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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

TARDANÇA

TARDANÇA
“A verdade se tece no costurar das horas, no sal dividido e mastigado”

Teresa Magalhães*

João e Maria uniram-se na época das águas. O céu transbordava as cisternas. Moldado no campo, ele conheceu as ranhuras da terra, a tardança da sementeira para chegar à colheita. Pulsava em sintonia pausada com o solo. Apaziguada, ela o seguiu. Estaria ao lado do marido, na construção do tempo macio e do amor tramado na sutileza. A casa avarandada ficava na elevação do terreno, à beira do longo rio, que dilatava o olhar. Silencioso, largo, profundo. Frisado à flor da água, rebrilhava ao pôr-do-sol, bordando a paisagem de ouro e calma. Nos primeiros meses, o vento frio penteou as campinas e inventou abraços tépidos. Era a hora aveludada dos sussurros e da lasciva embriaguez. Derramados em lava fluida, fundiam-se.

O relógio correu no urgente galope da felicidade. Voraz e veloz. Maria acolchoava a casa branca com cores quentes, como se pudesse capturar o instante. Serena e musical, alheada dos medos. Mas a verdade se tece no costurar das horas, no sal dividido e mastigado. Antes das mil e uma noites, João foi se esquisitando. A mulher alongava o olhar, a fim de espiar os inalcançáveis olhos. Parecia-lhe que amarelavam e vertiam lágrimas, na hora da refeição noturna. A palavra elíptica. Será melancolia? Na boca, não cabiam mais os beijos. Rasgaram-se os lábios até a altura das orelhas, cristalizando um sorriso sempre escancarado a desentoar com a água escorrida pelo rosto.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A CIDADE FANTASMA

Francisco Miguel de Moura*


O único vivente era ele. O trabalho há muito nos havia sido abolido sem eleição sem nada, como por vontade silenciosa da população. Sobrou um pobre pedinte que continuava sua vida de cachorro: Johanes.

– Nasci para semente, não vou morrer.

Porque nascera e vinha enganando a vida até ali. Magro, quase esquelético, olhos fundos, cabeça grande, orelhas de abano, cabelos compridos e desgrenhados, barba descendo os queixos em busca do umbigo. Por que esse nome? Seus pais eram estrangeiros, ou o tabelião quis dar uma de sabido. Todos os dias – começava madrugada alta – subia e descia a rua deserta. Antes Johanes nunca passava necessidade. Onde pedia era atendido – comida boa e não restos – mais calçados, sabão, pente, tesoura e uma faquinha. Ganhara a simpatia de alguém que, todos os meses, lhe vinha aparar o cabelo e a barba. A casa que Johanes ocupava não possuía espelho, água, mobília, sequer um banco onde sentar-se. Aquilo não era casa – uma loca.Mas vivia, como se diz hoje, “numa boa”.

Gente rica é complicada. Ele não precisava de muito para ser feliz. Aliás, nunca tinha pensado em ser feliz. Não tinha pensado em nada. Vivia. E era tudo.

Sempre há um dia azarento na vida de cada um. Começou recebendo visitas de algumas pessoas que lhe perguntavam como sobreviver. Era consciente:

– Mas de onde você veio? Aqui não há mendigos...

– Digamos que eu vim da Lua, mas vim para ficar.

Ah, era tão bom não possuir colegas! São tipos que só servem para bisbilhotar a vida alheia, complicados, alguns acham que são merecedores de tudo, que Deus foi ingrato, que o mundo não presta pra nada. E ainda querem que a gente fique mudando. Pouco a pouco outros foram chegando: era o padeiro que deixou de vender pão, desanimado com a alta do trigo; era o bodegueiro da esquina, que fechou sua loja de tanto vender fiado e nada receber; eram as fábricas de doce, de manteiga, de querosene, de sabão, que se fechavam. Dali foi só um passo para a onda de lavradores do campo, das vilas e das fazendas que chegava a Itatuaia; e os criadores de gado também abandonaram seus rebanhos. E os fazeres de artesanatos abandonaram suas oficinas; ferreiros, pedreiros, carpinteiros, domésticas, funcionários púbicos, Mendigos. Difícil sobreviver. Que o dissesse Johanes, agora desaparecido, embrenhando-se cada vez mais na mata à busca de lagartixas, lagartos, cobras, calangos, aves miúdas e até os mais nojentos insetos como aranhas, carrapatos...

Os outros reclamavam a falta de capim, há tempo não chovia. Falta de governo. Foram chegando os de fora e invadindo as casas por si abandonadas há tanto tempo, porque seus moradores tinha ido embora – diziam uns que para o céu, outros que para o inferno – e agora eram pasto de aranhas, formigas, besouros e todos os tipos de insetos que se pudesse imaginar, inclusive o mosquito transmissor da dengue. Itatuaia estava um horror. Johanes, que sabia de tudo, não foi consultado. Irritou-se com a situação. Falar não falava. Para lamentar de um tempo bom que passou? Refugiara-se na gruta que não tinha nome, lá não ia turista, nem alma nem lobisomem. Era a única que não fora demolida e carregada pelas empresas estrangeiras para fazer ferro e outros metais.

A cidade crescera, crescera de gente esquálida, de favelas, sem água nem esgoto, sem luz nem cemitério, sem igreja nem cartório. Mas crescera. Talvez por isto. Todos agora eram pedintes, um horror. Passaram a escavar onde outrora os habitantes de Itatuaia jogavam o lixo e depois o enterravam. Havia muitas brigas por ninharia de lixo podre molambos de roupa, bichos já petrificados, tudo. Havia quem já experimentasse comer chinelos, copos, pratos de plástico, papéis, carros (eles também já haviam entrado na era do plástico).

– Queremos a socialização da riqueza!

Engraçado. Socialização de quê?

Fizeram greves.

Johanes, nos raros momentos que botava a cabeça fora de sua gruta para caçar uma lagartixa ou outro bicho menor para o almoço – era contra e soltava seu grito, que eles escutavam mas não sabiam de onde. Não deu em nada. Nem a greve nem os avisos de Johanes “que fossem trabalhar, vagabundos!” senão quem os iria alimentar, tão logo a natureza falhasse? Cada vez mais fome, mais necessidade. Muitos já tinham morrido, o cemitério crescera. Era um verdadeiro Campo Santo. Johanes já cutucava a cabeça: “Mas santo, por quê?”

Sofreram tanto que foram obrigados a acordar todos impotentemente ou dormir o sono eterno e a cidade passaria a existir como fantasma e dar o que falar aos turistas tão deslumbrados outrora com a riqueza antropológica de suas serras, montes, grutas, riachos e rios.

Um dos ex-ricos teve um sonho. Johanes havia traído a todos e começara a trabalhar, saindo todas as noites, às escondidas, para buscar comida nos lugares mais difíceis, caçar bichos do mato. Caçar não era trabalhar? Era. Porém um ranzinza de marca maior, nunca levara ninguém aonde estava, exceto sua namorada, noiva e depois mulher. O negócio era matá-lo e não levá-lo para o cemitério como bem merecia. Iam comê-lo morto ou vivo. E alguns se salvariam da fome, salvando a cidade fantasma. O ato foi consumado e pegou. Logo mais a morte era lei. Quem tivesse fome, comia o vizinho. Era só ser mais forte (quem era forte, então) ou mais desumano. Como ali não havia gente para tanta fome, uns e outros se foram espalhando pelo mundo, até que Deus criador de tudo disse: “Raça de víboras! Estão todos condenados ao cemitério”.

Eles pensaram, pensaram e alguns se salvaram, arrependendo-se do mal. E mandaram destruir o cemitério, que estava servido apenas para enterrar ossos. No lugar, com dificuldade, com muito tempo, devagar como a barca de Noé, foi erguida uma grande fábrica de Pás, outra de Amor, e mais uma de Fraternidade. A liberdade ficaria por ai mesmo. Todos trabalhavam satisfeitos, sem ter que assinar ponto nem prestar contas a ninguém a não ser a si próprio e ao outro. Uma nova cidade, um novo mundo, a redenção. Mas não foram os pioneiros que alcançaram a graça dos benefícios do bem e da alegria, da harmonia e da felicidade, mas os filhos de seus filhos, os netos – que viveram para a eternidade, graças ao sopro daquela visão e daquele sonho do Johanes, que, saindo de sua toca, enfrentou, certo dia, a multidão faminta e despejou sobre eles suas palavras:

– Para que servem nossas mãos e nossos pés, nossos olhos e nossa cabeça!
E todos caminharam para o céu, voando, sem saudades da cidade fantasma. Levando a lembrança dos antepassados, que encontraram no plano a que estavam subindo.
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*Francisco Miguel de Moura, escritor, e-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br O conto acima está no site "CONTOS BRASILEIROS" - um dos mais visitados pelos internautas viciados - criado e gerido pelo fecundo e engenhoso escritor Nilto Maciel, e-mail:niltomaciel@uol.com.br

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A CASA DOS RATOS




Francisco Miguel de Moura*





Que tempos, que costumes! Como as coisas, mudam os homens e a moda. Que silêncio lá dentro! E ouvi muitas vezes a zoeira das festas. Tudo era motivo. Do Carnaval à Semana Santa, do Natal ao Dia de Reis. Eram as festas religiosas e as pagãs que memoravam seus faustos passados, celebravam os nobres da família vindos do outro lado do mar. Porém do que mais me lembro é da festa de Natal, da hora da distribuição. Morávamos na mesma rua, só que nós lá na ponta, junto com os pobres. Eu ficava rodeando, ouvindo conversas, músicas, com aquela curiosidade própria das crianças. E flagrei interessantes momentos dessas festas através de pequena fresta que se abrira no portão.

“Menino, sai de perto da casa alheia, podem se zangar”, era a voz de minha mãe me chamando às boas.

E eu teimava. E sabia quase tudo. Sabia que, de forma bem discreta, cada qual tinha ido ao shopping comprar alguma coisa para o parente eleito. Acontecia todo ano. A importância que davam ao momento das palavras que precediam a entrega do presente, por menos valioso que fosse. Dona Veroca tivera uma idéia que lhe pareceu chique e desusada. Enfeitara o jardim com vários gatos comprados em lojas de novidades, todos muito coloridos. Uns dois ou três se destacavam pelo brilho e pelos miados eletrônicos e ranhentos que soltavam de minuto a minuto. Fizera um estoque de baterias para que não faltassem mios naquela noite que iria ser especial.

“Olhem que belezura. Engraçadinhos, não acham?”

Uma mangueira escapou da derrubada de árvores que deixavam cair folhas só para dar trabalho à empregada. Era a árvore. Toda depenada pela praga de formigas recente, calhava bem. Ficou cheia de holofotes, luzes e luzinhas, a maioria em lâmpadas de papel ou plástico, os presentes ao pé, cartões de plástico também, um papelucho enorme – tudo arranjado pela diligente matrona. Chuva? Ah, não vem chuva nenhuma, estamos sendo visitados pelo “ninho”.

O filho mais velho – Juju, apelido de João – sentiria muito, capaz até de adoecer por ver seu sonho cair por terra. Desejara fazer uma festa diferente, na rua ou na calçada, mesmo que necessário pedir licença ao Diretor de Trânsito. No fim do ano o calor sufoca. Fora de portas poderia pegar-se um ventinho, nem precisava leque. Uma fogueira, talvez! Por que somente em São João? Poderia pendurar lampiões de gás na árvore da frente, outros nas paredes do muro. Também pensara em abolir o plástico, matéria que tanto o aborrecia, quer pelo cheiro, quer pela textura e cores. Era impossível. Nas lojas, abarrotadas de mercadorias com todo tipo de chamamento, música e palhaços, cartazes e camelôs, eis o que se via: made in Japan, made in China, made in USA, made in Paraguay etc. A maioria deles vendidos a R$1,99. Comemoração com um grande jantar à antiga há muito fora abolida, mas o resto da família – que família! – botou o pé na parede:

–“Tem que ter jantar à americana, quando se fala em ceia todo mundo sabe que não é ceia, é jantar. Muita comida, muita bebida, peru e champanhe, vinho e uísque rolando a noite inteira.”

Juju deixou-se cair numa cadeira (também de plástico), macambúzio porque seu sonho naufragava. Tanto que falara com a mãe! Mas ela era teimosa, renitente. Muito católico, a festa do nascimento de Jesus queria-a de acordo com a natureza do menino. Debaixo da árvore, cercada de troncos como se fossem cadeiras, ceando coalhada com rapadura, músicas religiosas antigas, a voz poderia ser a de Simone, de quem gostava muito. Tudo na maior simplicidade. E ainda lhe fizeram outra ursada. Tanto que queria convidar seus amiguinhos – sempre tivera muitos amigos, todos do sexo masculino, meninos e adolescentes. E assim se dava muito bem. Por lá, por outras casas passava praticamente todo o seu tempo. E à mansão dos pais só aparecia para dormir, e tarde, bem tarde. Gostava de arte, mas não sabia fazer nenhuma. Gostava dos artistas. Pronto. Sua vida.

O que havia para comer e beber na festa? Salgadinhos dormidos, comprados caros na padaria do centro do comércio, além do peru que tinha sido preparado pela empregada, no dia anterior. Champanhe, cerveja, uísque, vinho, conhaque, refrigerante (pouco). Lá vem ela, Dona Veroca, em seu novo vestido estampado, coberta de bijuterias, dos braços às orelhas, do pescoço ao coque do cabelo. Era o momento culminante. Garrafas secas já rolavam pelo chão, conversa alta, ninguém sabendo o que os outros diziam, quer pela voz enrolada, quer pela música que se deixara repetir, repetir mecanicamente, dezenas de vezes.

Juju finalmente tomara uma taça de champanhe.

É agora!

– “Este presente é para mamãe, a dona da casa; este é do papai, o dono da mamãe”, gritou o Juju, com sua voz esquisita, ainda assim forte, em meio ao desconsolo interior. Não era como os outros, os que tinham coragem de manifestar-se.

Estavam no auge da festa: “Este cachorrinho é do Juju (logo para ele, que não gostava de cachorro), este peixinho é da mana Mary, este gatinho é do Jonas, aquela vasilha de banheiro é de... Este pente, esta flor, este aparelho de chá, aquela coisinha... A conversa alta, a música repetindo-se, a bebida a derramar-se. E... Sem que ninguém percebesse – quem esperava aquela tragédia? – o jardim foi sendo tomado por ratos que se espalhavam entre as mesas, cadeiras, comidas e o diabo a quatro, sem dar fé dos gatos de louça (de plástico) que estavam ali de olhos brilhando. E subiam nas pernas das mulheres, entravam no bolso do paletó dos homens. Grandes, pequenos, catitas. Perfuravam os bolos, lambiam os pratos. Refestelaram-se em cima dos ossos do peru e de mais sobras de farofa, restos de bolinhos, carnes mastigadas e jogadas ao léu pelas crianças. Uma zorra. Subiam até os cabelos das mulheres, roendo os grampos, atracadores, pentes, fitas... E só uma gata velha rabugenta – e por isto ficara presa no quarto dos fundos, além da cozinha, conseguindo depois de muitas azunhadas abrir a porta – apareceu no meio deles, levantando o rabo e trazendo cheiro que para a rataria era catinga. Deu tempo ao pessoal começar de mansinho a se espalhar, fugir para a sala, os quartos e demais cômodos. Que castigo! Ou será que estavam sonhando? As crianças ficaram admirando os bichinhos até o fim. A festa dos homens já morrera com os “ahs!” e “ohs!”, justo para procurarem os banheiros e as banheiras, as piscinas e chuveiros, os lavabos mais próximos, para a urgente limpeza do corpo. Uma parte não se incomodou, ficara quieta esperando o que mais poderia acontecer. Os ratos iam entrando para os quartos junto com os meninos. Estes logo dormiram na paz de Deus, sem reclamar das cócegas que os bichinhos faziam nos pés, com a música do grunhido da ninhada, com os lambidos nas caras lambuzadas de comida da festa. E assim os invasores passaram a noite toda roendo móveis, papéis, roupas. Dos pés, mãos, narizes com tantas mordidas e arranhões, o sangue jorrava. Um pandemônio.

O pessoal da Saúde veio pela manhã e ordenou que ninguém saísse. Foram todos vacinados. Logo chegou a Polícia com seus homens, que isolaram o prédio então evacuado, após os primeiros cuidados preventivos da saúde pública.

“Ninguém mexa! É perigo!

Numa segunda etapa vieram agentes da Saúde e da Polícia montar guarda à casa. Ordens superiores. Ficarem por perto, disfarçados, vigiando.

“Ninguém mexa, é perigoso”.

O tempo vai passando.

Lembro que quando saí da Terra dos Condenados, já não era tão criança, mas ainda não perdera aquele espírito de aventura, de conhecimento. Algumas vezes tentei abrir suas janelas carcomidas, encupinzadas, cheias de teia de aranha que prendiam moscas, e de diversos insetos vivos e mortos, os quais não conseguia identificar. E muita poeira, muito lixo. Imaginava como poderia ser lá dentro.

Voltei como turista. Não obstante o governo tenha tomado a si a tarefa de higienizá-la e reformá-la sem deturpar sua história, conservando todos os seus pertences e o jardim tal como deixado naquela noite, tudo para uma espécie de “museu do rato”, empalhados todos os animais como mandava a moda do turismo – ela continua sendo uma casa mal assombrada. Para os meninos, a “Casa dos Ratos”. Mas também viera matar um pouco das saudades dos lugares onde passei os melhores dias da minha vida. Agora, os guias turísticos contam maravilhas do museu, que vale a pena visitar o local, mas o povo da cidade vizinha me conta outra história, que não é a oficial. Os visitantes que lá vão, voltam assombrados. Os ratos andam, correm e sobem no corpo dos turistas e como querem arrancar-lhes os olhos, as orelhas, entram pela boca e pelos ouvidos e acabam fazendo sangue e feridas no roer-roendo das veias e dos ossos. Depois saem e ficam brincando como se nada tivesse acontecido. A confirmação me veio de imediato. Olhando de frente o casarão de Dona Veroca, uma velhinha corcunda e manca que ia passando por ali, enxotada pelos guardas e pelos meninos-guias, joga aos meus ouvidos a linda frase que alivia os desesperados:

“Vão se f., seus filhos da p.!”

E virando-se para mim, com os olhos esbugalhados:

“Isto aqui é um inferno, seu moço! Foi castigo do orgulho da Dona.”

Não havia nenhum turista por perto nem quem me mostrasse o casarão de Dona Veroca por dentro, a “Casa dos Ratos” das crianças. Mas o Museu estava ali, na rua. Só faltava o Juju

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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina. E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br




terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A MENINA E O GATO

Francisco Miguel de Moura*


O casal Ana e Ananias, com a filha ao lado, está tranqüilamente diante da tevê, assistindo à última parte da novela das cinco. A menina, ainda na pré-adolescência, muito sensível, mas sem aquela facilidade de chorar, principalmente na vista das pessoas. Também não é risonha. E tem um gênio forte, imita os pais, que falam alto quando se aborrecem. Já têm idade de ser avós da menina.

Quando não estão assistindo à tevê, a casa é silenciosa. Naquele momento o som que se ouvia vinha da novela “Alma Gêmea”.

Como que para romper a tranqüilidade do ambiente entra, de manso, um gatinho branco, dos olhos azuis, meio arrepiado, sujo, sem dizer nenhum miau. Parecia doentinho.
A menina levanta-se, quer pegá-lo.

A mãe corre e o pega primeiro. Vai e o leva rápido para fora do portão. Desconfiada de que ele pode entrar de novo pela brecha da porta, coloca na brecha um tapume de papel duro, daqueles que serviram de embalagem do móvel recentemente comprado.

-Mãe, vamos criar o bichinho, é tão bonitinho?!
-Que bonito, que nada, menina! Este bicho todo desmilinguido parece estar doente e aqui não é hospital veterinário.
-De onde veio?
-Do lixo, foi abandonado pela mãe e pelo dono.
-Ah, mas eu quero, quero, quero!
-Não, não e não! Já criamos um cachorro, ele me mordeu; criamos um pintinho e ele morreu; depois seu pai comprou um papagaio, era velho demais, não aprendia a falar, ficou estressado no poleiro, e morreu; você teve um coelhinho que roía tudo, adoecia e era preciso levar ao médico-veterinário todo o mês.

A menina começa a chorar, um pranto muito sentido como uma desesperada, como nunca acontecera.

-Bicho dá muito trabalho e despesa – retruca a mãe.
A menina chorava alto, bradando que queria o seu gatinho.
-Ah, ele já é seu?
-Assim os bichos vão ficar com raiva de mim. Eu não sou uma mãe desnaturada, quero adotar o gatinho.
-Os bichos lhe querem bem por natureza. Lembra daquela rolinha que entrou em nossa casa e foi procurar você na sua cama? Você a criou até que cresceu. Um dia ela voou, aproveitando uma brecha da gaiola-viveiro. Na hora que a Maria foi botar comida. Assim são os filhos. Daqui a uns tempos vai se larga também, ganha o mundo, deixa a mamãe e o papai sozinhos, chorando.
-Não, mamãe, nunca farei isto!
Ainda chorava, mas caiu nos braços de Ana Maria e se consolou. Quando levantou os olhos, ainda estavam vermelhos e molhados de lágrimas. O pai também estava muito piedoso, mas tentou não se deixar emocionar pelo acontecido. Apenas fez um convite à garota:
-Vamos à padaria?

Foram. Lá, Ananias pegou os pães e um pedaço do bolo dos mais apreciados pela filha. Passaram, em seguida, pela locadora de filmes. E, entre várias perguntas da filha – pra onde “ele” tinha ido, como ia dormir sozinho e coisas assim – o pai saiu com essa que julga ter amainado da filha aquela paixão momentânea:

-Ah! Quisera eu ser hoje um gatinho como aquele!
-Pra quê? Aninha perguntou ingenuamente.
-Para que você gostasse de mim como mostrou gostar do gatinho.
-Ah, pai! Mas ele é um animal.

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*Escritor brasileiro, mora em Teresina.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Conto: DOIS MARIDOS E UM CACHORRO

Francisco Miguel de Moura*


– “Benedito, com ele não era assim!” – D. Umbelina repetia a frase de sempre. E temperava: “Ele não obedecia, mas também nunca fora de mandar”.
Tinha sido o primeiro marido, de padre e cartório. Falecera. Em seguida chegou o Florêncio, em cuja vivência cheia de altos e baixos, bastava qualquer altercação, estava o que não queria ouvir:
– “Será o Bendito?”
Não. Com aquele não fora assim: “Sou madeira de dar em doido. Só uma coisa eu quero: que minha palavra seja ouvida. É coisa sagrada, tem valor”. A própria D. Umbelina o fez saber, nos primeiros dias de ajuntamento.
Um episódio desimportante revolucionara os tempos de solteiro de Florêncio. A morte da velha Maria – lembrava a pobre mãe – que morrera de raiva, não porque fosse irada nem porque pela mordedura tenha adoecido da doença da raiva transmitida por cães. Paciência de Jô, bondade de anjo, ela foi pegada por um cachorro de estimação, de cria. A cadela paria muitos de cada vez, ele vendia para a vizinha, pagava a um moleque para levar ao mercado, mas não dava vencimento. Sobre aquele animal, Florêncio não quer nem se lembrar o nome. Tão engraçadinho, no início!
– Olhem as orelhas de abano, vejam os olhos. De que cor? Ninguém sabia ao certo dizer. Nem a raça.
Muito depois um vizinho tinha sido mordido por um cão brabo da casa do outro vizinho, o do lado de lá. Na verdade fora ele, o cão de D. Maria, que desta vez salvou-se por engano. Por isto não veio a reclamação. Ferimento leve, o homem não teve nada. Já se havia vacinado. Mas pegara uns cortes profundos no rosto e na cabeça, marcas vistas até hoje. A família, Florêncio tinha irmãos e irmãs. Apesar dos acidentes não se desfez do cachorro, que continuou mordendo o pessoal da casa e, sorrateiramente, mais alguém que tentasse entrar ou dele aproximar-se. Passou um tempão, até que Florêncio se bandeasse para a casa da viúva.
A rua da família de Florência, aliás, era de muitos cães. A televisão e os jornais mostravam histórias de crianças e mulheres atacadas, esfoladas, estragadas para o resto da vida, e até mortas por animais raivosos chamados de “pitebul”. Vacinados, não havia como pegar a doença. Mas, desde o episódio com sua mãe, Florêncio criou raiva deles, assim também as pessoas de bom senso do “pedaço”, a quem ele ia consultando e espalhando os casos que sabia.
– Morar com cachorro, nunca mais! – exclamou na casa da viúva, no primeiro dia.
Mas, D. Umbelina, claro que contra sua vontade, e sabendo disto tudo, de tradição e por boca do próprio atual marido, trouxe uma cria para dentro de casa. Florêncio disse que não era pra ficar. A pessoa que trouxe nem exigiu muito dinheiro, parece que queria se ver livre do demônio. O garoto maior de D. Umbleina estava bastante interessado. Por quê? Só queria um pretexto: deixar os livros dormindo por cima da mesa e da cama. Depois do advento do cão, sua vida era brincar, não prestava atenção aos estudos, foi reprovado. Menino é como cachorro. O cãozinho era vadio mesmo: derrubava a casa, esburacava o quintal, subia em árvore, caía, rolava no chão. As gaiolas foram destruídas, os outros bichos, infernizados. E assim foi crescendo.
– Não! Pode levar sua porcaria de volta – ainda disse.
– Não, moço, o cachorrinho vai ficar.
O enteado fez coro com a vendedora e com a mãe:
– Ah, tão bonitinho, tão espertinho! Venha cá?
– Ora, Florêncio, você não conversa comigo. Só sabe jogar dominó e dama com os colegas durante o dia e de noite sai pelos botecos para beber, caçar conversa com as mulheres... Arreda. De minha casa, eu tomo conta.
– Ou o cachorro ou eu, já disse.
A mulher empetecou:
– O cachorrinho fica, ora merda!
E tratou logo de dar-lhe um nome, nome que Florêncio nunca gravou.
– Por que não posso ter um cachorrinho para aliviar-me as tensões?
“Será que são aquelas de ordem sexual?”
Que fosse. Mas por que não uma gatinha?
Mal a vendedora o havia tirado de uma espécie de cesto, o bicho começa a latir esganiçado e a borrar a casa com suas fezes. Que nojo!
Sentiu náuseas como nunca na vida. Demorou quase nada e o cachorrinho começa a lamber-lhe os pés, puxar-lhe a bainha da calça, trepar em suas pernas para fazer pipi, irritando-o profundamente. Era todos os dias. Pior, durante as 24 horas. Angustiante. De enlouquecer. Fugiu.
Logo os visinhos sentiram falta:
– Anoiteceu e não amanheceu. Nunca mais tive notícias – respondia D. Umbelina.
Quando a angústia, a tristeza, a raiva se avolumam dentro peito forma-se como que um tumor que toma conta da alma. Foi naquele dia, Florêncio não suportou o sufoco.
Se até então tinha sido difícil, mais dura ficou sua vida. Uma espécie de torpor, a cabeça rodando, o corpo pedindo para sair por aí, andar sem rumo, andar... Sentiu-se um estranho dentro de si.
Pegou a cópia da chave que levara consigo, e quase volta um dia ao lar que abandonara. Já era o segundo; o primeiro tinha sido o da própria mãe. Pelo mesmo motivo. Sem trocar de roupas, calçado numas já bem surradas sandálias. Sem dizer para onde ia. E nunca se preocupou em dar notícia. Também ninguém o procurou. Escondeu-se nas ruas pelas noites, nos lugares mais distantes, nos bairros da periferia. Porém, sem tomar mais conhecimento de suas andanças, voltava-se no rumo da casa onde deixara a mulher, a teimosa e renitente viúva. Juntou-se com criminosos, drogados, traficantes, homossexuais, mulheres sem classificação. Os moleques da rua, sem eira nem beira, sem pai nem nome o acompanhavam.
Muitos anos depois, mais velho, alquebrado e doente, foi quando se deu por si cabeludo, barba enorme, rosto macerado, as mãos com unhas animalescas, sujas de apanhar restos de comida no lixo das casas de gente da burguesia, a quem tinha pertencido um dia – sua consciência, por um milagre não sabe de quem, voltou. Irreconhecível. Rabo entre as pernas, sem um sorriso, estava igual a uma vara de tão magro. Sem saber e sem querer, transformara-se num cão, inofensivo, mas um cão, e da companhia deles não se livrava. Alguns vira-latas o seguiam cheirando seus trapos fedorentos, disputando-lhe a posse das latas de comida podre, restos de ontem. Entretanto, lembrava de sua vida pregressa – tivera um longo sonho, não sabe se numa casa de saúde, ou porque houvera sofrido acidente – de sua última frase ao sair da casa que fora a sua casa:
- Ou ele ou eu!
E quando nada colhia dos depósitos de lixo e a barriga estava em lástima, não batia a nenhuma porta. Latia. Latia e cantava a música “Eu não sou cachorro, não”! dum cantor da sua época.
Ladina como sempre, D. Umbelina, à porta de casa, o viu passar em tais condições. A rua já era outra. Muitas casas recém construídas e outras que haviam sido levantadas, quase nenhum terreno baldio.
E então fez o sinal da cruz como para livrar-se do demônio.
– Melhor assim! – disse quando ele desapareceu na dobra da esquina distante. E acrescentou:
– “Graças a Deus, ele não me reconheceu mais nem a casa. Seria uma grande vergonha”.
E ainda foi enfática com a entidade celeste, olhando para sua fera que latia lá dentro:
– Meu anjo da guarda, salvou meu cachorrinho. Obrigado.
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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, Piauí. E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br Site: franciscomigueldemoura.blogspot.com
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