quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PRECONCEITO, O QUE É ISTO?






Francisco Miguel
de Moura*





Voltaire já dizia: “Se queres conversar comigo, define tuas palavras.”.


Todas as palavras subjetivas são conceituais, precisam ser explicadas. Mas também as concretas carecem de alguma explicação, mesmo que apenas a do dicionário. O homem é um animal que pensa, logo também preconceitual, ou preconceituoso. O pensamento se encadeia, palavra puxa palavra, conceito puxa conceito. Toda linguagem será sempre complexa. As substâncias existem, os conceitos são formulados.

O velho Aurélio registra, em primeiro lugar, o que conceito significa: “Representação de um objeto pelo pensamento, por meio de suas características gerais”. “Preconceito: conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos, idéias preconcebidas”.


Mas, para nós, quando se fala em preconceito, vem logo à baila o preconceito de cor (apenas o contra os negros). Acontece que há muitos outros preconceitos: de religião, de feiúra, de pobreza, de classe, de profissão, de raça, de família, de doenças, de idade (velhice), de virgindade etc. E por falar no último da série, é bom que lembremos como as mocinhas de colégio se manifestam: – “Fulana, você ainda é”? ¬E se a resposta é positiva, riem a valer. Significa que, hoje, a virgindade também é motivo de riso ou chacota.


Outrora havia uma cláusula nos concursos e nos testes de admissão de funcionários ou empregados, pessoal de modo geral, assim: “ter boa aparência”. A exigência caiu da lei, do papel, mas na prática e na surdina continua funcionando.

O que deve ser exigido é que o funcionário (principalmente, se público), tenha boa presença, receba bem, seja educado. A sociedade muda e repassa conceitos e preconceitos, de pessoa para pessoa. A língua portuguesa, devido aos maus costumes pelo preconceito, perdeu as palavras “senhor” e “senhora”, substituídas por “tio”, “tia”, “vô” e “vó”. Mas, cuidado, que, por trás dum tratamento familiar, esconde-se o preconceito contra a velhice, a idade, além de ser uma mentira. Família é família (ou devia ser) e os outros são os outros.

No campo social, quando uma comunidade não pensa, e age movida por preconceitos, pratica desumanidade. Humanidade é considerar todos iguais: é civilidade, é conhecer a natureza humana e aceitá-la nos seus “defeitos” e “qualidades”. Nossa linguagem é plural, multívoca, carrega consigo os preconceitos da sociedade. Mas é inacreditável que, quando a pessoa conhece suas possibilidades, seu limite, suas fraquezas, queira arremeter contra os limites do outro.

Quando “intelectuais petistas” de hoje, os que estão no poder, numa reunião formulam frases como “todos e todas”, terminam praticando uma desnecessária e feia, um preconceito linguístico: quando dizemos todos, valendo para homens e mulheres, estamos usando o gênero neutro. Quem estudou latim, de provém nossa língua, sabe muito bem disto.

Quando criam uma lei favorecendo os negros, discriminam os brancos. É difícil. Mas é assim que entendemos.

Piadas contra o português são uma discriminação, sim, senhor. Aliás, pelos textos do baixo humor podemos observar quanto mexem com profissionais (padres, médicos), lugares e estados (pacientes), entre outros. Falo do humor macarrônico, não do fino humor que tão bem os ingleses praticam, embasado no jogo da linguagem e nunca cruelmente nas condições sociais dos sujeitos.


No comportamento dos nossos estudantes, pouco conhecido ainda, recentemente formou-se o que considero um preconceito da maioria dos adolescentes do curso fundamental - idade que não está disposta aos padrões sociai - contra a minoria que estuda muito, os CDFs, sigla que por ser tão conhecida e usada dispensa tradução.

Minha conclusão é que todo preconceito desumaniza, fere o cidadão (ou a cidadã). Em suma, conceito é também julgamento. Se feito com conhecimento de causa, é comum e aceitável. Mas se são ignoradas as causas e os efeitos, a história e tudo mais que envolve a coisa julgada, é abominável. Eis o preconceito, que é também maldade. As sociedades mais civilizadas procuram a medida certa nos seus conceitos e, quando erram, imediatamente buscam reparação.

______________
*Francisco Miguel de Moura, Escritor brasileiro, Membro da IWA (Associação Internacional de Escritores e Artistas - EUA) e da Academia Piauiense de Letras


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

ESCOLHA


Do útero desperto
o caolho menino
fotografa o mundo
o tempo e a rua.

Tudo longe e perto.
Do nada que lhe sobra
soçobra uma réstia
de restos.

Só o rosto flutua.




O QUE É O PODER


se corre do pé ao peito
a raiz que não se apanha
vem gana

se o cuspe seca da boca
a cada palavra ou senha
empena
engana

se nas transfigurações
sente um peso nas entranhas
fere até o rei daqui
ou de Espanha

com brisa jamais se empenha
o poder, dourada aranha
arranha
a pele dura acoitada
perdida entre sonho e sanha


SÊ/MEN


O sêmen semeia
a semente da hora.

O sêmen não chora,
supira na senda,
Em livre cadeia,
na busca do novo.
O sêmen não morre:
- Vida que aflora,
Ou água, ou suor
que voa...Revigora
e some nas estrelas.

Sêmen, sumo, saber,
sopa e vitória.
Há séculos e séculos
faz história.

Salve o sêmen que vence
e aquele que evapora.

The. 11 de outubro de 2009

_________________________
*Poemas Inédios de Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina. E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A ATOMIZAÇÃO DA PERSONA





Francisco Miguel
de Moura*






Primeiro vamos ver o que entendemos por persona (ou pessoa): É o ser humano socializado, consciente, embora carregando no fundo de si o indivíduo. Indivíduo, de onde se deriva o individualismo, seria o homem fora da sociedade ou sem a devida sociabilidade. A criatura é por natureza e essência incomunicável, embora sinta o desejo da troca, da comunicação. O homem duplo. Daí que é muito difícil, senão impossível, uma sociedade de indivíduos. É necessário que os homens se associem a outros através de alguma coisa em comum, pois é aí onde eles se encontram. A natureza é excelência, mas os desejos também. Então vem a organização e o “não faças a outros aquilo que não gostaria que lhe fizessem”. Depois dessas pequenas explicações, estamos mais ou menos concordes em que o indivíduo não terá vinculo sustentável antes de transformar-se em persona.

Estamos falando filosoficamente, porém numa filosofia de base lingüística, o que vem a dar na prática. A sociedade é muito complexa porque composta de muitas cabeças, muitos indivíduos, e com a complexidade dos meios de comunicação (artificiais) mais difícil ficou. Não há sociedade sem o poder, mesmo que simbolicamente. E enquanto o poder ou o sistema lhe dita regras, não apenas dita como impõe, lhe dá o correspondente sedativo para que você não perceba. É a sociedade moderna, o mundo globalizado, neoliberal de mentirinha. Enquanto você é despersonalizado, vai substituindo seu poder de decisão por prazeres fúteis e enganosos: velocidade, fuga do tempo e de si. E com isto o indivíduo sofre por dois lados: por um, vê, perdidos, os seus traços pessoais de desejos e criatividade; por outro, o poder lhe tira seu individualismo, a fim de que você se entregue à multidão, à massa. Uma espécie de atomização. Foi nisto que se tornou o homem ocidental: atomizado, dividido, despersonalizado. Por quê? No cipoal de coisas e solicitações no fundo iguais, mas com cara de diferenças, o homem nada sabe e volta-se para a religião, buscando o que há de ilusório: um paraíso na terra ou no outro mundo (depois da morte). Vive essa dualidade artificial: Deus.


Pela pertinência do assunto, cito aqui Leonardo Boff, num artigo sobre a crise da cultura do Ocidente, o “zen” e o “zen-budismo”, com suas sábias observações, num diálogo imaginado por ele, mas possível na realidade:

– “Que é o “zen”? pergunta um discípulo a seu mestre.

E o mestre respondeu:

– “São as coisas quotidianas; quando tiver fome, coma; quando tiver sono, durma”.

O discípulo, então, lhe disse que era o que fazia todos os dias.

- “Sim, respondeu o mestre. Mas”...

– “Mas o quê, mestre”?

– “Os seres humanos normais, neste mundo ocidental, quando comem pensam noutra coisa; e quando dormem, o fazem cheios de preocupação e têm seus pesadelos”.


Bastam estes exemplos para sentir-se que, aqui, o indivíduo se desintegra da natureza, passa a viver uma vida artificial. Torna-se um átomo, uma partícula e não uma parte. No mundo em que vive o homem está sempre querendo impor uma lógica fora de si, fora da natureza. Leonardo Boff explica que o “zenbudismo” não é uma religião, é uma atitude do homem perante si e a natureza.

Conclusão: Lógica ocidental: quanto mais longe da natureza, mais desintegrado e melhor. Lógica oriental: a natureza é mãe, premia e castiga, dependendo de sua posição nela e diante dela. A persona do oriente não desaparece, fica mais concorde com o indivíduo. É como se o corpo e o espírito se unissem para chegar a uma vida mais humana, pacífica, civilizada, plena. O certo é que a cultura ocidental, atomizada e globalizada, só pode ter seus dias contados. Pois pretende, depois de acabar com o indivíduo, atomizar a pessoa e liquidar com as condições de vida natural no planeta Terra.


Crédito da imagem:
http://portugaldospequeninos.blogspot.com

___________
Francisco Miguel de Moura - Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina,

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

SOBRE PROSOPAGNOSIA


Entrevista:
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA
Entrevistadoras: Alunas do Curso de Psicologia - Unicastelo - Centro de Formação de Psicólogos.

Questionário:


1- Discorra um pouco sobre o período de sua gestação, como se deu o parto, se teve algum tipo de intercorrência, se ficou internado.

É difícil dizer muita coisa sobre minha gestação e o parto de minha mãe, porque as informações que chegaram a mim foram muito poucas e algumas naturalmente já foram esquecidas. Mas, para a pesquisa em questão, creio valioso informar que sou o primeiro filho do casal. Nasci no lugar “Curral Novo” do hoje município de Francisco Santos (região de Picos – Piauí), lugar muito seco, onde se bebia água de cacimba cavada no leito do rio seco. Durante a gravidez de minha mãe, que se alimentava de massa de macambira (não sei o nome científico) – uma planta espinhenta, que serve de comida para o gado, nas épocas secas. Obviamente meu pai se alimentava da mesma massa. Havia carne, mas cereais não. Por isto a apelação a uma massa muito amargosa, para comer com a carne de porco, galinha ou mesmo de vaca. Toda a literatura sabe da seca de 1932 e suas conseqüências: fui gerado nela. Nasci sem médico, fui assistido por uma parteira da família, acredito que tenha sido de um parto normal. Depois, sim, fui uma criança, magra, doentia, talvez por falta de leite – somente conheci o materno durante seis meses, pois minha mãe logo engravidou e a fonte secou.

2- Discorra sobre o seu desenvolvimento neuropsicomotor, (fala, marcha, etc).

Como diz o ditado popular aqui “nasci de tempo e mamei de jeito”. Tudo o que sei é que minha mãe notou que eu tinha pé meio torto e fez promessas com São Francisco, culminando na volta ao normal. De forma que caminhei no tempo certo e falei também no tempo certo. Nunca tive doença de olho. As doenças que me atacam eram comuns: gripe, disenteria, etc.

3- Durante a sua Infância e Adolescência, você teve algum tipo de dificuldade devido à prosopagnosia? (por favor, considere aspectos, emocionais, sociais, convívio familiar, desenvolvimento escolar e infantil, entre outros). Em caso afirmativo, como estas foram resolvidas ou enfrentadas?

Toda dificuldade em minha infância e adolescência é que eu era considerado um menino feio – e sou feio mesmo - mas naturalmente que, naquele tempo, eu não aceitava isto. E uma das formas que encontrava para evitar o problema “dizerem que eu era feio”, constantemente, principalmente uma tia rica, de nome Tia Rosa, era esquecê-la, esquecer tudo a respeito disto. Daí, penso que talvez isto tenha me causado trauma. Porém, já na adolescência, ouvia minha mãe queixar-se de que não lembrava das feições das pessoas e ficava meio atarantada e triste. Ela dizia assim: “Eu não tenho bom conhecimento”. Lembrava do nome, da família e de outros elementos, menos das feições (o rosto). Minha mãe, por outro lado, era órfã de pai e mãe e teve muitos traumas na sua infância. Daí porque penso que minha mãe tinha essa dificuldade mental que há pouco foi batizada de prosopagnosia. Não sei se outras pessoas de sua família tinham isto.

4- De uma forma geral como ocorreram suas relações familiares e afetivas?

De modo geral, posso dizer que foram boas. Meu pai viajava sempre, mas minha mãe nos dava toda a assistência possível. Meus tios e primos também me queriam muito. Do lado de meu pai me chamavam Chico de Miguel; do lado minha mãe, chamavam-me de Chico de Zefa. Carinhosamente, em casa, eu era Chiquinho. A exceção era tia Rosa, que me critica tanto pela feiúra como porque eu comia muito: era uma criança faminta e, sendo ela mais abastada, minha mãe freqüentava muito sua casa, onde se almoçava ou jantava e às vezes dormia.

5- Conte como e quando você descobriu que era portador de prosopagnosia? Qual foi sua reação? E se mudou algo na sua vida?

Minha vida não mudou muito, pois a consciência de tal problema veio durante a minha vida de bancário do Banco do Brasil, com cerca de 40 anos. Mas sempre trabalhei em setores que isto não era uma constante, e quando necessitava pedia ajuda a um colega. Que eu sou portador de prosopagnosia, vim a descobrir depois que a revista “Veja” lançou uma nota, depois uma reportagem sobre o assunto – cotejando os sintomas. Depois o “Jornal do Brasil” e a revista “Época” também escreveram sobre o assunto. A esta última dei uma entrevista, mas a repórter deturpou um pouco minhas palavras, aumentando que eu não conhecia nem meus próprios pais. Que eu tinha a deficiência de não gravar fisionomias, rostos humanos, eu sabia e declarei. Que era uma doença e se tinha tratamento, eu nunca soube. Mesmo porque a revista “Veja” falava apenas em deficiência localizada da memória, que não chegava a ser uma doença. E que cerca de 2% da população do mundo sofriam do problema e sequer sabiam. Eu não sabia se tinha nome, nem o que haviam descoberto a respeito. Tinha vergonha quando encontrava uma pessoa de minhas relações, depois de algum tempo que a tivesse visto, e não lembrava nada dela, olhando-a no rosto. Depois, vim a perceber que gravava muito bem a voz, a fala, e me tranquilizei porque isto diminuía o problema em 50%, segundo minha própria avaliação.

6- A prosopagnosia interferiu no seu convívio social? (considere aspectos interativos, emocionais, dificuldades, estratégias, etc.). Se positivo, comente tais dificuldades.

Claro, mas depois eu pensava comigo mesmo: “minha mãe era assim?...” Então, viverei normalmente, superarei essa dificuldade (e até hoje procuro superá-la). Nos lançamentos de meus livros – que já foram trinta (entre poesias, contos, crônicas, romances e crítica literária), no princípio ficava encabulado, mas não tinha o que fazer senão perguntar: “Como é seu nome completo?” Noutros ocasiões fazia perguntas deste tipo: “Onde foi que nos vimos à última vez?” Ou “já sei, você e de tal lugar, assim e assim.” Não sendo a pessoa que eu imaginava ser, ela responderia logo “não” e ia acrescentando dicas que me levavam finalmente a descobrir de quem se tratava. Hoje, eu já digo normalmente que tenho esta deficiência, peço desculpas, escuto melhor sua voz, lembro da roupa, dos gestos, de um sinal particular etc. Mas, um dia destes, encontrei uma mulher que vira a última vez há cerca de 20 anos, digamos, e era moça, solteira. Agora me aparecia casada, com filha e neto, em lugar inesperado e – por incrível, até para ela, que sabia da minha queixa de que não conhecia as pessoas depois de um longo tempo assim - conheci-a de imediato, e chamei-a pelo seu próprio nome. Ela me disse que eu não estava com falta de memória, era conversa fiada. Atribuo que casos positivos, assim, vêm acontecendo devido a minha persistência em tentar lembrar o rosto das pessoas, inclusive, no cinema, na tevê, nas novelas. Foi aí que passei a experimentar-me mais ainda. Uma coisa, porém, não é possível ao prosopagnósico como eu (não sei todos): – fechando os meus olhos não consigo visualizar nenhum rosto, por mais que a pessoa seja minha conhecida de muito e eu a veja constantemente.

7- Na sua família tem outros casos de prosopagnosia?

Não vou apontá-los, identifica-los, além de minha mãe, porque faleceu já há muito tempo. Sei que dos meus 5 filhos, dois se queixam do mesmo problema. Isto, para mim, já prova que há a prosopagnosia hereditária, como dizem as revistas e livros que já li e há a que é adquirida, principalmente por traumas: desastres de carro, avião e outros.

8- Em sua opinião, qual seria a contribuição da psicologia, aos portadores de prosopagnosia?

A contribuição da psicologia, aos portadores da “prosopo” seria grande. Mas é preciso, em primeiro lugar, a confissão e conhecimento da deficiência por parte do portador; segundo, querer melhorar, pois creio que se pode, com força de vontade, diminuí-la e/ou encontrar caminhos para conviver bem com ela, socialmente. Eu convivo. No meu entendimento, não é tão difícil. È praticamente nula a restrição de acesso às profissões. No meu julgamento, o prosopagnósico somente não exercerá bem a de policial, o que é óbvio. Recentemente, uma jornalista que me entrevistava para o canal 5, sobre o assunto, confessou-me ser também portadora de prosopagnose. Disse-me que sentia vergonha de ter que recorrer à ajuda de um colega ou de outra pessoa para apontar-lhe, entre tantas pessoas, o político ou a autoridade que a empresa escalou para uma entrevista.

9- O que em sua opinião poderia ser feito em termos de diagnóstico, tratamento e reabilitação, para melhoria da qualidade de vida do prosopagnósico?

Primeiro que tudo seria a universalização do conhecimento da deficiência, sem medo nem susto, principalmente os esclarecimentos médicos de psicólogos, psicanalistas, etc. Por outro lado, a ciência devia preocupar-se mais com essa deficiência, examinar e explicar se ela tem algo a ver com o mal de Alzheimer, a doença temível dos velhos e familiares.

______________
Entrevista concedida por Francisco Miguel de Moura, brasileiro, casado, mora em Teresina, Piauí, Brasil. Profissão: Funcionário do Branco do Brasil aposentado e escritor na ativa, com cerca de 30 livros publicados: poesia, contos, cônicas, crítica, romances e história literária.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“RÉQUIEM PARA MÁRIO” - Romance


Francisco Miguel
de Moura*




Rejane Machado - foto

Trata-se do mais novo romance da escritora Rejane Machado, escrito de um fôlego, em poucos dias do mês de janeiro deste ano. Se foi inspiração, premonição, mensagem recebida do além, psicografia (como dizem os espíritas) – a Autora não sabe. Ela estreou numa coletânea de contos resultados de concurso literário promovido por jornal carioca “Diário de Notícias”, em 1969. Depois publicou “A Dimensão das Pedras”, 1972, e o romance “Informação a um Desconhecido”, 2000. Porém, daí em diante não mais publicou ficção, salvo algumas historinhas para crianças. Isto demonstra que, no setor editorial, o Brasil está há milênios de atraso em relação ao civilizado. E ainda há quem pergunte por que somos tão subdesenvolvidos.

Com “Réquiem para Mário”, Rejane Machado dá continuidade ao seu bem tecido modo de escrever com amor e humor, numa linguagem coloquial segura e severa. Não poderia ser de outra forma, em se tratando de entender a vida de um escritor em família (tratado com carinho pela Tia Eunice,) e a literária com seu rol de fãs (masculinos e femininos) e um editor dedicado. De fácil leitura, tecendo personagens que ficarão para a história, literária, tais como André, Florentina, Dimo, Leni, Regina Manhães, Raquel, Pe. Ramos, entre outros menores. Assim é que, num curto e certo tempo, quero dizer breve, ela traça a trajetória do escritor Mário Teles, através do ponto de vista da mulher, Doralice, Dora familiarmente. A leitura de “Mário”, para abreviar, não dá nenhuma preguiça ao leitor, comecei a lê-lo e não o larguei até o fim. Justo porque ela o escreveu num estilo tão simples, fluente e, ao mesmo tempo, substancioso e profundo, que a vontade é saber até onde chegará a protagonista Dora, Doralice, mulher de Mário, com seu ciúme intempestivo.

Não vale a pena contar a história de um romance, o leitor sabe disso. Primeiro, porque aquilo que o comentarista diz não vai ser nunca o que ele, leitor comum, encontrará. “Quem conta um conto aumenta um ponto”. Aumenta muito mais: transforma, muda, cria. Cada leitura é singular. A história na ficção, como disse E.M. Forster, é a coisa mais primitiva, “uma narrativa de acontecimentos dispostos em sua seqüência no tempo”, coisa que a Autora tenta desconhecer por princípio e sapiência. História tem, pois tudo são histórias, mas contam mais o enredo e o estilo – e eu acrescentaria o clima, aspecto que Forster não anotou. O enredo é a intensidade da história, o clima é o ambiente psicossocial do protagonista e de personagens principais. Em “Réquiem para Mário” toda a ação principal se passa entre o enterro do escritor e a visita de Dora à sepultura dele, depois de algum tempo, motivada por um desejo secreto de sepultá-lo de uma vez por todas, daquela falta e de seus pensamentos a respeito da suposta amante de Mário, que teria motivado o livro inédito do marido: Antígona (que ela pronunciava Antigna). Por isto é sombrio, não obstante o humor do estilo de Rejane. Claro, é um romance bastante elucidativo dos viventes da família urbana do Rio, com algumas ligações em Minas. E educativo pelo que subliminarmente há de ética na maioria dos seus viventes, mas também de suas falhas humanas, defeitos de caráter e a bondade e paciência de outros.

Uma das coisas que a crítica observa no bom escritor é o modo dos diálogos. E nisto Rejane Machado é mestra. Seus diálogos são tão naturais como numa conversa. Aliás, ela é uma grande conversadora em cartas. Uma das melhores epistológrafas (arre (!) que nome) que conheço. A técnica de colocar a palavra na boca do o personagem que quer e na hora que deseja ela tem como ninguém.

Rejane Machado e seus diálogos internos, diálogos externos, narrativa e descrição num verdadeiro tecido estilístico, com certeza chamará a atenção dos estudiosos do romance deste milênio. Modernidade e experimentação, beleza e realismo, alma e coração, encontram-se irmanados nas suas páginas. Rejane, que mais obras venham para fazer a diferença na ficção brasileira de hoje.
_______________
Francisco Miguel de Moura, Escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras. Email: franciscomigueldemoura@superig.com.br
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...