domingo, 7 de fevereiro de 2016

A ALMA (DES)ENCANTADORA DAS RUAS

 Francisco Miguel de Moura*
                    

           Outrora as cidades tinham uma alma de encanto e beleza. As ruas, também. O escritor carioca, João do Rio, pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), autor de “A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS”, editado em 1908, abre sua primeira crônica assim: 

“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas.”.

Na “belle époque”, a obra causou “frisson”. Se fosse reeditada por alguém de juízo (e como as cidades estão necessitadas!), a repercussão seria enorme pelo contraste do passado com o presente. Ou seja, a modernidade matou a alma das cidades, avenidas, passeios, ruas, praças, serestas, cafés e clubes. E ainda há quem se arrisque a sair à rua de pé, para sofrer os encontrões, as pisadelas, os atropelamentos. Por quê? Em busca de ar... O de hoje é um inferno, poluidíssimo, sim, adoece, cega e mata.

Não se trata apenas pelo barulho de carros, motos, bicicletas e até animais, poluidores dos olhos, dos ouvidos, do pulmão. As calçadas (no sul chamam de “passeios”), travessas e ruas estão ficando mais atopetadas de camelôs e suas pobres mercadorias – coitados! Precisam ganhar o pão de cada dia!  Repletas de carros estacionados por cima, sem polícia, nem guardas de trânsito; ladrões andando à solta, até com roupas de policiais, desde assaltantes de velinhas e aposentados do INPS até de moças, mulheres, carros e distribuidores de droga. É o feitiço caindo contra o feiticeiro. São mais do que perigosos, com a arma em punho, entram nas casas de residência, de comércio, nos bancos e causam os maiores perigos ao cidadão. Também no meio da rua, aparecem de sopetão e logo dão as ordens:

- Não olhe pra mim, não se mexa vagabundo (ou vagabunda!) Quero a bolso e os cartões de crédito, quero tudo. Já!  - E começam a fazer a limpeza, se preciso derrubando a criatura no chão, atirando...

 Aos desordeiros, cabem todos os direitos humanos; aos cidadãos, nenhum, exceto o governo (imposto) e as leis. Aos desordeiros dão-lhes advogados de graça, bolsas para suas famílias, filhos e mulher (ou mulheres). Pelos familiares, uma parte do salário e bolsa são passados aos presidiários em forma de armas, drogas e mesmo dinheiro com o que possam fazer rebeliões e criar formas de fugir. E de novo vão pra rua. Mas os justos, os éticos e moralmente irrepreensíveis, os que apenas trabalham e pagam imposto são desprezados, maltratados, roubados, mortos. 

Ao lado da destruição do patrimônio histórico e paisagístico, pessoas gananciosas ou ignorantes derrubam tudo, da noite para o dia, erguem prédios enormes de pequenos apartamentos onde cada vizinho é capaz, e assim age, de fazer tanta zoeira que, não sei não... Enquanto os grafiteiros e baderneiros entram em ação, borram a cidade (paredes das casas e prédios públicos) e destroem o que encontram pela frente, pelo simples prazer de fazer o que dizem ser “protestos”. Então, por que não protestam de uma forma boa, sem prejudicar o direito à propriedade e à beleza da cidade?

Muita gente está mudando-se das grandes cidades para as menores, ou até para sítios bem distantes. É a fuga desses males do que se teima em chamar de modernidade. Isto é destruição, descaracterização, desonra, desmemória, desumanidade. Quem dera ainda se pudesse sentar nas calçadas, formando a rodinha de vizinhos e amigos para o jogo inocente ou a conversa e o cafezinho, à luz da lua ou mesmo da eletricidade, e desfrutar a noite como deve ser desfrutada: – na calma, para um sono tranqüilo! E não nos inferninhos, com luzes piscando por todas as frestas dos olhos e do cérebro com a ajuda de drogas legais e ilegais, com o demoníaco barulho do que dizem ser música. 

Quem pode amar tanto desmantelo? E mesmo assim, ainda a amamos. Por que a rua é sinal de liberdade, onde todos são iguais, solidários. Nela nasce a força da palavra contra os poderosos.  

Mas estão sepultando “a encantadora alma das ruas” da bela imagem de João do Rio. Morreram os seresteiros, a moças das janelas, não se ouvem mais os simples servidores e pregoeiros do pão e do leite. Que faremos, meu Deus, para re-humanizar as cidades e, por conseqüência, os homens? 

Se o cronista fosse escrever agora sobre as ruas e avenidas, jardins, passeios e praças, teria que escolher outro nome para seu livro. Creio que não seria mais nem menos que “A ALMA DESENCANTADORA DAS RUAS”, numa paráfrase ou paródia ao livro do grande cronista João do Rio.

Alguém seria capaz de dizer mesmo como é alma das ruas, das cidades, dos bairros de nossa incivilizada civilização?

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    *Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel), escritor, membro da Academia Piauiense de Letras. Meu e-mail:franciscomigueldemoura@gmail.com

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