segunda-feira, 2 de maio de 2016

LEVANDO A VIDA, ENQUANTO A MORTE ESTÁ PARIDA

Francisco Miguel de Moura*

    Encontrei-me, esta manhã, com o síndico do edifício onde moro e dei duas palavras com ele, logo depois do “bom dia”. Ele pergunta-me “como vai?” e eu me lembrei de repetir uma velha frase tão comum no meu tempo de menino, lá no interior de Picos, um lugarzinho que já não existe mais chamado “Curral Novo”, data Jenipapeiro, do atual município de Francisco Santos:
    - “Vou levando a vida, enquanto a morte está parida”- respondi.
    Não obstante termos quase a mesma idade, notei o estranhamento dele diante do meu palavreado. Então, tentei explicar-lhe o que seria a frase com sua indefectível comparação e rimas.
    - Naquele interior, o costume era de muitos ditados, muitas frases, muita poesia popular. Desse costume tirei a frase que lhe digo. Por que a morte está parida? Vida e morte, que comparação estúpida parece à primeira vista!
    Desfiei-lhe o costume especial de onde vem a frase: Outrora, quando a mulher dava a luz a uma criança, isto é, estava parida, tinha à sua espera um chiqueiro de galinhas caipiras escolhidas e engordadas a milho, no total exato de trinta cabeças, que eram os dias do chamado “resguardo” da mãe parida.  Trinta dias que passava deitada, dando o peito ao neném e curtindo o seu resguardo. Era proibido à parturiente fazer qualquer outra coisa: ficava deitada e curtindo o seu bebê, dando-lhe chá quando doía a barriga.
Durante este tempo todo só podia comer o chamado “pirão de parida”, justamente a galinha feita ao caldo, com o enchimento do pirão de farinha de mandioca. Tudo escolhido, do bom e do melhor.
    Que eu me lembre, já li uma crônica do escritor Ozildo Barros, de Picos, onde ele falava no tal “pirão de parida”, como se fosse uma comida muito gostosa. Se ele comeu desse pirão, na casa de alguma parida da sua amizade ou vizinhança, não sei. Talvez estivesse fazendo alguma metáfora para contar uma das suas histórias do nosso interior picoense. Já eu não estou fazendo nenhuma figura de linguagem, estou querendo transmitir ao leitor o tal costume e o porquê da frase que dá título à crônica. Naquele tempo, o marido, o pai não via a criança nascer, era proibido entrar no quarto onde a diligente e sábia parteira – uma espécie de doutora ginecologista, pessoa muito valiosa, agia. Serviçal da comunidade toda, por isto e por mais era muito bem tratada. E quando a criança crescia a mãe mandava tomar-lhe a bênção, dizendo: “Ela foi quem lhe pegou, merece respeito, trate ela de madrinha”.
    Se o marido comia do “pirão da parida” eu não sei, mas acredito que não. Lá um ou outro dos filhos que entrassem na sua camarinha, é claro que a mamãe, sempre muito carinhosa, oferecia. Eu provei desse pirão quando minha mãe “teve” minha irmã Mariinha. Nessa época é que eu já comia tudo e ficava doido pra comer: não propriamente o pirão, mas um pedaço da carne de galinha – comida nobre, de rico. Cá fora, nós comíamos era a carne seca de muitos dias, costelas de boi ou de bode, também com pirão. Mas, de tarde, o feijão troava em nossas barrigas, temperado apenas com gordura de porco. E era bom, melhor quando tinha mais um courinho, um torresmo para mastigar.
    De qualquer forma, o nascimento de mais um filho – que acontecia todos os anos – era uma festa. A turma ficava mais solta para as brincadeiras. E nascia meninos também nas casas vizinhas. De parentes ou amigos, e a meninada se juntava no terreiro para muitas brincadeiras que inventavam: da “ciranda-cirandinha”, do “lindô-lindô”, “de esconder”, de correr atrás de algumas coisas que o comandante da brincadeira declamava, sempre uma das crianças maiores: esta tinha o nome de “reman, reman” e começava assim: “reman-reman”... quem me dá primeiro uma folha daquele juazeiro?  E a negrada corria, a árvore era muito alta.... Tinha outra, mais mansinha, a “do anel”. Era quando todos ficavam sentados e o anel ia sendo passado de mão em mão, cada qual com as duas mãos fechadas querendo ser o escolhido de receber o anel. Às vezes todos eram enganados e o anel ficava com o passador da jóia. Aí a briga era geral.  Mas, quando a mãe estava parida, nem sempre a negrada ficava só, solta... Ah, se fosse! O pai arranjava uma pessoa pra vir cuidar da casa, sempre havia mais roupa pra lavar do que o comum, fazer a comida, pois criança só sabia “malinar” (é um arcaísmo, mas a palavra existe nos mais antigos dicionários). Quando não era uma pessoa de fora, vinha uma tia, que era muito melhor mesmo, embora, de vez quando, desse uns cascudos na gente.
    Assim, quando a gente diz a frase “VOU LEVANDO A VIDA, ENQUANTO A MORTE ESTÁ PARIDA”, quer dizer que, pelo menos nos trinta dias do “resguardo” da parida, a vida está boa, a gente vai vivendo...  E viver não é apenas trabalhar, preocupar-se com dinheiro pra bodega, com água, com lamparina, com “meizinhas” com o mato dos caminhos, com animais de cangalha e cela. A vida é também alegria, liberdade, comida como “o pirão de parida”, que virou lenda nos nossos sertões e está no palavreado desse povo que traz sempre alguma sabedoria: os ditados são como as frases dos homens importantes, dos filósofos.
    Aproveitando o final desta crônica, junto com os leitores, se eles concordarem, para sugerir aos escritores, pesquisadores e editores a criação e edição de um dicionário de todos esses ditos importantes do povo brasileiro.  Seria uma riqueza enorme para a memória e para a história, para alunos de todos os níveis, para os professores que lidam com as coisas da linguagem e sociologia do povão.
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 Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, Teresina - PI

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