sábado, 25 de maio de 2013

LUTA E LUTO: JOSÉ SEBASTIÃO RIOS DE MOURA

Francisco Miguel de Moura (*)
membro da Academia Piauiense de Letras
Teresina - PI


      Sinto-me pequeno para escrever esta crônica e memória de José Sebastião Rios de Moura, até mesmo pela sugestão do sobrenome, jovem piauiense que foi engolido pelo tempo, após o regime de 1964/1968, da dura repressão a quem fosse contra o governo (os militares haviam tomado conta por um golpe de estado). Pequeno, porque a emoção toma conta da gente, nem que seja forte. Emoção só agora aguçada pela matéria de capa da revista “Cidade Verde”, de 19 de maio de 2013. A história de Sebastião vai virar filme, conforme deseja e saberá fazê-lo o jovem cineasta Duca Rios, sobrinho que tanto sentiu ao saber que o tio tinha sido morto: “Nós, os miúdos, fomos desencorajados a participar do enterro, mas não é difícil imaginar uma cena com minha avó Aracy, baixinha e gordinha, olhos de índia e cabelos ainda não totalmente brancos, apesar dos 70 e tantos, sustentada por duas beatas e mal podendo falar, dona Vanete, minha mãe, com um metro e sessenta de preocupação, patinando por todo o perímetro do velório, e doutor Silvestre, meu pai, sempre à distância, sempre fumando, sempre a conversar com algum amigo que, por coincidência, participava de uma mórbida cerimônia do Jardim da Saudade.”

     Quando José Sebastião voltou ao Brasil, vindo de vários países por onde andou em exílio forçado (para o Governo Militar era um desaparecido), foi trabalhar no Museu de Ciência e Tecnologia de Salvador, BA. Queria voltar a ser apenas um cidadão “invisível”. Porém, em 30 de maio de 1983, foi alvejado, em frente à Farmácia da Vitória (bairro nobre da capital baiana), com três tiros por uma dupla de paletó e chapéu. Após quatro dias de internação, faleceu o artista piauiense. O crime já completa 30 anos sem solução, assim conta a revista “Cidade Verde”. A matéria é bem feita, espetacular, imperdível.

    Agora nos damos conta de quanto perigo nós corremos: estudantes, intelectuais, artistas, trabalhadores, participantes de qualquer movimento que congregasse mais de duas pessoas. Nós que amealhamos alguns tostões para que outros pichassem as paredes da cidade contra a supressão da liberdade e a tirania dos "DOPS" da época. Lembro que ninguém podia sequer ouvir Vandré ou Chico Buarque: a polícia batia à porta. Lembro que por mais de uma vez fui seguido por militares, assim amigos me contaram, lembro que duas vezes fui ao "DOPS", para responder a umas “pegadinhas” que me impressionavam, deixando-me mais nervoso do que sou - isto simplesmente por ser amigo de Benoni Alencar, também bancário como eu, o qual tinha sido preso, após ser encontrado com uma lista de nomes que julgaram ser de comunistas e perturbadores da ordem por eles imposta.

     Ainda pegando a deixa do depoimento de Duca Rios sobre o tio: “Mas a verdade é que cresci com algo entalado na garganta. Afinal, a polícia nada concluíra com relação ao fato e levando-se em conta que tio José havia participado do famigerado MR-8 (Movimento revolucionário de 8 de outubro), e que, embora os que padeceram do exílio político estivessem há muito tempo anistiados, o comando do governo brasileiro ainda pertencia ao melancólico João Baptista Figueiredo e seus generais, almirantes e brigadeiros, não há como não suspeitar de que seu assassinato em frente à Farmácia da Vitória tenha sido um crime político. Quem mandou? Quem matou? Quem se importa? O passado há muito está sob sete palmos de terra” – finaliza o documento do sobrinho de Sebastião Moura. 

     Fico pensando que a “Lei da Anistia” foi tão parcial que nem mereceria ser levada a sério: Julgou e anistiou alguns dos “esquerdistas” (os perdedores) e colocou os militares e “torturadores” numa posição de intocáveis (os ganhadores, nada ditadura), mas que também, automaticamente, se tornariam perdedores, numa democracia). Quando dois brigam, nenhum tem razão, eu creio que é isto que a Constituição diz que "todos são iguais perante".

     Mas o Des. Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, a OAB e outros que lutam realmente pelos direitos humanos estão aí e certamente tentarão revê-la e aprimorá-la, colocando-a dentro dos padrões humanitários. Crimes de tortura e morte de civis em massa são crimes contra a humanidade. A “Comissão da Verdade” deve estar estudando tudo isto com carinho. De qualquer forma, existe uma ameaça pairando no ar: A de apelações para a Corte Penal Internacional. Se os disparates da “Lei da Anistia” forem corrigidos por esses governos do PT, que eu tanto critico, passarei a acreditar que eles, partido e governos, valeram a pena, não obstante a corrupção e criminalidade que tanto vem penalizando o povo brasileiro, nos últimos anos.
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(*) Francisco Miguel de Moura publica artigos no jornal "O DIA", de Teresina -PI, todas as sexta-feiras.

Um comentário:

Ducca Rios disse...

Obrigado por "se importar"...

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