terça-feira, 30 de agosto de 2016

ANATOMIA DO ESCASSO COTIDIANO


                                
Francisco Miguel de Moura
membro da Academia Piauiense de Letras.
                                                                                                            .
          A última mensagem poética me chegou anexa a uma carta-crônica datada de 13 de fevereiro de 1999, enviamento do poeta piauiense/maranhense Chagas Val, que habita as plagas de São Luís do Maranhão.  Era um livro de poemas. Que beleza! Fiquei alegre, não foi pra menos. Muito bonita a capa, a impressão também recomendável, a orelha de Nauro Machado está excelente, creio que diz tudo da poesia de Chagas Val hoje. Que é que posso acrescentar como crítico?  Muito pouco.
          Agora, releio «Anatomia do Escasso Cotidiano», o nome do livro de Chagas Val, e dá vontade de recitar uns versos: «Brancura de água mal se nota que existe / que branco é o espaço escrito em nuvens / ou uma garça pintando imóvel a paisagem. // Um peixe em movimento é branco e limpo / e ele se banha ao luar de suas escamas / quando nada na brancura de uma lâmina / ou de uma fina linha em branco silêncio.»
          Depois vou pensando em bosquejar umas idéias e observações. É um livro leve como um pássaro, não porque seja fino. E é tão fino (nos dois sentidos) que o volume não chega a cem páginas e se lê como o vento sopra, como a água flui nos rios da planície de Buriti dos Lopes, sem pressa,  enxugando a alma ao invés de molhar, profundo sentir ver/ouvir/meditar. Branco como uma oração na sua pureza. Cheio de símbolos simples e por isto mesmo difíceis de interpretação. Não é necessário. Fruí-los já basta, é assim qual nublado silêncio, no aconchego e paz de voz amiga.
          Que sua poesia já não traz cheiro de outro poeta, de nenhum corifeu, de nenhum mestre, é seguro. E me tranqüiliza.  A poesia de Chagas Val é. Neste «Anatomia do Escasso Cotidiano» ele se faz originalíssimo. É difícil segurar essa barra, acho até que  exagerou. Não deve tentar escrever (e publicar) um livro a cada ano, nem de dois em dois anos, mas dar espaço de pelo menos quatro, para não esgotar-se ou repetir-se. 
          As obras anteriores sempre vinham polvilhadas de águas, rios, luas e ventos. Mas na nova messe os elementos se depuram. A casa e o rio, as árvores e as folhas são tratadas como personagens vivos e interferentes. Nauro Machado registrou isto, se não me engano, na apresentação. Os campos da alma... A alma desvairada dos homens deste fim de século, incluso o poeta, está perdida, solitária,  no «escasso quotidiano». Melhor que escasso seria escuro. Ou não?  Mas como, se a poesia de Chagas Val é inteira claridade?
          Ecológico, o poeta? Sim, mas não só de uma ecologia interna, depurada.  E ontológico também.  E escatológico sem dogma. E antológico sem dogma. E antológico, sim.
          Há como que uma aura protegendo a imagística do poema. Mudança de estilo? Nem tanto. Aprimoramento, trabalho.  E premonições do que acontecerá, fatalmente, nas artes do próximo milênio. Não que haja racionalismo, ou irracionalismo, como no tempo do neoclássico. Ao ler poemas como «Rosa  Contemplada» ou «As Sanguíneas Flores», lembrei-me de Alvarenga Peixoto em «Ensanguentados rios, quantas vezes / vistes os férteis vales / semeados de lanças e arneses?»  Não que haja musas e entidades campestres guiando o poeta e presidindo a poesia. Muito menos intenções de agradar os poderosos do momento, com baladas e poemas. Os poderosos de hoje não dão bolas pra isto, não se sensibilizam.  Nem pensar na ressurreição de um mundo pastoral. Eles querem um mundo virtual. Que não seja poético. Há o «novo» e há novidade em sua poesia, é preciso descobrir logo. Sobretudo, há sumo de cores e vozes, enquanto o bom leitor vai se enleando na enchente de imagens e símbolos claros mas impenetráveis à primeira análise.
          Sei que o poeta vive recluso, isolado da sociedade dos mortos, pois só os poetas são vivos espiritualmente. Mas, para sua integridade é perigoso produzir o novo sempre e sempre, porque os anseios de libertação nunca chegam ao fim, vão num crescendo, crescendo, e confrontam-se com as contradições vitais da natureza e da cultura humanas. Brigam com a sociedade. Os prazeres verdadeiros são escassos, no mundo pós-moderno, porque repetitivos. Haja sexo virtual, sem amor e sem liberdade, sem frutos. É o Deus artificial dos cultos televisados. Festas são drogas.  Mas o homem não vive sem prazer. Pense-se no hoje. Que prazer haverá em passear num Shopping Center, olhando coisas, coisas de plástico e papel que se trocam por papel-dinheiro podre, às vezes sem necessidade, pois quase tudo é descartável? Depois se joga fora. E tudo é frio, é máquina, é computador, é calculismo daqueles que manobram as massas em forma «artística» de propaganda, ou estatística do «economês». Frio é o ardor do sol, com tanto ar (condicionado) nos escritórios, nos hotéis, nas partes turísticas.
          É esse «escasso quotidiano» que Chagas Val abomina e por isto se revolta e se refugia no poema, na dor da poesia. Em lindos poemas como «Os Arvoredos», «As Folhas», «Sutilezas»  e  «Pássaros em Extinção», pra não falar no soneto «Alegria». Ótimo livro, não adiantaria citar os melhores poemas, teria que referir todos. Nem há espaço para mostrá-los.
          Então terminemos com dois  versos que me ficaram na memória, pois me agradaram sobremaneira:  «Uma rosa com suas pétalas de luz e sangue / abre-se silenciosa na claríssima paisagem.» É a poesia de Chagas Val, vista nas duas primeiras leituras de um amante da poesia. Uma das belas coisas da vida.    




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