segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A FAMÍLIA '"MORAIS FEITOSA", NO PIAUÍ


Franacisco Miguel  de Moura,
autor


Na “História de Picos”, algumas famílias merecem ser evidenciadas; a “Martins”, a “Santos”, a “Barros”, a “Luz”, a “Nunes” - importantes para algumas descobertas que indicariam o caminho percorrido pela civilização em Picos: a transmissão das características genéticas, da propriedade, do poder, dos costumes. Não esqueçamos as dos imigrantes, italianos, as famílias “Marcílio” e “Reinaldo”. Juntaram-se àquelas e hoje formam nosso tecido comum. Há  outras menores e mais recentes, nem por isto desimportantes. A família “Morais Feitosa”, da região dos Inhamuns-CE, tem um significado mais recente. Por um lado, sua vinda para o Piauí teria como motivo a seca. Por outro, origina-se de uma região onde havia muita “valentia”, muitos assassinatos. Motivos: geralmente por disputa de terra ou brigas entre famílias. Nos tempos de maior prestígio, dizem que assassinar era quase uma brincadeira: os “Feitosa” matavam um hoje e já deixavam outro amarrado para amanhã. Mas segundo Billy Jaynes Chandler, americano que estudou a genealogia dos “Feitosa”, isto vai para o terreno da lenda. Ele já encontrou uns “Feitosa” bem pacíficos e bem humorados.
          Na tradição histórica dos “Feitosa” consta uma moça guerreira chamada Jovita Feitosa, cearense que bem cedo veio para o Piauí e ficou morando com um tio, em Jaicós. Ela se tornou célebre pela ousadia de passar-se como homem e alistar-se em um batalhão para ir lutar no Paraguai. Se chegou até o Paraguai, se morreu antes no Rio (onde teria tido um caso de amor trágico) é outra história. Dois escritores piauienses foram buscar na tradição, nos jornais, arquivos e livros suas façanhas, para os romances “Jovita, Missão Trágica no Paraguai” e “A Voluntária da Pátria”, respectivamente de autoria de Assis Brasil e Humberto Guimarães.  À parte o valor expressivo e estético dos romances citados, eles prestaram um serviço enorme à comunidade pelas informações do passado piauiense. 
          Minha mulher, D.Maria Mécia Morais Araújo Moura, descende dessa família “Feitosa” - o mesmo tronco da família de Jovita. Seu pai, Laudimiro Morais Feitosa, foi uma figura muito conhecida em Picos, muito popular pelas suas loas e repentes, por qualquer motivo, a qualquer hora. E também pelas boas amizades que mantinha com as pessoas mais gradas da cidade como os “Nunes”, os “Barros”, os “Eulálio” e os “Luz”, de forma que foi convidado para ser membro do Diretório Municipal da UDN, à época o partido da oposição, pois quem mandava na cidade eram os “Santos”, através do chefão Coronel Chico Santos. 
Conta-se que Ágio Pinto, picoense da geração de Laudimiro Feitosa, certa vez, em conversa com outros e em sua presença, o instiga com a pergunta: - “Seu Mira, de que tanto se admira?” E Laudimiro Feitosa, mais conhecido por Mirô, responde em cima da bucha: - “Deixe de lorota, filho de Maria Cambota”.  Eu mesmo o ouvi de viva voz, quando acabava de jantar: “Comer quando tem fome, / beber quando tem sede, / dormir quando tem vontade. / Deus nos abençoe por caridade” E terminava fazendo o “sinal da cruz”, cerimoniosamente. Mirô levantava bem cedo e ia ao açougue comprar carne. O açougueiro, Quinca Cristino, da família “Gonçalves”, não sei por que carga d'água, entre um palmo e outro de conversa, resolve mexer com seu Mirô: - “Na casa de seu Mirô Rapadura tem muita fartura”.  E ele responde em cima da fivela: - “E na casa do “Camisão” só tem precisão”. De fato, Quinca Gonçalves usava camisa comprida e por fora das calças. Daí o desabafo de Mirô, por causa do apelido “Rapadura”, do qual não gostava, não obstante seu pai já possuí-lo, justo por praticar o comércio de rapaduras, mercadoria tão preciosa naquele tempo, de forma ambulante entre o Piauí e o Ceará. Seu Mirô, ao contrário, fora sapateiro, na mocidade, e depois se estabeleceu com o comércio de mercadorias em geral.
          Laudimiro Morais Feitosa nasceu em 04-03-1907 e faleceu em 19-6-1963; era filho de Joaquim Morais Feitosa, cearense dos Inhamuns, e Josefa Maria da Conceição, picoense da Sussuapara. Aliás, os picoenses gostavam de escolher moças da Sussuapara, e às vezes percorriam toda a ribeira do Guaribas e avançavam pela do Riachão, no afã de encontrarem noivas bonitas e de boas família.  Laudimiro Morais Feitosa (vulgo Mirô) casou-se pela primeira vez com Isabel Francisca da Costa. Ele tinha então 18 anos e ela apenas 17. Ela faleceu em 15 de novembro de 1934, deixando três filhos: João Morais (Feitosa) Sobrinho, nascido em 1927, ex-padre e professor; Maria do Socorro Morais Ferreira, nascida 1928, de prendas domésticas, já falecida, e Antônio Morais (Feitosa) Sobrinho, nascido em 1929, funcionário dos Correios, já falecido. Seu Mirô, como era conhecido, casou-se, em segundas núpcias, com Esther Morais de Araújo, ela paraibana, nascida em 10 de janeiro de 1911 e falecida em 06 de setembro de 1987, seus pais eram Avelino Pereira de Araújo e Maria da Conceição Neves. Os avós de Laudimiro Morais Feitosa, naturais da mesma região que o pai, eram José Alves Leite e Mãe Velha (o informante, seu bisneto Pe. João Morais Sobrinho, não conseguiu lembrar o nome legal).  Quando seu Joaquim Morais Feitosa, pai de Mirô, veio do Ceará  trouxe em sua companhia duas irmãs: Maria e Belisca. O segundo casamento de seu Laudimiro Morais Feitosa foi com dona Esther Morais de Araújo, paraibana de Sousa (dos Araújo), nascida a 10 de janeiro de 1911 e falecida em 6 de setembro de 1986), de cujo consórcio nasceram Maria Mécia Morais Araújo, em 10-4-1941(que se tornou minha esposa), e  Francisco Morais  Araújo, a 16-3-1944, funcionário da CEPISA, aposentado. No percurso que traçamos, além da ligação dos “Morais” com os “Moura”, que acabamos de mostrar, outra ligação importante estabelecemos: com a família “Conrado Costa”, visto que a primeira sogra de Laudimiro Morais Feitosa, era dos “Conrado” e casada com José Borges Leal. Assim, chegamos a um representante da família mais antiga de Picos, a “Borges Leal”, ligado a Mirô, por via do casamento. 
          Os “Feitosa” estão espalhados por todo o Piauí. Conheci o grande jornalista Helder Feitosa, assassinado misteriosamente. Em Teresina, conheço mais um colega, aposentado da Cx. Econômica, que o chamamos familiarmente de “Feitosa”; conheço Dª Liane Feitosa, cujo esposo comprou minha casa, quando me mudei para apartamento; conheço Viviane (jornalista de “O Dia”); conheço o Dr. Gisleno Feitosa, criatura amável, médico competente e poeta nas horas vagas; e todos se declaram “Feitosa” de origem. E atesto que nunca vi pessoas mais amáveis, mais alegres, inteligentes e prestativas. Não tenho que me queixar da família de minha mulher, ao contrário, agradeço a Deus tê-la sempre a meu lado.

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   *Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

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