domingo, 30 de agosto de 2009

AO SUL DO EFÊMERO – OLHOS AZUIS



Autor: Francisco Miguel de Moura *
Escritor, Membro da Academia Piauiense
de Letras



Foto:

Emanuel Medeiros Vieira

Uma crônica moderna dos tempos negros da Revolução de 1964. Escrita limpa, estilo leve, o autor é o principal personagem. A matéria é um caleidoscópio onde as memórias dum tempo negro sobrepairam. Dois amores permeiam suas páginas, Júlia e Wanda, um mais dramático, mais “tragédico”; o segundo, mais lírico. Outros personagens: Fulgêncio, o pai, cujas páginas arrebentam do peito e arrebatam o leitor, e mais, alguns companheiros de lutas: o poeta Canora (p.158 e outras) e o Edson Luís (que não é ficção, mas referência em algumas páginas).

Gabriel – autor e personagem – quer construir um romance da vida e com a vida, mas termina escrevendo um memorial romanesco. Enfim, não é este o tipo mais moderno de romance, quando o indivíduo sobrepuja a tudo que seria social e sociável? A certa altura, sendo inquirido por si mesmo, por Júlia – alterego de Gabriel – ou pelo espírito de sua amada, escreve: “É melhor não ter um público do que vender minha alma”, considerando as dificuldades de publicar o livro que resultasse dessa luta, um diário mais do que pensava e sentia do que da vivência. Menos do que os outros pudessem sentir, exceto Júlia – que o persegue, na vida e na morte, com o amor estranhamente frio, intelectualizado, porém repassado de sofrimento que não fala. A presença obsessiva de Júlia me fez lembrar “A Presença de Anita”, de Mário Donato, um clássico da ficção psicológica dos anos 1940/1950.

Não gosto de rótulos, partidos, escolas, doutrinas. Por isto deixei de ser crítico. Faço resenhas de leituras ou a crônica intelectualizada de fatos, autores e livros. Para isto, “Olhos Azuis”, de Emanuel Medeiros Vieira, se presta muito bem. Mas não posso deixar de considerá-lo como uma página do pensamento existencialista, o existencialismo à brasileira. Quem leu Sartre e Camus não escapará a este raciocínio. Não quis dizer também que o livro de EMV tem algo a ver substantivamente com “A Presença de Anita” – salvo o sabor dos dois dramas, sendo “...Anita” mais ficção que memória. Por que? Este “Olhos Azuis”, em si mesmo não tem uma história, é sim um monumental livro de emoções e sentimentos externados no papel, para onde correrá a história de quem escreveria o romance (guerrilheiro ou combatente), se um dia visse a possibilidade de publicação da “angústia de quem escapa” que “nem sempre é glória”.

Júlia foi um amor confuso na vivência do autor. Wanda foi o amor que sara as feridas do outro amor, muitos vezes mais carnal do que o da mulher que se vende e vendendo também se dá. E há muitas histórias de casamento entre “mulher da vida” e um dos seus “clientes”. Acontece que Gabriel nunca chegou a entender Júlia como não entendia (por várias razões) o que era aquela “revolução dos militares”, embora intuice. E, ao contrário, com Wanda, compreendeu mais a alma dos humildes.

Li sua obra com gosto de memórias e com o espírito de leitor de romances: Como um rio que desce da planície e vai engrossando até aprofundar-se nos vales. Meio romance, meio memorial (“as memórias como os cemitérios são para os vivos”) ou (“no que você escreve nada acontece, tudo já aconteceu”), é obra mista de grande valor sócio-histórico e ficcional a um só tempo. Em suma, com a recuperação do que o computador apagou, nada se perde na reconstituição – como está sugerido ao final. Pois o Brasil ganha um documento e um livro de arte incomparável, original, que se lê com sabor de ensaio, crônica, ficção, e nele se recupera o que a lembrança já parecia ter levado para o inconsciente. EMV é, portanto, a consciência do que viveu, sofreu, sentiu e pensou, ao lado de pessoas e agora de personagens. Ao sul, ao norte, tudo é efêmero. Mas é esse tudo que vale a pena.

________________
*O autor é também membro da IWA (Associação Internacional de
Escritores e Artista), com sede em Toledo,
OH, Estados Unidos.
Email: franciscomigueldemoura@superig.com.br

sábado, 29 de agosto de 2009

TRABALHO, O QUE É ISTO?


Francisco Miguel de Moura (Autor)*

Ao lado direito:
Foto de Proudhon (filósofo e anarquista francês)

Quando eu trabalhava no Banco do Brasil, fazia com gosto meu trabalho. Depois comecei a escrever artigos para os jornais e poesia para mim, e pensar se aquele trabalho era produtivo, que valor estava acrescentando ao mundo? “Juros e dividendos aos capitalistas banqueiros”. Eu ganhava pelos serviços prestados, mas o patrão levava a “mais-valia” cobrada de mim e dos tomadores de empréstimos. É isto que o sistema financeiro internacional faz: – não produz senão serviços e leva tudo para si, para a propriedade privada dos meios de produção.

Se “a propriedade privada é um roubo”, como disse Proudhon (e a “mais-valia” também o é) – o socialismo comunista incorporou-as ao seu sistema filosófico, tudo em nome do Estado, o novo sistema econômico, que, como qualquer sistema, é um conjunto ideológico, a maneira simbólico de o homem avaliar o mundo e criar valores. Os sistemas econômicos são hoje as ideologias que dominam o mundo civilizado, mais que as religiões. Eles dominam a ciência e a política. E há muitas ilusões na ciência econômica que acabam transformadas em mitos. Comecemos pelo par Capital x Trabalho. Qual o que vem primeiro? Antes de tudo, observe-se que não há capital sem trabalho, mas pode haver trabalho sem capital. O produto econômico é riqueza. E quem produz riqueza senão o trabalho? Primeiro, o trabalho: o capital chega depois. Não importa que digam que a natureza também é capital: – é outra ficção. Capital bruto não chega a ser riqueza. Trabalhar é criar vida, riqueza, dispêndio de energia que se transforma em produto. É essencial e o seu produto deveria ser voltado para quem o faz e não para os que apenas acumulam o resultado. O capital é acumulação de trabalho. O trabalho é usado para a acumulação através da “mais-valia”. Reina o silêncio sobre a distribuição aos verdadeiros donos, com salários condignos. Alguém já terá dito que um dia as máquinas trabalharão sozinhas e hão de produzir. Como, sozinhas? Não é possível. Haverá sempre o dedo do homem. Para chegar à máquina, o mundo trabalhou muito e ainda trabalha, máquinas e equipamentos custam (trabalho) ao sistema capitalista. A civilização caminhou, passou pela escravidão, pela servidão e chegou à “mais-valia”. Toda a ciência é construída com “mais-valia”, também as técnicas que a viabilizam. O homem não pode desvincular-se da natureza, mas sofrendo e pensando nos ventos e na chuva, nas secas e nos vulcões, nos tremores de terra, na fome e nas pestes, tudo isto o fez pensar na máquina, na tecnologia, desde a geladeira ao banco. E isto só se faz com acumulação. O trabalho não tem força para organizar-se por si mesmo; o capital tem. A “organização” é a força do capitalismo. Há outras forças que agem na sociedade: religião, política e governo. Trabalho é a força para produzir a subsistência, a sobrevida, É energia gasta, de onde a organização e o sistema tiram a “mais-valia”. No mundo já se quis contrapor outro sistema, em que os trabalhadores mandariam a si mesmos. Quem foi que disse que deu certo? O governo, o partido, os militares se substituíram pelos capitalistas privados.

O trabalho existe e os trabalhadores desde que o mundo civilizou-se, e até antes, pois os selvagens, os indígenas já com alguma cultura, trabalhavam para si, pescavam e caçavam para um dia ou para os próximos, e só. Outros serviços como a construção de casas e malocas eram trabalhos comunitários. Aliás, tribo é forma comunitária. Baseado nisto é que os socialistas, especialmente Marx, acreditavam na possibilidade de um sistema comunitário. E seria, mas, em pequena proporção, como eram as tribos. Crescendo vira estado. E todo estado é poder, é opressão. A tribo não é capitalista, mas lá existe o trabalho, um trabalho na natureza.
__________
Francisco Miguel de Moura*
e-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

Escritor, membro da Iwa (Associação Internacional de Escritores
e Artistas - Toledo, OH, Estados Unidos)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

FORTUNA CRÍTICA DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA


Roberto Carvalho* Brasília (DF)

Esteve em Brasília, no mês de junho 18 a 20 – o escritor, poeta e romancista piauiense Francisco Miguel de Moura oportunidade em que conversamos sobre literatura e valores culturais do Piauí, do Brasil. Chico Miguel, como é mais conhecido estava acompanhado de sua filha Mécia e esposa que também é Mécia – e, bem informado sobre os temas atuais do mundo, o escritor revelou projetos literários que pretende empreender e em andamentos.

Respeitado pela qualidade de sua extensa bibliografia literária, Chico Miguel, nascido em 1933, é um coração de magnitude ímpar. Tem nas letras, garantida a posteridade de uma vida dedicada ao ofício de gravar na história as imagens que servem e servirão às gerações do país – leitores, professores e pesquisadores dos romances, ensaios críticos, historiográficos, contos, crônicas e poemas deste escritor piauiense, brasileiro.
Seu livro mais recente “Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura”, Edições Cirandinha, 306 pág. 2008, reúne artigos, resenhas, notas, citações, cartas de escritores, jornalistas, leitores de todos os estados do Brasil. Entre outros autores que compõem a obra se poderia citar - Assis Brasil, Moura Lima, José Ribamar Garcia, Oton Lustosa, Cunha e Silva Filho, Roberto Carvalho, Fernando Py, Herculano Moraes, Hardi Filho, M. Paulo Nunes, Eduardo Maffei, Magalhães da Costa, O. G. Rêgo de Carvalho, Jean-Paul Mestas e, a lista de nomes continua.

“Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura”, não mostra apenas a trajetória literária do escritor Chico Miguel, mas revela as várias reflexões sobre sua obra. Sobremodo, facilita a pesquisa, e principalmente, um melhor entendimento através de opiniões diversas – que construíram o painel Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura, espelhado por abalizados valores de nossa cultura brasileira.

Em artigo publicado no jornal O Dia, de 17/09/97, com o título POESIA IN COMPLETA, F. M. DE MOURQA, referente ao livro de mesmo nome – afirmei: “Na obra literária de Francisco Miguel de Moura a poesia é o gênero literário que imprime mais profundamente a psicologia humana. Sua lírica – neoconcreta, de vanguarda, dentro dos conceitos modernistas que continuam com os trajes pós-modernos – é revestida de multiplicidades expressivas.”, p. 118, Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura, que está à disposição dos leitores.

__________________
*Roberto Costa Carvalho, jornalista, cronista, crítico literário, mora em Brasília - DF

terça-feira, 18 de agosto de 2009

ANTÍDOTO II


Francisco Miguel de Moura*

O perigo está no corpo,
às portas da alma, porta
de saída e entrada,
na maternidade e na pedra
– a perda,

no fio de cabelo e na gota de suor.
Não é milico, não faz academia,
não usa armas nem dorme na rua.
O perigo existe.
Haverá salvação?
O socorro foge, vai à frente, anda devagar,
qual uma ave perseguida por palavras.
Cuidado! Não é só vergonha,
não é anjo de carne,
que tem costas largas.
O perigo invisível da noite
é multidão:
– É feminino, terno, luminoso,
como um anjo
de cabide, fora do lugar.

É sair debaixo sem rastros
No silêncio sutil dos caminhos,
Pondo o chapéu e a coragem.

______________
Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina-PI,
e-mil: franciscomigueldemoura@superig.com.br

sábado, 15 de agosto de 2009

ASCENDINIO LEITE - O JOGO DAS ILUSÕES


Francisco Miguel de Moura*
Poeta e ficcionista brasileiro

A juventude de outrora era cheia de ilusões, generosa e sadia. Boas ilusões! Os jovens d’agora são escrachados, não apenas na linguagem falada ou escrita (orkuts, etc.), mas também nos atos e costumes. Não são ouvidos os mais velhos, ninguém obedece, ninguém lê, ninguém quer nada com nada. Cecília Meireles escreveu: “Liberdade, esta palavra / que o sonho humano alimenta / não há ninguém que a explique / e ninguém que a não entenda.” Não adianta falar em democracia e liberdade e não respeitá-las sequer diante de um simples sinal de trânsito, dizemos todos. E ninguém escuta.

Ouço uma notícia na tevê: um preso, agraciado com um dia de soltura em casa para comemorar “o dia dos pais”, acaba de assinar alguém e deixar outros feridos. Cansei-me de dizer e escrever que não adianta agraciar presos comuns por ocasião de datas festivas, nem por qualquer pretexto. O que é um princípio de humanidade da lei e da Justiça passa a expressar uma desumanidade imediata. Mesmo que o criminoso tenha bom comportamento no xadrez, apresentá-lo em soltura vigiada é sempre um grande perigo: de fuga, de novos crimes.

É oportuno citar Ascendino Leite sobre ilusão e desilusão: “As verdadeiras desilusões são generalizadas e se processam no coração de qualquer homem. São as que investem contra as paredes da vida e a plenitude dos seus fenômenos.”.

Creio que, com reação aos dois itens: – a falta de obediência às leis do trânsito em nossa sociedade (Brasil) e a generosidade da justiça ao conceder licenças vigiadas a presos comuns – a desilusão já bateu ao coração de qualquer homem simples, como diz Ascendino Leite. Eu confesso que gostaria de ser melhor do que sou, mas vejo, sinto, vivo as injustiças que se praticam com os inocentes. Não posso ficar preocupado com as “injustiças” que por acaso aconteçam aos criminosos. Quem merece mais? Não sou falso, nem mesmo para apresentar modéstia. Tudo tem limites, até a bondade. Como é que vou aplaudir quem desrespeita a lei? Ao contrário, desejo que seja castigado severamente – isto é, que as leis sejam justas e cumpridas. Assim se evitará morte ou invalidez de quem, ao contrário, sempre respeitou, sempre andou com a lei. Enquanto isto não acontece, como falar em democracia, justiça, liberdade, direitos humanos, todos? Cidadania é respeitar as leis, trabalhar para que sejam bem feitas, lutar pelos desafortunados, mas de maneira não personalista, não “política”, não por aparecer. Neste sentido é que minhas desilusões não resistem às minhas ilusões da juventude, românticas, tão boas, sem limites, por uma democracia que não veio, uma liberdade que não existe, direitos totalmente desrespeitados em nome de quê? Da liberdade. Ora, isto não é liberdade. É libertinagem.

Ascendino Leite, no livro “O Jogo das Ilusões”, conclui que “a desilusão de ser homem e ter paixões foi a mais triste, talvez porque a que mais distante me manteve do infinito.” Apegar-se às coisas menores, particulares (ilusões), em detrimento dos princípios que Deus e a natureza ditam em benefício do ser humano e do ser social, não só entristece – faz-nos mais brutos do que os brutos. Por que não temos o direito nem a necessidade de agirmos como feras. E parte da humanidade age. Não são maus, são insensatos, tornam-se objetos de massa, mercadorias manejadas pelas ideologias de quem não tem ideologia senão a de si próprio.

Mas é preciso ter coragem para que não cheguemos à desilusão total.

_____________
*Membro da Academia Piauiense de Letras, da União Brasileira de Escritores e da IWA (Associação Intrnacional de Escritores e Artistas), sede nos Estados Unidos - E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

EUCLIDES DA CUNHA (1866-1909)


Francisco Miguel de Moura*


Nós brasileiros merecemos das entidades ligadas à cultura e à literatura, com apoio do próprio governo, a divulgação da obra do grande mestre e fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis, no ano de 2008. Mais do que necessárias e justas foram estas homenagens. Neste 2009, está acontecendo o mesmo com relação a Euclides da Cunha, o inolvidável autor de “Os Sertões”, livro que eu diria seminal dos estudos da sociedade brasileira nos momentos de suas manifestações mais agudas, mais cruciantes. Este é o ano de Euclides, como o ano passado foi de Machado de Assis.

Nossa Academia (APL), no dia 8 do corrente, antecipando um pouco a data (15 de agosto) do falecimento do escritor homenageado, também celebrou o ano do professor, sociólogo, repórter jornalista, engenheiro e escritor Euclides da Cunha, com uma conferência proferida pelo escritor e acadêmico Dagoberto Carvalho. A seguir houve um debate comandado pelo Prof. Paulo Nunes, sendo debatedores Celso Barros Coelho, Francisco Miguel de Moura e Oton Lustosa, todos acadêmicos e escritores, sob o comando do Presidente da APL, Des. Manfredi Cerqueira.

Por minha parte, durante cerca de 5 minutos, falei algumas coisas objetivas, uma das quais foi a questão de “Os Sertões” como romance, referida pelo conferencista do dia, o que, aliás, eu já havia manifestado quando compunha “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”, em 1972. A emoção que se sente ao ler o livro mor de Euclides é diferente da comum aos demais romances, visto que a tragédia foi real e se deu entre o Estado prepotente, enfrentando um pequeno grupo de matutos sem letras, místicos sem armas, maltrapilhos e famintos, no fundo dos sertões da Bahia. Foi uma guerra, a de Canudos, que não teve vencedor. A lógica diz que se não há vencidos, não há vencedores. E de Canudos não restou ninguém, salvo as caveiras insepultas dos que foram barbaramente mortos ali. Até então, uma tragédia inédita na história.

Na primeira parte do livro, quando Euclides descreve a terra, carregando nas tintas da crueza e do abandono, certamente o seu estilo parece um cipoal de vocábulos e frases desconhecidos ou desusados até então pelos homens da burguesia mandante e sanguinária. Daí ter o crítico Carlos de Laet classificado como “estilo de cipó” aquela maravilha de descrições e observações de Euclides. Aproveitando a ocasião, repeti, referindo-me às palavras do Prof. Paulo Nunes:

- Euclides nos pega primeiramente pelo estilo, assim como os cipós pegam os homens quando viajam pelo mato (como vaqueiros) ou mesmo pelas estradas mal abertas. Os cipós pegam-nos e nos levam ao chão. Só assim vamos conhecer onde pisamos. Estilo de cipó, para quem conhece a região descrita, foi um elogio. É um elogio a Euclides da Cunha.

“Os Sertões” foi o primeiro grande livro que li, aos vinte anos. E foi uma felicidade. A ele voltei para a segunda leitura e depois para as pesquisas. Quem não leu Euclides da Cunha não conhece o Brasil.

***
PS: Na homenagem que a Academia Piauiense de Letras prestou ao grande brasileiro Euclides da Cunha, depois de informar que Euclides também era poeta e que havia encontrado na internet pra mais de cem poemas de sua autoria, encerrei minhas palavras recitando seu poema mais conhecido, a seguir transcrito:

Se acaso uma alma se fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
a mesma luz pusesse em traços vivos
o nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
de nossos sonhos... Se a emoção que nasce
em nós, também nas chapas se gravasse,
mesmo em ligeiros traços fugitivos:

Amigo, tu terias com certeza
a mais completa e insólita surpresa
notando - deste grupo bem no meio -

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
destes sujeitos é precisamente
o mais triste, o mais pálido, o mais feio.
___________
(Da "Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos", de Manuel Bandeira, Ed. Org. Simões, Rio, 1964 - 2ª edição, pg. 56).
_____________________
*Francisco Miguel de Moura – Escritor ficcionista e poeta brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras, imaile: franciscomigueldemoura@superig.com.br

domingo, 9 de agosto de 2009

NÃO ME NEGUES... - SONETO



Francisco Miguel de Moura*



Ai, não me negues teu olhar, senhora,
Não me negues ouvir-te, sei que falas,
Não me negues teu rosto quando calas,
Não me negues o dia, o tempo e a hora.

Não me escondas o vulto que conduzes
Tão bem de frente, de perfil, de costas.
Teu seio arfante, em busca do que gostas,
Faz-me lembrar mamãe, me acende luzes.

Não me negues!... Qualquer gesto me importa.
Sinto o sabor pular da tua língua...
Não me mostres teus lábios como porta,
Dispenso o beijo de que vivo à mingua.

Mas não me negues, flor, teu santo riso
Que abre à minha alma eterno paraíso.


_______________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina, Piauí, e tem o seguinte e-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...