quarta-feira, 28 de junho de 2017

PRECISAMOS CONVERSAR PARA NÃO ADOECER

Francisco Miguel de Moura
         (Autor)

“Nenhum homem é um ilha”...

Começo citando uma frase famosa, que já nem se precisaria declinar o nome do autor. Se o nosso povo fosse leitor dos clássicos!... Mas, foi através do filósofo francês Jacques Mauritain(1882-1973) que ela nos chegou. É possível que seja originária de outro filosofo, Thomas Merton, por exemplo. Como o brasileiro não lê e quando vai ler escolhe o pior, nem perco o tempo citando os grandes "bestsellers" que existem expostos em todas as poucas livrarias das cidades grandes. Livros se tornaram filmes. Às vezes a pessoa diz que leu livro tal tendo assistido apenas ao filme, o que não é a mesma coisa. A arte das letras, a literatura, é uma arte da palavra escrita, ou melhor do jogo da palavra com seus infinitos sentidos, enquanto o cinema e as demais artes cinéticas exploram as imagens físicas, pouco do psicológico humano. Precisamos conversar. Mas conversar com quem? Conversar em casa, na família; conversar na rua com as pessoas que temos algumas relações, mesmo que apenas de troca, mercado, compra e venda; e precisamos conversar com os amigos.

Mas onde estão os amigos? Na minha própria percepção de psicólogo prático desta vida, penso que os homens são criaturas bem diferentes uns dos outros, umas das outras, se queremos enfatizar o sexo. As mulheres são mais “dadas”, como se dizia antigamente, são mais amigueiras do que os homens. Os homens só se juntam, na bebida, no futebol e falando das mesmas profissões que tenham – que todos conhecemos por colegas. Homens e mulheres normalmente não são amigos e amigas quando são jovens ainda, tudo corre mais para o lado do sexo, nem sempre fazem uma amizade desinteressada.
O homem é uma espécie esquisita. Não há uma pessoa igual, homem, mulher, menino,menina, adolescente, etc. Todos têm seus gostos, seus gestos, suas maneiras, suas qualidade e defeitos. Encontrarem-se uns com outros somente através de um objeto fora deles: - a festa por exemplo, a dança, a balada, o carnaval, e hoje a extensão do grande público para assistirem um ou outro artista (cantor), nas noitadas, quando rolam bebida, droga, cigarro e sexo, no meio de toda essa confusão de saltos e danças individuais. Nos intervalos, conversas há de todo tipo. Está visto que não é um lugar muito apropriado para arranjar-se amizades duradouras.

Mas precisamos conversar, se não falamos, cria-se como que um vazio que será preenchido por pensamentos de todos os tipos. Quem descreve bem o que são os nossos pensamentos é o médico, escritor e psicólogo Augusto Cury. Fica claro, nas suas lições, que não há paradas psicológicas em nosso cérebro, pois está trabalhando sempre. E se não temos amigos, se não vamos a festas, se não nos encontramos com pessoas, se não convivemos diariamente com os “semelhantes”, as doenças aparecem, normalmente o chamado “mal do século”, a depressão. E que mal terrível! Faz com que a pessoa viva sem vontade, sofra sem ninguém saber, um inferno. A solidão leva, algumas vezes ao suicídio, por falta do gosto de sentir, do gosto de viver.
Vivemos e precisamos continuar vivendo, mas ter uma vida agradável é o que de melhor podemos alcançar. Assim, dentro de todo esse pandemônio de mundo é que – por uma força natural e pela força psicológica – o amor, o sexo, o casamento aparecem em nossas vidas. E é bom, pois está provado que os solteiros vivem menos, principalmente se do sexo masculino. Falo do casamento homem x mulher, porque dos demais nada conheço e acho que muito pouca gente sabe como será. Melhor, pior?
Precisamos conversar, e muito. E chegamos num ponto que explica, em parte, porque as mulheres vivem mais do que os homens. As mulheres falam mais. Precisam conversar. O homem também, mas pela sua própria natureza nem sempre está disposto a fazê-lo como devia.

Um pequeno esclarecimento: Esse tal de relacionamento “online”, através das redes de comunicação por internet e/ou celular, não é um relacionamento inteiramente humano. É feito por gente, mas o meio dificulta muito a comparação com o relacionamento vis-a-vis. Não satisfaz. Ter milhares de amigos pelo “face-book” ou por outras redes semelhantes, até mesmo por e-mail, não satisfazem em nada a necessidade de comunicação, a necessidade de falar e ser ouvido e, respectivamente, ser ouvido e falar. Essa troca, sim, é rica, riquíssima. Só que está cada vez mais difícil de acontecer entre as pessoas devido a chamada “vida moderna”. Então, hoje, os amigos de verdade são poucos, poucos mesmo. Mas os amigos são praticamente nossa riqueza. Amigo vale. Portanto, quem tiver amigo/os trate-o/os bem deles, pois uma amizade quebrada não volta e quando volta já é sem a mesma confiança de antes. Amigo é sempre uma pessoa que nos ouve, nos estima, na presença e na ausência, não deixando que ninguém fale mal dele. O amigo é sempre capaz de avalizar a ação do outro. Não é necessário que se tenha a mesma opinião. Às vezes temos pensamentos e opiniões muito diferentes. Os amigos são para ouvir os amigos em dificuldade, quando há problemas de qualquer ordem, de qualquer natureza. Os amigos sempre são amigos da família, formam uma comunidade. Não falo naqueles amigos de bar, falo nos amigos que conhecemos ou fomos apresentados em lugar que frequentamos como clubes ou igrejas, escola ou oficina de trabalho.

Lembro o poeta Francisco Hardi Filho. Que grande amigo eu perdi com o seu falecimento! Assim aconteceu também com o romancista O.G.Rêgo de Carvalho, outro que faleceu recentemente. Cito os dois casos por serem bem específicos. Do Hardi Filho, tomei conhecimento através da poesia e da apresentação de Tarciso Prado, no Banco do Brasil, sabendo que era funcionário público federal (IBAMA). Orlando Geraldo Rego de Carvalho conheci no mesmo Banco do Brasil, eu e ele empregados daquela outrora grande casa bancária. Lembro a frase do Hardi Filho a meu respeito: - “Somos tão diferentes em tudo e no entanto somos grandes amigos”. E essa frase pode ser aplicada aos dois, sem dúvida nenhuma. No entanto, fomos amigos na literatura e amigos na vida. Certamente, lá no céu nos encontraremos para as nossas boas conversas, amigáveis e cheias de amabilidades, outrora discordantes como se para apimentar a amizade, que era cimentada pela confiança.

Por minha parte, confesso: O. G. Rego de Carvalho, eu já o conhecia através da leitura de seu livro “Ulisses entre o amor e a morte”. Quanto a Hardi Filho vim conhecer sua poesia posteriormente, mas não muito posteriormente, através da leitura do livro “Cinzas e Orvalhos”. Que belas amizades!
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Francisco Miguel de Moura – escritor brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras

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