LANÇAMENTO DE “LAÇOS DE PODER”, DE CHICO
MIGUEL
Por
Jailson Klain – Escritor e editor*
Antes
de me sentar para escrever este discurso em razão do lançamento da 2ª edição de
Laços de Poder, de Francisco Miguel de Moura, fiquei em
dúvida. Não sabia sobre qual ponto de vista deveria me investir para relatar
algumas impressões sobre o autor, a obra e a importância deste evento literário
que ora realizamos. E por que a dúvida? Isso se deve ao imenso privilégio que
tive de escolher entre alguns lugares da fala: Como sobrinho do autor, como
escritor e como editor desta 2ª edição. Decidi-me por usar e abusar dessas três
honras.
Além
do ponto de vista, quero abordar um outro tipo de relação que se estabelece em
quase todos os processos de criação literária: a relação entre memória e
literatura.
“O passado nunca está morto. Nem sequer é passado.”,
disse o escritor americano William
Faulkner.
A
partir dos meus oito anos de idade, comecei a passar alguns dias de férias na
casa do meu tio Chico Miguel, em Teresina — “muitos dias”, corrigiria minha tia
Mécia, se lhe fosse dada a palavra. Cultivei esses passeios por parte da minha
infância e adolescência. Dessa época, lembro-me bem da casa, de todos seus
cômodos, dos meus primos, dos passeios ao centro da cidade, da AABB aos
domingos e da enorme biblioteca que havia no quarto do meu tio. Tudo ali era
mágico para mim. Com os livros, eu não tinha tanta aproximação; minha paixão
ainda eram os gibis e a televisão. Mas lembro do meu deslumbramento por aquelas
altas estantes de incontáveis prateleiras repletas de poesia e histórias
fantásticas. E aquele menino pensava: “Ah, um dia também terei minhas estantes
de gibis, talvez até de livros, se forem de aventura”.
Muitas
vezes, enquanto assistíamos à TV na sala, outra maravilha da casa, meu tio
recebia visitas de amigos, escritores como ele, talvez. De um deles me recordo
bem: Ozildo Batista de Barros. Acredito que essa lembrança seja da época do
lançamento do livro Etc & Tal, de Ozildo... Bem, pelo menos me
lembro da visita do autor das Abóboras, em que trataram dessa obra. Mas Ozildo
é um amigo de longa data de meu tio, e foram muitas as suas visitas ao poeta do
Jenipapeiro, agora com raízes fincadas nas terras nobres da capital.
Todas
as lembranças que guardei de meu tio, sejam da infância, sejam da vida, são
lembranças boas. É inegável, por qualquer um que o conheça, o seu caráter
benevolente, sua personalidade pacata, seu enorme coração e um dom que poucos
possuem para escrever literatura. Eis o homem; eis o tio.
Desde
a época dos meus passeios a Teresina, TiChico, como sempre o chamei, também
visitava vez ou outra o Rodeador, terra que acolheu sua família durante alguns
anos de sua juventude. O objetivo dessas viagens, além de visitar uma irmã
residente aqui e outra no Jenipapeiro, quase sempre era para lançar um novo
livro. Pelejar com o prefeito da vez para que comprasse alguns volumes da obra.
Eram tempos em que todas as etapas de publicação eram uma verdadeira odisseia.
O árduo trabalho começava com a escritura; passava pela publicação; o parto que
era vender os livros e, por fim, possivelmente a mais cruel das lutas,
conseguir que alguns mirrados, resistentes leitores em potencial.
Na
casa da minha mãe, havia exemplares dos livros do irmão, acervo este que hoje
se encontra na minha biblioteca particular, a Biblioteca Miguel Guarani. Miguel
Guarani, pai de Chico Miguel, foi um grande mestre-escola da região, um
engenhoso poeta popular e um talentoso tocador de viola. Muito se fala por
estas bandas – sem querer fobar – da inteligência do professor Miguel. Não sei
se para o filho Chico isso foi uma pressão ou uma dádiva. Muitos filhos de pais
ou mães célebres em seus ofícios passam a vida tentando escapar da sombra de
seus genitores. Não sei se foi o caso de Francisco Miguel de Moura, se o nome
do pai lhe pesou na passagem para a vida adulta, mas, de qualquer modo, a
verdade é que ele conseguiu irradiar sua própria luz.
Para
ficarmos apenas no campo literário, quando nos atemos ao fato de que Chico
Miguel lançou seu primeiro livro em 1966, é que temos a real noção da grandeza
desse feito. Um pobre menino, perdido pelos caminhos poeirentos entre Aroeira
do Itaim e o Diogo Velho, escrever e lançar um livro de poesia em tão remota época é, no mínimo, algo para
se reverenciar. Somente pela coragem e tamanho do empreendimento, sem entrar no
mérito da qualidade literária, porque, considerando este aspecto, a admiração
tende a crescer.
A
1ª edição de “Areias” foi impressa numa pequena gráfica de Timon, à margem dos
grandes centros editoriais do país. A capa do livro foi desenhada pelo amigo e
grande escritor piauiense Hardi Filho, que o incentivou e contribuiu de
diversas formas para que a obra pudesse ganhar vida. A partir desse primeiro
passo e, após uma longa caminhada de 60 anos e uma prateleira repleta de
títulos publicados, chegamos ao lançamento desta obra, neste evento marcante e
memorável que realizamos hoje. Se Hardi Filho pudesse presenciar este evento,
seis décadas depois do pontapé inicial, do qual teve tanta participação, seria
um tributo perfeito para o poeta Francisco Miguel de Moura, para todos os
envolvidos com prosa e poesia, como leitores, escritores ou outros
profissionais das letras, nesta noite de celebração não somente da Literatura,
mas da memória, desta luta que travamos a cada página escrita para não sermos
esquecidos.
Foi
na vida adulta que comecei a tomar ciência da importância e talento de Chico
Miguel como escritor. E, de vez em quando, lia algum dos seus livros, mais os
de prosa, é verdade, pois sempre tive mais afinidade com esse gênero. Li
romances, crônicas, contos, artigos... Pode ser que o fato de ter um tio
escritor, reconhecido como grande poeta da nossa literatura, tenha sido uma
influência para que eu me aventurasse a escrever; bem, pelo menos a me fazer
acreditar que também poderia trilhar esse caminho. Não era algo além das
possibilidades para um menino perdido de amor pelos livros.
Quando
comecei a escrever, passei a ler e reler livros de outra maneira. Já não via
apenas a história narrada. Passei a enxergar o trabalho invisível do escritor:
a escolha de cada palavra, o ritmo das frases, a paciência da revisão e o
compromisso de transformar experiência, observação e imaginação em literatura.
E então, mais do que a pessoa de Chico Miguel, passei a conhecer e admirar o
escritor.
Antes
do meu tio, muito me orgulhava de ter um avô professor, autodidata, engenhoso e
inteligente, sobre o qual cresci ouvindo elogios de todos aqueles que tiveram a oportunidade de aprender com
ele, de apreciar sua arte de poeta popular. Miguel Guarani foi grandioso em sua
época, a despeito dos parcos recursos e ferramentas de que dispunha. Chico
Miguel foi além, tornando-se um dos grandes nomes da Literatura Piauiense e, até,
ouso dizer, um que ficará na historiografia da Literatura Brasileira.
No
ano passado, fui a Teresina para lançar um livro meu e participar do Salão do
Livro do Piauí – SALIPI. Em visita à casa de Chico Miguel, consultei-o acerca
de alguma obra sua, já esgotada, que gostaria de relançar. Ele respondeu de
pronto: “O romance “Laços de Poder”.
Às
vezes penso naquele menino de oito anos na casa do tio em Teresina, encantado
com a sua imensa biblioteca, embora seu interesse fosse apenas pelos gibis, e
em como ele jamais poderia imaginar que, décadas depois, não apenas dividiria
com aquele tio o ofício de escrever, mas também teria a honra de editar um de
seus romances.
Um
ano após o encontro em Teresina, estamos reunidos hoje, para o lançamento desta
obra, que me trouxe muita alegria e orgulho de ter contribuído para sua
publicação, com a presença do autor, e por tê-lo como um dos nomes de destaque
no catálogo da editora.
As
lembranças de vida são, sem dúvida, uma das ferramentas a que os escritores
mais recorrem durante o processo de criação literária. Já disseram que todo
romance nasce duas vezes: primeiro ele nasce na vida, depois, na memória.
Atribui-se a Milan Kundera, escritor tcheco, uma frase que, embora retirada de
um contexto político, serve-nos muito bem para ilustrar o protagonismo do
passado como matéria da literatura. Ele disse: "A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o
esquecimento."
O
escritor Chico Miguel recorre às suas lembranças para recriar esse jogo de
relações de poder sob seu ponto de vista, seu conhecimento, seu modo de
lembrar-se. Ele registra isso na ficção como meio de não o deixar desaparecer
na névoa densa do passado, pelo menos não como ele o apreendeu e o interpretou.
Com a obra publicada, esse universo de relações humanas, de crítica e denúncia,
sobre o qual a narrativa se desenvolve, perpetuar-se-á na memória dos novos
leitores. Assim, tal qual pregado por Milan Kundera, o autor Francisco Miguel
de Moura terá vencido a luta contra o esquecimento.
No
futuro, décadas ou séculos adiante do seu tempo, quando o poeta não mais
estiver neste mundo real, ainda assim permanecerá vivo na memória de seus
leitores, por meio de seus versos, sua poesia, escrituras e histórias. Este é
um prêmio para todo escritor, uma recompensa pelo árduo trabalho de recriação
de um mundo feito de conhecimento, histórias e poesia.
Somente
quem escreve conhece a quantidade de dúvidas escondidas por trás de cada página
escrita. Cada romance é construído com entusiasmo, mas também com hesitações,
cortes, recomeços e longos silêncios. Talvez, por isso, minha admiração por
este livro seja hoje ainda maior do que quando eu apenas admirava seu autor.
Como
editor, tive o privilégio de acompanhar todo o processo editorial deste livro,
muito antes de ele encontrar seus leitores, até chegar à sua forma definitiva.
Participei das decisões editoriais, acompanhei sua preparação, sua revisão, sua
materialização. É um tipo de convivência diferente, porque nos aproxima não
apenas do autor, mas também da própria construção da
obra.
Talvez
seja esse o maior privilégio concedido aos escritores. Diferentemente da
maioria de nós, eles não vivem apenas na lembrança daqueles que os conheceram.
Vivem também na imaginação daqueles que nunca os viram, nunca lhes apertaram a
mão, nunca ouviram sua voz, mas que, ao abrirem um de seus livros, passam a
dialogar com eles através do tempo. A literatura possui esse raro poder de
transformar a memória individual em patrimônio coletivo.
E
é com imenso orgulho e satisfação plena — como sobrinho, como leitor e, agora,
como editor — que a Editora Rodeador traz à lume, como primeiro número da Coleção
Biblioteca Piauiense, essa 2ª edição do romance Laços de Poder, de
Francisco Miguel de Moura. para que a voz de Francisco Miguel de Moura.
continue encontrando novos leitores e para que a memória de sua obra permaneça
viva enquanto houver alguém disposto a abrir um livro e deixar-se conduzir por
suas páginas. Para que eles nunca sejam esquecidos, nem o autor, nem a obra.
Finalizo
com outra frase — ah, gosto muito de frases célebres, é lógico que daquelas que
conseguem, de forma sucinta e elegante, registrar meu pensamento desorganizado
—, esta como reflexão sobre o tempo, a escrita e o legado:
Escrever
talvez seja a forma mais delicada de impedir que o tempo tenha a última
palavra.
Muito
obrigado a todos e parabéns ao nosso grande escritor e poeta Chico Miguel.
____________
*Jailson
Klein, autor grandes obras entre romances e contos. Santo Antônio de Lisboa (PI), 16-07-2026, na
sede da Academia de Letras do Vale do Riachão-PI-(ALVAR)

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