terça-feira, 19 de abril de 2011

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA: “O QUE IMPORTA É A BUSCA”





Entrevistado: 
Francisco Miguel 
de Moura - Escritor

Entrevistadores:
Fábio Maciel  e Filipi Gustavo, estudantes de
jornalismo da Universidade Federal do Piauí (dez/2010)

Ainda pouco conhecido pelo grande público, o escritor piauiense Francisco Miguel de Moura é um cordial senhor de 77 anos de idade que tem construído uma sólida carreira literária nas últimas quatro décadas.
 

Apreciado por críticos de centros como Rio de  Janeiro, Brasília, São Paulo e até mesmo nos Estados Unidos, quando seu livro “Poemas Escolhidos” recebeu prêmio da International Writers and Artists Association, em 2006, Chico Miguel – como é conhecido nos círculos literários – escreveu cerca de 30 livros, romances, contos, poesias, crônicas e crítica literária. Ele já foi professor e funcionário do Banco do Brasil. É membro da Academia Piauiense de Letras e escreve artigos para o jornal piauiense “O Dia”.
 
Em entrevista concedida,  em sua residência, localizada na Zona Leste de Teresina, o escritor Francisco Miguel de Moura fala abertamente sobre os seus primeiros anos de vida, no município piauiense de Francisco Santos, literatura, métodos de escrita, a função das Academias de Letras e  como conciliou as responsabilidades familiares e profissionais com o ofício de escrever, falando ainda sobre o sentido da vida e os sonhos que ainda almeja realizar.
 
O que o senhor tem lido esses dias?

         Eu tenho lido pouco, tenho mais relido. Porque, nessa fase da idade, a gente fica mais preguiçoso pra ler. Mas eu já li muito mesmo – aquela estante era cheia de livros clássicos lidos e relidos que acabo de doar para uma biblioteca em Francisco Santos, minha terra, cuja biblioteca vai ter o nome do meu pai, Prof. Miguel Borges de Moura.
         O livro clássico que eu li, mais recentemente, foi “Passagem para a Índia”, de um escritor clássico inglês, E. M. Forster. Ele (Forster) é um clássico no romance e também na teoria do romance. Estudei um livro dele quando fazia a Faculdade – “Teoria do Romance” – e, de certa forma,  tenho me baseado nele, nos meus romances e  na teoria literária deste autor, mas só agora cheguei a ler um romance dele (“Passagem para a Índia”).

 
De que forma ele marcou o seu jeito de produzir?

          No tempo que li o livro sobre teoria do romance de Forster eu ainda estava na Faculdade de Letras, tinha um romance começado e já escrevia: – um livro de poesias já publicado, mas romance mesmo eu ainda estava começando, tentando escrever o primeiro: Os Estigmas. Naturalmente essa teoria e outras, de certa forma,  me guiaram, nos primeiros instantes.

Para o senhor, o que é literatura?

         Eis uma pergunta difícil.  Difícil de dizer, mas todo mundo sabe o que é, e é bom por isso mesmo. A Literatura teoricamente é uma linguagem que fala dos sentimentos e da imaginação. Uma linguagem criativa que, através do sentimento e da imaginação, cria um mundo diferente – o mundo ficcional. Mesmo a poesia, que muita gente acha que não é ficção, também é ficção, porque o autor não vai escrever só sobre sua própria vida, ele escreve poesias para um suposto leitor, o povo. Se ele escrever só suas próprias coisas, sua própria vida, o público não há de gostar e certamente o abandonará.

É importante o leitor ter essa relação com o autor, ou também é válido aquele artista que se fecha e escreve só para si mesmo?

         Mesmo aquele autor que parece muito fechado, quando escreve está aberto ao mundo. Se ele estiver sempre fechado não conseguirá escrever bem. Logo, ele também está aberto aos leitores. Nós só escrevemos porque acreditamos que temos leitores, no dia em que crermos que não temos ou teremos mais leitores, escrever pra quê?
       Há autores que, na vida pessoal, privada, são muito abertos – conversam com todo mundo, são extrovertidos, etc. – e há outros que são mais fechados porque são assim mesmo. Uns são de um jeito, outros de outro, é uma questão humana, uma questão do ser homem e não do ser escritor.
 

Até que ponto o autor deve negociar com o leitor, tentar agradá-lo?

      O autor não negocia com o leitor. O negócio do autor é com a verdade de sua obra. Uma verdade ficcional, não uma verdade teórica, social, etc. Algumas pessoas dizem: ‘Ah, mas o autor tal não fala em religião!’ E eu digo, ele não tem obrigação nenhuma de falar em religião. ‘Ah, é porque parece que é ateu!’. E eu digo, o autor tem liberdade, sendo ele ateu, religioso, não importa, ele tem liberdade para ser e escrever o que  quiser, como todo homem tem liberdade para ser o que bem quer. Então, quando ele vai escrever, o escritor usa essa liberdade – mais do que as outras pessoas e mais do que no convívio social – para dizer a verdade. Tanto é assim que ele inventa histórias, para através dessas mentiras (entre aspas) contar a verdade.
 
Como foi a sua infância e adolescência?

      Minha vida foi uma vida de cigano porque meu pai era “cigano”, no modo de ser e viver, não que fosse um cigano. Meu pai era um homem que vivia de lecionar e, como naquele tempo não havia emprego público, ele saía de fazenda em fazenda, de povoado em povoado, de cidade em cidade, e botava uma escola por um ano, ou por seis meses, e depois fechava, indo mais adiante para criar outra. Então, eu vivi em muitos lugares quando era menino. Na minha terra natal, Francisco Santos – PI, vivi até os seis anos, mais ou menos.

O senhor guarda muitas lembranças de lá?

      Tenho muitas lembranças. Inclusive escrevi, agora, um livro que é baseado nesses seis anos que morei lá. Na verdade, esses seis anos e mais uns poucos, porque saí, mas voltei por pouco tempo, e saí de novo e voltei outras vezes. O livro se chama “O menino quase perdido”.

Quando o senhor ingressou na universidade? Como o senhor conseguiu conciliar sua produção literária com o emprego e a faculdade?

       Ingressei na universidade após vir morar em Teresina, já casado. Já havia ingressado no Banco do Brasil, na temporada que morei em Picos, assumi dois anos antes de casar.
       Conciliar a produção literária com esse cotidiano é difícil, principalmente quando a gente é empregado, que tem que dar contas ao patrão. Porém, eu acho que o Banco do Brasil me deu o suporte que eu precisava para poder desenvolver-me. De certa forma não me atrapalhou, é claro que procrastinou – jogou para depois a minha produção mais significativa.Terminei o segundo romance (“Laços de Poder”),  quando ainda trabalhava no Banco do Brasil e  quando o lancei já tinha me aposentado. Escrever prosa dá mais trabalho.
       Mas eu já havia escrito um livro que me deu muito nome como crítico, que foi “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”, que foi meu segundo livro, de 1972, quando eu estava terminando a Faculdade de Filosofia do Piauí. O. G. Rego de Carvalho é um dos grandes nomes da literatura piauiense, quiçá até do Brasil.
        Posso dizer que o trabalho, no Banco do Brasil, não me atrapalhou, porque nessa época, lá em Picos, eu ainda não escrevia – rabiscava nos cadernos e tal, mas não tinha como publicar – ainda não era escritor. Depois que cheguei a Teresina, publiquei meu primeiro livro, “Areias”,(poesias,  1966), aí fui para a Faculdade (passei no vestibular de Letras), e então engatilhou: escrevi muita poesia, muito artigo para jornal, escrevi para revistas, etc.

No início de sua carreira literária, como era conciliar a rotina do dia a dia com a produção? Tinha uma hora certa para escrever?

        Não tinha rotina e não tenho até hoje. Sou inimigo da rotina. Eu acredito e tenho observado muito que isso acontece: sou geminiano, e geminiano não quer saber de rotina, está sempre procurando coisas novas.
        Então, eu não tinha rotina, mas o tempo que me sobrava era à noite, quando eu não estava no banco, e nos fins de semana e feriados eu não fazia outra coisa, nunca gostei de farra nem dessas coisas. Não que eu não fosse nem a um clube. Mas não era muito constante, meu lazer era esporádico.
        Hoje, quando eu tenho todo o tempo livre, uma coisa que posso dizer que faço sempre é que, normalmente, durante o dia eu escrevo – quando vêm a vontade e as idéias – faço à mão e depois digito ao computador. No dia seguinte, cedo da manhã, vou ver e julgar, e mais da metade costumo jogo fora.

O senhor costuma revisar muitas vezes os próprios textos?

       Demais. Acho que tudo que deve ser feito, tem que ser bem feito. Não se deve fazer nada malfeito. João Cabral de Melo Neto falava que escrever é como catar feijão, porque você debulha o feijão, cata. Escrever é catar as coisas:  as palavras e  as idéias.

E o contato com os escritores do Piauí, como tem sido? O senhor tem amizade especial com algum deles?

Os contatos foram e são ótimos. A amizade maior que eu tive mesmo foi com O. G. Rego de Carvalho – ele é quase da minha idade, uns três anos mais  do que eu, mas o considero meu mestre, porque quando trabalhei com ele, no Banco do Brasil, em Teresina, ele já tinha escrito dois livros, já estava velho na estrada e eu estava começando. Além dele, o Fontes Ibiapina, que eu conhecia de Picos e também considero um grande mestre. Foi ele quem deu o prefácio de minha estréia: “Areias”.

 
Como o senhor vê a importância da Academia Piauiense de Letras no Piauí atualmente?

A importância das Academias, digamos assim, com relação à modernidade, não é lá tão grande, mas também não é função dela.  A Academia é um clube de arte e cultura. Temos que ver as coisas como elas são: - Não é uma entidade que vá atuar como um sindicato ou coisa do tipo. Ela é um clube das pessoas mais idosas na arte e da literatura, porque só se chega lá após ter publicado livros...  É necessário escrever bem, falar bem e ter cultura. Pra chegar lá é muito difícil, porque só são 40 cadeiras. Muita gente quer e merece, mas não vai poder entrar nunca. Então, é uma oportunidade única, de excelência, entrar para a Academia. Na Academia conversamos, comentamos as notícias culturais e literárias, distribuímos livros, fazemos discursos, palestras, escrevemos, e isso não é pouco.

O senhor já foi elogiado pelo Drummond, como foi isso?

        Sim, mandei meu livro “Universo das Águas” – publicado em 1979 -  para ele. Naquele tempo, eu tinha uma revista chamada Cirandinha, a mandei junto com o “Universo”, meu terceiro livro. Como eu  falei, meu  segundo livro, “Linguagem e Comunicação...”, me valeu a projeção nacional, mas como crítico, e “Universo das Águas”, com esse elogio do Drummond, acho que valeu meu reconhecimento nacional como poeta.

Até que ponto é importante para um autor piauiense esse reconhecimento nacional?

Todo reconhecimento é bom. Diz Léon Tolstoi – para mim, um dos maiores romancistas do mundo, junto com Dostoiévski – que “se queres se tornar grande, fale primeiro da sua aldeia”,  foi mais ou menos isso que ele disse e que eu fiz.

Como o senhor vê, atualmente, a literatura no Brasil?

       Hoje a coisa está muito conturbada, é difícil entender a atualidade, se entendemos a história. Eu não posso dizer que está bem ou que está mal, porque realmente não sei. Costumo usar a internet, estou a par das notícias todas, mas sobre esta questão do movimento literário do Brasil é difícil falar, principalmente depois que surgiu a internet, a coisa mudou demais. Outrora você chorava para publicar um artigo em jornal, um poema num suplemento literário... Hoje em dia não precisamos, você tem seu sítio, um blog,  e publica o que quiser.

Até que ponto isso é bom?

         Creio que isto seja muito bom pra muitas coisas, pra outras nem tanto. Por exemplo: Você tendo um site ou blog, lá você coloca suas coisas e por lá faz suas andanças, pela internet, que é um oceano. Por lá mesmo você faz sua propaganda. A internet é um mundo inteiro, se você souber outras línguas, melhor ainda, quanto mais cultura você tiver, melhor. Mas é preciso dizer: Ela somente não resolve, a internet é um caminho, existem outros, como publicar por editoras.  Eu recebi hoje um livro de poesias que nunca tinha sido editado, quer dizer que  agora encontrei uma editora, lá em São Paulo. É um romance da revolução de 64, em poesia. Escrevi no final dos anos 70, início da década de 80. Tudo graças à internet.

O senhor escreve semanalmente para o jornal “O Dia”, como tem sido essa experiência?

É uma experiência boa, fico sempre ativo, mesmo que seja por uma obrigação que me proponho. No Brasil não existe escritor profissional, escritor não é profissão. Tem alguns, como Paulo Coelho e alguns outros famosos, e aqueles que escrevem livros didáticos, mas escritor profissional mesmo, no Brasil, não existe. Então, se ele não é profissional e se ele não impõe a si mesmo determinadas tarefas, termina não escrevendo nada.  Então, eu me imponho determinadas tarefas. Essa questão de escrever, semanalmente, para o jornal, eu não dispenso.

Em um trecho de um artigo seu, o senhor escreveu que a questão fundamental não é crer ou deixar de crer, o que importa é a busca. Como isso se relaciona com seu modo de vida?

Quando você nasce, o que é que você sabe? Nada; você apenas é. Você já nasce com todas as capacidades, mas não sabe de nada, aprende com a vida. A criança aprende numa rapidez incrível, elas apenas pensam diferentemente dos adultos. Nós, que somos adultos, quando vamos observar uma criança, já não estamos mais no mundo delas, é preciso a gente se transportar, é preciso recriarmos, e foi isso que eu tentei fazer no meu livro “O menino quase perdido”, fazer este transporte para o mundo da criança. O real é a gente viver sempre buscando. Se você deixar de buscar, de ter expectativas, esperanças, morreu o ser pensante. O importante é a busca.

Já que o senhor fala dessa busca pessoal incessante, que o homem não pode parar de buscar nunca, o que ainda falta para o senhor buscar?

Acho que falta muito ainda. Eu tenho uma vontade muito grande de escrever uma peça de teatro, por exemplo. Já escrevi algo, mas em poesia e uma peça pequena. Mas gostaria de escrever uma peça, em prosa, e vê-la representada. Essa é uma das minhas esperanças, uma das minhas buscas.  Fora isto, o que eu quero é o que todo escritor quer: - Ser reconhecido, mais e mais. Saber que tenho mais leitores a cada dia, que as pessoas gostam do que escrevo.

__________________

*Entrevista realizada por Fábio Maciel e Filipi Gustavo, estudantes de jornalismo da Universidade Federal do Piauí (dez/2010)

5 comentários:

carmen silvia presotto disse...

Sermum eterno aprendiz sempre:
"Quando você nasce, o que é que você sabe? Nada; você apenas é. Você já nasce com todas as capacidades, mas não sabe de nada, aprende com a vida."

E uma das boas escolas sempre são as entrevistas, elas dizem do autor, dizem da obra e nos determinam mais desejos de buscas...

Parabéns e gracias por seres quem és, um defensor da Cultura!

Beijos,
Carmen.

Gisa disse...

Adorei te conhecer mais um pouco e, para minha felicidade, conclui que já te conhecia muito.
Um grande beijo querido amigo e segue com esta força e candura que ultrapassa as telas e invade o mundo.
De uma pessoa que te admira muito
Gisa

Iram M. disse...

Que entrevista maravilhosa, com respostas inteligentes e conteúdo abrangente.
VOCE É MUITO ESPECIAL, MIGUEL:
Quando te leio sinto um carinho enorme pela sua pessoa.
Uma boa pascoa pra vc e sua família, querido.

beijos

CHIICO MIGUEL disse...

Carmen, Gisa e Iram,
Minhas gueridas leitoras, vocês me deixam sem jeito,comovido pela generosidade e ternura de seus comentários. Em lugar de tornar-me vaidoso, sinto_me pequenino. Mas sei que é importante para meu crescimento como homem e como escritor. Admiro vocês pela dedicação e sensibilidade, coisa de mulher. Nós homens, coitados, tentamos ser tão durões! Mas lhes sou franco: eu tenho muito de mulher: sou tímido e puro, por isto sofro. Graças a Deus!
Vocês vivem no meu coração. Beijos de agradecimento.
francisco miguel de moura

carmen silvia presotto disse...

Querido Amigo, sentimos tua sensibilidade e por isso estamos aqui...

Um beijo amigo e desejo de Feliz Páscoa a ti e todos teus amores.

Carmen.

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