sábado, 15 de agosto de 2020

CHEIROS DE TERESINA (1852-2015)

CHEIROS DE TERESINA (1852-2015)

 

                                                                                    Francisco Miguel de Moura*

 

           O perfume desperta a mente para o amor, para os amores. Seja de rosa, cravo, jasmim ou de manjericão, seja de mato agreste, seja de planta plantada nos jardins e ruas da cidade.   Mesmo os piores cheiros nos levam a pensar em algo que conhecemos, em acontecimentos que nos passaram, em músicas que foram ouvidas, em lugares que foram gravados na memória.

Sinto os cheiros de minha cidade: mato verde na época chuvosa e até na primavera quando os pau-d’arcos floram em roxo e amarelo. Não há visão melhor do que essa, nem cheiro mais agradável do que o cheiro dos ventos gerais de junho e julho, estendendo-se até agosto, especialmente quando se sobe o Parnaíba de canoa ou o atravessa para Timon. Mas também quando deitamos na varanda de nossas casas, diante dos quintais e jardins. Ainda existem jardins e quintais verdes nesta Cidade Verde. É o milagre do amor de seus filhos.

Como nos tempos das rodas da Praça Pedro II, com saudade sinto o cheiro das meninas, moçoilas, das moças, enfim das mulheres passeando no Teresina Shopping e no River Side, com os mais variados risos. E me abebero da poesia do hoje, esqueço as tristezas e contrariedades do ontem, e começo a sentir-me feliz por viver. Porque perfumes de mulher, seja namorada ou amiga, conhecida ou desconhecida, se confundem com os de Teresina. Teresina foi menina, hoje mulher. E como passaram os anos, sua feição como cidade transforma-se em metrópole, com suas virtudes e seus defeitos. Restam ainda uns restos do centro, da Frei Serafim e de uns poucos bairros como a Piçarra e a Vermelha.

Mesmo assim desfigurada, gosto de você, onde tenho morada desde 1964. Mas, conhecia de antes. Do tempo do seu centenário, quando cantei em versos. E de antes ainda, de passeio e de viagens a serviço. Ai, Teresina, do tempo em que se podia sentar na calçada até meia-noite, jogar conversa fora com os vizinhos e visitas, pegando os ventinhos das 9 horas da noite, que correm da serra e do mar distante!  Ventos que Fontes Ibiapina apelidava de o “parnaibano”. Como era bom, até bem pouco tempo, tomar sorvete na Avenida ou na Praça Pedro II, depois de assistir ao filme do Cine Royal ou uma peça no Teatro 4 de Setembro. Gosto de Teresina como quem gosta de sorvete de goiaba, abóbora, bacuri, caju e manga, de todas as frutas que nos enfeitam, nutrem e engordam, enfim. Gosto da cajuína, hoje registrada como bebida genuinamente do Piauí. Gosto de Caetano Veloso porque fez aquela canção que ficou famosa no mundo inteiro, oferecida a Torquato Neto, o poeta desta cidade, pois nasceu e viveu aqui menino e parte da juventude, por isto cantou-a, cantou-a e se encantou.

São tantos os cheiros que trescalam e nos enchem as narinas e os ouvidos que ficamos tontos.  Assim, podemos beijar e abraçar, os nossos e os que chegam. Aqui não há ninguém de fora, todos os que ficam são nossos. Vejam o poeta Hardi Filho, que veio do Ceará, hoje um dos piauienses mais legítimos; o cronista Deusdeth Nunes (Garrincha), cearense que certo dia teve a tentação de voltar para Fortaleza: arrependeu-se; logo estava de volta pra nossa santa Teresina.  São os feitiços que somente as mulheres têm. Toda mulher tem seus feitiços. Teresina tem seus mistérios, seus encantos. Quem a conhece bem? Não posso dizer que a conheço, posso afirmar, sim, que me perdi um dia no Parque Piauí e, para me localizar e encontrar o que estava procurando, tive que me valer do celular e pedir a minha secretária o endereço e o telefone da pessoa.

Teresina é grande demais para mim. É certo que aqui faz calor, especialmente nos b-r-o = bró. Mas, quando alguém se queixa do clima, costumo dizer:

– Vocês já imaginaram como seria Teresina menos quente? Estaria cheia de paulistas e cariocas, amazonenses e goianos, mineiros e gaúchos, trazendo outros cheiros.

Mas eu prefiro mil vezes os perfumes já conhecidos: não terei o trabalho de ficar procurando que tipo e que flor. Vem de onde? Não vem, é daqui mesmo.

       

                                        ***

*Francisco Miguel de Moura, poeta, cronista, contista, romancista crítico de literatura e artes, mora em Teresina, PI, de 1964. Está crônica é inédita, faz parte do seu livro inédito, de crônicas, denominado “Conversas Silenciosas”, e prefaciado pela escritora portuguesa Maria Helena Veutura. 

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