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sexta-feira, 26 de maio de 2017

NÓS ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS!...

Francisco Miguel de Moura
Escritor brasileiro, membro da Academia de Letras do Piauí


Dividimos nossa crônica de vida, em duas partes: ANTES e DEPOIS DE LULA, com raiva por ter que falar no nome desse “analfa”, psicopata que nos governou e pretendo novamente avançar no poder do Estado. ANTES DA ERA LULA, nós éramos felizes e não sabíamos, podem acreditar. Classe média, desfrutávamos de tudo quanto era possível, e muito foi possível. Desde a tranquilidade do trânsito quanto a segurança das ruas. De noite, cadeiras nas calçadas, o pessoal vizinho vinha pra conversar e participar do cafezinho cheiroso da dona da casa. Ao passo que a população foi crescendo, a gente ia rumando para as praças e os cinemas,bares e restaurantes, especialmente na Pedro II. Andava-se sem susto, a pé ou de ônibus. Se esquecesse alguma coisa, voltava, procurava e encontrava. Saísse de casa de manhã tendo a certeza de voltar para o almoço e, depois na parte da tarde, para a janta. Homicídio era coisa raríssima. Os presos se aquetava em suas prisões até o fim da pena.

Não podemos esquecer: Era linda a travessia entre Timon e Teresina, em barcos. Do que me vem à memória eu vou contando. Cheguei a Teresina com o ânimo definitivo de vir morar e aqui fiquei. Trabalhando no Banco do Brasil. Ficamos, eu e a família, os maiores estudando e a mãe cuidando dos outros. Vinha do interior da Bahia, cidade denominada Itambé, onde meu filho Francisco Miguel de Moura Júnior nasceu. Depois, já há alguns anos, nos juntamos as três famílias: a minha (eu, Mécia e Mecinha), a de Laudemiro Miguel Morais Moura (Mônica, Lucas, Davi e Mariana) e a de Miguel Júnior(Ana, Tainá e Tairine). Ele nascera em em Itambé. Esqueci de dizer que Laudemiro (Lau) nasceu em Vitória da Conquista, também na Bahia. O Franklin Morais Moura não foi nem o Fritz Miguel Morais Moura, não me ocorrem as razões da NÃO adesão a nossa viagem. Talvez por que o Franlklin nasceu em Picos e o Fritz, em Teresina.

Estávamos no período da DITADURA MILITAR, que, para tanto não nos incomodou. Eu não era comunista, eram os comunistas que estavam sendo perseguidos. Sempre me declarei um social democrata. Naquele tempo viajava-se na maior tranquilidade. Tão diferente de hoje, onde os assaltos a ônibus e carros particulares são comuns. E por isto nos causam medo. Medo! Hoje vivemos com medo de tudo.

Mas aquela viagem foi tranquila. Partimos de Teresina, minha família e a de Miguel Júnior, com pequeno estágio de 3 ou 4 dias em Salvador. Júnior tinha muito interesse em conhecer a cidade onde apenas nasceu. Laudemiro queria também rever Vitória da Conquista, cidade natal. Itambé não tinha crescido quase nada. Mas a cidade, vista do alto da Serra de Conquista, é uma maravilha. E Miguel Júnior passou a dizer que ela é um bairro de Salvador (gozação), mas eu e o Lau, para confortá-lo concertamos: - “Que Itambé não seja um bairro de Salvador, tudo bem, mas pode ser e é um bairro de Vitória da Conquista”.

Se naquele tempo Itambé era despossuída de um bom comércio, quase tudo se ira comprar em Conquista, tivemos a constatação de que continuava do mesmo jeito: médico, hospital, grande mercado, é lá mesmo que todos vão, subindo ladeira, descendo ladeira, vendo bonitas paisagens, vendo roças de cacau e fazendas de capim e bonito gado vacum.

Fomos, voltamos e chegamos a Salvador em paz. Lá, em Itambé, eu chorei visitando o cemitério e vendo a cova que Fulton estava sepultado: Fulton, que lá chegou com 6 meses. E depois, misteriosamente, ou porque os médicos eram incompetentes, falece. Tinha 6 meses. Para ele fiz poemas lindos, já naquela época, 1962, logo depois da morte. E continuo fazendo. Digo-me e aos meus familiares que Leônidas Fulton é nosso Anjo da Guarda, no Céu, que está nos esperando para receber quando a gente chegar lá.

Voltamos cansados, mas felizes por ter reconhecido mais estas cidades da Bahia (Itambé e Conquista) e observar que estavam mudadas. Tudo muda, tudo o que é feito por Deus e o que é feito pelo homem. Francisco Miguel (eu) e Miguel Júnior (meu filho) com nossos familiares passamos para Teresina, enquanto Laudemiro Miguel Morais Moura ficou em Salvador, onde ainda mora.

Agora, nossa família de 4 filhos moram aqui com suas famílias (Mécinha ainda é solteira, esclareça-se), e Laudemiro Miguel, em Salvador – BA. É claro que, dentro das possiblidades do momento, somos felizes, unidos, amando uns os outros. Damos graças a Deus por tudo isto. Mas a situação do Piauí talvez seja a mais precária, difícil do que de muitos Estados: a violência grassa, o medo gela, as atividades produtivas estão quase paralisadas. Isto começou DEPOIS DA ERA LULA – ele com sua sucessora e com o seu PT – vinte anos de poder… Teresina, a linda capital do Piauí, fundada por Saraiva, tornou-se um amontoado de bairros (que no Rio se chamariam de favelas). A pobreza aumentou muito. No campo também. As secas sucumbem. As estradas, um horror.

Falado de Brasil, Miriam Fraga, até boa como jornalista, escreveu um livro contando as vantagem que esses anos de ditadura civil de Lula e cumpinchas acrescentaram como positividade para a história do país. Ela engana-se redondamente. Esses foram só de sofrimento, de anarquia, ninguém respeita mais nada, nem a propriedade privada nem a público. Os ladrões e assassinos, de arma em punho, entram na residência de qualquer cidadão, roubam, estupram, matam... Vivemos em polvorosa, uma guerra civil intestina (se me permitem o pleonasmo) está Começando e vai estourar: droga, bandidos, moleques de rua (assegurados pela nova lei de menores). Quem duvidar, aguarde. 

Hoje menor não pode trabalhar, mas também não vai à escola mesmo porque não tem escolas que prestem, os pais não se incomodam – só querem a bolsa-família – e sair flanando por aí, arranjando mais mulheres, deixando mais filhos… Nossa população baixou de nível: moral e ético, nosso povo empobreceu dezenas de vezes nesta ERA MALDITA do LULA. Tomara que ele não se meta a ser candidato a nada, pois já tem não se sabe quantos processos nas costas, além da má fama que ganhou aqui e no exterior e da "FURTUNA" (com U) quer não consegue provar, embora seus amigos sejam os maiores tubarões do planeta. Políticos de nosso Brasil, por favor, pensem bem o que estão fazendo. 

Ainda haverá algum que não seja corrupto? Pois que tome a peito salvar o Brasil e nosso povo. Levante-se e aja.
                                                                 *****

          (Crônica publicada no jornal "O Dia", de Teresina, Piauí, em 27/28-5-2017, pg. 6 - Opinião
      

segunda-feira, 2 de maio de 2016

LEVANDO A VIDA, ENQUANTO A MORTE ESTÁ PARIDA

Francisco Miguel de Moura*

    Encontrei-me, esta manhã, com o síndico do edifício onde moro e dei duas palavras com ele, logo depois do “bom dia”. Ele pergunta-me “como vai?” e eu me lembrei de repetir uma velha frase tão comum no meu tempo de menino, lá no interior de Picos, um lugarzinho que já não existe mais chamado “Curral Novo”, data Jenipapeiro, do atual município de Francisco Santos:
    - “Vou levando a vida, enquanto a morte está parida”- respondi.
    Não obstante termos quase a mesma idade, notei o estranhamento dele diante do meu palavreado. Então, tentei explicar-lhe o que seria a frase com sua indefectível comparação e rimas.
    - Naquele interior, o costume era de muitos ditados, muitas frases, muita poesia popular. Desse costume tirei a frase que lhe digo. Por que a morte está parida? Vida e morte, que comparação estúpida parece à primeira vista!
    Desfiei-lhe o costume especial de onde vem a frase: Outrora, quando a mulher dava a luz a uma criança, isto é, estava parida, tinha à sua espera um chiqueiro de galinhas caipiras escolhidas e engordadas a milho, no total exato de trinta cabeças, que eram os dias do chamado “resguardo” da mãe parida.  Trinta dias que passava deitada, dando o peito ao neném e curtindo o seu resguardo. Era proibido à parturiente fazer qualquer outra coisa: ficava deitada e curtindo o seu bebê, dando-lhe chá quando doía a barriga.
Durante este tempo todo só podia comer o chamado “pirão de parida”, justamente a galinha feita ao caldo, com o enchimento do pirão de farinha de mandioca. Tudo escolhido, do bom e do melhor.
    Que eu me lembre, já li uma crônica do escritor Ozildo Barros, de Picos, onde ele falava no tal “pirão de parida”, como se fosse uma comida muito gostosa. Se ele comeu desse pirão, na casa de alguma parida da sua amizade ou vizinhança, não sei. Talvez estivesse fazendo alguma metáfora para contar uma das suas histórias do nosso interior picoense. Já eu não estou fazendo nenhuma figura de linguagem, estou querendo transmitir ao leitor o tal costume e o porquê da frase que dá título à crônica. Naquele tempo, o marido, o pai não via a criança nascer, era proibido entrar no quarto onde a diligente e sábia parteira – uma espécie de doutora ginecologista, pessoa muito valiosa, agia. Serviçal da comunidade toda, por isto e por mais era muito bem tratada. E quando a criança crescia a mãe mandava tomar-lhe a bênção, dizendo: “Ela foi quem lhe pegou, merece respeito, trate ela de madrinha”.
    Se o marido comia do “pirão da parida” eu não sei, mas acredito que não. Lá um ou outro dos filhos que entrassem na sua camarinha, é claro que a mamãe, sempre muito carinhosa, oferecia. Eu provei desse pirão quando minha mãe “teve” minha irmã Mariinha. Nessa época é que eu já comia tudo e ficava doido pra comer: não propriamente o pirão, mas um pedaço da carne de galinha – comida nobre, de rico. Cá fora, nós comíamos era a carne seca de muitos dias, costelas de boi ou de bode, também com pirão. Mas, de tarde, o feijão troava em nossas barrigas, temperado apenas com gordura de porco. E era bom, melhor quando tinha mais um courinho, um torresmo para mastigar.
    De qualquer forma, o nascimento de mais um filho – que acontecia todos os anos – era uma festa. A turma ficava mais solta para as brincadeiras. E nascia meninos também nas casas vizinhas. De parentes ou amigos, e a meninada se juntava no terreiro para muitas brincadeiras que inventavam: da “ciranda-cirandinha”, do “lindô-lindô”, “de esconder”, de correr atrás de algumas coisas que o comandante da brincadeira declamava, sempre uma das crianças maiores: esta tinha o nome de “reman, reman” e começava assim: “reman-reman”... quem me dá primeiro uma folha daquele juazeiro?  E a negrada corria, a árvore era muito alta.... Tinha outra, mais mansinha, a “do anel”. Era quando todos ficavam sentados e o anel ia sendo passado de mão em mão, cada qual com as duas mãos fechadas querendo ser o escolhido de receber o anel. Às vezes todos eram enganados e o anel ficava com o passador da jóia. Aí a briga era geral.  Mas, quando a mãe estava parida, nem sempre a negrada ficava só, solta... Ah, se fosse! O pai arranjava uma pessoa pra vir cuidar da casa, sempre havia mais roupa pra lavar do que o comum, fazer a comida, pois criança só sabia “malinar” (é um arcaísmo, mas a palavra existe nos mais antigos dicionários). Quando não era uma pessoa de fora, vinha uma tia, que era muito melhor mesmo, embora, de vez quando, desse uns cascudos na gente.
    Assim, quando a gente diz a frase “VOU LEVANDO A VIDA, ENQUANTO A MORTE ESTÁ PARIDA”, quer dizer que, pelo menos nos trinta dias do “resguardo” da parida, a vida está boa, a gente vai vivendo...  E viver não é apenas trabalhar, preocupar-se com dinheiro pra bodega, com água, com lamparina, com “meizinhas” com o mato dos caminhos, com animais de cangalha e cela. A vida é também alegria, liberdade, comida como “o pirão de parida”, que virou lenda nos nossos sertões e está no palavreado desse povo que traz sempre alguma sabedoria: os ditados são como as frases dos homens importantes, dos filósofos.
    Aproveitando o final desta crônica, junto com os leitores, se eles concordarem, para sugerir aos escritores, pesquisadores e editores a criação e edição de um dicionário de todos esses ditos importantes do povo brasileiro.  Seria uma riqueza enorme para a memória e para a história, para alunos de todos os níveis, para os professores que lidam com as coisas da linguagem e sociologia do povão.
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 Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, Teresina - PI

quarta-feira, 22 de abril de 2015

HARDI FILHO - HOMEM SIMPLES, POETA PROFUNDO

Francisco Miguel de Moura, escritor,
membro da Academia Piauiense de Letras.   



          A mim ainda estou me perguntando: Por que é tão difícil falar das pessoas mais amigas, mais íntimas, logo após a sua morte? Para mim e para os que o conheceram Hardi Filho, sobretudo os que com ele conviveram, quer literariamente, quer amigavelmente, quer de ambas as formas, é difícil. Estou quase empacado, quando lembro de uma viagem a Luzilândia, a mais recente, para um daqueles agradáveis encontros literários. Ninguém conversava muito, nossos diálogos eram de poucas palavras. Ganhei dele um presente, naquela viagem, que ainda guardo como recordação. Assim, acredito que seu espírito irá com a gente, em todas as viagens literárias que fizermos. Grandes amigos, a amizade juntou também nossas famílias, desde os primeiro contatos. Os piauienses, daqui para o norte (até Parnaíba), daqui para o leste (até Picos), daqui para o oeste (até Oeiras), ou onde estivéssemos, muitos o conheceram.  E em mais lugares estaríamos se fôssemos convidados. Em Picos, com o nosso conhecimento e nosso trabalho, ajudamos os escritores locais fundarem a Academia de Letras da Região de Picos. Noutras cidades fizemos movimentos junto à juventude estudantil interessada e discursos que eram aulas nas quais ensinávamos o que sabíamos ensinar: a entender o mundo e a sociedade, ler e pensar. Publicou mais de duas dezenas de livros. Poderia ter publicado muito mais, se corresse atrás das entidades culturais. Achava que era obrigação dos setores culturais e educacionais divulgarem os artistas, da pena ou do pincel, de todas as áreas, pois os artistas são uns servidores permanentes do povo, da sociedade.  Penso que ele não morreu, embora o tenha visto estirado num esquive, esperando a hora do sepultamento, para a última viagem. Na minha memória e na minha saudade ele estava de viagem, mas voltaria. Amigo tão calado quanto pensativo, com a sabedoria de vida que tinha aprendido a duras penas, tornara-se um ser desprendido das coisas materiais. Era o poeta do amor e das coisas simples. O livro “Teoria do Simples” não tem nada de poesia simples. O simples duraria a vida inteira e mais ainda, certamente, a outra vida.  Mas muitas vezes, sem entender o mundo e os homens (quem os entenderá?), bradava contra situações críticas como a dor física e as dores da alma. É bom registrar que foi o único poeta que escreveu um livro exclusivamente de amor, para Adélia, sua mulher, a cujo livro acertadamente deu o nome de “Adélia”.  Por falar em último, nós dois, somos os últimos poetas a escrever um livro em parceria: “Tempo contra tempo”, nos finais do século XX, publicado a nossa custa, por insistência minha, para marcar a entrada do novo milênio. A escritora Rejane Machado, do Rio, escreveu um excelente ensaio sobre o “Tempo contra tempo”, que vai sair numa reunião dos seus melhores artigos, por editora de lá, noticiou-me há poucos dias. A Academia fez vista grossa sobre o trabalho, sequer fizemos lançamento, também a edição foi de 300 exemplares apenas.
           Francisco Hardi Filho estudou, interpretou e poetizou exaustivamente o sofrimento humano. E assim se tornou o poeta, um poeta maior logo no seu primeiro livro “Cinzas e Orvalhos”, premiado em concurso da Prefeitura Municipal de Teresina. Procurou alinhar-se ao coro dos que observavam e sentiam as dores do mundo, aos grandes sonhadores como Celso Pinheiro e Da Costa Silva. Nas horas de revolta, como Augusto dos Anjos, bradava qual o mar violento. Sempre foi poeta, mais que prosador. Mas são crônicas do jornal são impecáveis. Sua vocação de poeta veio das entranhas. ”Somos assim predestinados”, dizia o poeta J. G. de Araújo Jorge.
           Porém, morrer? Hardi Filho é um daqueles que, na minha concepção simplista, não morrem. Afirmei na chave de ouro de um soneto que “o que existiu há sempre de existir”. É minha crença na eternidade O que foi, é. Hardi não morreu, ao contrário, são daqueles que vivem como Da Costa e Silva. E justamente era sua a cadeira do Príncipe dos Poetas do Piauí, na Academia Piauiense de Letras. Andamos por aí, semeando e divulgando poesia.  O prof. Luiz Romero Lima, que nos conduzia a várias cidades deste Piauí, sabe disto. Ele tem que ser divulgado, agora mais do que nunca, agora e sempre, para compensar o seu desprendimento. Hardi Filho não vendia poesia, ele dava, achando acertadamente que o maior presente e o maior bem que poderia acontecer na vida de relação das pessoas era ler, e ler poesia. Andando sempre juntos, desde o começo, as famílias nos acompanhavam nos almoços, nos clubes, nos banhos de cachoeira, nas praias... Fundamos o CLIP, revigoramos a UBE-PI (eu lhe pedia que me acompanhasse, me ajudasse, pois sabia que ele não faltava e que a sua ajuda era valiosa). Viemos para a Academia, onde já se encontrava Herculano Morais, estávamos os três contentes, contando vitória, que o CLIP estava ali reunido. Requisitados, vínhamos receber os colégios que visitam a Academia. Era uma festa falar à juventude estudiosa, aos professores tão dedicados e mal pagos.  O CLIP estava e está na Academia. Nada se acaba. Hardi terminou sua tarefa aqui na terra, mas continuará onde estiver – no céu, acreditamos – pois o outro lado da vida é também vida: A morte é apenas um episódio sem graça, mas tão rápido quanto o nascimento. Creio, como Aléxis Carrel, o sábio francês, que “Deus não iria criar-nos tão inteligentes e perfeitos como criaturas, para depois transformar-nos em cinzas e nada mais”. Como o tempo, produto dele, não morreremos nunca, totalmente. Nossa alma sabe disto. Que o poeta Francisco Hardi Filho, amigo certo, escritor limpo na língua e no pensamento, bom pai de família, benemérito da sociedade, descanse em paz dos sofrimentos deste mundo.
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Francisco Hardi Filho nasceu 05-07-1934 (Fortaleza) e faleceu em 27-03-2015 (Teresina). Membro da Academia Piauiense de Letras, cadeira n°21, que teve como primeiro ocupante o Príncipe dos Poetas Piauiense, Antônio Francisco da Costa e Silva.
                        

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

José Maria Vasconcelos , professor e cronista (Diário do Povo)


            O romance do premiado escritor australiano, Markus Zusak, seduz adolescentes, graças à inclusão da obra em alguns currículos escolares ou à interpretação para o cinema. Clássicos brasileiros parecem fora de moda; professores mal leem e conseguem interpretar Machado de Assis. Encostam-se apenas nos resumos.

        Durante a Segunda Guerra Mundial, uma garota, Liesel, abandonada, sobrevive, miseravelmente, fora de Monique, através de livros que rouba para estudar. Ajudada pelo pai adotivo, aprende a ler e partilhar livros roubados com seus amigos. Conduta reprovável, porém prazerosa, pela oportunidade de colecionar amigos para leitura e estudo, em busca de sentido da existência. Conquista um jovem judeu, que vive na clandestinidade em sua casa, no fundo de um porão. Um afeto que enche as páginas de ternura. Liesel, através da leitura, tenta amenizar a solidão do judeu.

         Não me interessa desfiar comentário sobre o romance de Markus Zusak. Chamou-me a atenção, digamos assim, o hábito pecaminoso de uma jovem ladra. Que pecado? Roubar livro para aprender ler, trocar ideias, conquistar amigos e horizontes de cultura?

         Que apareçam mais ladrões de livros para estudar. Assaltar para se curar da ignorância. Um livro, a melhor arma de fogo. Um estudante a mais, um bandido a menos. “Assalto! Deitem-se no chão, seus irresponsáveis! Quero livro! Quero aprender! Quero ser gente do bem, uma existência condigna!”

         Imagino delegacias e presídios obrigando detentos a ler, premiando-os com diminuição da pena a cada livro acompanhado de avaliação escrita. Começar por um livro da Bíblia, outro de história de heróis e vencedores ou de autoajuda. Nada de livros político - ideológicos com prontuário esquerdista.

         Já apliquei a receita aos estudantes bagunceiros. Punição com leitura, depois, redação. Os pais adoravam o santo remédio. Nada de expulsão de classe, suspensão e similares atitudes ridículas e humilhantes.  Meus filhos queriam sair para baladas nos finais de semana. Permissão garantida, mas acondicionada à leitura de matérias interessantes acompanhadas de comentário escrito. Mão na massa, ainda no início da semana. Ver novelas, sim, mas tinham de comentá-las por escrito.  Nenhum precisou de psicólogo por alguma mágoa, bullying. Ou de médico para exame de pressão e fezes. Práticas da leitura entre os jovens, e os presídios se esvaziarão, a vida terá mais sentido.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

OS CHEIROS DE TERESINA ME EMBRIAGAM


Francisco Miguel de Moura, escritor 
e membro da Academia Piauiense de Letras

      Crônica Poética:

             Teresina, menina, cajuína!
       Teresina, com rima ou sem rima, é uma riqueza, é poesia.         
       Seu perfume desperta a mente para o amor, para os amores. Seja de rosa, cravo, jasmim ou de manjericão, seja de mato agreste, seja de planta plantada nos jardins e ruas da cidade.   Mesmo os menores cheiros nos levam a pensar em algo que conhecemos, em acontecimentos que nos passaram, em músicas que foram ouvidas, em lugares que foram gravados na memória.
       Sinto os cheiros de minha cidade: mato verde na época chuvosa e até na primavera quando os pau-d’arcos (também conhecidos por ipês) “fuloram” em branco, roxo e amarelo. Não há visão melhor do que essa, nem cheiro mais agradável do que o cheiro dos ventos gerais de junho e julho, estendendo-se até agosto, especialmente quando se sobe o rio Parnaíba de canoa ou o atravessa para Timon. Mas também quando deitamos na varanda de nossas casas, diante dos quintais e jardins. Ainda existem jardins e quintais verdes nesta Cidade Verde. É o milagre do amor de seus filhos.
         Como nos tempos das rodas da Praça Pedro II, com saudade sinto o cheiro das meninas, moçoilas, das moças, enfim das mulheres passeando no “Teresina Shopping” e no “Riverside”, com os mais variados risos. E me abebero da poesia do hoje, esqueço as tristezas e contrariedades do ontem, e começo a sentir-me feliz por viver. Porque perfumes de mulher, seja namorada ou amiga, conhecida ou desconhecida, se confundem com os de Teresina. Teresina foi menina, hoje mulher. E como passaram os anos, sua feição como cidade transforma-se em metrópole, com suas virtudes e seus defeitos. Restam ainda uns restos do centro, da Frei Serafim e de uns poucos bairros como a Piçarra e a Vermelha.
        Mesmo assim desfigurada, gosto de você, onde tenho morada desde 1964. Mas, conhecia de antes. Do tempo do seu centenário, quando cantei em versos. E de antes ainda, de passeio e de viagens a serviço. Ai, Teresina, do tempo em que se podia sentar na calçada até meia-noite, jogar conversa fora com os vizinhos e visitas, pegando os ventinhos das 9 horas da noite, que correm da serra e do mar distante!  Ventos que Fontes Ibiapina apelidou de “parnaibano”. Como era bom, até bem pouco tempo, tomar sorvete na Avenida Frei Serafim ou na Praça Pedro II, depois de assistir ao filme do Cine Royal ou uma peça no Teatro 4 de Setembro. Gosto de Teresina como quem gosta de sorvete de goiaba, abóbora, bacuri, caju e manga, de todas as frutas que nos enfeitam, nutrem e engordam, enfim. Gosto da cajuína, hoje registrada como bebida genuinamente do Piauí. Gosto de Caetano Veloso porque fez aquela canção que ficou famosa no mundo inteiro, oferecida a Torquato Neto, o poeta desta cidade, pois nasceu e viveu aqui menino e parte da juventude, por isto cantou-a, cantou-a... E se encantou.
          São tantos os cheiros que trescalam e nos enchem as narinas e os ouvidos que ficamos tontos.  Assim, podemos beijar e abraçar, os nossos e os que chegam. Aqui não há ninguém de fora, todos os que ficam são nossos. Vejam o poeta Hardi Filho, que veio do Ceará, hoje um dos piauienses mais legítimos; o cronista Deusdeth Nunes (Garrincha), cearense que, certo dia, teve a tentação de voltar para Fortaleza: Voltou mas não voltou: - Logo se arrependeu e estava de volta pra nossa santa Teresina. Há muitos cearenses que ficam aqui por adoção. Dos maranhenses já nem precisa falar-se, porque somos irmãos de braços e de rio.  E os paulistas vão chegando de vagarzinho, pela verdura da soja e de outras culturas. De lá do sul, sentem o cheiro da Cidade Verde, tu, minha Teresina.
São os feitiços. Quantos feitiços! Só as mulheres sabem tê-los, e nos seduzem. Tal como na conhecida quadrinha popular, que eu resumiria em dois versos: “Não há rosas sem espinhos / nem mulheres sem ciúmes”.
     E eu diria mais acertadamente: “Nem mulheres sem perfumes”. Toda mulher tem seus feitiços e seus perfumes. Teresina tem os seus, que são inumeráveis.
Falei tanto e disse pouco: Quem te conhece, Teresina?  Não posso dizer que conheço, posso afirmar, sim, que um dia destes me perdi no Parque Piauí e, para me localizar e encontrar o que estava procurando, tive que me valer do celular e pedir a minha secretária a orientação. Teresina é pequena, cabe no nosso coração. Mas é também tão grande! E é certo que aqui faz calor, especialmente nos B-R-O = BRÓ. Mas, quando alguém se queixa do clima, costumo dizer:
       – Você já imaginou como seria uma Teresina menos quente?       Estaria cheia de paulistas, cariocas, amazonenses, goianos, mineiros e gaúchos, trazendo outros cheiros.
         Prefiro mil vezes os perfumes já conhecidos: não terei o trabalho de ficar buscando que tipo e que flor está me trazendo o ar.
       - Vem de onde?
       - Não vem, é daqui mesmo. É nosso! Talvez tenha por resposta.
       -  Bairrista?
       - Bairrista, não, dobre a língua! Sou cidadão teresinense por conta própria.
                                                                ***

      Ofereço à Cidade Verde - Teresina-PI, cidade do meu encanto, no seu aniversário, em nome de todos os cidadãos teresinenses por conta própria.
    Nota: Esta crônica foi publicada no jornal "O DIA", Teresina, Piauí, de 16-8-2014 (quando Teresina completa 162 anos de existência) ao lado de uma mensagem do Prefeito da Cidade, Firmino da Silveira Soares.

sábado, 5 de julho de 2014

HARDI FILHO, SUA VIDA, NOSSA VIDA E A POESIA

 Francisco Miguel de Moura*
        
     Hardi Filho completa hoje, 5 de julho deste 2014, seus 80 anos de idade e 50 de poesia e literatura. Poeta e cronista, observador arguto, com o toque do jornalismo que praticou. Mas na crônica não deixa de lado o tempero dos sonhos. Além disto faz crítica literária quando a obra e o instante lhes aprazem.  

    Contamos, sempre com ele, a Academia e a comunidade literária, na organização, ajuda e preparo dos concursos e outros misteres. Tendo em vista o seu valor humano e literário, a Academia Piauiense de Letras, no último sábado, promoveu a comemoração do seu aniversário, fechando solenemente o semestre acadêmico. Um dia festivo marcante. E, nesta crônica que promete ser longa, relembro algumas coisas tiradas do baú da memória e ligadas à nossa vivência de amigos e poetas, que marcam o perfil psicológico e moral do homenageado. Direi, de início, como disse na festa acadêmica comemorativa, que Hardi Filho é um exemplo de probidade, generosidade, homem desprendido das coisas materiais e preso aos amigos. Nestes 50 anos de vida e vivência não tivemos sequer uma só “diferença”, na amizade, na camaradagem e no bem-querer, tudo batizado e carimbado desde o dia 5-7-1964, quando me ofereceu seu livro “Cinzas e Orvalhos”, com autógrafo firme de quem estava em plena forma. Logo que chegara da Bahia, aqui o encontrei e sua poesia adulta, forte, grandiosa, num estilo simbolista, cujas raízes adivinhávamos estar em Augusto dos Anjos e Celso Pinheiro, grandes mestres, o primeiro mais conhecido, o outro menos. Hardi Filho, em seu começo, é um simbolista equiparado ao que houve de melhor na literatura brasileira. A citação dos dois grandes nomes é apenas pra dizer que suas leituras eram das melhores, pois que se começa a conhecer o poeta por seus antecedentes de leitura. Quem lê bem, escreve bem; quem não lê, nunca virá a escrever – eis a minha glosa ao dito popular. Hardi leu bem e estreou impecavelmente com “Cinzas e Orvalhos”, em 1964. Há algum tempo venho tentando convencer a Academia Piauiense de Letras a incluir “Cinzas e Orvalhos” na lista de suas publicações comemorativas do centenário, a ser comemorado em 2017. Primeiramente, porque o livro do Hardi Filho é ótimo, ganhou um concurso da Prefeitura Municipal de Teresina e foi julgado pelos acadêmicos João Nonon Fontes de Moura Ibiapina, Júlio Martins Vieira e Mário José Batista como o primeiro lugar e merecedor do prêmio. Segundo, porque está completando 50 anos de publicada a primeira edição e possivelmente jamais será editado, pelo cálculo que se tem referente a reedições. Terceiro, porque Hardi Filho tem sido generoso na sua vida comum e na literatura; ele atende a todos que o procuram com prazer e bonomia; recebe todos em sua casa, conversa sabiamente sobre o fazer poético e o amor ao belo. Tudo isto, sem deixar de lado o seu propósito: Não procurar ninguém, não pedir a ninguém, quem quiser que o procure. Diante destas razões, meu apelo à APL, se vingar a idéia de publicação de alguns vivos, é editar Hardi Filho. 

     Antes que me esqueça, reabro o baú da memória e das saudades para acrescentar: Quando morei na Bahia (meus filhos fazendo o curso superior em Salvador e eu a minha pós-graduação em “Crítica de Arte”), meu dilema era não querer hospedar-me em hotel. Teresina, cidade onde fizera tantas amizades, me ia parecer estranha, quando a ela voltasse por férias ou outro motivo. Hardi Filho e dona Adélia ofereceram sua residência, com dormida e alimentação da melhor, não apenas a mim e dona Mécia, mas para qualquer dos meus filhos que aqui viessem. Este é um exemplo vivo, irrefutável. A nossa família, o favor tinha o gosto do provérbio de que “vinhos e amigos, quanto mais velhos melhores”.  Mas sei de tantas outras pessoas por eles recebidas de muito bom grado, mesmo não parentes, não por uns dias ou meses, por muito mais. Não caberia, neste espaço enumera-los e indicá-los pelo nome, se lembrasse. Também sobressaem as viagens domingueiras ao balneário “Roncador”, no Maranhão, onde passávamos o dia com nossos filhos, tomando banho, almoçando, conversando e tirando fotos. A ida de manhã e a volta à tarde era sempre no mesmo transporte: o velho e saudoso jeep do Hardi. Outras tantas vezes ele nos levou ao Parque Nacional das Sete Cidades, visto que Hardi Filho era funcionário do IBDF, por cuja repartição pública federal aposentou-se. Mas a maioria dos nossos encontros ficou por conta dos movimentos literários, primeiramente do CLIP; depois, da UBE. O velho Círculo Literário Piauiense já completa 50 anos hoje. Ele já existia a partir de 1964, quando nós, os “três mosqueteiros”, por coincidência ou não, armamos a amizade e a luta: Hardi, Chico Miguel e Herculano, já poetas de livros publicados ou procurando fazê-lo. Tarciso Prado é culpado de tudo isto: ele me apresentou ao Hardi Filho e ao Herculano Morais. E continuamos na amizade e no gosto literário de diversas facetas, nas conversas sobre a vida, a literatura, as artes e a filosofia, não obstante os percalços do golpe militar de 1964.  Como já foi dito noutras partes, o CLIP não tinha sede e reunia-se inicialmente na casa do Herculano Morais, e muito mais na casa do Hardi Filho e sua esposa, dona Adélia, que patrocinavam a bolacha, o café e o gosto de estarmos em família.  O que há de notar-se é que nunca, nestes anos todos, houve “diferenças” na família - toda amiga - nem desavenças entre nós, embora sejamos bastante diferentes em pessoa e na poesia.  

    Finalizo, por falta de espaço para dizer tudo, escolhendo uma frase que o próprio Hardi Filho diz em determinadas ocasiões: “Eu não sirvo de exemplo pra ninguém”. Que humildade, amigo! Você é um exemplo de grande poeta, um dos maiores entre o que estão vivos e produzindo, no Piauí. Exemplo de pai, de esposo e de amigo, meu irmão! Gracias!
________________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, amigo do poeta Hardi Filhos nestes 50 anos de viagem pela vida e seus caminhos, especialmente os da poesia.
         

sábado, 19 de abril de 2014

CONVERSA COM OS MORTOS E OS VIVOS

             
 Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

 Lembro-me de alguns amigos mortos (pessoalmente conhecidos). Não poderia deixar de citar, em primeiro lugar, o Des. Thomaz Campelo, falecido nesta Capital, ontem (14-4-2014), com 88 anos. Nascido em 06-01-1926, em Pedro II-PI, foi magistrado e professor, membro da Academia de Letras do Vale do Longá, da qual foi presidente.  Sócio também da UBE - União Brasileira de Escritores, e vinha dirigindo a entidade, em mandatos sucessivos, até a sua morte. Publicou a revista da UBE, além de outras iniciativas. Individualmente deixou vários artigos em jornais e revistas. No jornal “O Dia”, mantinha uma coluna exclusiva para os sócios da entidade. Deixa, assim, uma grande lacuna. Não era grande conversador, mas um bom ouvinte. Homem sério, bom leitor, amigo dos amigos. Estava presente em quase todas as reuniões da Academia Piauiense de Letras, onde era recebido com carinho e respeito, mantendo um bom círculo de amizades.  “Perder um amigo” é uma forma comum de dizer: Não o perdemos. Ele voou para outra esfera, onde deve ter sido bem recebido, na sua postura humana de humildade e cordialidade. Os mortos nos falam silenciosamente por lembranças inapagáveis, além de nas orações dos religiosos. 

A dificuldade de manter-se, hoje, uma conversa é com os vivos. Estejam em qualquer lugar, o individualismo os domina e despersonaliza. Totalmente centrados em si mesmos, não têm condição de ver e ouvir o outro. Quando se sentam a uma mesa de bar ou restaurante, normalmente pegam o moderno celular e começam a telefonar, ler mensagens, ver fotos, internete... Cada um isolado, no seu canto. Para mim, esses são mortos-vivos.

Voltando aos que já se foram desta vida, quando eu morava em Salvador, uma noite, visitou-nos o escritor Eduardo Maffei (acompanhado de dona Guiomar, sua esposa). Grande conversador, chegou a nossa casa e tomou a liberdade de virar a frente do aparelho de tevê para a parede e dizer-nos:

    - Agora, amigos Chico e Mécia, não quero ver televisão, quero conversar com vocês.

Dizia-me, sempre, sempre, o jornalista e filósofo Maffei:

 - “CHICO, UMA MESA NÃO SERVE APENAS PARA REFEIÇÕES OU MESMO PARA UMA COMEMORAÇÃO COM BEBIDAS, VIVAS E BRINDES À SAÚDE DE ALGUÉM OU DE TODOS... A MESA SERVE TAMBÉM E MUITO PARA SE CONVERSAR”
.    
Belos tempos, aqueles em que morei em a Salvador, uma temporada de três anos, onde meus filhos faziam estudos universitários e eu tentava fazer minha pós-graduação! Logo que cheguei, só possuía um amigo, o poeta Damário da Cruz, com quem discutia poesia e outras “mumunhas”. Ele nos levava (eu e Mécia), com sua namorada, a vários lugares da cidade: Um perfeito cicerone. Depois conheci o arquiteto e pintor Lopes d’Almeida, português, que nos levou ao Clube da colônia de portugueses de Salvador, onde me surgiu o convite para fazer palestras no Gabinete Português de Leitura. Foram duas e o lançamento de um livro. Saiu notícia dos acontecimentos no jornal “A Tarde”. Depois, eu e Lopes d’Almeida andamos em “tournée” literária pelo interior do Recôncavo. D’Almeida era bom conversador, tomávamos cerveja juntos, almoçávamos muitas vezes juntos. 

Não sei por que tenho poucos amigos e muitos conhecidos. Sou uma pessoa plural: Se o assunto é política, economia, sociedade, mudanças sociais, filosofia, religião, artes, dou os meus “pitacos”. Mas também sei ouvir. Difícil é encontrar quem saiba ouvir, quem queira ouvir-nos. Quando quero conversar mais livre, saio por aí e vou “esbarrar” no Mercado Velho de Teresina; ou em Timon, cidade onde também já morei, por algum tempo. No Mercado, a gente encontra pessoas simples, sinceras, alegres apesar da pobreza, humildes e boas. Para reforçar a metáfora, como diria Fontes Ibiapina, “gente humana”. Não é fácil. Diante da violência que corre os quatro cantos do mundo, atualmente, é difícil abordar-se um desconhecido. “O medo”, dizem que “não é bom companheiro”, pode nos levar à paranóia. 

         É difícil, sim, o diálogo do novo tempo, repito. Ouvir discursos não satisfaz a necessidade do diálogo. Na escola, o comum é o “magister dixit”. Também não há diálogo. Os cientistas de hoje dizem que, enquanto as turmas escolares se reunirem para estudo em forma de “UM ATRÁS DO OUTRO, TODOS OUVINDO O PROFESSOR”, não haverá progresso. O circulo dá mais uma idéia de liberdade e comunicação, os participantes terão possibilidades do diálogo. Inacreditável é que, nessa área, há quem pregue uma novíssima escola - maravilha da civilização humana – generalizando os cursos pela tevê e computador. Desaparecem, assim, as figuras do mestre e dos colegas. Aí, chegamos à estupidez dessa cultura teleguiada, onde somente ela sabe tudo (ou não sabe nada): Mandar todos e todas à internete, ponto e pronto, é o mesmo que mandar “plantar batatas no lajedo quente” – citando o verso do saudoso poeta Lourenço Campos, de Picos – Piauí.
 _________
Ilustração: A foto que ilustra este crônica foi capturada no Google, em 19-4-2014. FMM.
       

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

CHICO MIGUEL DE MOURA - CARTA DE SILVIA PRESOTTO


 De vez em quando gosto de reparar meus baús novos e velhos: cartas, anotações, memórias, pensamentos, etc. de tudo se encontra lá. Encontrei em meu "baú" novo esta carta que me fez pensar quanto as pessoas distantes são muito mais atenciosas e generosas. No caso, Carmen Silvia Pressoto*, nesta carta que passo a divulgar:

Querido Francisco Miguel Moura, querido Poeta!

Antes que finde o ano, mais uma carta, mais um tempo de estar contigo em poesia. Recebi tua antologia já faz um mês, leio, perpasso cada verso, me adentro a este mundo de saudade e amor que tão bem sabes delinear e reviro-me em humanidade….

… faço de tua busca a minha, mordo metáforas, descasco palavras, invento o dia, chego a ti em palavras e amplio a busca:



Minha Busca

minha busca em palavras
Lavra meu ser
– agrava

meu fazer em poema
escrever o meu ser
– problema

minha vida em poesia
vencer meu ser
– adia

mordo a metáfora
de cada dia.

e depois sigo por nossas heranças, certa de que os sonhos é nosso tempo mais fértil, engravido de mim mesmo, rodopio entre os cantos que me sopras e o sonho não finda, a esperança se refaz por cada dístico e …

Herança

O sonho e
meu olho insone.

A queda e
meu coração em pânico.

O pássaro e
todo espaço em pane.

O rio e
e as águas em pântano.

O mar e
as ondas em morte.

Batáquios se engolem
na água, na terra.

Nem peixes se mirem
no ôntico espelho.

Nem pássaros cantem,
quebrem-se as asas.

Homem se vomitem
na noite crescida.

O tempo pede escuro.
E eu grávido
de mim mesmo.

E meu amigo, são muitos os poemas onde me perco, me encontro, volto a tecer o que minha alma sente, pressente para contigo chegar à eternidade…

Eternidade

Dá-me
O preto dos teus olhos
Para minha noite
E a alegria dos teus dentes
Com açoite.

Dá-me
As tuas mãos macias
Para o meu cansaço
E a harmonia dos teus sonhos
Como abraço.

Assim
possa amanhecer a eternidade.
Assim
Posso amanhecer a eternidade
E ter na idade, eterna idade, eternidade.

Dá-me
O teu riso florido
Para minha alma,
Todo sentimento do teu rosto
Me acalma.

Dá-me
A seda de tua pele
E o meu corpo cobre,
E te sonharei mais linda
E te amarei mais nobre.

E poema por poema, entre páginas amarelas, bem cuidadas, com cheiro de tempo vivo, de tempo poesia, chego a Um Rio em Chico Miguel, ensaios por onde fluo e adentro nas margens que te escrevem e junto a todos me banho, pois meu sentir conflui ao mar que és: Poesia certa desde a infância que ainda leva na pele adulta a liquidez de uma alma que por Amor amanhece, cria, amplia e compartilha.

Um beijo poeta amado e por todo teu sentir gracias e que 2013 siga sendo um tempo de Amor Poesia a ti e todos teus amigos e familiares e saibas, estou muito feliz sempre por estar entre eles.

                                                           
                                                  P.Alegre, RS, 17 de dezembro de 2012.
                                                     Carmen Silvio Presotto*
                                                                      
Ligue para:

 *Carmen Silvia Presotto – Poeta, contista, cronista, tem já uma longa folha de serviços a respeito da divulgação de poesia. Morta em Porto Alegre, onde tem movimentado a cultura e seus valores. Gracias!



sábado, 16 de março de 2013

SALVANDO A ALMA-TRÊS ATITUDES

 CRÔNICA

 Francisco Miguel de Moura*


Não tenho explicação para o que sinto quando as ruas de minha cidade se esvaziam de gente indo e vindo, carros buzinando em disparada: uns vão, outros vêm. Sinto alívio dos sons e dos rostos, destes nem tanto, mas quando são muitos cansam, aborrecem. Se todos fossem rindo e não nos parassem para conversar! Ai! O fio do pensamento já está a me fugir para o rebulício. Minha intenção é voltar aos feriados normais e aos chamados fins-de-semana prolongados, hoje tão comuns, por causa da facilidade das máquinas corredoras, e as pessoas como eu não embarcam, voam ou correm pelas estradas, e então o tempo fica de sobra para fazer-se o que se têm de fazer.
Nesses dias meu pensamento flui.
Foi pelo Natal. Fim de ano que também já é começo de outro. Eu não ia só – acompanhou-me uma mulher, minha conhecida de caminhada matinal. No início, íamos mais ou menos calados, por ruas desertas, quando, ao pé de uma porta, uma andorinha apareceu, e triste como se estivesse doente. E estava dodói de um pé, aliás de uma asa, por isto caminhava em vez de voar. A mulher disse de sua intenção de pegá-la e levar... (Não explicou o que ia fazer com ela).
- Não, não faça isto, deixe a bichinha aí, que ela se recupera.
No nosso encalço vinha um cão daqueles que vivem pela rua, não têm dono ou nunca tiveram, viu a ave, cheirou...
- Vou pegar a bichinha antes que o cachorro a coma.
- Não, não, ele não vai interesssar-se por ela.
Dito e feito. O cão nos acompanhou deixando a andorinha em paz.
- Pegue uma pedra e jogue nele, que ele deixa de nos seguir.
- Mas ele vem tão em paz! Olhe!
Ele foi logo passando à nossa frente, nos seguindo de perto, cheirando o chão e os postes e...
- Ele está procurando fazer xixi, ou então seu amigo, não acha?
E seguimos. Na frente, havia uns quatro livros jogados na calçada. Já um pouco molhados pela chuva. Mas eu, curiosamente, como sou escritor, abro um, abro outro, e o que encontro? Relatórios de atividades burocráticas, exercícios para concurso, entre outros com matérias mais ou menos afins. Não me interessei mais. E bem em frente, molhando a mão no capim orvalhado, senti-me limpo por ter pegado naqueles livros que viraram lixo.
Ela disse: “Não vai levar um ou todos para você”?
Não respondi. Mas, antes do fim da jornada, pensei: Por que não dei a menor importância aos livros? Certamente dei a importância que eles tinham. Se fossem meus, tivessem o meu nome? Aquilo é material que publicam às carradas, em toda banca de jornal a gente encontra em melhores condições, ou mesmo nos sebos, a preço de banana. Quanto ao cão, confesso que não gosto de cachorros, dos chamados de raça, criados presos para defender a casa. Na grande maioria das vezes mordem até os donos; outros, quando se soltam, saem por aí atacando os passantes, pessoas que não têm nada a ver com eles. Os de raça “pitbull” matam crianças e até gente grande. Um horror! Desse tipo de cachorros não gosto. Mas, estes cãezinhos comuns que por uma razão ou outra se tornaram vira-latas, eu admiro. Admiro por sua inteligência bem próxima do homem, no sentido em que a liberdade é o nosso maior bem, depois da vida. E eles são livres. Gostam de sê-lo, não perseguem ninguém, a menos que se lhes tentem maltratá-los. Eles querem roer um osso, perto dos açougues e, em ultimo caso, vão furar os sacos de lixo. Mas isto faz também até as crianças famintas.
Nesses três encontros inesperados assumi comportamentos e atitudes diversas. Sobre a ave e o cão, respectivamente tive a de respeitar a vida e a liberdade de cada um. Se valeram algo para os animais, não sei. Mas pessoas devem comportar-se bem. É o que vale a pena.
Pareceu-me, naquele momento, que havia, na minha colega de caminhada, uma atitude sobre determinadas coisas. O interesse ou o zelo pelas coisas não deve obumbrar os princípios de vida e liberdade. E também não prejudicar a natureza como um todo, um sistema: o ambiente. As coisas devem ser preservadas enquanto servem à vida e à liberdade. E isto é muito variado porque os gostos são muitos. “E não se discutem!” Aliás, discutimos os gostos, sim, quando nas aulas de estética e de ética. Fora disto é simples jogar conversa fora, para lavar a alma de alguma outra sujeira. 

Será que a minha crônica também me lava a alma de pecados anteriores? Por exemplo, o de “pregar que não gosto de cachorros nem na televisão”?   Talvez, quem sabe? Por estas e outras – tenho feito poemas à minha cidade quando passeio por ela, de manhã, e a cidade está praticamente vazia, poemas que me dão gosto de ler depois. Continuo lavrando e lavando minha alma, leitor, sem cerimônia. Nem medo de ser egoísta.
 ___________________
*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, PI, é  membro da Academia Piauiense de Letras e da International Writers and Artists Association (IWA), Estados Unidos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

CRÔNICA DE UM PAI A SEUS FILHOS

  Querido (a) filho (a):

Quando a velhice chegar, eu começar a derramar comida sobre minha camisa e esquecer como amarrar os sapatos, tem paciência e lembra-te das horas que passei ensinando-te a fazer as mesmas coisas!

Quando conversares comigo, eu repetir as mesmas coisas que sabes de sobra como terminam, não me interrompas, só escuta-me. Quando eras pequeno, para que dormisses, tive que contar milhares de vezes a mesma história, até que fechasses os olhinhos.

Quando estivermos reunidos e, sem querer, eu fizer minhas necessidades, não fiques com vergonha. Compreende que não tenho culpa, pois já não as posso controlar! Pensa quantas vezes, pacientemente, troquei tuas roupas para que estivesses sempre limpinho e cheiroso!

Também não me reproves se eu não quiser tomar banho. Lembra-te dos momentos que te persegui e os mil pretextos que eu inventava para te convencer a tomar banho!

Quando me vires inútil e ignorante, frente às novas tecnologias que já não poderei entender, suplico-te que me dês todo o tempo necessário e não me machuques com sorriso de superioridade!  Lembra-te que fui eu quem te ensinou tantas coisas: comer, vestir-se e como enfrentar a vida tão bem como hoje o fazes!

Se quando estivermos conversando, eu esquecer do que estávamos falando, tem paciência e me ajuda a lembrar. Talvez a única coisa importante para mim, nesse momento, seja o fato de estares perto de mim, dando-me atenção e não à conversa propriamente.

Se algum dia eu não quiser comer, sabe insistir com carinho, assim como fiz tantas vezes contigo! Também compreende que, com o tempo, não terei dentes fortes nem agilidade para engolir!

Quando minhas pernas falharem, por eu estar tão cansado e se eu não conseguir mais me equilibrar... com ternura, dá-me tua mão para me apoiar, como fiz quando começaste a caminhar com tuas perninhas tão frágeis!

Se por acaso ouvires eu dizer que não quero mais viver, não te aborreças comigo! Apenas entende que isso não tem nada a ver com teu carinho ou com o quanto te amo.

Compreende que é difícil ver a vida abandonando aos poucos meu corpo e que é duro admitir que já não tenho mais o vigor para correr a teu lado ou para tomar-te em meus braços como antes!

Não te sintas triste ou impotente por me veres assim.


Não me olhes com cara de pena! Trata-me com amor e dá-me somente teu coração, tua compreensão e apoio, como fiz quando começaste a viver!

ISSO ME DÁ FORÇA E CORAGEM!

Copiado por Francisco Miguel de Moura                                                                                                                            
  Autor desconhecido

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 P.S. Cópia do anverso do Cartão de Natal que me foi enviado pelo escritor, historiador, crônista e deputado Homero Castelo Branco a quem muito agradeço e de coração. Basta clicar em cima para ser lido.
                        Francisco Miguel de Moura 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

CRÔNICA: AS MUDANÇAS DO NATAL

Minha crônica de Natal - 2013
francisco miguel de moura


  Abriu-se a  janela:
No emaranhado de folhas
 um sol resplandece
regina ragazzi
    
           


              Machado de Assis termina um poema com esta chave de ouro: “Mudaria o Natal ou mudei eu?” É preciso meditar sobre isto. Todos nós mudamos. E a festa do nascimento da mais sábia, bela e doce pessoa que veio mundo – Jesus Cristo, o filho de Deus?  O fato histórico não mudou, o comportamento dos homens é que mudam com as circunstâncias do tempo. Sobre os natais de quando eu era criança, não vou falar: ninguém vai querer ler nem ouvir, quanto mais acreditar. 

Comecemos por hoje. Algo que me aborrece por esta época é o verbo “comprar”. Tudo vira propaganda, tevê, internete, lojas, carros de som nas ruas. Os “shoppings”, então!... Mostram o Papai Noel, a Árvore de Natal. São os símbolos.  Até as livrarias. Entrei numa delas, a melhor da cidade, e o que encontro bem de frente? Uma árvore de Natal formada por uma pilha de livros. Até aqui tudo bem, deveria ser muito interessante. Mas, depois de observá-la, não me convenceu de forma alguma. O título do livro, daqueles volumosos, 300/400 página, eram um só, e o autor um só. Não me demorei ao pé porque vi que se tratava de um tremendo “best seller” tipo americano, que certamente são romances de bruxas ou de vampiros – assuntos que enchem as prateleiras das lojas para iludir os tolos. Os tolos que eu digo são aqueles maus leitores que compram o livro exclusivamente pela propaganda da mídia. A mídia quer vender, ela não tem nenhum interesse em que os leitores, pensem, sintam, cresçam com histórias que têm lições de vida, de gente, de almas, quando não tratam de tempos passados e traçam a história com algumas descobertas empolgantes (no caso dos livros históricos). 

Se a pilha fosse de Bíblias, livros de proveito e exemplo para crianças e adolescentes, alguns clássicos antigos e modernos – que tantos há e ficam encalhados, escondidos nos lugares mais difíceis da loja, parece que para ninguém vê-los nem ter vontade de abrir e ler uma página sequer, seria louvável. Aponto livros de criança porque Natal é festa muito especial para crianças, festa de nascimento. 

E qual o nascimento que se comemora na data de 25 de dezembro?  De Jesus. Ele nasceu em Belém da Judéia e se tornou (ou já era?) a pessoa mais importante do mundo em que o Império Romano pagão dominava com suas guerras. Jesus viveu com seus pais em Nazaré, sua aldeia e aprendeu tudo com Maria e José. Ficou trabalhando com este, na oficina de carpinteiro, até os 12 anos. 

Registra o evangelista Lucas: “Seus pais iam todo ano a Jerusalém para a festa da Páscoa. Tendo ele atingido os doze anos, subiram a Jerusalém, seguindo o costume. Acabados os dias de festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais percebessem (...) Três dias depois o acharam no Templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e os interrogando. Todos os que o ouviram estavam maravilhados da sabedoria de suas respostas”. 

Nem todo mundo é católico, mas não pode desconhecer a história edificante de Jesus, o quanto pregou aos povos do seu tempo. Sem ser revolucionário político, dizia “não vim revogar a lei de Moisés, mas apenas aperfeiçoá-la”. De suas pregações, o “Sermão da Montanha” é o mais conhecido pela sabedoria que encerra em poucas palavras. Sua revolução foi trazer à humanidade o mandamento do amor. Antes, com os judeus, tudo era na base do “dente por dente, olho por olho”. O papa Bento XVI, em seu livro sobre a “Infância de Jesus”, entre outras coisas, retifica que “Maria deu à luz a Jesus entre 7 e 6 anos antes de Cristo”. Daí trazer a revista VEJA, de 28 de novembro de 2012, uma reportagem com o título “JESUS NASCEU ANTES DE CRISTO”. Explique-se: a Era Cristã, o ano nº l, começa depois do nascimento de Jesus, em virtude da confusão do calendário gregoriano, feito vários séculos depois do nascimento de Jesus. A retificação leva em conta a tradição, os evangelhos e a conjugação destes com a estrela “supernova”, cuja explosão aconteceu coincidentemente com a visita dos magos do Oriente ao menino Jesus. 

Agora, a pergunta: - Por que não comemorar tão grande feito, o de Jesus, o seu nascimento, em lugar de colocar um tal de Papai Noel que vagueou pelas névoas da Rússia e adquiriu outros costumes e hábitos que não são os da nossa tradição oral e escrita, ocidental e bíblica?

Porque o materialismo alijou os sentimentos da alma, dominada por uma civilização global, descartável, em que tudo se troca pelo poder e pelo dinheiro, na qual parece ridículo ser religioso, acreditar em verdades eternas. Muitos que invocam, hoje, o nome de Deus, o fazem em vão. Sobre o amor, meu Deus, quem já não viu e ouviu tanta barbaridade, nestes tempos de idéias tão grosseiras, tão sem rumo?!  Os filósofos se foram, os poetas estão indo, e os santos?... Quantos são os santos? Sabemos quem são os pecadores: aqueles que não cantam o poder de Deus e da Natureza, que não pensam numa eternidade, numa vida diferente depois da morte. E por isto abraçam a guerra, as orgias, os vícios desde os mais simples aos mais torpes. Não têm nem um pouco de humanidade. Quem quer saber de uma comemoração bem comportada do Natal?  O Natal histórico e religioso não mudou, repito. 

Começamos com Machado e com ele terminaremos a nossa crônica. Esse grande escritor, no leito de morte, olhando uma nesga de céu pela janela ciciou para seu melhor amigo e confidente: “A vida é boa”.  Deus, sendo como é a fonte da vida deve tê-lo perdoado.  A nostalgia do homem é não ser Deus. Mas somos um pedaçom de Deus, somos filhos de Deus, irmãos de Jesus, seu filho querido e escolhido para vir salvar o mundo, com a pregação do amor. Natal é amor. Não é troca. Portanto, a melhor atitude diante do Natal é saudar o próximo, os visinhos, a família e comungar a vida, a natureza e a sociedade humana, mirando-se na sabedoria e santidade de Jesus.
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*Francisco Miguel de Moura, poeta e cronista brasileiro, mora em Teresina - Piauí e envia votos de Feliz Natal e Próspero 2013, com abraços a todos os seus leitores.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

CRÔNICA: AS FUNÇÕES DO BANHEIRO – NOME ATUAL

              
Francisco Miguel de Moura*

Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras
Teresina, PI AUÍ -BRASIL e membro da IWA 
(InternationalWriters and Artists Association
Toledo, OH, Estados Unidos).



       Há muitas funções para o banheiro. A primeira é a do banho como o nome indica, mas não a mais importante, porque há pessoas que passam dias sem fazer este acerto de conta com a limpeza do corpo.  O normal seria fazê-lo uma vez por dia. No Brasil é assim. Na Europa é apenas uma vez por semana, dizem. A segunda, que engloba também a terceira, é fazer necessidades fisiológicas – expressão muito vaga, pois nossas necessidades fisiológicas são muitas. Sem meias-palavras, essas necessidade fisiológicas se referem a mijar e fazer cocô. E são para estas que mais recorremos ao banheiro. Daí porque o leitor já deve ter ouvido, só em nossa língua, outros sinônimos mais usados para a palavra banheiro: privada, latrina, reservado, sentina, sanitário, etc. Mas há uma função mais nobre, no caso a quarta que foi comentada numa crônica do escritor Rubem Alves, do livro “Pimentas”, editora Planeta, São Paulo, 2012.  É a da leitura. O banheiro é um lugar muito próprio para leitura de vários tipos: literatura, humor, poesia, conhecimentos gerais... E até romances. Eu acabo de ler o romance "Onde vais, Isabel”, de Maria Helena Ventura, de quase 300 páginas, boa parte da sua leitura feita no banheiro - o local mais fresquinho da casa e mais silencioso. Sem mentiras. Dessa autora aprendi que o D. Dinis, o trovador, 6º rei de Portugal, casado com D. Isabel,  santificada pelo Papa da época, foi quem decretou o dialeto português oficial em Portugal, dialeto ainda ligado ao galego, ao espanhol e outros falares locais. Aprendi também que D. Isabel, quando saiu do reino de Aragão para desposar D. Dinis, levava um grande tesouro consigo - um segredo - até chegar ao seu destino e entregá-lo ao rei.

      E então, para que o nome “banheiro”, se às vezes nem chuveiro o tal reservado possui? Por que não o nome de privada? Mas, não há meio, a gente está apertado na rua, entra numa loja ou repartição, e pergunta: - Aí tem um banheiro? Ou onde fica o banheiro?  Dá licença? E vai lá, na privada. Mesmo porque não há privadas públicas e quando as há são insuportáveis, não têm a menor conservação, a gente pode até adoecer servindo-se delas. Aliás, um dia desses fui postar umas cartas na agência central dos Correios e tive necessidade de urinar – essa é uma necessidade que ocorre sempre, visto que o calor tropical exige que se beba muita água. A funcionária me disse que não havia privada para os clientes, somente um banheiro reservado aos funcionários. Depois que reclamei que era de lei toda repartição que atende ao público ter um banheiro para quando alguém precisasse, ela disse que me levaria (e levou) ao dos funcionários, como se fosse um favor e não uma obrigação legal.

      Há uns dois anos, eu vivia numa casa grande, mas troquei por um apartamento, condizente com a vida moderna, quando não se pode pagar mais do que um empregado doméstico, quase sempre uma cozinheira que também lave a roupa.  Mas, na casa, mesmo mais ou menos ampla, sempre achei interessante ler no banheiro. Ali, ninguém era perturbado, o que não me surgiu foi a idéia de fazer uma bibliotequinha dentro. E aqui, no apartamento, propus seriamente a biblioteca. Depois da instalação de um ventilador, iniciativa da mulher, em cada banheiro, minha proposta tinha muito a ver. Ela riu como que aprovando. Não sei se minha proposta vai ser executada. No banheiro, eu posso ler meus poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Castro Alves e até Camões, quem sabe, “Os Lusíadas”. Por falar nesse imenso poema que fez a nossa língua firmar-se verdadeiramente como língua de civilização, podemos dizer que ele traz uma sabedoria imensa em suas páginas, e só no silêncio do banheiro é que poderíamos interpretá-lo em profundidade. No banheiro, nada deve ter a nos atormentar: rádio, celular e de outras maquininhas de mão cujos nomes não sei. Vou dizer apenas uma, como já ouvi: “ipade”. Mas é escrito “ipode”. E pode? No banheiro, não. Contracultura. Descartável. O que é salvo num segundo, no seguinte já é deletado... Cultura não se descarta: conserva, cultua. E a gente pode ficar tranqüilo que guardará por muito tempo, incorporado, o que leu, sentiu e sonhou para própria vida. Sim, porque no banheiro se pode até sonhar com emprego, namorada, divulgação de algo interessante e de interesse para a riqueza cultural da pátria.  Há melhor sabedoria do que ter aprendido a viver bem? Pela cultura se aprende a viver bem. Não pelos livros de auto-ajuda, mas se possível por todos os livros de alta ajuda: romances, contos, novelas, história do país e do mundo, etc. O exemplo da leitura, no banheiro, deve ser repassado às crianças, lugar principal para começar a educação delas: Não jogar papel servido no chão (pra isto, lá deve ter um cesto), dar descarga depois de servir-se, e, enquanto se serve, ler toda a boa literatura infantil, de Monteiro Lobato a Cecília Meireles, chegando, certamente, até os mais novos escritores – que são muitos.

      Daqui a pouco, como sugeriu humoristicamente Rubem Alves, o papel higiênico deve ser todo ele impresso com pensamentos dos melhores pensadores e poetas, de Sócrates a Jesus Cristo, de Neruda a Hermann Hesse, de Adélia Prado a Mário Quintana e Manoel de Barros. Do último, ele citou um verso bem a propósito deste tema e crônica, com o qual quero terminar: “Também as latrinas desprezadas que só servem para ter grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas”.

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(Publicado no jornal O Dia, Teresina, 03.11.2012)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O ÚLTIMO CAPITULO

Meus queridos leitores e leitoras,

Hoje deixo aqui o último capítulo de Duas vidas Dois amores. Essa história dessas duas vidas que me deram meus três grandes amores. Aqui contando a minha história pra vocês, durante um ano e quatro meses passei os momentos mais aproveitáveis da minha vida. Ao contar revivi, ao reviver chorei, ao chorar, até sorri e ao sorrir percebi que essa experiência me fez muito bem. Ter usado as palavras para fazer um resumo da minha biografia me fez refletir no tamanho do poder que tem a escrita. Ela pode até te salvar a vida.

Quem começou  acompanhar este blog do meio pro fim deve simplesmente pensar que eu "me acho". Que eu me acho o fruto proibido do "Jardim do Éden". Já quem acompanhou o blog aleatoriamente, discorda e deve achar que eu estou mais para a serpente do "Jardim do Éden" do que para o fruto proibido. E para quem leu toda a história desde o início, talvez pense que eu "me acho" a própria Árvore da Vida do "Jardim do Éden". Erraram todos, pois nesse Éden eu me acho mesmo é a própria Eva. A Eva mais feliz com meu Adão querido.

Não resisti à tentação do passado e comi com muito gosto o fruto proibido, no que resultou uma semente viva, a qual chamo agora de Michelly, fruto do meu primeiro "pecado". Por causa da minha desobediência conheci o bem e o mal. Elementos necessários para eu continuar a vida com mais sabedoria e permanecer no meu jardim sem precisar ser expulsa por vergonha. Com isso fui tentada a pecar novamente e a Tentação do presente foi mais forte e como o fruto não era mais proibido,  relaxei e acabei ganhando duas sementes: uma já germinada, que se chama Ingrid e a outra que eu e a Tentação tivemos que germinar juntos. Essa se chama Bruna, ela sim, se acha a última maçã do "Jardim do Éden.

Enquanto eu escrevia detalhes da minha vida que somente eu sabia, comecei também a desejar saber o mesmo da vida dos meus pais. Saber dos pedaços de vida valiosíssimos que eles mesmos deixaram se perder no ar e que agora, a idade não permite que eles usem a memória para buscar o que eu gostaria de saber, mas que se eles tivessem escrito, com certeza seria um manual para minha reflexão.

Ter tido coragem e disposição de deixar 95 pedaços de vidas escritos para minhas filhas, foi um suspiro aliviado de um dever cumprido. Não que considero isso uma obrigação, mas sim, uma doce recordação. Não vou botar um ponto final nessa história, pois tenho ainda muito que contar pela frente. Vou colocar uns três pontinhos como sinal de um até breve, pois quem sabe não voltarei com essa história escrita de um modo diferente?! Não sei...

Mas sei que não vou sumir de vez. Eu não conseguiria isso. Aprendi a gostar daqui. Aqui fiz amigos e aprendi que, o que os olhos não vêem o coração também sente. Escreverei esporadicamente o que eu achar importante e  quiser compartilhar com os amigos e família. Obrigada a todos que com paciência me leram, aos que comigo choraram, riram, viajaram e principalmente pelos comentários sempre tão carregados de entusiasmo. Muitas vezes foram eles que me incentivaram a chegar até aqui. Um obrigado especial para as minhas primeiras seguidoras que sempre estiveram presentes no blog. Valeu muito pela força do pontapé inicial, amigas. Também aos que chegaram depois e ficaram. A todos:

                                        MUITO OBRIGADA!
                                                   Iram M.
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* Crônica retirada do "Duas vidas, dois amores", de Iran M. uma brasileira que vive na Europa e compartilha seus escritos com seus amigos e amigas do Brasil. Seu diário se tornou um livro de crônicas gostosas e bem urdidas, cuja leitura é prazerosa. Por essa razão transcrevo aqui o cap. 95, que tem o mesmo título, minha homenagem a ela.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

CONTRASTE POLÊMICO: BONITO x FEIO

    *Francisco Miguel de Moura
        
    Quem sabia muito bem de beleza e fealdade era minha mãe – que teve a fama de moça bonita. Ouvi dela, muitas vezes, um ditado importante, pertinente, que num segundo acabava com toda a polêmica entre fealdade (acho o nome mais correto, mais belo) e boniteza, quando se tratasse de pessoas. Dizia ela: “Gente é como chita, / uns acham feia/ e outros acham bonita.” 

    “A beleza é fundamental” foi uma frasezinha boba e infeliz de Vinícius de Morais, talvez dita no meio de uma cançãozinha das mais chinfrins do seu repertório. Mas o povo (que é besta, não sabe de muita coisa) pegou no dente como se fosse uma filosofia universal. Na verdade, numa época em que se valoriza tanto a imagem torna-se mais difícil uma mulher considerada feia, pelas colegas, entrar para o mercado de trabalho, especialmente na tevê. Neste caso muito especial, a beleza talvez possa ser fundamental. Mas, e daí? Mesmo assim, embora bela e atraente, se não possui outros dotes: estudo e talento, capacidade de atendimento a todos com elegância e simpatia, entre outros, a beleza não funciona mesmo. E se for chata, por exemplo?          

O preconceito veniciano contra o feio, que me perdoe o poeta, vem do seu tempo de Itamarati. Como sabemos, o nosso poeta Da Costa e Silva não se alçou à diplomacia porque foi considerado feio pelo Barão do Rio Branco. Mas isto foi naquele tempo, o tempo do “ronca”. Quem sabe se ele, Vinícius, também não tirou nota ruinzinha em beleza? Quem sabe se ele não foi (antes ou depois) ao cirurgião de plástica, se não usava uns pozinhos e pomadas etc. Hoje os preconceitos e discriminações devem ser totalmente abolidos de qualquer lugar, especialmente de uma instituição que se diz pública, que se diga oficial. Não só abolidos como castigados, abominados, criminalizados com justas penas. Não apenas isto caberia à discriminação contra o negro, a cor, o sexo, ou o que seja. Que eu saiba, ainda é suportado em concursos de misses e em nenhum outro lugar. Admitido tecnicamente - diga-se de passagem. Ao apreciar-se apenas o rosto da concorrente não há como eliminá-la do concurso. A Constituição Federal já consagrou que fere a dignidade humana quem usa ou abusa de preconceitos, registrando alguns com os próprios nomes e os demais numa expressão generalizada. 

Para a poesia, para os poetas, a beleza - claro que falo da aparência da pessoa, da aparência da coisa – não é fundamental. Isto significa dizer que nenhum poeta precisa ser bonito pessoalmente para que possa escrever bons poemas e também que não só a beleza é inspiradora de poesias. Outros fenômenos o são igualmente. Hoje já temos até a arte do kitsch, a arte do feio. Bonito e feio são subjetividades.  Há um outro ditado mais atual que o da minha mãe de que “cada balaio tem sua tampa”, que, no mínimo quer dizer: - nem sempre os iguais se dão bem, às vezes “as diferenças é que movem o mundo”, tanto o objetivo quanto o espiritual, tanto na vida prática quanto nas artes.

Quanto a mim, depois de muito tempo, sendo considerado um menino feio por minha tia Rosa, vim a saber detalhes do assunto. Meu nariz é reto, meus olhos são azuis, sou branco, cabelos estirados, rosto comprido (dolicocéfalo), não sou amarelo de forma alguma, tenho um riso sedutor – adjetivo de algumas garotas do meu tempo que quiseram manter namoro comigo...  E então, onde a fealdade? Um maxilar, o superior, mais elevado, defeito que, se fosse hoje, teria muito bem sido consertado por médicos e dentistas.  Ora, ora, nunca tive problemas com o “belo sexo”. Elas, se se afastavam algum tempo de mim, nem sempre era em razão da falta de “boniteza”, mas porque eu era muito medroso, desconfiado, calado, de forma que os namoros demoravam pouco tempo. Na verdade, eu é que me afastava da moçada.  Medo de responsabilidades, sempre eu tive. E naquele tempo, quando se namorava era pra valer, era mesmo pra casar. De que tempo e lugares eu falo? Do século XX, até mais ou menos os anos 1960/1970, e do interior, que então se chamava de povoado, fazenda ou mesmo de “mato”. Quem lá vivia era apelidado de “matuto”, nome  pejorativo - uma pessoa sem conhecimento, sem traquejo, ainda não civilizada.
                                        
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Nota Importante:  O quadro que ilustra esta crônica é um óleo do pintor Nonato Oliveira, que poderíamos até dizer que sua arte é kitsch, se não fosse tão bela como o que mostramos, cuja tela que tem o nome de "O donzelo e a donzela" e está sendo escolhido por mim para capa do meu romance "D. Xicote", cuja edição está sendo contratada  com a Editora Saramandaia, de Belo Horizonte - MG

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*Francisco Miguel de Moura - Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, escreve no jornal O Dia, aos sábados, página de Opinião.
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