terça-feira, 22 de junho de 2010

POVO BRASILEIRO, O QUE É ISTO?


Francisco Miguel de Moura 
         Escritor

Há algum tempo, quando fui a um banco e lá me ocupava com o pagamento de umas faturas, pus o meu cartão de CPF ao lado do cash (caixa eletrônico).. Terminadas as operações, olhei para onde tinha posto o documento e vi o canto mais limpo. Alguém tinha passado a mão.  Dias depois, o mesmo se repete, só que agora o objeto era uma revista de músicas. Muitos casos semelhantes já me contaram, outros até presenciei. Foi o desaparecimento de uma revista de história, documento raro, conduzido pelo acadêmico e historiador Fonseca Neto. Ele fora à Academia, dia de eleição de novo acadêmico, por isto ficara absorvido na apuração dos votos. Quando vai sair, cadê a revista? Simplesmente desapareceu.  Celulares, canetas, bolsas, objetos pessoais até de mínimo valor desaparecem como por encanto, de reuniões, na rua, nos bancos, nas repartições públicas.
Lendo o jornal “O Dia”, de 29/5/2010, dou com a vista em mais este “triste episódio da vida real”, matéria assinado por Flávio Ricco: –“O médico Malcolm Montgomery, casado com a atriz Carla Regina e conhecido pela sua participação em vários programas, há menos de 3 semanas pegou um táxi em Congonhas, entre os ‘credenciados’ que servem ao aeroporto. Sem querer, deixou cair a carteira no carro, com dinheiro, cartões, todos os documentos, além do celular. Embora exista a filmagem e ele apareça embarcando, nunca teve os seus pertences de volta. Não foi possível identificar a placa do veículo. Na semana passada, o mesmo Malcolm esteve na Bahia participando de homenagem ao médico Elsimar Coutinho, que completou 80 anos. Chamado a ocupar um lugar na mesa principal, e como não ficaria bem carregar no ombro a sua bolsa de viagem, deixou-a sob os cuidados de um conhecido. Bastou um segundo de distração, e também ficou sem ela. Isto dentro da Câmara Municipal de Salvador. Restou procurar uma Delegacia e fazer um boletim de ocorrências, o que também não conseguiu porque a Polícia Civil estava em greve.”.

Juntando uma coisa com outra, lembro que outrora os políticos diziam “nosso povo é muito bom...”, encaraptidados em seus palanques eleitorais. Com relação a isto, calaram o bico. Que diria, hoje, D. Pedro II, o mesmo monarca que cunhou a frase “Grande povo, grande povo!?” Creio que estaria profundamente arrependido. Mas o povo também não confia nos políticos e vota por dinheiro, cargo ou posição, ou ainda por qualquer migalha, sem pensar na melhoria do país onde vivem. Está claro que o Brasil transformou-se, e o povo brasileiro também.  Será que ainda podemos dizer como João Ubaldo Ribeiro, escritor baiano, “Viva o povo brasileiro!”– nome de um dos seus romances que fez sucesso?
   
“Nosso povo” diz, à boca grande, que os políticos, as elites são terríveis: – corruptas e corruptoras, mentem, furtam, roubam o erário público, perpetram crimes, matam e mandam matar, não valem nada.
     
A globalização da informação, através da tevê, da internete, houve uma flexibilidade geral: crédito, moeda, sexo, política, propriedade privada, e assim o Brasil chegou a um arremedo de socialismo, um socialismo às avessas, em que a classe dirigente tem o Estado como seu, de verdade, a classe média paga os impostos e sofre, e a pobreza recebe bolsas de todo tipo, uma gracinha pra não trabalhar nem produzir. Liberada a ética e a moral de qualquer natureza, “o povo” (no sentido geral) perdeu a vergonha. Tudo é válido desde que se tire alguma vantagem de alguém: a lei de Gerson.
   
Conclui-se, então, que não existe um povo brasileiro. O que se vê, observa e sente é um amontoado de gente que não possui um “tico” de vergonha na cara (nem em qualquer parte). Ninguém cumpre horário nem contrato, ninguém respeita a língua, ninguém ama a pátria. Isto é, na maioria há uma falta quase absoluta de valores (salvo festas, brincadeiras, anedotas, misticismos às vezes absurdos). Vale dizer, somos gente sem religião e “sem princípios”, o que na linguagem dos antigos significava: – sem educação. Uns verdadeiros “descaracterizados”. Mário de Andrade já sabia disto, desde o começo do século XX, conforme está no seu célebre romance “Macunaíma” – o herói sem nenhum caráter – NÓS.

              

http://cirandinhapiaui.blogspot.com

3 comentários:

Lua Nova disse...

Endosso cada palavra, cada pensamento seu. Reclamamos dos políticos, mas os políticos saem do povo, um povo que atualmente não se reconhece como "o povo de uma nação", a não ser na hora do futebol. Nessa hora tem até musiquinha: "eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!!!"
Uma semana maravilhosa pra vc, poeta e obrigada por sua presença no Chocolate.
Beijos.

Antônio Carlos disse...

Chico,
É lamentável, mas tenho que concordar com quase tudo o que você falou. O povo brasileiro (na sua grande maioria, claro) realmente perdeu o senso do ridículo, por tudo quanto você já relatou. Os nossos desavergonhados políticos perderam, há muito, todos os valores moraes, éticos, inclusive o patriotismo. Guardadas raríssimas exceções, são todos sanguessugas da pátria. Há um dito popular que diz que "Quando se perde a vergonha, não se tem mais nada o que perder".
E o pior é que os outros poderes, de quem sempre esperamos providências nesses casos, mostram-se cegos e impotentes. E agora, José?
O brasileiro está no mato sem cachorro. Resta esperar os milagres ou as ações lá de cima.
Ninguém sabe é como vêm. Se em forma de perdão e misericórdia, ou em forma de reações "tisunâmicas" da justa Natureza, já tão cansada de açoites humanos.
Providencial e válida a sua fala, o seu amadurecido protesto. É isto aí. Não devemos deixar de estar sempre tocando nessa ferida.
Valeu, grande poeta e escritor Chico Miguel! Parabéns.
Forte abraço.
Antônio Carlos Fernandes da Silva

cristal de uma mulher disse...

Isto é até engraçado poeta,porque no Brasil tudo é comum até que se prove o contrario. Bom texto,bom saber.

Estou com uma poesia nova em meu blog e gostaria de sua opinião de escritor.

Um grande abraço

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