quarta-feira, 20 de abril de 2016

OZILDO BATISTA DE BARROS – POETA PROVOCADOR


Francisco Miguel de Moura*

             Sou picoense como o poeta Ozildo Batista de Barros, abreviadamente Ozildo, inconfundível como poeta, como escritor, como advogado. Mas vim a conhecê-lo em Teresina, quando ele por algum tempo morou aqui. Seu amancebo com as letras começou muito cedo, ainda no tempo do jornal mimeografado “Voz do Campus” (explique-se: o órgão oficial do Campus Avançado de Picos da UFGo, nº 1, datado de 8-12-1972). Esses poemas de Ozildo já demandam o infinito de um pensador, poeta sensível, ousado, diferente. Assim via o poema e a vida já com bastante profundeza: 

“É um perfeito retrato sentimental 
o mapa de linhas: orbicular, vertical e transversal 
que mostra a geografia da alma...”  

      Mas aí era o começo na poesia. Escreveu vários livros: dois de prosa, inclusive sua estreia - uma espécie de estudo psicológico da sua individualidade mais do que da personalidade; e um de crônicas sobre a cidade de Picos e sua vivência, problemas e figuras, além de um pouco de política (ou muito). Não esquecer também que publicou uma profunda tese sobre a educação, suas formas mais arcaicas e apontamentos para criatividade no setor em busca do nunca experimentado, espécie de ensino que se ensina não ensinando.

    Nove anos depois, em Teresina, publicou seu primeiro livro de poemas, tudo em mimeógrafo: “Etc. e Tal”, Cirandinha, 1981, do qual fiz o prefácio; depois, “Versos e Reversos”, Cirandinha, 1999, que também recebeu meu prefácio; e, finalmente, “Socotó”, também editado por Cirandinha, 2007.

          Como queiram os leitores, o título deste prefácio - o autor o chama de “Prorrogação” - fiz uma releitura de toda a sua poesia escolhida e reunida sob novo título. E nela encontro um poeta renovado, consciente, seguro, forte, não uma “vara verde”, como diziam os antigos sobre paus que se quebram facilmente. Queixem-se, embora, de que não parece com nenhum outro poeta. Parece com ele mesmo e com mais ninguém, e este é o maior elogio que se possa fazer a um outro poeta, segundo Hardi Filho, elogio que também uma vez lhe fiz, referindo-me à singularidade.

    Enfim, nesta coletânea antológica de sua poesia, lendo-se o poema “Último apelo”, nota-se o apuro intelectual/sensorial/sentimental que nada teríamos a dizer, senão engolir: 

“Depois de esgotada a palavra
 Resta chorar sobre o leito  
Por onde passam as águas
Para não morrer afogado 
nas lágrimas 
Represadas nos olhos”.

          Concordamos em muitas coisas, por exemplo: O tempo passa, mas não voa; nós é que devemos abrir as asas e voar para além do tempo, para pegar a vida. Vida fundida em desejos e poemas, em luz e auroras, em noites e estrelas, em canto de galos e dos passarinhos miúdos que tecem a música da madrugada, nos fazendo morrer devagar, devagar. Somos um só homem: este grão de areia diferente de todos no lençol da humanidade. Então, por que teríamos que fazer poesia copiando, imitando, surrupiando, enganando? Façamos a nossa poesia, quer fiquemos satisfeitos ou não. Há de encontrar leitor que queira engasgar-se com ela; há de encontrar leitores que a critiquem, rasguem-na ou, com ela, limpem-se na rua ou na privada.  E aí seria a glória do poeta. 

    Não sei se poeta algum fica, nem se o poeta poderá ser enxergado pelos estudantes e professores de universidade: isto aí são coisas da política cultural cega, que andam pelos pés aleijados da “mídia” e depois caem no buraco de lama do esquecimento.

    Poeta não é pra ficar, poesia não é pra ficar, é pra dominar voando de cada cabeça e coração, de cada alma e de cada pulmão. Poeta é pra sofrer, gozar, grosar. Ozildo, poeta não é feito pra ficar, porque nada fica.

    Ozildo Batista de Barros, poeta que faz muito bem em morar no sítio - um lugarzinho chamado de “Falecido Amor” - como Manoel de Barros, o maior representante da poesia de Mato Grosso, recentemente falecido – que nunca saiu de sua roça. Ozildo gosta da natureza, porque nela “nada se perde e nada se cria: tudo se transforma”. 

     Assim é o transformador da literatura poética, agora apresentado de corpo inteiro, nesta antologia de seus poemas, à qual, com muito gosto, prorrogo a mesma ou maior atenção do que à do “Etc. & tal”, na verdade o estouro da boiada que mora em Ozildo. 

    Dizendo isto, não importa que tenha exagerado ou escondido. Acredito que disse minha verdade sobre o muito e o pouco que conheço do poeta e da “persona” Ozildo Barros, amigo e irmão na poesia, com toda a preguiça e lentidão, que é essa a macha da natureza. E bem deveria ser também o nosso passo.

    Aprontado o prefácio, pronto e ponto até aqui. Como uma provocação: - Até nova prorrogação.
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*Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras.E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

 (Artigo-prefácio publicado no jornal "Meio Norte", 22/3/2016, e no jornal "O Dia", 23/3/2016 - jornais que circulam em Teresina e em todo o Piaui, além da parte do Maranhão).

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