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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

CHICO MIGUEL DE MOURA, O MENINO quase PERDIDO

Fortaleza, 6/11/2011

Nilto Maciel*

Minha amizade com Chico Miguel de Moura tem sido sempre retardada. Sua primeira obra publicada, em 1966, intitula-se Areias. No entanto, só tive oportunidade de a ler mais de 10 anos depois. Eu morava em Fortaleza (até 1977); ele, em Teresina. Capitais de estados limítrofes, sim, porém tão distantes um do outro que mais parecem fincados em pólos opostos. Quem no Ceará sabe, pelo menos, os nomes dos principais escritores piauienses? Que cearense leu O. G. Rego de Carvalho, Mário Faustino, Assis Brasil?

Transporto-me de novo aos anos setenta. Terá Chico vindo a Fortaleza, sem me comunicar? Em 1973 (?) viajei à capital do Piauí. Não me interessava muito por literatura naquele tempo. Vivia mais para futebol, mulher e cerveja. Compareci ao maior estádio da cidade, para assistir a um jogo entre Fortaleza e um clube de lá. River ou Flamengo? Durante o jogo, lançaram em minha direção bagaços de laranja e sacos com mijo. Voltei para casa sujo, mas vencedor. Depois nasceu a revista O Saco, e passamos, eu e Chico, a nos corresponder. Li todos os livros dele, desde Areias aos romances, conjuntos de poemas, contos e crônicas e ensaios.

Passados mais 20 anos, pude me encontrar pela primeira vez com ele, no aeroporto de São Paulo, a caminho de Havana. Pela velha capital andamos a pé, ao lado de um escritor local, Carlos Chacón, visitamos casas de escritores falecidos, igrejas, bibliotecas, escolas, La bodeguita del medio.


Agora, 2011, recebi dele exemplar de O menino quase perdido, editado em 2009. Como informa, nas abas, José Ribamar Garcia, "este é o 30º impresso desse versátil e talentoso escritor” nascido em Francisco Santos - PI, da grande região de Picos, sertão do Piauí, em 1933.


O menino quase perdido se compõe de crônicas (Chico acha que pode ser chamado de romance-memória). São 35 ao todo, desde “A vida começa num buraco” até “Naquela tarde de abril”. Na inicial, um narrador onisciente relembra o protagonista da obra (o próprio Chico): “O menino estava na casa do avô materno, cuidado por uma tia”. Na derradeira, o personagem, homem feito, com filhos, aparece diante de Ruth, a menina por quem se apaixonara na adolescência: “E calaram os dois, embebidos um no olhar do outro, procurando captar, no que ainda restara – a face do que foram e já se havia esfarinhado no tempo”.


O volume se inicia com um longo prefácio, de Teresinha Queiroz, intitulado “A vida começa num sonho”, paráfrase do título da primeira crônica. Lá pelo meio do estudo, vem esta informação: “Acompanhamos o menino nas mais diversas brincadeiras como a da procura de botijas de ouro, a da transformação de animais e pedras em objetos e seres fantásticos; com ele corremos desabaladamente, o rosto ao vento em busca dos sonhos, viajamos ao passo lento dos jumentos de outrora, vigiamos roças de alho e plantações de milho, esfregamos nossos pés sujos de areia antes de dormir, comemos barro escondido e nos envergonhamos de nossas redinhas mijadas.” E a prefaciadora vai além dessa síntese e chega ao que é memória literária: “Nessa prosa proustiana de Francisco Miguel de Moura, escanchada na cintura de nossas mães, nos religamos pelo tapete mágico da linguagem com a natureza que nos acolhe e nos limita, com a domesticidade de costumes que nos conforta, com a cultura escolar que nos modela, com a figura da grande família que nos coloca na história e nos lugares sociais.”


Para não parecer que tenho pretensão de fazer crítica literária de (ou resenhar) O menino quase perdido, salto ao topo desta página (quase crônica de ancião perdido entre livros), para dizer: minha amizade por Chico Miguel ainda se retardará por muitos tomos de poesia, prosa de ficção ou memória, se assim o senhor ou a senhora (ou os senhores e as senhoras) do verso e da prosa permitirem.
                                                                  
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Na foto: Carlos Chacón (escritor cubano), Nilto Maciel e Chico Miguel, foto do ano 2000, em Cuba - quando participávamos de um Congresso de Literatura, em Havana - Foto do meu arquivo.
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*Nilto Maciel, autor desta crônica/resenha, é contista e poeta, mais contista e romancista do que poeta, e mora em Fortaleza-CE. Foi editor da revista "Literatura", com mais de 40 edições.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

NOITE

Crônica

Clauder Arcanjo*

Toda noite traz um bocado de melancolia. Os homens se recolhem um pouco mais para dentro de si, escavam as suas profundezas, mergulhando no seu íntimo, a escarafunchar sofregamente os socavões da memória. Pelo menos assim ocorre com muitos.

Quando o sol se põe, e a natureza entra em processo de hibernação, sempre me volto para as reminiscências. Flagro-me, então, calado, arrastando os chinelos do passado no terreiro do presente.

No mais das vezes, suspiro fundo e dirijo o rosto para a estrela mais alta, e, para mim, a mais distante. A que me dá um quê de infinito. A luz assim, em forma de sinal no tecido escuro do céu, lembra-me o homem. Um ponto em meio à infinitude do universo.

É claro que, nesses casos, a filosofia, irmanada com a poesia, faz menção de brotar em mim. Não através de uma catarata de palavras desconexas, no vômito dos prolixos. Não, o que se me dá nessas ocasiões é o vocábulo em murmúrio, a surgir por entre os lábios fechados, gota a gota, em ritmo de confissão.

A poesia, esta sim, fala pelo silêncio. Quando nos voltamos para o nosso âmago, e ao nos surpreendermos sozinhos, ela aparece altaneira, apesar de vestida de humildade. Com os olhos rasos, com seu ponteio triste, a desvendar os mistérios inalcançáveis, a traduzir-nos as assombrações mais inusitadas, escondidas no tear das dúvidas, no sótão das ansiedades.

Por isso percebo que muitos homens e mulheres têm medo da noite. Fogem dela desesperadamente. Quando se vêem frente a ela, acendem luzes, ligam tevês, aparelhos de som, juntam-se em bandos, a conversarem em voz alta, como se conseguissem fugir da sua trama.

Ao chegarem em casa, exaustos, ainda ingerem pílulas de dormir e mergulham nos lençóis, torcendo para que um pesadelo não os importune. O bicho-homem é bicho esquisito!

Nós, poetas, adoramos o sereno da noite. É ele que nos leva ao cume da concentração, ao encontro com nós próprios. Solitários e em comunhão com as desventuras de toda a humanidade.

O barulho nos inferniza. Não é nos outros que nos descobriremos, mas sim no íntimo da gente. Lá, exorcizaremos nossos fantasmas, expurgaremos os erros, nos redimiremos das faltas. Enfim, limparemos as cinzas do passado, e deixaremos a terra limpa e pronta para o amanhã.

Alguns acham que enganam a noite. Mera ilusão. Ela pode até recuar estrategicamente, porém, numa madrugada qualquer, o fujão cairá em seus braços. Por isso há ocasiões, em meio à calmaria mais profunda, em que ouvimos um grito desesperado a cortar o véu da cidade. É o clamor do reencontro com as trevas.

Eu já passei da fase de fugir da noite. Rendo-me aos encantos dessa fada incomum. Que pune e me encanta. Que me sufoca e me oferta um néctar picante.

— E o medo do escuro? — você me indaga.

Sempre tenho e terei. Mas, tal qual um brinquedo que nos dá um frio na barriga, ele me extasia com os seus riscos.

Semana passada, por exemplo, junto ao mar, pus os olhos na direção da lua.

Ela estava enfronhada nas nuvens. Catei no céu um astro bem distante, e, em pouco tempo, estava mergulhado no fundo de mim. A estrela era eu.

Visitei a meninice — brinquedos, aprendizados, receios, molecagens; papeei com os amigos da juventude — festas, primeiros namoros, descobertas, pavores juvenis; e corri depressa ao terreno da maturidade.

Ao chegar ao tempo atual, defrontei-me com quase os mesmos mistérios de outrora. Apenas a sensação de que o invólucro era mais maquilado, num esforço para fingirem-se de essenciais, ou diria melhor, de mais sérios.

A noite e seus sortilégios me revelaram que tudo não passava de uma farsa.

Na verdade, reconheci que a minha maior e melhor parte estava firmemente ancorada na infância remota. Os valores fundamentais, os receios e certezas tinham raízes naquela época. A noite nos leva a isso. Pois só no silêncio é que nos deciframos.

Fecho esta crônica e retorno ao alambrado, é tempo de fitar mais uma vez a imensidão do firmamento, antes de cair na cama para ter com os deuses e fantasmas que habitam em mim.

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*Clauder Arcanjo. Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 17 de agosto de 2008. clauder@pedagogiadagestao.com.br

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