sexta-feira, 21 de março de 2014

A GUERRA CONTRA O JUMENTO

 http://cirandinhapiaui.blogspot.com
Francisco Miguel de Moura*

        Quando vi e ouvi a notícia no Jornal da “Globo”, sobre a matança dos jumentos no Rio Grande Norte, simplesmente porque eles atrapalham o trânsito nas rodovias, causando acidentes, fiquei horrorizado. Na notícia aparecem senhores que se pavoneavam comendo o churrasco:

      - Que carne gostosa é a de jegue! 

       Pensei comigo: 

        - “Que absurdo! Gostosa é sem dúvida. O leite da fêmea também é muito gostoso e serve de remédio. Quando apanhei a tosse brava, a famosa coqueluche, tomei-o e fiquei logo bom”. 

         Pelo jeito da notícia, querem mesmo acabar com a espécie, achando que no sertão “as motos” podem substituí-los no serviço que os pobres animais fazem. Impossível! Não é coisa de comparar. Jumento sobrevive nas piores condições de seca, come erva rasteira, bagaço e até molambo. Suas fezes servem de adubo para a terra. E prestam um serviço incalculável ao sertanejo, seu transporte é o mais barato para ir à feira e à roça, para carregar pesadas cargas pacientemente. Que mal, então, eles fazem?  Se vivem às margens das estradas e atravessam-nas alguma vez é porque os governos não isolam essas vias com cercas. O jumento, enquanto procura comida, presta um serviço enorme, por isto é apelidado de “guarda de trânsito”, e cobra nada. Diminuem, assim, a carreira de muitos veículos que tantos seres humanos têm matado. Conversando, hoje, com um professor da Universidade Federal, ele me assegurou que algumas mortes desses animais não acontecem por batidas de carros, mas por tiro. É maldade grande. 

          Após a notícia da “Globo”, houve um comentário de que o Serviço de Proteção aos Animais já está em campo, defendendo os jeguinhos, pois, se a moda pega, a espécie será extinta, o que é uma perda enorme para o sertanejo e para o nosso folclore. O Pe. Antônio Batista Vieira, cearense de Crateús, nascido em 14-6-1910,  que,  além do estudo em sua própria terra, fez altos estudos nos Estados Unidos, publicou o livro “O jumento, nosso irmão”, em 1964, entre outras obras importantíssimas da vida nordestina.  Precisa-se conhecer mais a história da cultura ocidental e saber que o jumento é um animal sagrado. A tradição é antiga, vem do Oriente Médio, através da Bíblia. Não, não matem o jumento! Ele é tão bonito, paciente, trabalhador, amigo! Só os burros podem prosseguir com um projeto tão monstruoso quanto este de assiná-los.  

          Todos nós sabemos a história de que, quando Jesus nasceu, uma estrela nova surgiu no céu. Os sábios reis magos do Oriente, Belchior, Gaspar e Baltazar, passaram pelo palácio do governador da Judéia na época (Herodes) e contaram que iam visitar um novo rei, nascido em Belém. O governador recomendou-lhes que, na volta, viessem contar-lhe o que viram de verdade. Mas os sábios não voltaram. Então, Herodes decretou que todas as crianças nascidas de até 2 anos antes, a contar do dia da estrela, fossem caçadas e mortas. Nenhum outro rei lhe tomaria o trono. Foi então que Maria e José, os pais de Jesus, fugiram para o Egito com o recém-nascido, até que tudo passasse e pudessem voltar à Nazaré, anonimamente. José puxava um jumentinho levando Maria e a criança. Grande missão do nosso querido irmão, o jumento.  

          Mas noutra ocasião Jesus também escolheu o jumento para montar. Foi no dia da sua entrada triunfal em Jerusalém, na festa da Páscoa, onde seria preso e condenado à “morte de cruz”. Prefiro transcrever alguns trechos do livro “Vida de Jesus”, que é uma obra maravilhosa, aprovada pela Igreja e agora por mim também:

       - “Ide vós, Pedro e João (ordenou Jesus) à aldeia de Betfagé. Ali, nas primeiras casas, detende-vos. Vereis amarrada a uma argola, uma jumenta e, próximo dela, um jumentinho que ainda não foi montado por nenhum homem. Desamarrai a jumenta, e o filhote a acompanhará. Trazei-mos. Alguém reclamará, mas respondereis que Jesus precisa do jumentinho e o restituirá ainda hoje”. Depois de narrar um pouco, autor do livro, louva-nos às páginas do evangelista citado, que dissera ser a festa da Páscoa do ano, porém aquela era maior que as demais: “Desta vez o espetáculo ganhava sentido novo, alta expressão de incomparável grandeza mística. A multidão dos peregrinos não vinha sozinha: trazia o seu profeta. Não era mais um rebanho sem pastor, desamparado de toda a esperança: Jesus marchava à frente, montando seu jumentinho, e Jesus era o guia, a luz, a consolação que viera a Israel, depois de tão longas e escuras vigílias nacionais”. Jesus deteve-se no topo do mais alto monte e, contemplando a cidade, pôs-se a chorar”. É que Jesus antevia, diz Salgado, baseando-se no mesmo evangelista Mateus, a tomada e destruição de Jerusalém pelos inimigos, que “não deixarão sobre ti pedra sobre pedra”. Jesus Cristo previa, como é próprio dos profetas, tudo o que iria acontecer depois. Por isto, não custa nada fazermos uma oração ao próprio Jesus para que os homens de hoje criem amor pelos jumentos e jumentinhos, deixando-os em paz.

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 * Francisco Miguel de Moura - Escritor, membro da APL - Academia Piauiense de Letras, sede em Teresina- PI - Brazil, e da IWA - International Writers and Artists Association, sede em Toledo, Estados Unidos da América (USA)

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