como grande poeta da nossa literatura, tenha sido uma influência para que eu me aventurasse a escrever; bem, pelo menos a me fazer acreditar que também poderia trilhar esse caminho. Não era algo além das possibilidades para um menino perdido de amor pelos livros.

Quando comecei a escrever, passei a ler e reler livros de outra maneira. Já não via apenas a história narrada. Passei a enxergar o trabalho invisível do escritor: a escolha de cada palavra, o ritmo das frases, a paciência da revisão e o compromisso de transformar experiência, observação e imaginação em literatura. E então, mais do que a pessoa de Chico Miguel, passei a conhecer e admirar o escritor.

Antes do meu tio, muito me orgulhava de ter um avô professor, autodidata, engenhoso e inteligente, sobre o qual cresci ouvindo elogios de todos aqueles que tiveram a oportunidade de aprender com ele, de apreciar sua arte de poeta popular. Miguel Guarani foi grandioso em sua época, a despeito dos parcos recursos e ferramentas de que dispunha. Chico Miguel foi além, tornando-se um dos grandes nomes da Literatura Piauiense e, até, ouso dizer, um que ficará na historiografia da Literatura Brasileira.

No ano passado, fui a Teresina para lançar um livro meu e participar do Salão do Livro do Piauí – SALIPI. Em visita à casa de Chico Miguel, consultei-o acerca de alguma obra sua, já esgotada, que gostaria de relançar. Ele respondeu de pronto: “O romance “Laços de Poder”.

Às vezes penso naquele menino de oito anos na casa do tio em Teresina, encantado com a sua imensa biblioteca, embora seu interesse fosse apenas pelos gibis, e em como ele jamais poderia imaginar que, décadas depois, não apenas dividiria com aquele tio o ofício de escrever, mas também teria a honra de editar um de seus romances.

Um ano após o encontro em Teresina, estamos reunidos hoje, para o lançamento desta obra, que me trouxe muita alegria e orgulho de ter contribuído para sua publicação, com a presença do autor, e por tê-lo como um dos nomes de destaque no catálogo da editora.

As lembranças de vida são, sem dúvida, uma das ferramentas a que os escritores mais recorrem durante o processo de criação literária. Já disseram que todo romance nasce duas vezes: primeiro ele nasce na vida, depois, na memória. Atribui-se a Milan Kundera, escritor tcheco, uma frase que, embora retirada de um contexto político, serve-nos muito bem para ilustrar o protagonismo do passado como matéria da literatura. Ele disse: "A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento."

    O escritor Chico Miguel recorre às suas lembranças para recriar esse jogo de relações de poder sob seu ponto de vista, seu conhecimento, seu modo de lembrar-se. Ele registra isso na ficção como meio de não o deixar desaparecer na névoa densa do passado, pelo menos não como ele o apreendeu e o interpretou. Com a obra publicada, esse universo de relações humanas, de crítica e denúncia, sobre o qual a narrativa se desenvolve, perpetuar-se-á na memória dos novos leitores. Assim, tal qual pregado por Milan Kundera, o autor Francisco Miguel de Moura terá vencido a luta contra o esquecimento.

No futuro, décadas ou séculos adiante do seu tempo, quando o poeta não mais estiver neste mundo real, ainda assim permanecerá vivo na memória de seus leitores, por meio de seus versos, sua poesia, escrituras e histórias. Este é um prêmio para todo escritor, uma recompensa pelo árduo trabalho de recriação de um mundo feito de conhecimento, histórias e poesia.

Somente quem escreve conhece a quantidade de dúvidas escondidas por trás de cada página escrita. Cada romance é construído com entusiasmo, mas também com hesitações, cortes, recomeços e longos silêncios. Talvez, por isso, minha admiração por este livro seja hoje ainda maior do que quando eu apenas admirava seu autor.

Como editor, tive o privilégio de acompanhar todo o processo editorial deste livro, muito antes de ele encontrar seus leitores, até chegar à sua forma definitiva. Participei das decisões editoriais, acompanhei sua preparação, sua revisão, sua materialização. É um tipo de convivência diferente, porque nos aproxima não apenas do autor, mas também da própria construção da obra.          

Talvez seja esse o maior privilégio concedido aos escritores. Diferentemente da maioria de nós, eles não vivem apenas na lembrança daqueles que os conheceram. Vivem também na imaginação daqueles que nunca os viram, nunca lhes apertaram a mão, nunca ouviram sua voz, mas que, ao abrirem um de seus livros, passam a dialogar com eles através do tempo. A literatura possui esse raro poder de transformar a memória individual em patrimônio coletivo.

E é com imenso orgulho e satisfação plena — como sobrinho, como leitor e, agora, como editor — que a Editora Rodeador traz à lume, como primeiro número da Coleção Biblioteca Piauiense, essa 2ª edição do romance Laços de Poder, de Francisco Miguel de Moura. para que a voz de Francisco Miguel de Moura. continue encontrando novos leitores e para que a memória de sua obra permaneça viva enquanto houver alguém disposto a abrir um livro e deixar-se conduzir por suas páginas. Para que eles nunca sejam esquecidos, nem o autor, nem a obra.

Finalizo com outra frase — ah, gosto muito de frases célebres, é lógico que daquelas que conseguem, de forma sucinta e elegante, registrar meu pensamento desorganizado —, esta como reflexão sobre o tempo, a escrita e o legado:

Escrever talvez seja a forma mais delicada de impedir que o tempo tenha a última palavra. 

Muito obrigado a todos e parabéns ao nosso grande escritor e poeta Chico Miguel.

____________                                        ­­­­­­

  *Jailson Klein, autor grandes obras entre romances e contos.  Santo Antônio de Lisboa (PI), 16-07-2026, na sede da Academia de Letras do Vale do Riachão-PI-(ALVAR)

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

 


CONVERSA DE POETA  (Consigo mesmo)       

                                  Francisco Miguel de Moura*

 

Vim do século passado e aprecio o presente

Cheio de invalidade. E as dúvidas,  semeio.

Sem nada ao nascer... Perguntam-me a que veio?

E eu  respondo: A tudo além do que a alma sente.

 

Para ser um bom poeta, além do que é servido

A uma jóia de Deus, clamando peio amor.

Tenho horror ao frio e o frio é meu pavor.

Guardo minha letra  bem dentro em meu ouvido.

 

Sofrer, todos sofremos: A marca do Criador!

Para viver  sorrindo, invento o meu calor.

Que mais quero de Deus, se ainda sou feliz?

 

Nada de hipocrisia...  Quem não gostar de mim,

Longe de mim eu vejo o ontem, o hoje, até o fim,

Pois sendo igual a mim, ninguém é meu juiz.

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*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

 


DECLARAÇÕES

         (Para Maria Mécia, minha esposa)

Hoje, Dia dos seus anos,

Tenho pouco a oferecer

Mas atesto humildemente,

Contigo quero viver,

Não só hoje, porém sempre,

Meu amor para você

É tão doce como a flor

E tão forte como a pedra.

Que nos guarda ao morrer.

Quero, sim, o teu amor

Forte e vivo, quero ter

Para sempre junto a mim.

Por isto, então, no seu Dia

Quero abraçar-te, meu bem.

Para a  vida, juntos, termos.

Este pequeno poema,

Vai sempre, por ser eterno,

Enquanto a vida nos leva

Para o eterno vivermos.

                         The. 10-04-2026

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Francisco Miguel de Moura, poeta.

sábado, 4 de abril de 2026

 FOI ASSIM...

               Francisco Miguel de Moura*



Vejo-me ainda aquele bom rapaz, 

Condutor de um sorriso tão feliz

E tu, uma mocinha tão capaz

De alguém amar, e estava por um tris.


E eu saindo do bar ali da esquina,

Vi-te sentada e só, naquela praça,

Vinhas da Igreja, assim com tanta graça,

E eu, de triste, sorri... - Moça ou menina?


A hora era chagada e então, num voo

Corri em tempo... E te encontrei quieta.

Da luz do amor, fingir não se imagina.


Meu sorriso nervoso, então falou:

Nascera num segundo a voz completa:

Do amor que, de tão forte, é luz divina.

___________

*Francisco Miguel de Moura, para minha amada 

Mécia, lembrando um pouco do nosso começo.


sexta-feira, 3 de abril de 2026


  •  

EU SOU, TU ÉS...

             *Francisco Miguel de Moura, autor.

 

Eu sou, tu és... Nós somos mais felizes

Do que outrora, com aquele amor carnal,

Mas, pela mão de Deus, o amor legal

Levemente chegou, como tu dizes.

 

Na vida prosseguimos com matizes

De flores das mais ricas primaveras.

O tempo a nos mostrar novas esferas...

- Sabes, por quê? – Para fundar raízes...

 

E sempre as que jamais se desvanecem,

Nem ficam velhas, pra suportar crises,

Nas horas misteriosas que nos descem...

 

Adentrando o canal do eterno amor,

Onde o que sempre dói, nem sempre é dor...

Eu sou , tu és, nós somos mais felizes!

___________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

quinta-feira, 26 de março de 2026


 

A TRISTEZA

      (“Purificou a tristeza da terra,

       quem deixou sobre a terra uma

       lágrima e um verso”)

                Olavo Bilac

                   Francisco Miguel de Moura*

 

Todo mundo algum dia esteve triste,

com vergonha de ser, de se mostrar,

sem querer aceitar o quanto existe:

o “eu”, o outro, o céu, a terra e o ar.

 

Por ter doenças difíceis de curar,

só pensando um futuro aterrador...

Seu mal, de qualquer forma, foi o amor

que lhe faltou. Por quê? Não soube amar.

 

Também sofri por isto e, sem receio.

Com risos que não tenho – meus inventos –

vou castigando o monstro-orgulho feio.

 

E aprendi a lavrar meus sentimentos,

guardando todos junto aos pensamentos

num cofre de saudade e de amor cheio.   

 

_­­­­­­­­­­­­­­­­-------------------------_______________

* Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

 Mora em Teresina-PI

 

 

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 


POEMA DA INQUIETUDE

 

                  Francisco Miguel de Moura*

 

Ai, que vontade de jogar ao mar

os suspiros presos no ventre,

as dores caladas,

as palavras interditas

e aquelas que não foram ouvidas,

e as trevas que se acenderam

no espírito,

numa estação de raiva e desespero!

 

Que fossem para o fundo profundo

da purificação,

e meu amor nascesse novo,

vindo ninguém sabe donde,                          

de há trilhões de anos.

E a bondade cobrisse

as faces da terra.

Iluminassem o sol e a lua

eclipsando todas as maldades,

ao encontro da verdade do universo...

 

Assim teria um Deus

com quem andar conversas

e arrebanhar presentes

para os futuros homens inquietos.

_____________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro

sábado, 17 de janeiro de 2026

 


DOR SEM NOME

            Francisco Miguel de Moura*

 

Minha dor é bem maior

Que a dor do mundo inteiro:

- Uma dor muda.

Minha dor é só minha, não posso reparti-la.

Quem pode me ajudar, quem pode ouvi-la?

Minha dor não brilha, é só fumaça.

Minha dor dói mais, que me ensurdece.

Dor que vem da alma e parte o coração,

Depois se volta para dentro a passos.

Minha dor sou eu, castigo sem pecado,

Me mói, me seca, me mutila.

Dor inominada que vive, revive, e nunca morre

viva, que morre e remorre e nunca morta nasce.

_____________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

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