Mostrando postagens com marcador *Tersina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador *Tersina. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de março de 2013

SALVANDO A ALMA-TRÊS ATITUDES

 CRÔNICA

 Francisco Miguel de Moura*


Não tenho explicação para o que sinto quando as ruas de minha cidade se esvaziam de gente indo e vindo, carros buzinando em disparada: uns vão, outros vêm. Sinto alívio dos sons e dos rostos, destes nem tanto, mas quando são muitos cansam, aborrecem. Se todos fossem rindo e não nos parassem para conversar! Ai! O fio do pensamento já está a me fugir para o rebulício. Minha intenção é voltar aos feriados normais e aos chamados fins-de-semana prolongados, hoje tão comuns, por causa da facilidade das máquinas corredoras, e as pessoas como eu não embarcam, voam ou correm pelas estradas, e então o tempo fica de sobra para fazer-se o que se têm de fazer.
Nesses dias meu pensamento flui.
Foi pelo Natal. Fim de ano que também já é começo de outro. Eu não ia só – acompanhou-me uma mulher, minha conhecida de caminhada matinal. No início, íamos mais ou menos calados, por ruas desertas, quando, ao pé de uma porta, uma andorinha apareceu, e triste como se estivesse doente. E estava dodói de um pé, aliás de uma asa, por isto caminhava em vez de voar. A mulher disse de sua intenção de pegá-la e levar... (Não explicou o que ia fazer com ela).
- Não, não faça isto, deixe a bichinha aí, que ela se recupera.
No nosso encalço vinha um cão daqueles que vivem pela rua, não têm dono ou nunca tiveram, viu a ave, cheirou...
- Vou pegar a bichinha antes que o cachorro a coma.
- Não, não, ele não vai interesssar-se por ela.
Dito e feito. O cão nos acompanhou deixando a andorinha em paz.
- Pegue uma pedra e jogue nele, que ele deixa de nos seguir.
- Mas ele vem tão em paz! Olhe!
Ele foi logo passando à nossa frente, nos seguindo de perto, cheirando o chão e os postes e...
- Ele está procurando fazer xixi, ou então seu amigo, não acha?
E seguimos. Na frente, havia uns quatro livros jogados na calçada. Já um pouco molhados pela chuva. Mas eu, curiosamente, como sou escritor, abro um, abro outro, e o que encontro? Relatórios de atividades burocráticas, exercícios para concurso, entre outros com matérias mais ou menos afins. Não me interessei mais. E bem em frente, molhando a mão no capim orvalhado, senti-me limpo por ter pegado naqueles livros que viraram lixo.
Ela disse: “Não vai levar um ou todos para você”?
Não respondi. Mas, antes do fim da jornada, pensei: Por que não dei a menor importância aos livros? Certamente dei a importância que eles tinham. Se fossem meus, tivessem o meu nome? Aquilo é material que publicam às carradas, em toda banca de jornal a gente encontra em melhores condições, ou mesmo nos sebos, a preço de banana. Quanto ao cão, confesso que não gosto de cachorros, dos chamados de raça, criados presos para defender a casa. Na grande maioria das vezes mordem até os donos; outros, quando se soltam, saem por aí atacando os passantes, pessoas que não têm nada a ver com eles. Os de raça “pitbull” matam crianças e até gente grande. Um horror! Desse tipo de cachorros não gosto. Mas, estes cãezinhos comuns que por uma razão ou outra se tornaram vira-latas, eu admiro. Admiro por sua inteligência bem próxima do homem, no sentido em que a liberdade é o nosso maior bem, depois da vida. E eles são livres. Gostam de sê-lo, não perseguem ninguém, a menos que se lhes tentem maltratá-los. Eles querem roer um osso, perto dos açougues e, em ultimo caso, vão furar os sacos de lixo. Mas isto faz também até as crianças famintas.
Nesses três encontros inesperados assumi comportamentos e atitudes diversas. Sobre a ave e o cão, respectivamente tive a de respeitar a vida e a liberdade de cada um. Se valeram algo para os animais, não sei. Mas pessoas devem comportar-se bem. É o que vale a pena.
Pareceu-me, naquele momento, que havia, na minha colega de caminhada, uma atitude sobre determinadas coisas. O interesse ou o zelo pelas coisas não deve obumbrar os princípios de vida e liberdade. E também não prejudicar a natureza como um todo, um sistema: o ambiente. As coisas devem ser preservadas enquanto servem à vida e à liberdade. E isto é muito variado porque os gostos são muitos. “E não se discutem!” Aliás, discutimos os gostos, sim, quando nas aulas de estética e de ética. Fora disto é simples jogar conversa fora, para lavar a alma de alguma outra sujeira. 

Será que a minha crônica também me lava a alma de pecados anteriores? Por exemplo, o de “pregar que não gosto de cachorros nem na televisão”?   Talvez, quem sabe? Por estas e outras – tenho feito poemas à minha cidade quando passeio por ela, de manhã, e a cidade está praticamente vazia, poemas que me dão gosto de ler depois. Continuo lavrando e lavando minha alma, leitor, sem cerimônia. Nem medo de ser egoísta.
 ___________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, PI, é  membro da Academia Piauiense de Letras e da International Writers and Artists Association (IWA), Estados Unidos.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O NOBEL PARA LÊDO IVO (1924 – 2012)

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras
   
   Justo, urgente, necessário teria sido o Prêmio Nobel de Literatura para o poeta e romancista LEDO IVO, nascido em Maceió-AL, em 18-2-1924 e falecido em Sevilha, Espanha, a 23-12-2012, onde pretendia passar o Natal. 
    Instigado pelo escritor português (de Lisboa, ao tempo ainda vivo) foi que trabalhei junto à Academia Piauiense de Letras para indicá-lo e terminei indicando, em 10 de dezembro de 2005, conforme documento assinado pelo presidente Paulo Freitas e demais acadêmicos presentes a mais recente Assembléia Geral ocorrida naquela instituição. O escritor Joaquim de Montezuma de Carvalho, historiador de grande projeção, já o tinha feito de forma particular, conforme as regras daquele Prêmio, lá de Lisboa. Nós o indicamos para o ano de 2006, repetindo o que havia sido feito no ano anterior. Não obstante as fortes razões, ele, infelizmente, não foi Premiado com o cobiçado laurel. Seria o primeiro escritor brasileiro e o primeiro prêmio a ser conquistado pela Literatura do Brasil. Ficamos órfãos e ainda estamos. 

    Assim começava meu arrazoado diante dos ilustres Conselheiros do Prêmio, na Suécia: - É possível que V. Exas. não conheçam esta sociedade de letras proponente – a Academia Piauiense de Letras. Talvez sequer saibam em que parte do Brasil fica o Estado do Piauí (Nordeste Ocidental), mas isto tem pouca importância. Depois da leitura e assinaturas deste requerimento de inscrição daremos todas as informações necessárias em documentos anexados. “LÊDO IVO”, no momento, é o poeta mais representativo de um lirismo nada piegas, de uma forma cada vez mais apurada sem ser extremo, radicando um humanismo não complacente e que a tradição literária tem conservado e anunciado em primeira mão como ciência do homem. Festejado pela crítica e pelos leitores, sua poesia o iguala aos mais importantes poetas deste país chamado Brasil, no século XX e começo do presente, quiçá do século anterior a estes. Acaba de completar seus 82 anos, premiado com grandes prêmios durante esse tempo, traduzido em vários idiomas e países. É para LÊDO IVO – membro da Academia Brasileira de Letras, com sede no Rio de Janeiro, sua cidade de adoção – que apontamos o Nobel de Literatura de 2006. Nossa Academia Piauiense de Letras, fundada em 30 de dezembro de 1917, bem que teria membros nossos a apresentar para o galardão: Assis Brasil e O.G. Rego de Carvalho, ambos nomes conhecidos nacional e internacionalmente, por suas excelentes obras de prosadores e pela crítica de fé que têm merecido, assim como por prêmios dos mais importantes com que foram galardoados. Mas não vamos apresentá-los agora para o glorioso Prêmio Nobel. Deixemo-los para outra oportunidade, talvez no próximo ano, quando poderemos fazer nova propositura. O prêmio maior de Literatura, agora, deve ser de LÊDO IVO, poeta dos mais originais e brasileiro filho do Nordeste, conhecidíssimo no Brasil inteiro e no Exterior, pelo seus frutuosos sessenta anos de artista da palavra, quando acaba de lançar sua Poesia (completa). Homenagens lhe foram prestadas por todo este país, inclusive no nosso Piauí. Teresina, Capital, sede da Academia Piauiense de Letras, através da revista “Presença”, nº 32, do 2º semestre de 2004, publicação oficial do Conselho Estadual de Cultura, com matéria alentada e da maior importância, ressaltando sua poesia por ocasião da comemoração das seis décadas de atividade intelectual. Como exemplo das homenagens recebidas por LÊDO IVO, enviamos-lhes a revista “Presença”, junto com alguns documentos desta Academia. Sabemos que essa Real Academia já possui as obras do nosso notável proposto, LÊDO IVO, Acadêmico da Academia Brasileira de Letras, repetimos – cuja indicação inicial para o NOBEL coube ao escritor Joaquim de Montezuma de Carvalho, individualmente e em nome de agremiações culturais a que pertence em Portugal (Lisboa) e noutros países, historiador português de grande conceito, conhecido e publicado na Europa e nas Américas.  Será que a Academia Brasileira de Letras não o tenha proposto antes de nós? Tanto melhor.  O próprio Joaquim de Montezuma de Carvalho, de quem conhecemos o teor de seu requerimento-proposta, em carta recente, inclusive publicada nos jornais “Diário dos Açores”, das Ilhas dos Açores, e “O Primeiro de Janeiro”, de Porto, Portugal, deu a conhecer a V. Exas. de um pouco de sua poesia, transcrevendo o poema Minha Pátria, que é um dos mais importantes da pena desse grandioso poeta. Por nossa parte, queremos mostrar-lhes, antes de tudo, o início do poema denominado “O Caminho Branco”, que reputamos da mesma altura da poesia de portugueses como Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, Mário Sá-Carneiro ou dos brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, todos falecidos, os quais, a nosso ver, eram merecedores do galardão.

     Aqui vai parte do poema, para o leitor tomar gosto:
“Vou por um caminho branco. / Viajo sem levar nada. / Minhas mãos estão vazias. / Minha boca está calada. / Vou só com o meu silêncio / e a minha madrugada. / Não escuto entre os barrancos /a voz do galo estridente / que, na treva do terreiro, / anuncia as alvoradas. / Nem mesmo escuto minha alma: / Não sei se ela vai dormindo / ou me acompanha acordada, / se ela é vento, se ela é cinza /ou nuvem rubra raiante / no dia que se levanta / como vela desdobrada / em nave que corta as vagas. / Nem sei nem mesmo se é alma / ou apenas sal de lágrimas. / Vou por um caminho branco / que parece a Via Láctea. / Só sei que vou tão sozinho / que nem sequer me acompanho, / como se eu fosse um caminho /  pisado por vulto estranho. / Não sei se é dia ou se é noite / o que surge à minha frente, / se é fantasma do passado / ou vivente do presente. / Não sei se é a torrente clara / da água que corre entre pedras / ou se o gavião me espreita / oculto no nevoeiro, / espantalho prometido / ao meu dia derradeiro”. 

  Gostaria de mostrar o poema inteiro, tão importe quanto “O Corvo”, de Edgar Alan Poe. Mas voltarei ao assunto LEDO IVO brevemente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

DA NOVA LITERATURA BRASILEIRA (1)

Francisco Miguel de Moura*


É preciso considerar que muitos autores estão surgindo dentro dos Estados do Nordeste e até nos do Centro-Sul e que não são divulgados.  E merecem as honras de nomes nacionais, suas obras são realmente excelentes. Ninguém sabe por que motivo a imprensa e a mídia os trocam por “valores” duvidosos, sem leitores e sem crítica que os suportem, que ficam encalhando as livrarias, os supermercados e até as bancas de jornal. Ou será que os leitores e os críticos que não moram nos grandes centros não têm competência? Isto é o que eu chamo julgar uma obra pelo simples fato de o endereço do Autor não estar numa grande capital como Rio e principalmente São Paulo. Verdadeiro absurdo, verdadeiro contra-senso! É inversão de valores. 

Aliás, sabemos de muitas coisas que não são ditas. Uns ficam calados com medo da concorrência, outros, muitas vezes, nem conhecem nem estudam os pormenores. Mas, como diz o público sábio: “Quanto mais cabras, mais cabritos”. Ninguém deve ter medo de concorrência nem calar as boas causas como a proclamação dos grandes nomes da literatura brasileira atual. Desse mal da inveja não padece o poeta e jornalista Luiz Fernandes da Silva. Ao contrário, no seu jornal mimeografado, “Correio da Poesia”, feito com imenso sacrifício pessoal, vem divulgando a grande poesia e prosa da atualidade. E sua divulgação não se resume nisto: ele o disbribui incansavelmente e está em todos os eventos que pode, no “trabalho de formiguinha” de divulgação, não apenas de si mesmo, que alíás tem até deixado de lado.  No mundo literário de hoje há poucas pessoas com a sua generosidade. Outro nome que não posso deixar de citar, do mesmo nível de Luiz Fernandes, é do poeta Edson Guedes de Morais, em Recife. Já publicou uma antologia de poemas de poetas brasileiros do passado e do presente, em sua gráfica manual, em Guararapes – Recife (PE) e vários livros de autores como Anderson Braga Horta, Hardi Filho, Francisco Miguel de Moura, entre muitos outros. Esses valores ficarão, quer a grande mídia do Sul queira ou não. Disse-me, certa vez, o amigo e fino contista Caio Porfírio Carneiro, cearense: “Eles vão ter que me engolir como contista”. Eu quero repetir sua frase, adaptando-a à poesia: “Eles vão ter que me engolir como poeta”.

Aproveitando um escrito do Luiz Fernandes da Silva, cito os nomes que ele lembrou, sejam do Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste. Ele começa com meu nome, a quem acaba de me conceder o título de “Embaixador da Poesia no Brasil” (2012) e passa a outros de talento como Ary Lins Pedrosa, paraibano radicado em Maceió-AL (breve lançando mais um livro), a grande crítica literária e professora universitária Elizabeth Marinheiro, poetas e contistas Silvério Ramos da Costa, Chapecó (SC), Anderson Braga Horta, mineiro já citado acima, Humberto Del’ Maestro, de Vitória (ES), e Djanira Pio, de São Paulo, além de outros que seria cansativo citar.

        Mas não vou deixar de citar o poeta e editor Waldir Ribeiro do Val - que publicou recentemente “50 poemas escolhidos pelo autor” - , pelos seus méritos poéticos, que são grandes, com uma poesia fina, onde partilha os sentimentos humanos e interpreta os da natureza, sem precisar bem o social que carrega na própria alma. Ninguém esquece versos como: “Escrita nos muros, a palavra é súplica” e outras que evocam “as esperanças dos homens”, especialmente dos poetas (vide poema “Paz”, pg. 43). Nessa coleção de editados por ele com o título de “50 poemas escolhidos pelo autor”, que já vai a mais de 60 títulos, constam nomes famosos como Gilberto Mendonça Teles, Ledo Ivo, Carlos Nejar, Antônio Olinto e Pedro Lyra, mas também muitos outros menos conhecidos e já famosos, e outros nem tanto, porém que já apresentam uma poesia de fazer inveja pelo domínio da palavra. Há entre eles, dois piauienses -: Álvaro Pacheco e Diego Mendes Sousa, um já praticamente com sua obra pronta e encerrada, o outro começando agora, com dois ou três livros já publicados, além do da coleção “50 poemas...” Esses nomes não podem ser ignorados. Além do mais temos sites de poesia como o do Antônio Miranda e o do Soares Feitosa, que são verdadeiras antologias contemporâneas de prosa e verso. 

           A nova literatura brasileira está aí, mostrando sua importância e superioridade em estilo, profundidade e valor. Não comparável, jamais, com a literatura de “massa” de “falsos escritores” que nunca conseguiram fazer um soneto, quando fazem uma trova é de “pés e mãos quebradas”, não sabem o que é medida, ritmo, imagens, metáforas, metonímias, símbolos, intertextos e intratextos, além de outras “cositas mas” que são as descobertas e os segredos do verdadeiro poeta. Não sabem o que é um conto, uma crônica bem feita. Sabem mal da “literatura de auto-ajuda” e dessa massa de “bestas-de-sela” que são vendidos como romances – os mais vendidos. A quem? 
__________________

*Francisco Miguel de Moura, escritor e poeta brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras e da IWA - Intenational Writers and Artists Association - Estados Unidos, também está na Antologia de Poetas Brasileiros de Edson Guedes de Morais, nos sites de Antônio Miranda e Soares Feitosa. Em livro propriamente dito participa de duas antologias da poesia brasileira, editadas em Portugal.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

ÊXTASE E SUOR
  Autor:
  Francsco Miguel de Moura*


Sou perfume de mim e odor do mundo
para que a terra me cuspa.
O sopro que me der
me enterrará fundo,
frio de fazer corpo e alma se unirem.
E, ao infinito e à luz,
que meu suor
jamais sirva de foice ou gume.

A dor com que me cortam
com  explosão
seja lembrada em mansa contramão.

Ao meu último perfume, o mundo furta
a cor e o cheiro:
- Mau bocado ao cão que ama.
    
O frio há de sarar-me
com seu branco lençol sem dobras,
de areia, nos olhos amorosos.

Deito-me agora, em êxtase de fé,
No cuspido chão que longe erra,
levando o vento limpo à pele
e ao imo
em que me arrimo,
sem perder a mão.

**********
_______________________________ 
*francisco miguel de moura, poeta brasileiro, mora no piaguy, e continua achando que a mais bela cidade do mundo é a sua - teresina, capital do seu estado

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A PRIMEIRA NAMORADA

COMO SE FOSSE A SEGUNDA

                            Francisco Miguel de Moura*





Antes, recordo-me a subir o morro,
Pegado pela mão de uma menina.
O silêncio nos vinha por socorro:
Mesmo assim se corava Francelina.

Subíamos o céu da nossa infância,
Tudo era leve como o vento leve.
Em nossos corações, desejo e ânsia
Do viver tão gostoso por tão breve.

Descer do céu não lembro como fora,
Descemos juntos para a vida. E embora
Tenha sido de tempo o meu sorrir,

Bem que inda choro o ontem que é agora.
Tão ledo como foi, quem joga fora!
O que existiu há sempre de existir.
                                                                           ***

Nota: A foto que ilustra este soneto é de Deanna Durbin, atriz canadense que trabalhou no cinema (Hollyood) durante 27 anos. Atualmente mora em Paris e completou 90 anos. Caro leitor, acesse o link abaixo para ler, que vale a pena saber da sua história, inclusive um vídeo muito interessante.
http://advivo.com.br/blog/luisnassif/os-90-anos-da-atriz-deanna-durbin
__________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, este soneto faz parte de uma série de dez e está inserido em “O coração do instante”, livro  inédito.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

PARTO NATURAL, DE UMA POETA


*Francisco Miguel de Moura - Escritor


Não sou médico, biólogo, nem coisa semelhante: sou um poeta e trato de uma poeta e seu “Parto Natural”, Teresina, 2007. Livro de estréia? Não sei, nem se tem outros a publicar. O que sei é que, quando eu era responsável pela revista “Cadernos de Teresina”, há já alguns anos, a empresa editora, Fundação Cultural Mons. Chaves, publicou uma antologia de poetas teresinenses e nela estava Bernadete Maria de Andrade Ferraz, com um belo poema, aprovado por mim. Tentei conhecê-la pessoalmente e não consegui. Não sei por que, acho que por causa de muitos trabalhos em que eu andava envolvido. 

O tempo passou. O mundo é pequeno. Pois não é que, casualmente, no salão de entrada de uma agência bancária onde nos encontrávamos, eis que, agora, ela se apresenta! Com o livro de poemas, “Parto natural”, em mão. E mo dedicou. A surpresa foi grande. Aproveitei a oportunidade e ofereci-lhe também uma de minhas obras. Mas surpresa maior tive ao ler Bernadete Ferraz, digamos assim, abreviadamente. Para traduzir o encontro, não sei melhor do que seus versos  

“A cautela inquestionável
que une a beleza ao risco.
O embevecimento do alerta.”( p.48). 

Ela naturalmente já me conhecia, a recíproca não sendo verdadeira, a menos que se conheça bem uma pessoa apenas pelos seus escritos, se poeta – pelos seus versos. Assim, sim.  Mas lendo todo o seu livro, agora posso dizer que a conheço: tímida, sem vaidade, salvo a vaidade dos poetas de expressarem-se em plenitude, livremente. Assim saiu “Parto natural”, transfigurado na virgindade original de quem guarda escondida sua obra espiritual, amada, trabalhada com palavras simples, porém numa fala toda sua, que se mostra sapiente sem ser enfática. É como se estivesse recitando o dito e o interdito para um público atento e ansioso de ouvir. Certamente, em seu livro há muito interdito, há muitos símbolos e imagens verdadeiramente encontradas pela sua vivência, leitura e observação do mundo, tanto nos poemas longos como nos menores. Estilo enxuto, direto, objetivo, com apenas as quebras e cesuras necessárias do seu verso. Para maior crédito do leitor, extraímos do poema “Passagens”, pequena mostra de sua poética e de sua busca com a palavra:  
“A vida  
cataloga emoções 
a cada ida 
aos corações.

Na vinda, 
a vida dialoga com ilusões
que encontrou com vida 
ainda.

A vida,
em seu momento matinal, 
encontra-se no embornal
do ventre, 
entre Deus
e a mãe. 

Vespertinamente, 
faz-nos moços
ávidos buscantes,
correndo e esperando.

Anoitecemos juntos
no limite do amanhecer
seguinte
em que tudo volta a ser.” (p.24).

Poderia ficar aqui mostrando mais poemas de Bernadete Ferraz, a poetisa que diz que “romper o hímen da madrugada é a minha profissão de amanhecedora que não sabe dormir a noite... E como tudo em mim dorme pouco” (p.18), seria uma tentação frustrada de mostrá-la com mais evidência, pois, de ponta a ponta seu “Parto natural” é um valioso livro e a autora se coloca entre os bons, senão os melhores, do universo poético piauiense. Que fazer, então? Desde o primeiro poema até o último, respectivamente, assim expressa:  

“Ser belo é natural
e é natural não sê-lo. 
Mas o essencial supera o modelo” (p.18). 

***

E foi tanto o bem 
que o querer bem nos fez, 
que sempre nos encontraremos 
pela penúltima vez.” (pg.107). 

Diríamos que Bernadete Ferraz escreve a sua alma verdadeira, embora nem todas as suas palavras e frases sejam imediatamente interpretadas, pois que, com a imaginação de “noturna vigilante”, faz aquecer os dias e as noites dos poetas, com imagens contidas, celestiais ou da terra e de onde mais puder.

Para terminar este nosso comentário, passo a palavra à própria autora: “Resolvi expor o meu pensar de reflexivos momentos: Um cacho intimista com frutos de muitos tempos. A poesia, sei senti-la. Não há lucubrações nos meus versos. Livres de corpo e alma. Brancos e de toda cor. Há sentimentos intensos que, quando superlotam o sentir, se ajeitam com as letras. Muitos poetas poetam com o sangue, muitos outros o fazem também com a língua. Há quem goste de “feijão catado”, há quem goste de feijão-com-arroz, eu gosto dos dois. E todo depósito de sentimentos guarda sua marca registrada.”

Para que dizer mais? Ir em busca de prefácios ou artigos de outros poetas e críticos? A moça conhece João Cabral, Drummond, Cecília e muitos outros, porém faz sua própria poesia. E ótima. E pronto. Parabéns.
___________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador, autor de mais de 30 livros de todos os gêneros, desde o romance à crítica literária, do crônica ao conto, e centenas de artigos que publica no jornal "O Dia", na coluna "Opinião", aos sábados.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

CRÔNICA: AS FUNÇÕES DO BANHEIRO – NOME ATUAL

              
Francisco Miguel de Moura*

Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras
Teresina, PI AUÍ -BRASIL e membro da IWA 
(InternationalWriters and Artists Association
Toledo, OH, Estados Unidos).



       Há muitas funções para o banheiro. A primeira é a do banho como o nome indica, mas não a mais importante, porque há pessoas que passam dias sem fazer este acerto de conta com a limpeza do corpo.  O normal seria fazê-lo uma vez por dia. No Brasil é assim. Na Europa é apenas uma vez por semana, dizem. A segunda, que engloba também a terceira, é fazer necessidades fisiológicas – expressão muito vaga, pois nossas necessidades fisiológicas são muitas. Sem meias-palavras, essas necessidade fisiológicas se referem a mijar e fazer cocô. E são para estas que mais recorremos ao banheiro. Daí porque o leitor já deve ter ouvido, só em nossa língua, outros sinônimos mais usados para a palavra banheiro: privada, latrina, reservado, sentina, sanitário, etc. Mas há uma função mais nobre, no caso a quarta que foi comentada numa crônica do escritor Rubem Alves, do livro “Pimentas”, editora Planeta, São Paulo, 2012.  É a da leitura. O banheiro é um lugar muito próprio para leitura de vários tipos: literatura, humor, poesia, conhecimentos gerais... E até romances. Eu acabo de ler o romance "Onde vais, Isabel”, de Maria Helena Ventura, de quase 300 páginas, boa parte da sua leitura feita no banheiro - o local mais fresquinho da casa e mais silencioso. Sem mentiras. Dessa autora aprendi que o D. Dinis, o trovador, 6º rei de Portugal, casado com D. Isabel,  santificada pelo Papa da época, foi quem decretou o dialeto português oficial em Portugal, dialeto ainda ligado ao galego, ao espanhol e outros falares locais. Aprendi também que D. Isabel, quando saiu do reino de Aragão para desposar D. Dinis, levava um grande tesouro consigo - um segredo - até chegar ao seu destino e entregá-lo ao rei.

      E então, para que o nome “banheiro”, se às vezes nem chuveiro o tal reservado possui? Por que não o nome de privada? Mas, não há meio, a gente está apertado na rua, entra numa loja ou repartição, e pergunta: - Aí tem um banheiro? Ou onde fica o banheiro?  Dá licença? E vai lá, na privada. Mesmo porque não há privadas públicas e quando as há são insuportáveis, não têm a menor conservação, a gente pode até adoecer servindo-se delas. Aliás, um dia desses fui postar umas cartas na agência central dos Correios e tive necessidade de urinar – essa é uma necessidade que ocorre sempre, visto que o calor tropical exige que se beba muita água. A funcionária me disse que não havia privada para os clientes, somente um banheiro reservado aos funcionários. Depois que reclamei que era de lei toda repartição que atende ao público ter um banheiro para quando alguém precisasse, ela disse que me levaria (e levou) ao dos funcionários, como se fosse um favor e não uma obrigação legal.

      Há uns dois anos, eu vivia numa casa grande, mas troquei por um apartamento, condizente com a vida moderna, quando não se pode pagar mais do que um empregado doméstico, quase sempre uma cozinheira que também lave a roupa.  Mas, na casa, mesmo mais ou menos ampla, sempre achei interessante ler no banheiro. Ali, ninguém era perturbado, o que não me surgiu foi a idéia de fazer uma bibliotequinha dentro. E aqui, no apartamento, propus seriamente a biblioteca. Depois da instalação de um ventilador, iniciativa da mulher, em cada banheiro, minha proposta tinha muito a ver. Ela riu como que aprovando. Não sei se minha proposta vai ser executada. No banheiro, eu posso ler meus poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Castro Alves e até Camões, quem sabe, “Os Lusíadas”. Por falar nesse imenso poema que fez a nossa língua firmar-se verdadeiramente como língua de civilização, podemos dizer que ele traz uma sabedoria imensa em suas páginas, e só no silêncio do banheiro é que poderíamos interpretá-lo em profundidade. No banheiro, nada deve ter a nos atormentar: rádio, celular e de outras maquininhas de mão cujos nomes não sei. Vou dizer apenas uma, como já ouvi: “ipade”. Mas é escrito “ipode”. E pode? No banheiro, não. Contracultura. Descartável. O que é salvo num segundo, no seguinte já é deletado... Cultura não se descarta: conserva, cultua. E a gente pode ficar tranqüilo que guardará por muito tempo, incorporado, o que leu, sentiu e sonhou para própria vida. Sim, porque no banheiro se pode até sonhar com emprego, namorada, divulgação de algo interessante e de interesse para a riqueza cultural da pátria.  Há melhor sabedoria do que ter aprendido a viver bem? Pela cultura se aprende a viver bem. Não pelos livros de auto-ajuda, mas se possível por todos os livros de alta ajuda: romances, contos, novelas, história do país e do mundo, etc. O exemplo da leitura, no banheiro, deve ser repassado às crianças, lugar principal para começar a educação delas: Não jogar papel servido no chão (pra isto, lá deve ter um cesto), dar descarga depois de servir-se, e, enquanto se serve, ler toda a boa literatura infantil, de Monteiro Lobato a Cecília Meireles, chegando, certamente, até os mais novos escritores – que são muitos.

      Daqui a pouco, como sugeriu humoristicamente Rubem Alves, o papel higiênico deve ser todo ele impresso com pensamentos dos melhores pensadores e poetas, de Sócrates a Jesus Cristo, de Neruda a Hermann Hesse, de Adélia Prado a Mário Quintana e Manoel de Barros. Do último, ele citou um verso bem a propósito deste tema e crônica, com o qual quero terminar: “Também as latrinas desprezadas que só servem para ter grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas”.

______________________
(Publicado no jornal O Dia, Teresina, 03.11.2012)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...